
OCULTO MAR PROFUNDO
Sob o tranquilo mar
há vales e ribanceiras de mistério
onde o tempo parece deter-se,
há uma população que se move
sempre à defesa
com os olhos abertos…
São como almas penadas
de um Inferno esquecido,
onde também há feras
movidas pelas fomes selvagens…
Há espécies em guerra
implacável e constante,
que matam por matar como na terra,
sem respeitar ninguém…
Monstros obstinados e tenazes
disfarçados de inocentes plantas
que enganam e seduzem o viandante,
— talvez turistas do país da água —
que ignoram o poder dos tentáculos…
E em eterno contraste,
há uma profusão de seres débeis
de uma beleza exótica,
que procuram os remansos aprazíveis
onde chega mais luz da abóbada…
Mas há um mar, um mar, um mar oculto,
um mar fundo escuro,
onde também há seres terríficos,
de olhos acesos, luminosos,
que vivem amparados por ínfimos moluscos,
fosforescentes, minúsculos,
que iluminam esses estranho mundo
para onde Deus desterrou os mais impúdicos ,
os mais vis, esquecidos por Dante,
os pútridos, torpes, negativos,
que por negarem a luz,
hão-de morar para sempre desterrados
nesse mar escuro,
nesse oculto mar…
Carlos Casassus, in "O Mar na Poesia da América Latina" assírio & alvim, 1999
trad. José Agostinho Baptista

ANTÓNIO PEDRO
Agora te descobrimos o truque:
tinhas as mãos como tambores inchadas
dos coelhos entre pele e metacarpo
donde os expelias fora por cotovelos
ficava-te na cara o riso da criança
frente ao mágico/circo
próprio, do tapete à lata do lixo,
à barrica outrora de peixe.
Como afinal tão mirradas?
— pois tudo continha além de roedores
(cada qual multiplicado); argamassavas
de génese argamassa e argumento
belas e malas artes
no acto gemelar de sentir
sobre nada o efeito de florir
ou degenerar, corroer, secar
até ao baixo da querida blasfémia
«a torpitude!»
Entre pele e metacarpo, borboletas
e coisas de subir, de canário a águia,
aviões, demónios celestes,
desamor dos Macbeth, não falando
da ratazana que te sobrevoa
em cada ejacular por poesia
de tua boca
doando chagas a indigentes,
poeira às serranias e fatídicas féeries,
à cabeleira de génios saciados
cada hora em nuvens da Serra d'Arga
onde sorvem os líquidos de sua dieta.
E também o alado deus de manobra
ex-máquina no espaço total
o qual reproduziste
de inconcreta maqueta em cada palco, ponto a ponto
correspondido o corpo do deus manobrante.
E tudo, por pânico e mãos, no inchaço
entre pele e metacarpo.
Carlos Wallenstein, in "Corpo Conflito" moraes, 1983
foto. Fernando Lemos [ A fala do gesto ] 1948
eu espero…

"Eu espero…" bruaá, 2008
texto de Davide Cali
ilustração de Serge Bloch
www.bruaa.pt
www.bruaa-editora.blogspot.com

ESCRITO NUM LIVRO ABANDONADO EM VIAGEM
Venho dos lados de Beja.
Vou para o meio de Lisboa.
Não trago nada e não acharei nada.
Tenho o cansaço antecipado do que não acharei,
E a saudade que sinto não é nem no passado nem no futuro.
Deixo escrita neste livro a imagem do meu desígnio morto:
Fui, como ervas, e não me arrancaram.
Álvaro de Campos

A CHUVA
Toda a noite o som tinha
voltado de novo,
e de novo cai
esta chuva persistente, mansa.
O que eu sou para mim
tem de ser recordado
e insisto
tanto? É que
nunca o repouso,
mesmo a dureza,
de chuva caindo
terá para mim
algo mais do que isto,
algo não tão insistente —
terei de ser encerrado nesta
inquietação final?
Amor, se me amas,
deita-te a meu lado.
Sê para mim, como chuva,
a fuga
ao cansaço, à fatuidade, à semi-
luxúria da indiferença intencional.
Molha-te
com uma felicidade decente.
Robert Creeley, in "Antologia da Novíssima Poesia Norte Americana" futura, 1973
trad. Manuel Seabra
foto. Elsa Dorfman

O POETA DOIDO, O VITRAL E A SANTA MORTA
Era uma vez um Poeta
Que vivia num Castelo,
Num Castelo abandonado,
Povoado só de medos...
- Um Castelo com portões que nunca abriam,
E outros que abriam sem ninguém os ir abrir,
E onde os ventos dominavam,
E donde os corvos saíam,
Para almoços
Que faziam
De mendigos que caíam lá nos fossos...
Havia no Castelo, ao fim dum corredor,
(Um corredor grande, grande,
Frio, frio,
Como abóbadas sonoras como poços)
Um vitral.
Era um vitral singular...
É é bem verdade que ninguém sabia
O que ele ali fazia,
Ao fim daquele corredor,
Naquela parede ao fundo,
Aquele vitral baço e quase já sem cor.
Nem o Poeta o sabia...
Nem o Poeta o sabia,
Muito embora noite e dia
Meditasse
No vitral quase sem cor
Que estava pr'ali na sombra
Do fundo do corredor
- Com ar de quem aguardasse...
Quando, a meio da noite, o Poeta acordava,
Levantava-se e, até dia, delirava.
Era a hora do Medo...
E passeava, delirando, pelos longos corredores,
Descia as escadarias,
Corria as salas.
Sob os seus pés, as sombras deslizavam.
Pelos recantos, os fantasmas encolhiam-se.
E, devagar, bem devagar, no escuro,
Portões abriam-se, e fechavam-se, e gritavam sem rumor.
O Poeta só parava
Diante do tal vitral,
Ao fim do tal corredor...
E sonhava.
Sonhava que, para lá
Daqueles doirados velhos,
Daqueles roxos mordidos,
Que morriam
Sobre o fundo espesso e negro,
Havia...
Mas que haveria?
Qualquer coisa bem ao perto
Que o chamava de tão longe...!
E, mudo, ali ficava até ser dia,
Enquanto os ventos, lá fora,
Fingiam mortos a rir...
Enquanto as sombras passavam...
Enquanto os portões rodavam,
Sem ninguém os ir abrir!
Mas, um dia,
- Eis, ao menos, o que dizem -
O Poeta endoideceu.
E, fosse Deus que o chamasse
Ou o Diabo que lhe deu,
(Não sei...)
Sei que uma noite, a horas desconformes,
O Doido alevantou-se nu e lívido,
Com os cabelos soltos e revoltos,
A boca imóvel como as das estátuas,
Os olhos fixos, sonâmbulos, enormes...
Pegou do archote,
Desceu, escada a escada, a muda escadaria,
Seguiu pelo corredor.
Em derredor,
As sombras doidas esvoaçavam contra os muros.
Lá muito longe, o vento era um gemido que morria...
Ao fim do tal corredor,
Havia
O tal vitral.
E, de golpe,
Como dum voo em linha recta,
O Poeta-Doido ergueu-se contra ele,
Direito como uma seta...
A cabeça ficou dentro,
O corpo ficou de fora...
E os verdes, os lilases, os vermelhos da vidraça
Laivaram-se de sangue que manava,
E que fazia,
Nas lájeas do corredor,
Um rio que não secava...
Mas, no instante em que morria,
Abrindo os olhos,
- Olhos de tentação divina e demoníaca -
O Poeta pôde ver.
... E viu:
Viu que, por trás do vitral baço, havia
Um nicho feito no muro.
Dentro, iluminando o escuro,
De pé sobre tesoiros e tesoiros,
Estava
Certo cadáver duma Santa
Que fora embalsamada há muitos séculos...
E a Santa, que o esperava,
Despertou,
E, sorrindo-lhe e curvando-se, beijou
A cabeça degolada.
José Régio, in "Poemas de Deus e do Diabo" quasi, 2002
uma boa notícia...

Pedro Páramo no cinema. A obra de Juan Rulfo (México 1917/1986) foi recentemente adaptada ao grande ecrã, a realização e a adaptação da obra ficaram ao cuidado de Mateo Gil, argumentista dos filmes de Alejandro Amenábar (Tesis 1996, Abre los ojos 1997, Mar adentro 2004, Agora 2009), o papel de Pedro Páramo será interpretado por Gael García Bernal.
A estreia está prevista para 2009.
Subscrever:
Comentários (Atom)








