RUA DE MONTARROIO

Não sei de que fugíamos.
Dizer que era da vida pareceria
demasiado lírico, demasiado verdadeiro
— e a vida raramente aproveita a um poema.

Seja como for, a cidade
predispunha-se, aceitava calmamente
pequenos gestos de ternura,
delírios de morte apenas.
Zé dos ossos, Trianom — nomes
que decorei, enquanto fugíamos
da calúnia dos vinte anos.

As tardes no jardim, um pouco lúgubres,
prenunciavam a costumeira subida:
jantávamos os dois por setecentos escudos,
mesmo ao lado da taberna que não tinha mesas.

Saía barato o amor. Por não sabermos,
ainda, que teríamos de o pagar a vida inteira
com juros aziagos e versos de demora.


Manuel de Freitas, in "juros de demora" assírio & alvim (2007)

2 comentários:

Fernando M. Dinis disse...

excelente blog.

Gi disse...

..sempre bom encontrar o manuel de freitas ao virar da esquina.
bom gosto e bom coração; e não menos lucidez.
um abraço.
gi.