PERGUNTAS À HORA DO CHÁ

Este senhor pálido parece
uma figura de um museu de cera;
olha através das cortinas rasgadas:
que vale mais, - o ouro ou a beleza?
Vale mais o regato que flúi
ou a grama imóvel em sua margem?
Ao longe ouve-se muito bem um sino
que abre mais uma ferida, ou a flecha:
é mais real a água da nascente
ou essa jovem que se fita nela?
Não se sabe, a gente passa o tempo
a construir castelos sobre a areia:
- é superior o copo transparente
à mão do homem que o cria?
Respira-se uma atmosfera fatigada
de cinza, de fumo, de tristeza:
o que uma vez se viu já não se volta
a ver igual, dizem as folhas secas.
Hora do chá, torradas, margarina.
Tudo envolto numa espécie de névoa.


Nicanor Parra, in “Rosa do Mundo” assírio & alvim, 2001
trad. José Bento

2 comentários:

fallorca disse...

Ora cá temos nós o mano da Violeta. Tá visto que a sua "digressão" pela poesia sul-americana decorreu sem sobressaltos, nem Pablos ;)

lebredoarrozal disse...

parece a chavela:P