POEMA

Para o banquete com talheres de prata
chegam os poetas com as musas ao colo
elas todas nuas
eles de gravata

servem-se as lagostas
ao som do piano
e depois a carne
carne de licorne
desce de aeroplano

tudo com muitos vinhos
de vários sabores
por copos infindos
como são os amores

e após o banquete
entre aves canoras
os poetas e as musas
saem para o espaço
em camas voadoras


António José Forte, in "Corpo de ninguém" hiena, 1989

uma boa notícia...


Jacques Prévert "Palavras/Paroles" Sextante, 2007

UM TOTOBOLA PARA TODOS

Nos confins da Ásia existia um povo muito infeliz.
Desde o Ministro ao simples camponês passavam todos imensas privações trabalhando vinte e quatro horas por dia a fim de pelo menos tentarem morrer decentemente.
Mas todos ima para à vala comum.
Até que o Governo teve a ideia luminosa de instituir uma Lotaria Nacional (estilo Totobola).
O povo que desde há tempos vinha já resmungando: «mau, mau, de que vale trabalhar tanto se nem conseguimos amealhar para um enterro decente», aceitou a ideia, a principio, com certa relutância.
Mas os felizes contemplados na lotaria logo tratavam do seu próprio enterro.
Os caixões eram de ouro fino ou madeiras raras cravejados das pedras mais preciosas: diamantes, rubis e esmeraldas.
Os cortejos fúnebres passaram a constituir alegres procissões com muitos arautos que apregoavam a glória do defunto.
Com a eliminação progressiva dos concorrentes, os restantes totobolistas adquiriram a certeza de ainda chegarem a ser totalistas.
Eliminada a insegurança quanto ao futuro aquele povo passou a ser um povo muito feliz.

Pedro Oom, in "Actuação escrita" & etc, 1979


Pára-me de repente o Pensamento…
— Como se de repente sofreado
Na Douda Correria… em que, levado…
— Anda em Busca… da Paz… do Esquecimento

— Pára Surpreso… Escrutador… Atento
Como pára… um Cavalo Alucinado
Ante um Abismo… ante seus pés rasgado…
— Pára… e Fica… e Demora-se um Momento…

Vem trazido na Douda Correria
Pára à beira do Abismo e se demora

E Mergulha na Noute, Escura e Fria
Um olhar d'Aço, que na Noute explora…

— Mas a Espora da dor seu flanco estria…

— E Ele Galga… e Prossegue… sob a Espora!


Ângelo de Lima, in "Poesias completas" assírio & alvim, 2003

imagem de Jean-François Martin

Konstantin Bronzit, 2003


em forma de poema

dou os meus prantos às procelas
para que cessem em me deixem
dou os meus sonhos às estrelas
para que os meus sonhos não se queixem

fico só como o lobisomem
na estrada sem forma e sem fundo
meus sonhos no ar dormem dormem
à espera da manhã do mundo

vê tu se nesta alegoria
descobres porque estou inteiro
e nunca terei agonia
sem fartar meus sonhos primeiro


Mário Cesariny, in "manual de prestidigitação" assírio & alvim, 2005

À PORTA DA LEI

À porta da lei está um guarda. Um homem do campo aproxima-se do guarda e pede para entrar na lei. Mas o guarda diz que não lhe pode dar autorização para entrar. O homem pensa um pouco e depois pergunta se poderá entrar mais tarde. «É possível», diz o guarda, «mas agora não.» Como a porta de entrada na lei está aberta, como sempre, e o guarda se afasta um pouco, o homem curva-se para poder olhar lá para dentro. Ao reparar nisso, o guarda ri e diz: «Se estás assim tão curioso, tenta entrar, apesar de eu to proibir. Mas nota bem: eu sou poderoso. E sou apenas o mais humilde dos guardas. Mas de sala em sala há outros guardas, cada um mais poderoso do que o anterior. Nem eu próprio já consigo suportar a vista do terceiro.» O homem do campo não esperava encontrar tais dificuldades; pensava que a lei deve ser sempre acessível a todos, mas ao olhar agora melhor para o guarda, com o seu casaco de peles, o grande nariz adunco, a barba negra à tártaro, comprida e fina, decide que é melhor esperar até ter autorização para entrar. O guarda dá-lhe um banquinho e deixa que ele se sente ao lado da porta. O homem fica ali sentado dias e anos. Tenta muitas vezes que o deixem entrar e cansa o guarda com os seus pedidos. O guarda faz-lhe frequentemente pequenos interrogatórios, perguntas sobre a sua terra e muitas outras coisas, mas pergunta só por perguntar, como fazem os grandes senhores, e por fim diz-lhe sempre que ainda o não pode deixar entrar. O homem, que trouxe muita coisa consigo para a viagem, recorre a tudo, por mais valioso que seja, para subornar o guarda. Este aceita, na verdade, tudo o que ele lhe dá, mas vai logo dizendo: «Só aceito para tu não ficares com a impressão de ter perdido alguma oportunidade.» Durante aqueles muitos anos, o homem observa o guarda quase ininterruptamente. Esquece os outros guardas, este primeiro parece-lhe ser o único obstáculo à entrada na lei. Amaldiçoa este infeliz acaso, nos primeiros anos sem contemplações e alto e bom som, mas mais tarde, à medida que vai ficando velho, já só resmunga com os seus botões. Começa a ficar com tiques infantis e, como em todos aqueles anos de observação do guarda também viu que ele tinha pulgas na gola de pele, pede também ajuda às pulgas para fazer o guarda mudar de opinião. Por fim, a luz dos olhos começa a ficar fraca, e ele já não sabe se realmente está a ficar mais escuro à sua volta ou se são os olhos que o enganam. Mas uma coisa é certa: agora apercebe-se de um brilho no escuro, uma luz que irrompe da porta da lei e nunca se apaga. Agora já não tem muito tempo de vida. Antes de morrer, todas as experiências de todo aquele tempo convergem na sua cabeça para a pergunta que até agora não fez ao guarda. Como já não consegue erguer o corpo hirto, faz-lhe sinal com a mão. O guarda tem de se curvar muito para o ouvir, porque a diferença de alturas se acentuou bastante, em desfavor do homem. «O que é que ainda queres saber?», pergunta o guarda. «És mesmo insaciável.» «Toda a gente aspira a entrar na lei, não é?», diz o homem. «Como é que se explica então que em todos estes anos ninguém, além de mim, tenha pedido para entrar?» O guarda percebe que o homem está a da as últimas e, para que o ouvido cada vez mais fraco o possa entender, grita-lhe: «Ninguém mais podia entrar por aqui, porque esta entrada estava-te destinada só a ti. Agora vou fechá-la.»


Franz Kafka, in “Parábolas e fragmentos” assírio & alvim, 2004

Imagem: Kafka por Robert Crumb

Alexander Alexeie, 1962


Escritos ao longo de vários anos e alvo de constantes e obsessivos aperfeiçoamentos, os contos de «Tudo o que sobe deve convergir» foram sendo publicados separadamente, valendo à autora três prémios O'Henry – o mais prestigiado prémio para contos dos Estados Unidos. Postumamente foram recolhidos, por ordem de publicação, num único volume, considerado pela crítica como mais uma das obras-primas de Flannery O’connor.

Flannery O’connor "Tudo o que sobe deve convergir" cavalo de ferro, 2007

UM HEMISFÉRIO NUMA CABELEIRA

Deixa-me respirar por muito, muito tempo, o odor dos teus cabelos, mergulhar neles todo o meu rosto, como um homem sequioso na água duma nascente, e agitá-los com a mão como se um lenço perfumado, para sacudir as recordações no ar.
Se tu pudesses saber tudo o que eu vejo! tudo o que sinto! tudo o que ouço nos teus cabelos! Minha alma viaja sobre o perfume como a alma dos outros homens viaja sobre a música.
Os teu cabelos contêm um sonho inteiro, cheio de velas e de mastros; contêm grandes mares cujas monções me levam para climas adoráveis, onde o espaço é mais azul e mais profundo, onde a atmosfera tem o perfume dos frutos, das folhas e de pele humana.
No oceano da tua cabeleira, entrevejo um porto a formigar de canções dolentes, de homens vigorosos de todas as nações e navios de todas as formas recortando as arquitecturas finas e complicadas sob um céu imenso onde se pavoneia um calor eterno.
Nas carícias da tua cabeleira, encontro os langores das longas horas passadas sobre um divã no camarote dum belo navio, embaladas pelo arfar imperceptível do porto, por entre os vasos de flores e as bilhas que refrescam a água.
No lume ardente da tua cabeleira, respiro o odor do tabaco misturado com ópio e açúcar; na noite da tua cabeleira, vejo resplandecer o infinito do azul tropical; nas praias acetinadas da tua cabeleira, embebedo-me com os odores combinados de alcatrão, de musgo e de óleo de coco.
Deixa-me morder longamente as tuas tranças pesadas e negras.
Quando mordisco os teus cabelos elásticos e rebeldes, parece-me que devoro recordações.


Charles Baudelaire, in "O spleen de Paris" relógio d'água, 1991

ilustração de Isabel Lobinho (para textos de Mário-Henrique Leiria, forja,1975)

A vida comunica com um ponto da morte
ou talvez simplesmente com um morto.
O sonho comunica com as tuas mãos
ou talvez com uma só.
A noite comunica com o gesto
ou talvez com uma linguagem de vísceras imóveis.
O ar comunica com a página eterna dos diários
ou talvez com a ideia e sua respiração clandestina.
O nada comunica com o nada
ou talvez com o peixe desta palavra sem mar.

Mas há algo de obscuro em tudo isto,
algo de parecido com o triste ou talvez com as suas margens,
que nem sempre comunica
com o seu próprio e olvidado ser.
É como quando se apaga uma luz
com os olhos fechados.
E talvez menos ainda:
palavras escritas em papel
da cor da palavra.


Roberto Juarroz, in "Poesia vertical" campo das letras, 1998

estilhaços...


Made in Eden [ A partir de Estilhaços de Adolfo Luxúria Canibal ]

Encenação e Dramaturgia: João Garcia Miguel
Coaching: Miguel Moreira Texto – a partir de Estilhaços de Adolfo Luxúria Canibal
Interpretação: Luís Guerra e Sara de Castro
Cenografia: Mantos e Pedro Santos
Adereços: Jorge Sacadura
Figurinos: Miguel Moreira
Música: Sérgio Martins e Rui Lima
Fotografia: Miguel Nicolau
Produção Executiva: Marta Vieira

Em cena no Teatro da Politécnica : a partir de 7/11 até 2/12 às 21:30, dias 30/11, 1 e 2/12 às 16 h.

5ª linha da página 161

Regulamento:

— Pegue no livro mais próximo, com mais de 161 páginas implica aleatoriedade, não tente escolher o livro;
— Abra o livro na página 161;
— Na referida página procurar a 5.ª frase completa;
— Transcreva na íntegra para o seu blogue a frase encontrada;



«Lá foi o machado de novo, e de novo os painéis bateram ruidosamente e a chama oscilou.»

Robert Louis Stevenson, in "O estranho caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde" assírio & alvim, 2007

Felicien Rops [ Pornocrate ] 1878

É preciso que se compreenda que toda a inteligência não é mais que uma vasta eventualidade, e que se pode perdê-la, não como o alienado que está morto, mas um vivo que está na vida, e que sente em si a atracção e o sopro dela (da inteligência, não da vida).
As titilações da inteligência e esse brusco derrubar das partes.
As palavras a meio caminho da inteligência.
Essa possibilidade de pensar em recuo, e de invectivar de súbito o seu pensamento.
Esse dialogo no pensamento.
A absorção, a ruptura de tudo.
E de repente, esse fio de água sobre um vulcão, a queda ténue e retardada do espírito.


Antonin Artaud, in "O pesa-nervos" hiena, 1991

uma boa reedição...


Acaba de ser lançado pela editora Assírio & Alvim a reedição de mais uma pérola perdida, Eu Antonin Artaud, anteriormente editado pela já extinta editora Hiena. Recordo que em 2004 já tinha saído a terceira edição de Van Gohg o suicidado da sociedade pela Assírio & Alvim, reedição da reedição, a primeira edição pela & etc em 1983 e a segunda pela Hiena em 1989. Ainda fica por reeditar muita coisa de Antonin Artaud, mas para os que pouco conhecem da sua vasta obra este talvez seja um bom ponto de partida, trata-se de uma magnifica antologia de textos essenciais para compreender a sua vida e obra.


«Foi em 1918 que senti em mim as primeiras dentadas destas ondas internas da alma que nos atormentam para ganharem forma. Música, teatro, pintura, poesia, eu compreendia que já não bastariam concretizações como estas, concretizações um dia destinadas a perecer e a perder força, e que o fogo que em mim ardia precisava de corporizações totalmente diferentes. Mas como desarrumar o real até chegar a esta encarnação maior de uma alma que consegue, encarnada num corpo, impor-lhe a carne sexual dura, a carne de alma do seu verdadeiro corpo?»

Antonin Artaud, in "Eu, Antonin Artaud" assírio & alvim, 2007



p.s. para os interessados em adquirir algumas dessas obras anteriormente editadas pela Hiena e pela & etc basta fazer uma visita à livraria letra livre


JANELA

Uma janela é suficiente
Uma janela para contemplar
Uma janela para escutar
Uma janela
parecida com o anel de um poço
a alcançar a terra na finitude do seu coração
abrindo para a vastidão desta bondade azul e repetitiva
uma janela limando as pequenas mãos da solidão
com a benevolência nocturna
do perfume de estrelas prodigiosas
janela de onde
é possível convocar o sol
para a alienação dos gerânios.

Uma janela ser-me-á suficiente.

Eu venho da terra das bonecas
de debaixo das sombras das árvores de papel
no jardim de um livro de desenhos
das estações secas das experiências incapazes na amizade e no amor
nas ruas sujas da inocência
dos anos das letras pálidas, crescendo, do alfabeto
atrás das mesas da escola tuberculosa
do minuto em que as crianças eram capazes de escrever pedra
no quadro
e os estorninhos eufóricos voavam abandonando
a velha árvore.

Eu venho do meio das raízes das plantas carnívoras
e o meu cérebro está ainda inundado
pelo guincho aterrorizado de uma borboleta
crucificada por alfinetes
num caderno.

Quando a minha confiança estava presa pelo frágil fio da justiça
e na cidade inteira
os corações das minhas lanternas eram feitos em bocados
quando os olhos infantis do meu amor
estavam a ser vendados com o lenço negro da Lei
e dos meus ansiosos templos do desejo
jorravam fontes de sangue
quando a minha vida se tornara nada
nada
senão o tique-taque de um relógio,
eu descobri
que tenho
tenho
tenho de amar,
loucamente.

Uma janela ser-me-á suficiente
uma janela para o momento da consciência
da observância
e do silêncio.
agora,
a pequena nogueira
cresceu tanto que é já capaz de explicar
o significado do muro
às suas jovens folhas.

Pergunta ao espelho
o nome do redentor.
Não estará a terra fremente debaixo dos teus pés mais só que tu?
os profetas trouxeram a missão da destruição para o nosso século
não serão estas consecutivas explosões
e nuvens venenosas
a reverberação dos versículos sagrados?
Tu,
camarada,
irmão,
confidente,
quando chegares à lua
escreve a história dos massacres das flores.

Os sonhos precipitam-se sempre da sua altura ingénua
e morrem.
Cheiro o trevo de quatro folhas
que cresceu sobre o túmulo dos significados arcaicos.

Não seria a mulher
enterrada no sudário da expectativa e da inocência
a minha juventude?

Subirei a escadaria da curiosidade
para saudar o bom Deus que se passeia no telhado?

Sinto que o tempo passou
sinto que o momento é a minha parte das páginas da história
sinto que a mesa é uma distância fingida
entre as minhas madeixas
e as mãos deste triste estranho.

Diz-me
Que mais poderá querer de ti aquele que oferece a ternura de um corpo quente
senão a encarnação da sensação de existir?

Fala comigo
eu estou no refúgio da janela
eu tenho uma relação com o Sol.


Forugh Farrokhzad

imagem: Jean Hèlion [ nu et pots à fleurs ] 1947

«E tu, meu amigo, se desejares viver no meio dos homens, aprende a venerar, primeiro a sombra, e só depois o dinheiro. Mas se viveres só para ti e para satisfazer o que de melhor há em ti, então não precisas de conselhos.»

Adelbert Von Chamisso, in "A história fabulosa de Peter Schlemihl" assírio & alvim, 2005

imagem de Adolf Schrödter