A Ti

Já do amor eu, triste, desesperava,
Quando, doce visão, tu consentiste
Em desvelar p´ra mim a tua cara.

E então fiquei mais triste, ' inda mais triste,
Pois medi nos teus olhos a distância,
Ó divina, que entre nós existe !

Quem acalmar pudera tanta ânsia
E dizer-me, oxalá, onde demora
Esse amor entrevisto, essa ganância

Que a alma toma , devassa e explora.
Quem pudera revelar-me esse segredo
Por que a minh'alma, noite adentro, chora !

Ó serrana gentil, eu tenho medo
De um bruto impulso, de um ressalto louco
Dos sentidos, de um desvario tredo,

Ao passares o teu muito pelo meu tão pouco.
E assim te imploro, se terrena fores,
Mata-me já, em vez de pouco a pouco,

Que ele há insuportáveis dores !


Alexandre O 'Neill in. "anos 70 poemas dispersos"
imagem de Milo Manara

4 comentários:

cosal disse...

O'Neill relido com prazer.José Forte o mano Forte do Pacheco...muito bom.Este blog está ás portas de uma publicação...assim ao estilo de um livro de bordo para outras navegações...digo eu.
Cumprimentos

kat_Jam disse...

É um dos meus poemas favoritos dos 70 poemas dispersos do Alexandre.
De tirar o fôlego

Miguel. disse...

Caro cosal, há muito que não o via por aqui... fico contente com o seu retorno, espero que o motivo do abandono não tenha sido devido a algum mal entendido...enfim. Gosto de o ver por cá, e espero continuar a ler os seus comentários, até porque temos um gosto parecido, talvez a minha biblioteca inicial tenha sido a mesma que a sua...ou até mesmo a sua.
Quem sabe !?

O O'Neill é sempre de ler e reler, já o Forte é mais difícil uma vez que a sua obra editada é pouca e mesmo a pouca é rara...

Cumprimentos

Miguel. disse...

Olá Catarina, gosto de a ver por aqui...
Este é também um dos meus "dispersos" preferidos.

:)