CUMPRIR OU NÃO UMA PROMESSA
tragédia em poucas linhas escrita por um novato, i.e., por mim

Era uma vez uma donzela. Mas onde é que eu tenho a cabeça?
Chegou o tempo em que urge pensar. Esfrego a testa e medito.
Ela tinha qualquer coisa que não podia confiar a ninguém, assim uma espécie de mácula, ainda que eu não vá ao ponto de sugerir uma ignomínia.
Era uma vez um rapaz muito dotado que se matou com um tiro por qualquer coisa muito grave.
Vou agora requisitar os serviços de uma massagista.
Acerca da donzelazinha teríamos que ela amava um cavalheiro que retribuía o seu amor.
Tendo ela agora de esconder do mundo, i.e., da sociedade que representa o mundo, qualquer coisa bastante duvidosa, que possivelmente seria a desgraça dele ou, mais modestamente, lhe traria alguns dissabores, o que fazia ela?
Ela disse-lhe: «Nunca poderás casar comigo.» «Pois bem.», foi a resposta dele, «então não me caso contigo, amor da minha vida. Mas se não posso casar contigo, então não me casarei nunca com ninguém.»
Ao que ele a beijou intempestivamente, ou seja, com um ímpeto roçado a licenciosidade, que ela lhe perdoou, por sua vez, por sua vez acrescentando: «Amar-te-ei eternamente, meu querido, i.e., enquanto respirar, i.e., até que o bom Deus me chame para o seu refinadamente decorado e impecavelmente mobilado reino.»
Também ela o beijou, ao que o seu narizinho se achatou um pouco contra o rosto bem-amado.
Despediram-se fogosamente e cada um seguiu o seu caminho, sempre valorosamente cientes da promessa de se amarem para sempre mas nunca conjugalmente.
Mas podiam eles fazer uma promessa assim tão insolente? Estariam eles à altura de um problema de espécie tão elevada, de uma missão tão dificultosa e cheia de sacrifícios?
O que tem a boa natureza a dizer?
A mãe natureza?
Os anos passaram a voar, i.e., o tempo avançou, passo a passo, lento como um martírio.
A donzela manteve a sua palavra, como se esperaria, mas não o objecto do seu desejo, com quem ela não podia casar, pois um negro poder, uma espécie de fardo do passado, pesava sobre o seu pescoço branco como a neve.
Quase que não consigo conter o riso, mas pego no lenço de assoar e tapo a boca e os lábios inflados com os quais comi agora mesmo uma banana.
Ah, donzela com asas de virtude, como mereces o meu louvor, mas para aquele que faltou à sua palavra tenho apenas isto a dizer: «Patife sem vergonha!»
O caso com ele foi o seguinte: cansado da sua promessa, sondou as boas graças de uma qualquer mulher vinda não se sabe donde.
Ela revelou ser linda de morrer.
E ele firmou com ela um pacto vitalício, uma espécie de aliança de defesa e contra-ataque, estouvado homem, e irradiando alegria subiu com ela ao altar, enquanto as crianças lhe atiravam aos pés coroas de flores que o próprio prazer de viver parecia ter entrelaçado, e ao mesmo tempo a sempre fiel, informada do acontecimento e rodeada pelo estridor do órgão que acompanhava os outros dois à felicidade futura, fenecia de tristeza no seu quartinho, e com isto fica dito que ela mostrou uma atitude muito valorosa, a saber, despediu-se da vida tecendo um baraço da sua afeição ou asfixiando na palavra dada.
A constante e honrada mulher foi levada de casa num caixão.

Robert Walser, in "Histórias de Amor" relógio d'água, 2008
trad. Isabel Castro Silva

5 comentários:

rui g disse...

Não sabia que já tinha sido publicada nova tradução de um livro do Robert Walser. Fiquei absolutamente fascinado por «Jakob Von Gunten» e por «O Ajudante». Depois de ler aqui um pequeno aperitivo, obviamente, vou comprar.

miguel. disse...

caro rui g, nesse caso recomendo-lhe também "a rosa" o "salteador" e "o passeio e outras histórias", a obra de Walser em português já é bastante rica, a ver vamos se a proxima tradução seram as célebres "microgramas", se fizer uma busca no café encontrará um pequeno texto...

;)

rui g disse...

Ok. Obrigado. Já fiz o link do seu blog, agora é só ir pesquisando.

mar disse...

olha
que bom!

também não sabia desta nova.

gracias miguel

:)

fallorca disse...

Miguel, afinal sempre há mais por aí ;)