NOCTURNO

Neste anoitecer Vénus aparece sozinha
E no caminho de casa as penas são como seda
Como a túnica de um múltiplo fantasma
Como asas despedaçadas num céu de leite.
Em breve as gaivotas transformar-se-ão na pedra
Que procurei e perdi além, na senda dos
Bosques onde eu e a minha ignorância
Caminhámos juntos sobre as mãos e os joelhos
E juntos continuamos a caminhar sob a palidez
De um belo anoitecer muito amado,
Mas este anoitecer é a minha prisão
E os polícias brilham entre as árvores.


Malcolm Lowry, in "As cantinas e outros poemas do álcool e do mar" assírio & alvim, 2008

tradução de José Agostinho Baptista


Malcolm Lowry (1909-1957) foi um poeta inglês, deambulou pelo mundo e pelos bares (o título Cantinas é, aliás, inspirado nos bares mexicanos). Viveu uma vida curta e intensa. Tinha uma escrita crua, violenta, mas também bela e visual. Enquanto vivo publicou apenas dois dos seus romances, um deles o livro que marcaria toda a sua obra, "Debaixo do vulcão".

2 comentários:

manuel disse...

"… what beauty can compare to that of a cantina in the early morning ... All mystery, all hope, all disappointment, yes, all disaster, is here"

Under the Volcano

alice disse...

gostei muito especialmente deste. boa tarde, miguel.