António José Forte [uma faca nos dentes] & etc, 1983


RESERVADO AO VENENO

Hoje é um dia reservado ao veneno
e às pequeninas coisas
teias de aranha filigranas de cólera
restos de pulmão onde corre o marfim
é um dia perfeitamente para cães
alguém deu à manivela para nascer o sol
circular o mau hálito esta cinza nos olhos
alguém que não percebia nada de comércio
lançou no mercado esta ferrugem
hoje não é a mesma coisa
que um búzio para ouvir o coração
não é um dia no seu eixo
não é para pessoas
é um dia ao nível do verniz e dos punhais
e esta noite
uma cratera para boémios
não é uma pátria
não é esta noite que é uma pátria
é um dia a mais ou a menos na alma
como chumbo derretido na garganta
um peixe nos ouvidos
uma zona de lava
hoje é um dia de túneis e alçapões de luxo
com sirenes ao crepúsculo
a trezentos anos do amor a trezentos da morte
a outro dia como este do asfalto e do sangue
hoje não é um dia para fazer a barba
não é um dia para homens
não é para palavras

António José Forte

4 comentários:

Fernando M. Dinis disse...

Que poema!! Que poema!!!

menina limão disse...

incrível este poema.

espelhoblíquo disse...

Miguel, café de muito bom gosto, daqueles que costumo frequentar…

corpo visível disse...

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é um dia ao nível do verniz e dos punhais
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se soubesses como gosto deste poema...
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