Tal como o autor nos anos 50, o herói deste livro, Hanta, trabalha na cave de um depósito de reciclagem. Trabalha com um velha prensa, e os seus dias passam-se a comprimir livros e papéis. Mas, antes de os destruir, Hanta não pode deixar de observar o que lhe passa pelas mãos: folhear esses livros dá um sentido à sua vida. Separa os Göethe, os Schiller, os Hölderlin, extasiando-se perante tanta beleza, e «salva-os» levando-o para a sua casa, onde vão invadindo todos os espaços disponíveis. Ou coloca-os, abertos na página de que mais gosta, bem no centro dos papéis a meter sobre o pilão da prensa, e envolve o pacote prensado com belas reproduções cuidadosamente escolhidas: vai fabricando fardos especiais, as suas «obras de arte».
A instalação de uma cadeia automática capaz de destruir e comprimir livros em enormes quantidades, e a invasão da sua cave por jovens operário-modelo indiferentes — evocação da realidade pós 68 — tornam inútil a função de Hanta. Resta-lhe juntar-se aos seus queridos livros. Um dia, passa por cima do bordo da velha prensa levando numa mão o seu Novalis preferido, e com a outra carrega no botão verde.
Escolheu o seu paraíso.

"Há trinta e cinco anos que trabalho com papel velho e é essa a minha love story. Há trinta e cinco anos que prenso papel velho e livros, há trinta e cinco anos que que me sujo de letras, de tal modo que me pareço com as enciclopédias de que durante esse tempo todo devo ter prensado pelo menos três toneladas: sou um cântaro cheio de água viva e água morta, basta inclinar-me um pouquinho e jorram de mim ideias lindas; sou culto independentemente da minha vontade e, assim, nem sei bem quais as ideias que são minhas, e saídas da minha cabeça, e que ideias li."

BOHUMIL HRABAL nasceu em Brno em 1914. Concluiu o curso de Direito em Praga em 1939, mas tendo os invasores alemães encerrado as universidades checas, só conseguiu o diploma em 1946.
Nunca exercerá a profissão. Em vez disso, será sucessivamente escriturário, fiel de armazém, empregado dos caminhos-de-ferro, operário metaIúrgico, embalador de papel velho e figurante de teatro.

Bohumil Hrabal "uma solidão demasiado ruidosa" afrontamento, 1992