nova edição...


Enquanto narra e documenta a vida e as vicissitudes de quatro judeus expulsos das suas terras - e num tempo em que se cultiva o esquecimento -, W. G. Sebald reaviva a memória de um período da História recente europeia, cujos acontecimentos determinaram dramaticamente o destino individual. Mas, se por um lado "Os Emigrantes", é uma evocação do exílio e da perda, por outro, é também a de um tempo reencontrado, nas viagens que esses homens empreenderam - no imo e no Mundo - em busca de si e de um lugar para viver, e o seu triunfo sobre a dor da separação e da morte. Deambulando entre a realidade e a fantasia, a investigação e a ficção, W. G. Sebald segue e relata estas figuras em profundidade e detalhe, na sua prosa atmosférica, evanescente, magnífica.

W. G. Sebald "Os Emigrantes" quetzal, 2013

brevemente...


O livro perdido de William S. Burroughs, o livro perdido de Kerouac, o livro que permaneceu inédito durante mais de 60 anos e se tornou uma lenda.A história verídica de um crime, mas também uma notável perspectiva sobre as vidas e o desenvolvimento literário destes dois grandes escritores.«O assassínio que deu origem aos Beats» tornou-se uma história muitas vezes contada, mas não foi a morte de Kammerer que embalou o berço dos Beats; foi a força vital, intelectual e sexual do adolescente Lucien Carr, alimentado por Kammerer desde a puberdade numa dieta rica em excessos poéticos: o sopro divino de Baudelaire; os "actes gratuits" de Gide; e a ligação apaixonada entre Verlaine e Rimbaud. E depois Dave e Lucien caíram na loucura, representando esses papéis malditos nas suas próprias vidas.Em "E os Hipopótamos Cozeram nos seus Tanques", Jack e Bill retrataram um caso trágico de uma relação mentor/discípulo que correu mal e a natural crueldade da juventude. No entanto, a dificuldade ficcional [neste romance] estava em que a morte de Kammerer não foi o termo de uma história, mas o começo de uma outra. Com Kammerer morto e Carr preso, restavam três: Burroughs Kerouac, e Ginsberg... E embora nenhum deles tenha visto a sua obra publicada na década que se seguiu à morte de David, foram eles que o destino quis ver reconhecidos, literariamente e não só.” 

William S. Burroughs & Jack Kerouac "e os hipopótamos cozeram nos seus tanques" quetzal, 2013

23 Julho 1985


não tenho qualquer disponibilidade para o mundo. percorro lugares insuspeitos dentro de mim, estou cada vez mais só e já não me lamento. a vida deixou de me embriagar. paciência. nenhum fascínio pela morte. escrever talvez seja o espaço habitual entre vida e morte. aí me mantenho, aí me vou consumindo e sobrevivendo nessa espécie de limbo.

Al Berto, in "diários" assírio & alvim, 2012

muito brevemente na sistema solar...


No dia 19 de Novembro de 1942, dirigia-se Bruno Schulz (1892-1942) para o ghetto quando percebeu que estava a ser perseguido por um grupo de SSs. Como reacção pôs-se em fuga, um bom pretexto para ser alvejado. Foi abatido com dois tiros na nuca; e o advogado Izydor Friedman, que presenciou a cena, garantiu mais tarde que esses dois tiros tinham sido dados por Günther. E também são seus estes pormenores: «Quando anoiteceu fui procurar o cadáver. Despejei-lhe os bolsos. Todos os documentos e papéis que lá encontrei foram entregues a Zygmunt Hoffman, que viria pouco depois a morrer. De madrugada fui enterrar o Bruno no cemitério judaico.» [...] Em 1960, o crítico polaco Arthur Sandauer revelou a editores franceses e alemães um escritor do seu país que Cracóvia acabava de voltar a pôr à disposição do público com As Lojas de Canela (aqui numa tradução feita a partir dos seus textos francês e inglês). Desde logo houve a precipitação de ser comparado com Kafka. Estavam confundidos no que parecia uma mesma tradição bíblica e nos mitos que ela alimenta; e até acontecia que a metamorfose em insecto de Gregor Samsa era repetida em Jakub, o Pai das histórias de Schulz. Eram no entanto separados por algo de mais fun- damental: ao asceticismo de Kafka opunha-se a sensualidade de Schulz; à secura estilística de Kafka a exuberância verbal de Schulz, o delírio de um amante das palavras que a todo o momento travavam batalha dura para as dominar. Tinha sido preciso esse meio século para o autor de uma tão brilhante singularidade literária começar a ser reconhecido como nome central da literatura polaca, para o autor de tão belos desenhos, com Vénus à Masoch e homens hu- milhados, alimentar álbuns e surgir em exposições públicas que mostravam o melhor do seu nunca concluído Livro Idólatra.

Bruno Schulz "As lojas de canela" sistema solar, 2012
trad e intro. Aníbal Fernandes


O escritor Henry James (1843-1916) prolongou-se numa obra literária de 135 títulos publicados entre 1864 e 1917 (na sua maior parte com o texto posteriormente revisto pelo autor) e coleccionados nos 24 volumes de The Novels and Tales of Henry James da New York Edition de 1917. Reconhecido com parcimónia pela crítica e pelo público do seu tempo, prejudicado pela fama de escritor difícil e com histórias de acção mínima espalhada por um grande número de páginas, depois da sua morte passou por um esquecimento quase absoluto até à «redescoberta» que o mantém hoje como grande referência na literatura em língua inglesa do final do século XIX. O reaparecimento deste gigante foi desde logo celebrado por T.S. Eliot e Ezra Pound; foi tema de um emocionado poema de W.H. Auden: «Oh, severo procônsul de indóceis províncias / Oh, poeta da dificuldade, querido artista consagrado», são dois dos seus versos; sugeriu ao narrador de The Green Hills of Africa (a conhecida novela de Ernest Hemingway) a sua inclusão entre os maiores escritores da América, ali associado a Stephen Crane e Mark Twain. [...] Este poet of the difficult celebrado por Auden  o que afastava leitores das suas ficções mais extensas  fazia-se mais acessível quando o número de palavras aceite por jornais e revistas o constrangia à disciplina da história não diluída naquela onda larga, a que melhor servia e mais brilho dava, de resto, à sua experiência formal. James também sabia levar a bom termo um esforço de contenção que atingia com poucas páginas o que ele chamava the real thing (a coisa autêntica)  título, aliás, de um destes textos, e considerava objectivo central em toda a exposição literária. Cerca de 80 ficções dominadas por esta economia surgiram nas suas Obras Completas de Nova Iorque. Há nas ficções curtas de James bastantes surpresas ligadas à sua arte de saber insinuar conteúdos latentes sob outros explícitos, de ultrapassar as evidências do visível, de nos obrigar a descobrir qual é the figure of the carpet (o nunca descrito desenho do tapete). O Mentiroso é uma das suas pequenas novelas menos conhecidas e, apesar disso, dominada por uma cintilante singularidade.

Henry James "O mentiroso" sistema solar, 2012
trad. e intro. Aníbal Fernandes


Em As Lágrimas de Eros, que ficou como seu último texto publicado em vida (1961), Bataille reafirma em mais extenso o que já estava lateralmente enunciado por textos anteriores. Uma frase de «La Signification de l’Érotisme» como que se fez pré-anúncio do programa dos seus capítulos: «Desde o berço até à morte, a sexualidade é base de uma agitação que o ingénuo pensamento comum, imbuído de idealismo, conhece mal»; em «Genèse» deixou registado o que poderia ser seu sumário: «O erotismo é um abismo. Querer iluminar-lhe a profundidade exige ao mesmo tempo grande vontade e uma lucidez tranquila, a consciência de tudo o que uma intenção tão contrária ao senso geral põe em causa; ele é, de facto, o mais horrível e também o mais sagrado»; em «La Souveraineté» referiu-se ao carácter, indissociável do comportamento erótico da humanidade, que é também central nesta sua exposição: «As proibições mantêm o mundo organizado pelo trabalho e, possivelmente, até onde podem fazê-lo  ao abrigo da perturbação que a morte e a sexualidade imparavelmente lhe introduzem: esta animalidade em nós perdurável e, podemos acrescentar, constantemente introduzida pela vida e pela natureza que são como uma lama de onde saímos». Recorrência e confirmação, que sempre lhe foram caras, de «já tudo ter estado em tudo», sucessivas lâminas numa obra que se completa, rediz e a todo o momento reconstrói.

Georges Bataille "As lágrimas de Eros" sistema solar, 2012
trad. e intro. Aníbal Fernandes



Contaram-me que as letras descansam de lado, nas páginas macias dos livros antigos. Outros, afirmam que os textos mudam ao sabor das edições; nenhuma se compara à leitura inicial.
Há ainda quem me confidencie que recebe os livros de braços abertos, às vezes até com as pernas, e dou por mim a olhar para as lombadas que me rodeiam; a senti-las latejar como um animal magnifico, alheio a interpretações domesticas.
Se estender a mão, sei que o irei acordar; prefiro entreter-me a escrever este texto, onde as letras ainda são verticais e se estampam no papel, como uma mancha de tinta, uma ave suicida, um eco sem som.


Jorge Fallorca, in "O livro do fim" 2012, edição do autor

Manuel António Pina 1943 - 2012



TANTO SILÊNCIO

Para cá de mim e para lá de mim, antes e depois.
E entre mim eu, isto é, palavras,
formas indecisas
procurando um eixo que
lhes dê peso, um sentido capaz de conter
a sua inocência
uma voz (uma palavra) a que se prender
antes de se despedaçarem
contra tanto silêncio.
São elas, as tuas palavras, quem diz "eu";
se tiveres ouvidos suficientemente privados
podes escutar o seu coração 
pulsando sob a palavra da tua existência,
entre o para cá de ti e o para lá de ti.
Tu és aquilo que as tuas palavras ouvem, 
ouves o teu coração (as tuas palavras "o teu coração")?

Manuel António Pina in. "Os livros" assirio & alvim, 2003

em Novembro na quetzal


David Foster Wallace "a piada infinita" quetzal, 2012


Dave Eggers "uma obra enternecedora de assombroso génio" quetzal, 2012

O primeiro e mítico romance de Ann Beattie é um retrato cheio de ironia do desencanto que invadiu a sociedade norte-americana depois da ressaca "hippie". A história gravita em torno de Charles, um jovem loucamente apaixonado por Laura, uma mulher casada; do melhor amigo Sam, um desempregado crónico; de Pamela, a ex-namorada lésbica; de Clara, a mãe hipocondríaca que passa a vida deprimida na banheira; de Pete, o padrasto, um homem bondoso e inseguro; e de Susan, a irmã, uma estudante universitária disposta a casar-se por mero conformismo. Com as vidas destas personagens em primeiro plano e fazendo múltiplas alusões à música "pop", ao cinema e a outros elementos da cultura popular, Beattie trata de temas tão universais como o amor não correspondido, a insatisfação laboral ou as relações familiares.

Ann Beattie "postais de inverno" ahab, 2012
trad. Rui Pires Cabral 

ISTO É O MEU CORPO

O corpo tem degraus, todos eles inclinados
milhares de lembranças do que lhe aconteceu
tem filiação, geometria
um desabamento que começa do avesso
e formas que ninguém ouve

O corpo nunca é o mesmo
ainda quando se repete:
de onde vem este braço que toca no outro,
de onde vêm estas pernas entrelaçadas
como alcanço este pé que coloco adiante?

Não aprendo com o corpo a levantar-me,
aprendo a cair e a perguntar.


José Tolentino Mendonça, in "Estação Central" assírio & alvim, 2012

Em «A Poesia do Pensamento», George Steiner apresenta-nos uma profunda análise da relação entre a filosofia ocidental e a sua linguagem. De forma precisa e pormenorizada, Steiner analisa mais de dois milénios de cultura ocidental, entrelaçando filosofia e literatura. O resultado evidencia que em toda a filosofia existe literatura oculta. Steiner acredita que «o génio poético do pensamento abstracto se ilumina, se torna audível. O próprio raciocínio analítico tem o seu ritmo percussivo. Torna-se ode. Haverá melhor expressão dos andamentos finais da Fenomenologia de Hegel do que o non, rien de rien de Edith Piaf, uma dupla negação que Hegel teria apreciado? Este ensaio é uma tentativa de escutar melhor», um esforço do autor para integrar tudo o que até hoje escreveu sobre cultura.

George Steiner "A Poesia do Pensamento – do Helenismo a Celan" relógio d'água, 2012
trad. Miguel Serras Pereira

bom fim de semana...

brevemente na sistema solar


«Neste continente, e com gente civilizada de um século XX quase a meio, houve campos de concentração. Berlim sonhava uma Europa ariana e de supremacia germânica num espaço geográfico onde viviam nove milhões de judeus, todos a mais. Em 1903, quando Irma Irina nasceu em Kiev, a família Nemirowsky (com um nome forte na alta finança do país) falava sobretudo francês. O seu pai Leonid chamava-lhe «ma petite», dava-lhe a companhia e as lições de uma preceptora francesa, e nas histórias da sua infância a Gata Borralheira apareceu-lhe como Cendrillon, e a CapuchinhoVermelho como Petit Chaperon Rouge. No romance «David Golder» o judeu sabe que deve sempre "recomeçar" e muitas vezes terá, talvez, de fazê-lo. Leonid estava a "recomeçar", e poucos anos mais tarde voltaria a ser um abastado banqueiro; passaria a ser «monsieur» Léon, a sua mulher Anna passaria a ser «madame» Fanny, e Irma Irina, claro está, «mademoiselle» Irene; continuavam a comunicar uns com os outros em francês, como já antes faziam, mas agora no país certo; e adquiriam os costumes e os comportamentos da alta burguesia de Paris. Irene frequentava a Sorbonne num curso de letras, e uma conceituada escola de dança. No dia 17 de Julho de 1942, Irene Nemirowsky [1903-1942] estava entre os 928 judeus metidos em vagões para transporte de gado, com palha no chão e um balde com água, num comboio que durante três dias e duas noites atravessou a França, a Alemanha e a Polónia até Auschwitz. Chegadas ao destino, as mulheres foram separadas dos homens, entregaram jóias e alianças de casamento, foram rapadas, tomaram um banho de chuveiro com água fria e vestiram batas às riscas. No dia seguinte tiveram um número tatuado no pulso. Irene Nemirowsky só viveu trinta dias em Auschwitz; não chegou a esqueleto vivo nem à câmara de gás; morreu, atingida pela epidemia de tifo que nesse momento matava piedosamente os residentes do campo.» (A.F.)

Irène Némirovsky "David Golder" sistema solar, 2012
trad. Aníbal Fernandes

Não tenho planos, nem promessas, nem
filhos que nos convidem para almoços
de domingo – a minha ideia de família
resume-se a um retrato velho preso numa
gaveta; e do amor possível sei tão-só

o que li nos romances que nos salvaram
da desordem quando o meu tempo
andava de ferida em cicatriz. Mas guardo
ainda muitos por estrear para essa estante

que ergueste no corredor como uma casa
nova. Trago portas abertas no coração:

se ainda não sabias, és muito bem vindo.



Vamos ser velhos ao sol nos degraus
da casa; abrir a porta empenada de
tantos Invernos e ver o frio soçobrar
no carvão das ruas; espreitar a horta
que o vizinho anda a tricotar e o vento
lhe desmancha de pirraça; deixar a

chaleira negra em redor do fogão para
um chá que nunca sabemos quando
será – porque a vida dos velhos é curta,
mas imensa; dizer as mesmas coisas
muitas vezes – por sermos velhos e por
serem verdade. Eu não quero ser velha

sozinha, mesmo ao sol, nem quero que
sejas velho com mais ninguém. Vamos
ser velhos juntos nos degraus da casa –

se a chaleira apitar, sossega, vou lá eu; não
atravesses a rua por uma sombra amiga,
trago-te o chá e um chapéu quando voltar.


Maria do Rosário Pedreira, in "poesia reunida" quetzal, 2012

Neste abençoado país, todos os políticos têm imenso talento. A oposição confessa sempre que os ministros, que ela cobre de injurias, têm, à parte os disparates que fazem, um talento de primeira ordem! Por outro lado, a maioria admite que a oposição, a quem ela constantemente recrimina pelos disparates que fez, está cheia de robustíssimos talentos! De resto, todo o mundo concorda que o país é uma choldra. E resulta, portanto, este facto supracómico: um país governado com imenso talento que é de todos na Europa, segundo o consenso unânime, o mais estupidamente governado! Eu proponho isto, a ver: que, como os talentos sempre falham, se experimentem uma vez os imbecis!

Eça de Queirós, in "Os Maias" livros do brasil, 2001

nova edição...


Austelitz é uma narrativa notável, tão curiosa quanto despretensiosa, que nos dá a conhecer Jacques Austerlitz, numa espécie de monólogo meditativo interior, ao longo de um passeio pelas costas de East Anglia.
Com este retrato comovente de um emigrante em busca das suas origens, Sebald descreve um universo peculiar, se bem que reconhecível, que resulta do encontro entre a história pessoal e as particularidades do passeio; tendo a grandeza de tocar questões fundamentais como o tempo, a memória e a experiência humana.

W.G. Sebald "Austerlitz" quetzal, 2012
trad. Telma Costa

o que aí vem da relógio d'água...



Setembro

Contos Escolhidos, de Carson McCullers
A Travessia, de Cormac McCarthy
A Poesia do Pensamento, de George Steiner
O Próximo Outono, de João Miguel Fernandes Jorge, com gravuras de Pedro Calapez
A Trombeta do Anjo Vingador, de Dalton Trevisan
O Vampiro de Curitiba, de Dalton Trevisan, com prefácio de J. Rentes de Carvalho


Outubro

Anjos, de Denis Johnson
A Rapariga sem Carne, de Jaime Rocha
Migalhas Filosóficas, de Soren Kierkegaard
Ada ou Ardor, de Vladimir Nabokov
Uma Antologia Improvável – A Escrita das Mulheres (1500-1830), com organização de Vanda Anastácio


Novembro

As Nuvens e o Vaso Sagrado, de Maria Filomena Molder
Os Cães e os Lobos, de Irène Némirovsky
O Poder do Pensamento, de Giorgio Agamben
Nos Trópicos sem Le Corbusier, de Ana Vaz Milheiro
Plataforma, de Michel Houellebecq
Henrique IV (Parte I) e Henrique IV (Parte II), de William Shakespeare
Riso na Escuridão, de Vladimir Nabokov



Dezembro

Ulisses, de James Joyce
Guerra e Paz, de Lev Tolstoi

brevemente na sistema solar...


Escrito com o português de Camilo Castelo Branco. «O livro é precioso porque é verdadeiro; é excelente, porque é bem escrito; é útil, porque encerra uma lição. Quem escreveu este livro?
Não o dizem as apreciações dos periódicos, nem os catálogos das livrarias. O livro é lido com espanto e talvez com lágrimas; ao passo que o autor, que tão cuidadosamente se ocultou, deve ter tido misteriosas e fortíssimas razões para esquivar-se à glória de haver escrito um livro tão precioso na forma quanto virtualmente útil. Transpira a verdade do contexto do romance, posto que a espaços a simpleza natural das coisas é estofada em pompas demasiadas da linguagem. Isso, porém, não desdoura, antes redobra o quilate da obra para quem se deixa de bom grado cativar e levar nas asas da dolorosa poesia que voeja por alto. O que os bons espíritos hão-de ver nesta pungente narrativa é a substância de tal e tamanho flagício praticado entre 1841 a 1868, neste tempo, em nossos dias! A crítica ilustrada estremará da religião divina, que ensinou Jesus, a protérvia dos sacrílegos que se abonam com ela, e lhe vão apagando as luzes para que as trevas da Idade Média se condensem e envolvam as instituições não carimbadas pela chancela pontifical. [...] O tradutor abstém-se de indicar as passagens realçadas de maiores belezas, porque lá está o claro entendimento de quem lê para as distinguir; e seria também desacordo antecipá-las, prejudicando o tal qual prazer do imprevisto.» (Da «Advertência do Tradutor»)



A história de Tristão e Isolda - os estranhos imortais do amor que constroem a sua tragédia sob as fatalidades de um sentimento imposto por artes da magia céltica, a paixão contra a qual os costumes e as leis são impotentes - mostrava-se como alternativa às sublimes lentidões de Wagner, e veloz, e empolgante, e obediente a todo o saber que faz a eficiência dos contos repetidos pela tradição oral. A lenda de Tristão e Isolda chegava ao êxito editorial e era confirmada no amor-símbolo, na sua intensidade inultrapassável, a que El-Rei Dom Dinis ousou ainda assim em versos desafiar: «o mui namorado Tristan sey ben que non amou Iseu quant?eu vos amo.»
«Joseph Bédier [1864-1938] tinha sabido seduzir o grande público com uma história de ingenuidade selvagem, com uma prosa que evocava ao leitor francês a tradição de contar que ele conhecia em Perrault. E em 1938, quando uma inesperada e fulminante congestão cerebral o atingiu no seu retiro de Grand-Serre, no Drôme, soube-se pelos jornais que tinha morrido... aquele autor... que escrevia coisas importantes sobre a Idade Média, sem dúvida, mas era o renovador do romance de Tristão e Isolda que já festejava a sua centésima edição.» (A.F.)



«Élie Faure (1873-1937) um médico, mas sobretudo escritor que em jornais, revistas e livros pensava a arte, toda a arte, como "o grande mistério da transposição lírica", e os homens como "construtores" obscuros com um esforço colectivo ignorado, responsável pelo aparecimento dos espíritos superiores no mundo. [...] O texto «Paul Cézanne» é de 1914 e está entre os que dedicou a notáveis "construtores do mundo", ou seja, a autores de "um trabalho de organização esboçado numa sociedade destruída". São a esta luz significativas as considerações que a sua História propõe sobre o pintor: "Mesmo quando tenta compor, como nessas extraordinárias reuniões de personagens nuas onde fez o esforço, visivelmente obcecado pela memória de Poussin, de construir com inabilidade uma longa melodia sensual no meio do grande coro das árvores, do vasto céu, das águas correntes, mostra-se mesmo então livre de toda a espécie de intenção psicológica ou literária. E o seu clacissismo, essa necessidade de ordem e medida que desde a infância o perseguia, mesmo então se engana sobre o seu verdadeiro sentido. Ele provinciano, ele católico, está de acordo como ritmo secreto do seu século, é impelido em direcção ao organismo desconhecido, que hesita, por forças profundas das quais não tem mais consciência do que os pedreiros das últimas igrejas romanas perante uma nave que ia de repente saltar, aligeirar-se, alongar-se, planar como uma asa coma geração que ascendia." Joachim Gasquet (1873-1921) deixou na literatura francesa uma imagem quase esquecida de poeta lírico, tendo chegado a dizer-se que a mais forte desde Victor Hugo. [...] Só era um dia mais velho do que Élie Faure, mas os seus pulmões - roídos pelo gás clorídrico dos ataques químicos da primeira Guerra Mundial - reduziram-lhe a vida a quarenta e oito anos, os últimos passados numa luta sem êxito pela sobrevivência. [...] Embora Cézanne fosse amigo de infância do seu pai, Joachim só o conheceu em Abril de 1896 (o ano do retrato onde hoje o vemos, exposto na Galeria de Arte Moderna de Praga e com um aspecto difícil de associar aos vinte e três anos de idade que nessa altura ele tinha). Entre os dois houve um convívio intenso, os quatro anos de encontros e cartas que veremos reflectidos em «O Que Ele Me Disse...», aos quais outros se sucederam de relativo afastamento até ao desacordo político que em 1904 definitivamente os separou.» (A.F.)

http://blogue-documenta.blogspot.pt/

em setembro...



"Best-seller" internacional e obra pioneira, descreve a relação frágil que Alison Bechdel manteve com o pai ao longo da sua infância e adolescência. Na sua narrativa, a história íntima e pessoal de uma família transforma-se numa obra cheia de subtileza e poder.



Exigente e distante, Bruce Bechdel era professor de Inglês e dirigia uma casa funerária – a que Alison e a família chamavam, numa pequena piada privada, a «Fun Home». Só quando estava na universidade é que Alison, que recentemente admitira aos pais que era lésbica, descobriu que o pai era "gay". Umas semanas depois desta revelação, Bruce morreu, num suposto acidente, deixando à filha um legado de mistério, complexos e solidão. Alison Bechdel começou a escrever um diário aos dez anos de idade, e desde então tem registado assiduamente, com palavras e imagens, todos os acontecimentos da sua vida. Durante vinte e cinco anos, escreveu e ilustrou a tira de BD Dykes to Watch Out For, uma crónica geracional que é considerada um marco deste género. Para além da antologia The Essential Dykes to Watch Out For, publicada em 2008, Alison é autora da memória gráfica Are You My Mother? (2012). A sua obra é vastamente premiada e admirada em todo o mundo. Foi também editora da antologia Best American Comics de 2011. Os "comics" e ilustrações de Alison Bechdel são regularmente publicados em media de destaque como a Slate, a McSweeney’s, a New York Times Book Review e a Granta.



Alison Bechdel "fun home - Uma Tragicomédia Familiar " contraponto, 2012

brevemente...


Tomas Tranströmer "As minhas lembranças observam-me" sextante, 2012

AMIGOS MAÇADORES

Só conhecemos quatro pessoas maçadoras. O nossos outros amigos parecem-nos muito interessantes. Todavia, a maior parte dos amigos que achamos interessantes acham-nos maçadores: o mais interessante é o que nos acha mais maçadores. Desconfiamos dos poucos que adoptam de certo modo uma posição de meio-termo, com os quais partilhamos um interesse recíproco: sentimos que, a qualquer momento, poderão tornar-se demasiado interessantes para nós — ou nós, demasiado interessantes para eles.


UM HOMEM DO SEU PASSADO

Acho que a mãe anda a namorar com um homem do seu passado que não é o pai. Digo com os meus botões: a mãe não devia ter relações impróprias com este "Franz"! O "Franz" é europeu. Digo que ela não deveria encontrar-se com este homem de uma forma imprópria enquanto o pai está por fora! Mas estou a confundir uma velha realidade: o pai não volta para casa. Vai ficar no lar em Vernon Hall. Quanto à mãe, tem 94 anos. Como pode haver relações impróprias com uma mulher de 94 anos? No entanto, a minha confusão deve ser esta: embora o corpo dela seja velho, a sua capacidade de traição ainda é jovem e fresca.


Lydia Davis, in "Contos completos" relógio d'água, 2012
trad. Miguel Serras Pereira e Manuel Resende

Trazias no peito a ferrugem líquida dos relógios. Arrancava-te as horas como pregos. Depois ficávamos deitados a observar os animais brancos.

Não sabíamos nada. Não tínhamos nada.

Apenas soprávamos a cana da loucura — e tremíamos.


Vasco Gato, in "A prisão e paixão de Egon Schiele" & etc, 2005

Fala agora, antes que seja tarde, e depois espera continuar a falar até que não haja mais nada para dizer. Afinal de contas, o tempo está-se a esgotar. Talvez não seja pior pores de lado por agora as tuas histórias e tentares passar em revista o que foi para ti viver dentro deste corpo desde o primeiro dia de que tens memória de estar vivo até ao dia de hoje. Um catálogo de dados sensoriais. Aquilo a que se poderia chamar uma fenomenologia da respiração.

Paul Auster, in “diário de Inverno” asa, 2012
trad.Francisco Agarez

brevemente na quetzal...


A Herança Perdida reúne ensaios que o crítico James Wood foi publicando ao longo de vários anos em publicações tão prestigiadas como a New Republic. De Herman Melville a Philip Roth, de Virginia Woolf a Don DeLillo, Wood analisa as formas como nestes escritores a literatura funciona como uma espécie de religião. Regista igualmente o percurso inverso – a transformação da religião num género literário – levado a cabo por autores do século XIX como Matthew Arnold e Ernest Renan. A distinção entre a realidade e o realismo, os polémicos ensaios sobre George Steiner, John Updike e Julian Barnes, a profunda empatia da escrita que permite novas leituras de escritores consagrados são motivos suficientes para se aceder ao universo de James Wood.

James Wood "A herança perdida" quetzal, 2012



Neste primeiro volume de poesia reúnem-se os livros O Fervor de Buenos Aires, Lua Defronte, Caderno de San Martín.

Jorge Luis Borges "Obra poética vol I" quetzal, 2012


Situado em Berlim, no período que antecedeu a Segunda Guerra Mundial, este romance semiautobiográfico combina ficção e factos no relato das histórias – frequentemente pícaras – das extraordinárias personagens que animavam a efervescente cena boémia e artística daqueles anos: berlinenses e expatriados a viver no limite com a ameaça do terror político em pano de fundo.
O ponto de partida é o encontro fortuito, num comboio, do professor de inglês William Bradshaw com o ligeiramente sinistro Arthur Norris. Norris é um homem cheio de contradições: gastador, profundamente endividado, excessivamente cortês e depravado. Mas entre os dois vai desenvolver-se uma relação de amizade muito próxima.
Mister Norris Muda de Comboio articula-se com Adeus a Berlim (publicado pela Quetzal em 2011), num núcleo ficcional a que, dentro da obra de Isherwood, se convencionou chamar os romances de Berlim.

Christopher Isherwood "Mister Norris muda de comboio" quetzal, 2012