Jean Vigo [ Zéro de conduite ] 1933



Em «zero de conduite» existem dois mundos, caracterizados de forma distinta, representados por seres e atitudes típicas, que se regem por regras próprias e que se opõem e combatem. Há, pois, uma clara intenção de apresentar no microcosmos de um internato a divisão que, no macrocosmos da sociedade, opõe social, política e ideologicamente as classes. De um lado encontramos as crianças, a cozinheira, o empregado do café Huguet, que é o único adulto que se integra perfeita e activamente no mundo das crianças, relação que é sublinhada pela citação expressa, por imitação do próprio Huguet, da figura de Chaplin e, por consequência, do seu cinema. Todos os personagens que constituem esta «classe» são apresentados num estilo realista que realça as sua características «populares» e os identifica imediatamente com os seres que tipificam: nem bonitos nem feios, nem bons nem maus, nem heróis nem miseráveis, mas um pouco disso tudo; seres «normais», idênticos aos que se podem encontrar em todos os colégios ou vilas de província ou, se quisermos ir mais longe, em todo o vasto campo social dos oprimidos. Nas crianças, aliás, é essa caracterização realista que contribui decisivamente para a autenticidade que elas transportam ao longo e todo o filme e que impede e afasta de modo inequívoco qualquer idílica ilusão acerca de um mundo infantil pretensamente «cor-de-rosa», puro, bom, inocente e cândido. Do outro lado, os adultos, os professores, os vigilantes e outras entidades (padre, bombeiros, prefeito, etc), que representam o poder, a autoridade e a ideologia da classe dominante, são apresentados e caracterizados de uma forma acentuadamente estelizada em que desde as figuras físicas, a sua forma de andar e de falar, os seus tiques e gestos, até ao comportamento e às próprias roupas e palavras, todo o tratamento é intencionalmente não realista. Ao ponto de, na festa do colégio, VIGO misturar com os adultos simples bonecos vestidos a rigor. Essa forma estilisticamente diferente tratar os dois mundos não faz mais do que destacar com admirável ironia e aguda lucidez, na própria imagem, as características de cada um deles: a naturalidade, a frescura, a simplicidade, a alegria, a humanidade e os sentimentos profundos de liberdade e revolta, da amizade e solidariedade no «mundo popular»; a hipocrisia, a sordidez, a mesquinhez, a desumanidade, a injustiça autoritária e a autoridade injusta, a deformação mental e física, o ridículo do «mundo burguês».

Luís Filipe Rocha, in "Jean Vigo" afrontamento, 1981

2 comentários:

manuel disse...

Eu tenho esse livro do luís filipe rocha, aliás tinha, dei-o a uma amiga cinéfila.

miguel. disse...

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