toda a vida estas caras que se aproximam de mim
e apagam o sorriso:
são os mortos que recuperam os meus olhos para os seus olhos:
esqueci-lhes as histórias e posso visitá-los pela primeira vez:
o silêncio que os acompanha é a palavra que não chego a dizer,
um corpo qualquer a que me agarro
um corpo que soçobra desatento aos ténues fios do olhar.
É tão breve a pausa no sentido.
Depois, temos só o esquecimento
com as suas formigas que transportam
a água diligente do calor
no sol ambíguo das suas carapaças


Rui Nunes, in "Ofício de Vésperas" relógio d'água, 2007

imagem de Gianpaolo Pagni

Sem comentários: