vocês não sei... quanto a mim... sei que vou ficar a ver 300 mil euros a arder em apenas 15 minutos.

Feliz Ano Novo !?

O RAPAZ COM PREGOS NOS OLHOS

O rapaz com pregos nos olhos
montou a sua árvore de metal.
Parecia muito estranha
porque ele realmente via mal.


Tim Burton, in "A morte melancólica do rapaz ostra & outras estórias" errata, 2000

toda a vida estas caras que se aproximam de mim
e apagam o sorriso:
são os mortos que recuperam os meus olhos para os seus olhos:
esqueci-lhes as histórias e posso visitá-los pela primeira vez:
o silêncio que os acompanha é a palavra que não chego a dizer,
um corpo qualquer a que me agarro
um corpo que soçobra desatento aos ténues fios do olhar.
É tão breve a pausa no sentido.
Depois, temos só o esquecimento
com as suas formigas que transportam
a água diligente do calor
no sol ambíguo das suas carapaças


Rui Nunes, in "Ofício de Vésperas" relógio d'água, 2007

imagem de Gianpaolo Pagni



MANHÃ FARTA

É terrível o som
da casca do ovo cozido partido sobre o balcão
é terrível esse som
quando ressoa na memória do homem sem pão
é terrível também a cabeça desse homem
do homem sem pão
quando se olha às seis da manhã
na montra do grande armazém
uma cabeça cor de farinha
mas não é para a sua cabeça que ele olha
na montra da loja Potin
está-se nas tintas para a sua cabeça, o homem
não pensa nela
sonha
imagina uma outra cabeça
uma cabeça de vitela, por exemplo,
com molho vinagrete
ou qualquer outra cabeça que se trinque
e remexe o maxilar lentamente
lentamente
e range os dentes lentamente
porque o mundo lhe dá cabo da cabeça
e ele nada pode contra esse mundo
e conta pelos dedos: um dois três
um dois três
há três dias que não come
e por muito que há três dias repita que
isto não pode continuar
isto continua
três dias
três noites
sem comer
e atrás daqueles vidros
aqueles pastéis, aquelas garrafas, aquelas conservas
peixes mortos protegidos pelos chuis
chuis protegidos pelo medo
tantas barricadas para seis míseras sardinhas…
Logo adiante o bar da esquina
café-creme e croissants quentes
o homem cambaleia
e dentro da cabeça
uma névoa de palavras
uma névoa de palavras
sardinhas para comer
ovo cozido café-creme
café com um pingo de rum
café-creme
café-creme
café-crime com pingos de sangue!…
Um homem muito estimado no seu bairro
foi degolado em pleno dia
o assassino o vagabundo roubou-lhe
dois francos
ou seja: um café pingado
setenta cêntimos
duas fatias de pão com manteiga
e vinte e cinco cêntimos para a gorjeta do empregado.
É terrível
o som da casca do ovo cozido partido sobre o balcão
É terrível esse som
quando ressoa na memória do homem sem pão.


Jacques Prévert, in "Palavras/Paroles" sextante, 2007

imagem: René Magritte [ afinidades electivas ] 1933
Patty Chang [ doll ] 2001

Jean-François Martin

Diane magazine

L'Equipe Magazine

Couverture pour Flammarion

Technology Review


PERDA

No poroso branco das lajes
da limpa escada de pedra
sobre o abismo feliz
das claridades eternas
cada passo
perde
lentamente
a esperança de ser o último

A obra sem peso
da minha paciência
corre sobre a terra
constrói o silêncio
onde tu te anuncias

No reflexo das horas
como uma imagem de vidro
onde só vejo
a luz do vento
eu sei que a cor do mundo
está perdida


Ernesto Sampaio, in "Feriados Nacionais" fenda, 1999

imagem de Selçuk Demirel

SÉVERINE

Vendi tudo, depois da morte do senhor conde
vendi tudo

Foi um português até, mandou vir uns rapazinhos
dos transportes
Levaram tudo numa tarde
Pagou logo, em notas notinhas notas que é como
deve ser

Não há uma gaivota que se chama Capelo?
Este também é Capelo, vai abrir um museu em Lisboa
eles agora abrem museus como o monsieur Breton
expulsava surrealistas
à dúzia
ao fim da tarde.


Jorge Silva Melo, in "Fala da criada do Noailles..." cotovia, 2007

Lou Brothers





CAMAS

Añoro la ternura
inexplicable de las calles de Lisboa
y el sol, ese sol, y el Tajo o río
que habla con la ciudad.
El mundo está nublado menos allí,
donde se adensa la tristeza del mundo.
¿Tanta luz sirve para recordar
las condiciones miserables?
¿Uno se abriga del sol metiéndose
en el cansancio de sí?
Aislar la luz es no estar despierto
sino en lo que no fue
y no sé qué soy para mí,
o un animal que busca lo encontrado.
Me cansa la muerte, que no tiene nada dentro.
Hablo a corazón quitado.
Las camas son para otro amor.

Juan Gelman

mais poemas aqui

SURPRESAS DA PESCA

Não tinha dado nada.
Preparava-me para voltar para casa, mas resolvi atirar a linha uma última vez.
Senti um esticão bem forte. Segurei firme e comecei a enrolar o carreto com cuidado, devagar. E não é que vejo vir um nazi no anzol!! Um nazi bem bom, dos grandes! Fiquei admiradissímo, tinham-me dito que já não havia. Tratei de o tirar com o auxilio do camaroeiro e fui verificar imediatamente. Era mesmo. General e SS, calculem! Com boné, medalha suástica e tudo. Vá lá uma pessoa acreditar no que lhe dizem! Meti-o logo numa lata, enquanto estava fresco, e despachei-o para a Peixaria Nacional. Lá devem saber o que fazer com ele. A mim, francamente, não me serve para nada.

Mário-Henrique Leiria, in "Contos do Gin-tonic" estampa, 1999

uma boa notícia...


Matt Wolf [ Arthur Russell ] 2007

how we walk on the moon


As mãos escrevem nas pálpebras
a palavra astro
neste fim de tarde solitário.
A morte é a mais lúbrica das criaturas
e vem e vai
e pendura nas paredes
mil e uma fórmulas secretas
em que são iguais as quantidades de realidade
e do que a ela se opõe.
O vento está visivelmente cansado
arranhou-se num espinheiro
e corre-lhe pelo peito quente
um fio de sangue.
Qualquer coisa como música
advém do seu silêncio
e o olhar é uma ponte nitidíssima
entre duas realidades que não há.


Artur do Cruzeiro Seixas, in "A única real tradição viva" assírio & alvim, 1998

imagem: desenho de Artur do Cruzeiro Seixas, s/t

«Fazer surrealismo não é levar o surreal para o real, onde ele vai criar bolor e dormir, amontoar-se e depositar-se nas vidraças bem ajustadas dos livros, mas elevar materialmente o real até esse ponto em que a alma deve brotar dentro do corpo e não parar de amotinar o corpo. — É aquilo que o mundo ainda não conheceu e o surrealismo não pôde fazer, porque a alma do homem actual é prisioneira de um mau corpo que lhe proíbe toda a poesia e a força a viver sob o irremissível pelourinho das leis, sejam de exército, de policia, de igreja, de justiça ou de administração. E são principalmente a igreja.»

Antonin Artaud, in "Eu, Antonin Artaud" assírio & alvim, 2007

E SE DEPOIS DE TANTAS PALAVRAS

E se depois de tantas palavras,
não sobrevive a palavra!
Se depois das asas dos pássaros,
não sobrevive o pássaro parado!
Mais valeria, na verdade,
que coma tudo e acabemos!

Ter nascido para viver na nossa morte!
Levantar-se do céu rumo à terra
por seus próprios desastres
e espiar o momento de apagar com a sua sombra as suas trevas!
Mas valeria, francamente,
que comam tudo e tanto faz!…

E se depois de tanta história, sucumbirmos,
não já na eternidade,
mas dessas coisas simples, como estar
em casa ou pôr-se a matutar!
E se em seguida descobrirmos,
subitamente, que vivemos,
a avaliar pela altura dos astros,
pelo pente e as nódoas do lenço!
Mais valeria, na verdade,
que comam tudo, sem dúvida!

Dir-se-á que temos
num dos olhos muita pena
e também no outro muita pena
e nos dois, quando olham, muita pena…
Então… Claro!… Então… nem uma só palavra!


César Vallejo, in "Antologia Poética" relógio d'água, 1992

Dez cartas para Al Berto; dez cartas de Al Berto; um objecto: homenagear o poeta de O Medo, neste ano em que se completam dez anos sobre o seu desaparecimento.
Joaquim Cardoso Dias convida dez escritores para responderem a dez cartas que Al Berto lhe escrevera. Aceite o convite, aqui se reúnem as cartas originais en versão fac-similada e digitada, bem como as respostas de Alexandre Nave, Fernando Pinto do Amaral, Francisco José Viegas, José Agostinho Baptista, José Luís Peixoto, Luís Quintais, Nuno Artur Silva, Nuno Júdice, Tiago Torres da Silva e Vasco Graça Moura.

"Dez cartas para Al Berto, Dez cartas de Al Berto" quasi, 2007

OS CIÚMES

Abandonadas por seus amantes, duas mulheres almoçam sandes, num banco do jardim público. A solidão era tão forte que pensam viver juntas. A que primeiro oferecera a sua casa, ao preparar-se para dormir, sentiu a outra tão atraente que desejou fazê-la adormecer no lado do leito que, habitualmente, ocupava, tomando para si o lado do homem que amava. E ao perceber que olhava para a sua amiga como ele a teria olhado, sofreu com os ciúmes.

Tonino Guerra, in "Histórias para uma noite de calmaria" assírio & alvim, 2002

fotografia de Ann e. Cutting

cinco noites... cinco filmes...

Ingmar Bergman, 1966

Jean-Luc Godard, 1965

Federico Fellini, 1963

François Truffaut, 1962

Billy Wilder, 1950


numa resposta rápida ao convite feito pelo Manuel aqui ficam aqueles cinco filmes que em primeiro me vieram à cabeça... de fora ficam mais uns tantos... agora passo à Ana Marta, à Francisca, ao Jorge Vaz Nande e à Mar

ele há coisas mesmo estúpidas, não há??


Michael Haneke [ funny games ] 1997


Michael Haneke [ funny games U. S. ] 2007