UNICAMENTE, ÚNICA
Mente


Os adolescentes dissimulam o estupor com os seu modos
ariscos.
Os adolescentes procuram escudar-se de sinais
libidinosos.
Seguíamos amontoados no camião, à saída da cidade, e alguém olhou para a Lua.

Ao menos ela, ao menos ela existe,
ao menos ela ainda é a mesma.


Afinal, o que podemos nós esperar desta juventude
que a perseguição amestrou,
habituada a ordens inexoráveis,
à lentidão de discursos altissonantes,
ao trabalho obrigatório e inútil,
à insegurança permanente ?
Nada, na verdade, não podemos esperar nada desta juventude.
Os adolescentes arranjam a suas roupas coçadas,
atiram-se freneticamente ao mar.
Formidáveis e violentos, dispersam-se pelas
antigas avenidas principais.
E por fim, dissolvem-se na luz tropical.
Na imunda gaiola onde os aguarda
novo interrogatório há uma janela alta de vidro polido, e
ao longe, mais além — o que existirá na distância ?
O que podemos nós esperar desta juventude
que frequenta uma universidade onde não se ensinam línguas,
apenas textos que instilam o medo,
que vive num sítio onde lhe explicam permanentemente
porque é tão necessário dar a vida pelo país,
porque é necessário renunciar a tudo
— mesmo à fugaz felicidade de uma renúncia voluntária ?
O que podemos nós esperar desta juventude a quem
dizem: o teu destino é seres trabalhador agrícola;
a quem se ordena: torna-te militar;
que condenam a viver na escravidão e
na miséria,
sem sequer lhe ser permitido o consolo de expressar
tão flagrante desespero.
Tudo, na verdade, podemos esperar tudo desta juventude.
Atravessaremos a cidade devastada.
Atravessaremos a cidade em ruínas.
Atravessaremos a cidade em perpétua erosão,
sem reparar nas montras vazias e
sem perder tempo em filas intermináveis
e sem dar atenção aos insultos que devoram de alto a baixo as
grandes e empoeiradas janelas;
não faremos caso do homem que, humilhado e
faminto,
percorre a rua numa fúria silenciosa;
não nos despertarão curiosidade as pessoas que se amontoam à frente de um
estabelecimento
onde talvez ponham à venda refrescos de alperce daqui a
sete horas.
Sem nada enxergar, atravessaremos a cidade,
que lentamente se desmorona, para nos determos
diante do mar.
Unicamente diante do mar, abriremos os olhos.
Unicamente diante do mar, respiraremos um instante
(nem se avista a benção de uma
colérica esperança).
Unicamente.
Única
mente.


Reinaldo Arenas in "O Engenho" antígona

4 comentários:

Alcebíades José disse...

Quem não sonha em ser adolescente???
E escrever como o Reinaldo???
Magnifíco blog.

Anónimo disse...

O contínuo e refinado bom gosto das escolhas...

Blog há só um: este café e mais nenhum.

cosal disse...

Muito bom...uma bica de MESTRE.

Careca disse...

Ab Só Luta Mente !