"Na primeira categoria das sucursais de produtos divinos as igrejas cristãs adoptaram, sob a pressão do processo mercantil, uma exibição contorcionista que só terá fim com o desaparecimento completo da sua etiqueta publicitária, o camaleão Jesus. Filho de deus, filho da puta, filho da virgem, fazedor de milagres e de pãezinhos, pederasta e puritano, militante e membro do serviço de ordem, acusador e acusado, homem para todo o serviço e astronauta, não há papel que não esteja na alçada deste espantoso fantoche, Apareceu como comerciante do sofrimento, como cobrador de graças, como republicano, como socialista, como fascista, como anti-fascista, como stalinista, como barbudo, como partidário do Reich, como anarquista. Esteve em todas as tabuletas, em todas as bandeiras, em todo o desprezo de si próprio, dos dois lados do cacete, na maior parte das execuções capitais, onde empunhou tanto a mão do carrasco como o condenado. O seu lugar é nas esquadras, nas prisões, nas escolas, nos bordéis, nos quartéis, nos grandes estabelecimentos, nas zonas de guerrilha. Serviu de berloque, de sinal rodoviário de espantalho para manter os mortos em paz e os vivos de joelhos, de tortura, e de regime para emagrecer, servirá de excitador quando os comerciantes de prepúcios sagrados tiverem reabilitado comercialmente o pecado.
Pobre Maomé, pobre Buda, pobre Confúcio, tristes representantes de firmas concorrentes e sem imaginação nem dinamismo. Jesus leva vantagem em todas as frentes. Jesus Cristo super-droga, e super-star: todas as imagens do vendido a deus em promoção de venda de deus.
A pele dos colhões de Deus-pai inexistente pregada em triângulo e promovida a amuleto é o símbolo mais bem acabado do homem como mercadoria universal."

Ratgeib (Raoul Vaneigem), in "da greve selvagem à autogestão generalizada" assírio & alvim (1974)

imagem de Bansky

2 comentários:

aitb disse...

:)

um texto deliciosamente cru...

lembrou-me de imediato " reality asylum" de crass... ;)

boa escolha na imagem tb.. bansky.. my graffitti hero!

;)

Anónimo disse...

É irónico (ou outra coisa qualquer que não dá para se exprimir, porque não há palavra)o modo como alguns, talvez demasiados, criticam a suposta idolatria dos católicos apostólicos romanos. Contudo, quase sempre, esses mesmos críticos, na sua eterna adolescente atitude "laivizam" o seu pretensioso intelectualismo, com a caricatura pós-pós modernista das mesmas imagens.
Quão criativos, sois!
Ou será uma qualquer idolatria que pretendeis criar?
Melhor...