Há limões


G

A morta estava agora de costas voltada. Com as nádegas perfeitas e brancas junto das mão do coveiro. Nesta posição ele podia ver, os dois cortes transversais, enormes, um de cada lado, atrás dos pulmões: a causa da sua morte.

Delicadamente, percorreu cada mílimetro do comprimento total daquelas feridas, com a ternura possível dos seus dedos encardidos. Para de seguida, enlaçá-la com os braços e preencher o espaço que as suas mãos disponibilizavam para agarrar os seios da morta.

Sentou-se no bordo da cama. Levou a mão ao bolso e retirou de dentro deste um pequeno um pequeno objecto metálico. Aproximou-se de seguida daquele rosto de anjo desmilitarizado, perguntando-lhe ao ouvido:

- Posso? Estás tão fria!

Agarrou-lhe a mão direita - a mais pesada - e descansou-a na palma da mão esquerda. Abriu cuidadosamente um pequeno corta unhas e estendeu-lhe os dedos azuis como um profissional.
- Sabes? Crescem depressa. Crescem mais depressa agora.
Começou então por ouvir-se o tic tic das aparas a semearem o chão. Dedo a dedo. Farpa a farpa.
-Sabes... É preciso cortá-las. Cortá-las rente. Para que parem de crescer. Unha a unha. Agora esta. Agora a outra. E depois os pés. Os pés também... E os meus... As minhas também crescem. Por mais mais que as limpe estão sempre sujas. Tal como os olhos. Não há nada a fazer. É por causa da terra. Tenho de cortá-las rente... Para ver se um dia se cansam. Tenho comichão mas não posso coçá-los. Se os coçar posso perdê-los, foi o que o Médico disse.


Terminada a tarefa de manicuro e pedicuro, o coveiro levantou-se da cama e sacudiu para o chão as últimas lascas que se tinham agarrado à fazenda ruça das calças. Guardou religiosamente no bolso o corta unhas, retirando do mesmo outro objecto: um pequeno frasco azul contendo uma solução desinfectante para doenças de olhos. Levantou o queixo, virou a cabeça para o tecto e, alternadamente, deixou cair sobre cada vista duas gotas do líquido incolor. Pestanejou. Aconchegou a morta aos lençóis. Beijou-lhe a testa de mármore. Pegou na enxada e na candeia e voltou lá para fora, pisando à passagem as sobras das unhas, espalhadas pelo chão, que ao estalar mais se assemelhavam a um cemitério de dedos.
O coveiro transpôs a soleira. Desceu três degraus. Deu trinta e nove passos em direcção aos ciprestes. Parou junto do caixão que, aberto, violado e oco, mimetizava a profundidade da noite.


H

O coveiro subiu três degraus e pisou a soleira.
Os cabelos longos e negros da morta cresciam ainda, alimentados pelos ossos, varrendo o chão de todas as impurezas que lhe insultavam o andar.
Com a morta nos braços, o coveiro abriu o mais que pode os seus grandes olhos infectados. E quando finalmente a deitou sobre o lado virgem da cama, cobrindo metade da morte com um lençol velho e amarrotado, disse para si mesmo:
- Não posso coçá-los. Tenho comichão, mas não posso coçá-los. Se os coçar posso perdê-los.
Ainda vestido e calçado, deitou-se ao seu lado. Afogou-lhe os cabelos com a ponta dos dedos. Aproximou o nariz mal treinado para odores mais intímos a uma das axilas recém-barbeadas da morta. Os seios destapados, gelados e duros, relampejavam no escuro como duas laranjas cobertas de geada. E foi nesse preciso instante - enquanto cheirava o doce e fixava as laranjas - que uma sensação já esquecida e apressada começou a possuir-lhe todo o corpo: ela estava nua, dura, e indefesa ao seu lado; ao contrário, o sangue do coveiro, fervente, revolto e espesso, mostrava-se vivo e confluía todo num trânsito desordenado, a uma só voz, em direcção à mesma artéria, para inflamar o mesmo músculo.
Com uma enorme erecção dentro das calças o coveiro constatou:
-É isto afinal o mundo.
Sandro William Junqueira

3 comentários:

gajomailindo disse...

sem céu

Nunovsky disse...

É isto afinal a vida, que normalmente só se encontra quando se está tão perto da morte.
Resta saber de onde veio tal excitação:
Do sentimento de poder sobre o corpo abandonado? Da confluência de interditos que as fronteiras entre vivo/morto, erotismo/perversão tecem?

Nunovsky disse...

Já agora, pelo sumo que se tirou, se calhar ainda havia aí algum limãozito...