Paul Éluard [ Algumas das palavras ] Dom Quixote, 1977
Antologia e prefácio de António Ramos Rosa
Tradução de António Ramos Rosa e Luisa Neto Jorge


A DE SEMPRE, TODA ELA

Se eu vos disser: «tudo abandonei»
é porque ela não é a do meu corpo,
eu nunca me gabei,
não é verdade
e a bruma de fundo em que me movo
não sabe nunca se eu passei.

O leque da sua boca, o reflexo dos seus olhos
sou eu o único a falar deles,
o único a ser cingido
por esse espelho tão nulo em que o ar circula através de mim
e o ar tem um rosto, um rosto amado,
um rosto amante, o teu rosto,
a ti que não tens nome e os outros ignoram,
o mar diz-te: sobre mim, o céu diz-te: sobre mim,
os astros adivinham-te, as nuvens imaginam-te
e o sangue espalhado nos melhores momentos,
o sangue da generosidade
transporta-te com delícias.

Canto a grande alegria de te cantar,
a grande alegria de te ter ou te não ter,
a candura de te esperar, a inocência de te conhecer,
ó tu que suprimes o esquecimento, a esperança e ignorância,
que suprimes a ausência e que me pões no mundo,
eu canto por cantar, amo-te para cantar
o mistério em que o amor me cria e se liberta.

Tu és pura, tu és ainda mais pura do que eu próprio.


Paul Éluard

1 comentário:

cosal disse...

Para inicio de ano...a coisa não vai nada mal...Éluard é um luxo.