Pedes-me o corpo das assombrações.
Vais fumando uma música triste e repetitiva, enquanto olhas a agonia dos jacarandás tão bela. O cenário eléctrico dos candeeiros assusta-te, porém disfarças.

Perdes uma mão nos cabelos,
enquanto vais deixando cair o tempo no poço do tédio.

Chamo-te para uma fuga aparatosa, como se houvesse entre nós a cumplicidade de um crime ainda por cometer.
Mas — repara — lá fora soam já as sirenes, luvas policiais violam o silêncio dos amantes de rua em busca dos nossos corpos.

Podemos até estar mortos, derrubados por uma bala partilhada de coração a coração, a crescente poça de sangue onde já não nos distinguimos.

Ouves?: já não nos distinguimos, tu a apagar o cigarro,
eu a contar os teus dedos.


Vasco Gato, in "A prisão e paixão de Egon Schiele" & etc, 2005

3 comentários:

Fernando Dinis disse...

Gosto muito da poesia do Vasco Gato. Mais um bom poema de um livro excelente.

miguel. disse...

a meu ler é provavelmente um dos melhores poetas da sua geração...

menina limão disse...

post mais lindo: o Gato e os Amantes. :)