O AMOR

Somos casados, dormimos com raparigas sem qualquer escrúpulo. Imaginar, porém, a nossa mulher nos braços de outro e mataríamos a terra inteira. Não há nada a fazer, uma coisa não tem nada a ver com a outra coisa. Um homem nunca engana a sua mulher.

A MULHER E O AMOR

Detesto acima de tudo as mulheres que julgam que podem ser feias porque são inteligentes. Felizmente, nunca encontrei uma mulher inteligente.

AS MULHERES

Talvez as mulheres gostem dos impostores. Um homem, um verdadeiro, mete-lhes sempre um pouco de medo. Receiam ser magoadas. Um impotente é como uma boa amiga.

NO DIA-A-DIA

Por que é que temos vontade de mijar de cada vez que encontramos uma posição confortável para dormir ?

DEUS E OS SEUS SERVOS

Tornar-se Deus é no fundo tornar-se pouca coisa - é ficar nós próprios.

A CIÊNCIA

A fé eleva montanhas mas deixa-as alegremente recair sobre a cabeça daqueles que não a têm. De que serve erguer montanhas quando é tão simples passar por cima ?

QUESTÕES E PROBLEMAS

É inútil aprofundarmos um assunto tão pouco interessante; menos ainda do que qualquer outro; estava a pensar, em particular, na criação da caganita da mosca tirolesca e no tráfico da pulga da lã.

O TRABALHO

A guerra é a forma mais refinada e a mais degradante do trabalho uma vez que se trabalha para tornar necessárias novas obras.

AS PALAVRAS

Há momentos em que me pergunto se não estarei a brincar com as palavras. E se as palavras servissem para isso ?

SOBRE ELE PRÓPRIO

Julgo ter custado menos à França do que Napoleão; e no entanto, ele é muito mais conhecido do que eu.


" BORIS VIAN por BORIS VIAN " fenda

7 comentários:

marta disse...

O sr. Boris Vian... detesto o discurso do homem que se refere às mulheres como uma entidade alheia a si, num plano "inferior"... A conotação estética sempre ligada ao factor inteligência- como se uma mulher pudésse ser só bonita ou só inteligente. A soma dos dois elementos... ai ai que terror! seria certamente uma arma de difícil manejo.
"Felizmente, nunca encontrei uma mulher inteligente."- Ó Boris!!! Quero acreditar que são maneirismos retóricos da época... Contudo é dos meus escritores preferidos... Não há bela sem senão ...

cosal disse...

Cara Marta...dedico-lhe este breve apontamento.
Boris Vian viveu apenas 39 anos.Escreveu coisas lindas,proprias de um inconformado,
com o pseudónimo de Vernon Sullivan.Foi músico,poeta,tradutor e dramaturgo.No auge do existencialismo, era conhecido por toda a Paris como o príncipe das "caves" de Saint-Germain-des-Prés,onde conviveu, entre outros, com Jean Paul Sartre e Raymond Queneau.Por ter escrito um livro fantástico, "Hei-de Cuspir-vos na Campa" (1946) foi acusado de Ultraje escrito à moral e aos bons costumes.O coração não aguentou.
Dirá...e depois?...não retiro uma vírgula.Eu direi...nem esperava outra resposta.Contudo,leia o livro que referi...e perceberá que para os Vians da época...a mulher era outra coisa, prestava-se a outras leituras.Lembra-se de Sartre e Simone?.

Cumprimentos

aglidole disse...

Miguel, adorei o pouquinho que deste a ler deste Senhor... Gosto do seu humor (sarcástico?!), ou assim o percebi. Vou comprar o livro para o conhecer melhor. E, já agora, se não te importares, vou retirar uma frase, aqui escrita, para o meu bloguesinho.

:) Bjoca

marta disse...

Pois é, tem toda a razão caro Cosal. A figura feminina ganhava toda uma outra carga. E pois claro que a relação entre Sartre e Bouvoir é ilustrativa desse tempo, mas também não esquecer Simone Bouvoir não representa todas as mulheres da época mas sim um sector restricto de uma classe alta e letrada. O amor teria uma carga muito mais intelectual, quer-me parecer, que os anos 60 só os conheco dos livros e dos filmes :)
Contudo há machismo em pequenas coisas, em vícios de língua, mesmo dentro das mentes daqueles às vezes julgo mais iluminados (ou então sou eu que o encontro :)
E corrigindo uma gaffe, de Boris Vian conheço-lhe o amor pelo jazz e as amizades que fez nesse meio.Pouco mais. Quando disse que era dos meu preferidos pensava no Herman Hesse, que por acaso é contemporâneo de Boris Vian. É a minha cabeça de vento a pregar-me partidas :)... E obrigada pelo apontamento. As dicas para tornar a visão das coisas menos redutora serão sempre bem vindas.

cosal disse...

Agradeçon as palavras da Marta.
Já agora mais um pequeno apontamento. Foi Vian o autor dessa letra imortal " O Desertor"...cantada por muitos nas ruas de Paris...numa alusão à guerra da Argélia...e que a malta que ia para o então Ultramar...em "Missão de serviço"...alguma malta...sabia de cor.Disse-me um amigo...que foi feita uma versão para os americanos...mas não surtiu efeito.

Cumprimentos

Miguel. disse...

por ironia do destino morreu novo e numa sala de cinema, quando assistia à estreia da adaptação de uma das suas mais emblemáticas obras, Irei Cuspir-vos Nos Túmulos 1959...

um dado curioso, outra das suas obras "a erva vermelha" foi adaptada para série televisiva nos anos 80, onde o grande actor francês, Jean-Pierre Léaud fazia o papel de Lazuli, mas esta não é a parte da curiosidade, esta sim, Sérgio Godinho ( Berzingue) entra na série em conjunto com João Lagarto (Sandre)...

" e esta, hein ? "

:)

magarça disse...

Esta última "curiosidade" deixou-me de boca aberta! Nem sabia que "A erva vermelha" tinha dado origem a uma série...

Não consigo levar a sério os comentários "machistas" de B. Vian. Afinal, ele escreveu uma das mais bonitas histórias de amor, "A espuma dos dias".