AMIGOS MAÇADORES

Só conhecemos quatro pessoas maçadoras. O nossos outros amigos parecem-nos muito interessantes. Todavia, a maior parte dos amigos que achamos interessantes acham-nos maçadores: o mais interessante é o que nos acha mais maçadores. Desconfiamos dos poucos que adoptam de certo modo uma posição de meio-termo, com os quais partilhamos um interesse recíproco: sentimos que, a qualquer momento, poderão tornar-se demasiado interessantes para nós — ou nós, demasiado interessantes para eles.


UM HOMEM DO SEU PASSADO

Acho que a mãe anda a namorar com um homem do seu passado que não é o pai. Digo com os meus botões: a mãe não devia ter relações impróprias com este "Franz"! O "Franz" é europeu. Digo que ela não deveria encontrar-se com este homem de uma forma imprópria enquanto o pai está por fora! Mas estou a confundir uma velha realidade: o pai não volta para casa. Vai ficar no lar em Vernon Hall. Quanto à mãe, tem 94 anos. Como pode haver relações impróprias com uma mulher de 94 anos? No entanto, a minha confusão deve ser esta: embora o corpo dela seja velho, a sua capacidade de traição ainda é jovem e fresca.


Lydia Davis, in "Contos completos" relógio d'água, 2012
trad. Miguel Serras Pereira e Manuel Resende

Trazias no peito a ferrugem líquida dos relógios. Arrancava-te as horas como pregos. Depois ficávamos deitados a observar os animais brancos.

Não sabíamos nada. Não tínhamos nada.

Apenas soprávamos a cana da loucura — e tremíamos.


Vasco Gato, in "A prisão e paixão de Egon Schiele" & etc, 2005

Fala agora, antes que seja tarde, e depois espera continuar a falar até que não haja mais nada para dizer. Afinal de contas, o tempo está-se a esgotar. Talvez não seja pior pores de lado por agora as tuas histórias e tentares passar em revista o que foi para ti viver dentro deste corpo desde o primeiro dia de que tens memória de estar vivo até ao dia de hoje. Um catálogo de dados sensoriais. Aquilo a que se poderia chamar uma fenomenologia da respiração.

Paul Auster, in “diário de Inverno” asa, 2012
trad.Francisco Agarez

brevemente na quetzal...


A Herança Perdida reúne ensaios que o crítico James Wood foi publicando ao longo de vários anos em publicações tão prestigiadas como a New Republic. De Herman Melville a Philip Roth, de Virginia Woolf a Don DeLillo, Wood analisa as formas como nestes escritores a literatura funciona como uma espécie de religião. Regista igualmente o percurso inverso – a transformação da religião num género literário – levado a cabo por autores do século XIX como Matthew Arnold e Ernest Renan. A distinção entre a realidade e o realismo, os polémicos ensaios sobre George Steiner, John Updike e Julian Barnes, a profunda empatia da escrita que permite novas leituras de escritores consagrados são motivos suficientes para se aceder ao universo de James Wood.

James Wood "A herança perdida" quetzal, 2012



Neste primeiro volume de poesia reúnem-se os livros O Fervor de Buenos Aires, Lua Defronte, Caderno de San Martín.

Jorge Luis Borges "Obra poética vol I" quetzal, 2012


Situado em Berlim, no período que antecedeu a Segunda Guerra Mundial, este romance semiautobiográfico combina ficção e factos no relato das histórias – frequentemente pícaras – das extraordinárias personagens que animavam a efervescente cena boémia e artística daqueles anos: berlinenses e expatriados a viver no limite com a ameaça do terror político em pano de fundo.
O ponto de partida é o encontro fortuito, num comboio, do professor de inglês William Bradshaw com o ligeiramente sinistro Arthur Norris. Norris é um homem cheio de contradições: gastador, profundamente endividado, excessivamente cortês e depravado. Mas entre os dois vai desenvolver-se uma relação de amizade muito próxima.
Mister Norris Muda de Comboio articula-se com Adeus a Berlim (publicado pela Quetzal em 2011), num núcleo ficcional a que, dentro da obra de Isherwood, se convencionou chamar os romances de Berlim.

Christopher Isherwood "Mister Norris muda de comboio" quetzal, 2012



i saw a bird today
she smiled to me and flew away
i saw a plane today
i missed my flight now where am i to stay

maybe you're the sun day
im the monday to the friday
show me where you fly away

tell me where to find you
tell me to when to miss you
show me where to fly away

look at the clouds
they make me dream of you
so tell me where does the sky begin
because i can see the other side
can't you see me too?
can't you see them too?

agenda...


Revista LER prepara o seu primeiro festival

Ler 25 Anos — 25 Filmes
Cinema São Jorge
4 a 9 de dezembro de 2012


O pretexto não podia ser melhor. Para celebrar os seus 25 anos, a revista LER prepara o seu primeiro festival: seis dias de cruzamentos entre cinema e literatura, numa parceria com a EGEAC e a Câmara Municipal de Lisboa.
De 4 a 9 de dezembro, as portas do Cinema São Jorge, em Lisboa, estarão abertas para a exibição de 25 filmes — seleção de Pedro Mexia —, debates, concertos, entrevistas, conferências, exposições, programas de rádio, contadores de histórias, entre outras propostas.
Mais detalhes sobre a programação do festival serão anunciados em Setembro.


que faria sem este mundo sem rosto sem perguntas
onde ser dura apenas um instante onde cada instante
verte para o vazio o esquecimento de ter sido
sem esta onda onde no final
corpo e sombra juntos se devoram
que faria sem este silêncio sorvedouro dos murmúrios
que anelam frenéticos por socorro por amor
sem este céu que se ergue
sobre a poeira do seu lastro

que faria o que fiz ontem o que fiz hoje
espreitar do meu postigo para ver se não estou só
a dar voltas e voltas longe de toda a vida
num espaço fantoche
sem voz no meio das vozes
encerradas comigo


Samuel Beckett

[in Relâmpago, revista de Poesia nº 13, Outubro de 2003]
trad. Manuel Portela

The Valleys by Electrelane on Grooveshark

Gerrit Komrij 1944-2012


A TERCEIRA PAISAGEM

Quando num tacho em varanda abrigada
Floria o aloendro, era uma festa.
Agora que tens ao sol do Sul morada,
De plátano e carvalho o sonho resta.

Com a ventura, assim, sempre a fugir,
Andar de cá para lá fez-se preciso,
Que as árvores todas poder reunir
Só num local chamado paraíso —

O sítio onde estarias deslocado.
Porque pousar um pé que fosse aí
Era o fim da cantiga mais certeiro.

Antes assim. Sem o carvalho em ti,
Escapava-te o milagre do pinheiro:
Ter numa agulha a folha por inteiro.

Gerrit Komrij, in "Contrabando — uma antologia poética" assírio & alvim, 2005
trad. Fernando Venâncio

brevemente...


Albert Londres (1884-1932) era o jornalista intrépido, o jornalista «literário», aquele que fizera a França embaraçar-se com a sua Guiana, o seu Biribi, os seus asilos psiquiátricos. Vinte anos depois, o jornal anarquista "Libertaire" soube defini-lo com esta evidência: «Na sua carreira não isenta de quixotismo procurar-se-ia em vão uma reverência ao dinheiro, uma deferência para com os que governam ou financiam, a docilidade perante as ordens e as recomendações, a aceitação dos factos consumados e dos poderes estabelecidos, a fuga perante as responsabilidades.»

Aníbal Fernandes

Albert Londres "Com os Loucos" sistema solar, 2012
trad. Aníbal Fernandes

CASAMENTO: Cerimónia na qual duas pessoas passam a ser uma, uma passa a ser nada e nada passa a ser sustentável.

Ambrose Bierce, in "dicionário do diabo" tinta da china, 2006
trad. Rui Lopes

brevemente...


George Steiner «A Poesia do Pensamento – do Helenismo a Celan» relógio d'água, 2012
trad. Miguel Serras Pereira

uma boa notícia...


«A primeira crise de esterilidade literária de Jean Genet (1910-1986) - sete anos vazios entre "Le Journal du Voleur" (1949) e a peça de teatro "Le Balcon" (1956) - sucede a um período fértil, medido por outros sete anos. De facto, a um poema feito no cárcere em 1942 - "Le Condamné à Mort" - primeiro anúncio de um grande poeta e de um magnífico transtorno de valores morais desde logo mitificado com a história de uma aposta entre reclusos que lhe estaria na origem, seguiu-se em 1944 o romance "Notre-Dame-des-Fleurs" (para o qual teve Cocteau de «inventar» uma editora situada em Monte Carlo, anónima, "aux dépens d?un amateur"), e depois "Miracle de la Rose" em 1946, "Querelle de Brest" e "Pompes Funèbres" em 1947, e ainda "Poèmes" em 1948 e "Journal du Voleur" em 1949, quase tudo o que, somado ao seu futuro teatro, nos faz arriscar uma palavra assustadora - génio - para não explicar de todo que aprendizagem (feita onde?, com quem?, para quê?) levou àquela escrita que uma faca, empunhada por um filho de pai incógnito e com uma memória magoada por acusações de roubo, assistências públicas e casas de correcção - obrigada a sonhar-se com delinquências vagabundas em marselhas e barcelonas - riscava com luxo para ferir a literatura e pô-la ao serviço de uma recusa de tudo o que afectasse positivamente a moral burguesa. Com estas histórias de exemplo em subversão pôde perceber-se que "uma função da arte" - viria ele próprio a dizê-lo assim, textualmente - "é substituir a fé religiosa pela eficácia da beleza"; e que esta beleza deve ter, pelo menos, "a força de um poema, quer dizer, de um crime"; e que aos seus livros tecidos com magnificênciaverbal ("a minha vitória é verbal", avisaria também, "e devo-a à sumptuosidade das palavras") caberia o papel de servir aquela beleza, e servi-la tão bem que ficassem irrecusáveis de sedução os espelhos onde ela se reflecte, e mesmo que a imagem reflectida confrontasse uma inversão ética do próprio leitor.»

Aníbal Fernandes

Jean Genet "No sentido da noite" sistema solar, 2012
trad. Aníbal Fernandes

6 de julho...


Enric González apaixonou-se por Londres muito antes de a conhecer. Munido de um plano de singular inconsistência, decidiu ir para Inglaterra viver do ar. E conseguiu. Por sorte, pôde viver também de um salário de jornalista, o qual melhorou consideravelmente o seu sustento. O jornalismo e algumas circunstâncias inesperadas permitiram‑lhe conhecer dezenas de personagens fascinantes e os lugares mais recônditos de uma cidade maravilhosa: do palácio de Buckingham e do Parlamento às vielas de Whitechapel, aos antigos estádios de futebol ou aos túneis subterrâneos. Este livro é um guia pessoal para descobrir o espírito londrino. Quando foi escrito o seu autor estava já noutro país e isso implica uma certa dose de nostalgia, pudicamente coberta de ironia. Houve outras cidades depois, e outras paixões, mas não há amor como o primeiro. E não há cidade como Londres.

Enric González "Histórias de Londres" tinta da china, 2012
trad. Carlos Vaz Marques

E SE DEPOIS DE TANTAS PALAVRAS

E se depois de tantas palavras,
não sobrevive a palavra!
Se depois das asas dos pássaros,
não sobrevive o pássaro parado!
Mais valeria, na verdade,
que coma tudo e acabemos!

Ter nascido para viver na nossa morte!
Levantar-se do céu rumo à terra
por seus próprios desastres
e espiar o momento de apagar com a sua sombra as suas trevas!
Mas valeria, francamente,
que comam tudo e tanto faz!…

E se depois de tanta história, sucumbirmos,
não já na eternidade,
mas dessas coisas simples, como estar
em casa ou pôr-se a matutar!
E se em seguida descobrirmos,
subitamente, que vivemos,
a avaliar pela altura dos astros,
pelo pente e as nódoas do lenço!
Mais valeria, na verdade,
que comam tudo, sem dúvida!

Dir-se-á que temos
num dos olhos muita pena
e também no outro muita pena
e nos dois, quando olham, muita pena…
Então… Claro!… Então… nem uma só palavra!


César Vallejo, in "Antologia Poética" relógio d'água, 1992
trad. José Bento

13 de Julho nas Livrarias...


Bruce Chatwin é um dos mais notáveis escritores britânicos dos nossos tempos, quer no romance, quer na literatura de viagem. Os seus livros tornaram-se clássicos contemporâneos e desafiam qualquer tipo de categorização: assimilam elementos de ficção, de ensaio, de reportagem, de história, de mexerico, e são inspirados ao mesmo tempo que espelham as suas incríveis viagens. Tragicamente, a sua voz narrativa foi interrompida no momento em que a encontrou. Um mês antes da sua morte, Chatwin lamentava-se: “Há tantas coisas que quero fazer.” “Bruce tinha acabado de começar” - diria o seu amigo Salman Rushdie - “Só vimos o primeiro ato.”
Chatwin deixou um conjunto de escritos de uma frescura avassaladora, que nos permitem regressar ao seu universo: um legado de cartas e postais que escreveu à família e aos amigos ao longo da sua curta vida. "Debaixo do Sol" revela mais de si do que ele quis mostrar nos seus livros: o seu património; as suas finanças; as suas ambições e preferências literárias; os seus gostos; o desassossego quanto à sua orientação sexual; a procura constante do lugar certo para viver – uma súmula vívida da variedade dos seus interesses e preocupações, um registo altamente revelador de um dos maiores e mais enigmáticos escritores do século XX.

Bruce Chatwin "Debaixo do sol" quetzal, 2012
Diane Arbus [ Susan Sontag ] 1965

"A princípio será o Sono. Animal profundamente adormecido, morna e tranquila massa misteriosamente isolada, area fechada e cheia de vida que transportas para o dia a minha história e o meu possível, ignoras-me, conservas-me, és a minha permanência inexprimível: o teu tesouro é o meu segredo."

Paul Valéry, in "Alfabeto" iuc, 2012
trad. Cristina RObalo Cordeiro

nova edição...


Galego da província de Ourense, Benito Prada vem para Portugal ganhar a vida, deixando para trás os seus trabalhos e paixões: a casa pobre, o pai afiador, as poucas letras aprendidas na Meiga de Ventosela. Sendo uma obra de ficção não deixa ainda assim de abordar acontecimentos e personagens históricas da primeira metade do século XX, como a visita de Franco à Universidade de Coimbra para receber o título de Doutor honoris causa em Direito. Um livro vibrante escrito num português sumptuoso.

Fernando Assis Pacheco "Trabalhos e paixões de Benito Prada" assírio & alvim, 2012

em junho...


Os contos de Julio Ramón Ribeyro são um espelho da sua vida e do mundo em que viveu. A palavra do mudo dá voz àqueles que foram excluídos do festim da vida: seres anónimos, discretos, condenados a uma existência mediana e rodeada de solidão. Através de uma escrita límpida e genuína, Ribeyro transmite as aspirações, os sonhos e as angústias dos seus protagonistas. O presente volume recolhe alguns do contos mais representativos do génio de Ribeyro, entre eles Sílvio no Roseiral e o autobiográfico Só para fumadores, dois exemplos do seu inconfundível universo literário. Segundo o escritor Alfredo Bryce Echenique, estes dois textos bastariam para situar o autor entre os maiores expoentes da narrativa breve contemporânea.

Julio Ramon Ribeyro "a palavra do mudo" ahab, 2012

Kurt Vonnegut...


O doutor Felix Hoenikker, um dos «pais» da bomba atómica, deixou à humanidade um legado fatídico. Foi ele o inventor do gelo-nove, um químico letal capaz de congelar o mundo inteiro. As investigações de John, o escritor que está a preparar uma biografia de Felix, conduzem-no aos três excêntricos filhos do cientista, a uma ilha nas Caraíbas onde se pratica a religião bokononista e, mais tarde, ao amor e à loucura. Narrado com um humor desarmante e uma ironia amarga, este livro de culto acerca da destruição global é uma sátira hilariante e assustadora sobre o fim do mundo e a loucura dos homens.

Kurt Vonnegut "cama de gato" bertrand, 2012

brevemente...

O presente volume reúne toda a poesia de Daniel Faria e dá a conhecer ao público, pela primeira vez, treze poemas inéditos. A edição é de Vera Vouga, professora do poeta que acompanhou os seus primeiros passos literários.

Daniel Faria "Poesia" assírio & alvim, 2012

leitura recomendada...


A obra foi escrita para satisfazer uma encomenda do livreiro René Hilsum para que Paul Valéry escrevesse 24 poemas em prosa cuja inicial fosse cada uma das letras do alfabeto, retirando desse "alfabeto" o K e o W por serem raras as palavras francesas com essas iniciais. Valéry aproveitou a ausência das duas letras para encaixar os seus textos nas 24 horas do dia, fazendo-as "corresponder a um estado e uma ocupação ou uma disposição da alma diferente".

Paul Valéry "alfabeto" iuc, 2012
trad. Cristina Robalo Cordeiro

em Junho na quetzal...


«É possível, num poema ou num conto, escrever sobre coisas e objetos quotidianos usando linguagem quotidiana mas precisa, e dotar essas coisas – uma cadeira, uma cortina, um garfo, uma pedra, os brincos de uma mulher – de um poder imenso, quase espantoso. É possível escrever uma linha de diálogo aparentemente inócuo e fazer com que essa linha provoque um arrepio na espinha do leitor – a fonte de deleite artístico, como queria Nabokov. É esse género de escrita que me interessa. Detesto escrita confusa ou aleatória, seja ela experimentação ou simplesmente realismo desastrado. No maravilhoso conto “Guy de Maupassant”, de Isaac Babel, o narrador tem o seguinte a dizer sobre a escrita de ficção: Nenhum ferro pode trespassar o coração com tanta força como um ponto final no lugar certo.”»

Raymond Carver "Fogos" quetzal, 2012
trad. João Tordo e João Luís Barreto Guimarães

SEGUNDO POEMA

Novamente manhã, nada que fazer, talvez comprar um piano ou fazer disparates.
Pelo menos limpar o quarto, para assegurar que como o meu pai sacudi a cinza & beatas ao pé da cama no chão.
Mas primeiro limpar os óculos e beber a água para lavar a boca mal-cheirosa.
Uma pancada na porta, entra uma gata, atrás dela o elefante bebé do Zoo exigindo panquecas ─ não suporto mais estas alucinações.
Tempo para outro cigarro e depois deixo subir as cortinas, reparo então que o lixo faz um carreiro até ao caixote.
Não frigorífico por isso uma toranja seca.
Haverá alguma coisa simples que eu possa fazer pelo meu quarto, talvez pintá-lo cor-de-rosa ou instalar um elevador do chão para a cama ou talvez tomar um banho na cama?
De que serve viver se não posso fazer paraíso no meu próprio quarto-país?
Porque esta gota de tempo nos meus olhos
como o sofrimento de uma estrela vermelha num cigarro
faz-me sentir que a vida trespassa mais depressa do que tesouras.
Sei que se pudesse fazer a barba as pulgas à volta do meu rosto desapareceriam para sempre.
Os buracos nos meus sapatos são só temporários, eu sei.
O meu tapete está sujo, mas de quem é que não está?
Há sempre um momento na vida em que toda a gente tem que fazer uma mija no lavadouro ─ aqui deixem-me pintar a janela de preto por um minuto.
Atirei um prato & parti-o por maldade ─ ou talvez só inocentemente o deixasse cair por acidente quando andava à volta da mesa.
Diante do espelho pareço um fantasma do Saara,
ou na cama pareço uma múmia chorosa oláando por ar,
ou à mesa sinto-me como Napoleão.
Mas agora a principal tarefa do dia ─ lavar a minha roupa interior ─ abusada dois meses ─ que diriam disto as formigas?
Como posso eu lavar a minha roupa ─ porque eu, eu, eu seria uma mulher se o fizesse.
Não, antes engraxar as sandálias e quanto ao chão é mais criativo pintá-lo do que limpá-lo.
Quanto aos pratos pode ser pois estou a pensar em arranjar um emprego num restaurante.
A minha vida e o meu quarto são como duas pulgas enormes perseguindo-me à volta do globo.
Graças a deus tenho uma maneira inocente de olhar para a natureza.
Nasci para recordar uma canção sobre o amor ─ numa colina uma borboleta faz uma taça donde eu bebo, caminhando sobre uma ponte de flores.

Peter Orlovsky, in "antologia da novíssima poesia norte americana" futura, 1973
trad. Manuel de Seabra

Estão reunidos neste volume alguns contos de Fernando Pessoa, uma parte apenas da vasta prosa ficcional que o autor nos deixou. Contos filosóficos, ou intelectuais como Pessoa chegou a chamar-lhes, contos paradoxais quando as situações que apresentam contrariam o senso comum, contos em jeito de fábula, com uma moralidade final e ainda outros. Todos eles parte integrante do universo pessoano. Há diálogos filosóficos com enigmáticos mestres que assumem diferentes rostos de conto para conto - o mendigo, o eremita, o bêbado - transmitindo as suas máximas a quem os encontra no caminho. Um caminho iniciático até uma diferente dimensão, percorrido pelo peregrino do conto com o mesmo nome, que segue a estrada até ao fim impelido pelas palavras de um homem de preto. Outro tipo de diálogo é aquele que se desenvolve entre o marinheiro e quem o encontra, de madrugada, no Cais das Colunas, local de onde se avista uma outra margem. Estas narrativas, até aqui inéditas ou pouco conhecidas, irão surpreender os leitores de Fernando Pessoa. Dos doze contos que compõem a presente edição, cinco são inéditos. Os restantes, apesar de já publicados em França pela editora La Différence e em Portugal pela revista Mealibra, permaneciam por divulgar junto do grande público.

Fernando Pessoa "O mendigo e outros contos" assírio & alvim, 2012

em Junho na quetzal...


O tema deste poema em prosa é o fascínio e o temor pela Natureza, e o que a torna incompatível com a sociedade. Nele relata o percurso – a vida, o amor e a morte - de três homens separados no tempo por séculos, cada qual tendo vivido, à sua maneira, o doloroso conflito que se trava entre o Homem e o mundo natural: O pintor Matthaeus Grünewald de Aschaffenburg; o explorador Georg Wilhelm Steller; e o próprio autor. Neste que é o primeiro livro de W. G. Sebald e que se manteve inédito em Portugal até ao momento, encontramos uma poesia atmosférica sobre uma melancólica melodia de fundo – uma verdadeira obra prima da linguagem.

W. G. Sebald "Do Natural - Um Poema Elementar" quetzal, 2012



Cinquenta anos de viagens celebrados por uma recolha de textos que formaram Paul Theroux enquanto leitor e enquanto viajante – um manual literário de viagem, um guia filosófico, uma antologia de grandes autores que viajaram, entre eles Theroux. A Arte da Viagem mostra toda a bagagem - espiritual ou física - que levaram e que trouxeram; os lugares por onde passaram, ou nunca passaram; os prazeres e os sofrimentos do viajante, os paradoxos da viagem, a solidão, o anonimato, o encontro com estranhos; a estrada enquanto vida; as cidades, os comboios, as paisagens; a aventura; e a tradição, a política e a pornografia na viagem; o tempo e o amor na viagem; e a viagem enquanto transformação. Neste extraordinário tributo encontramos, entre muitos, Vladimir Nabokov, Samuel Johnson, Evelyn Waugh, Mark Twain, Bruce Chatwin, Graham Greene, Isak Dineses, Anton Tchekov, Ernest Hemingway e o melhor de Paul Theroux.

Paul Theroux "A arte da Viagem" quetzal, 2012

PAUSA

Parecia-me que este dia
sem ti
devia ser inquieto,
escuro. Em vez disso está repleto
de uma estranha doçura, que aumenta
com o passar das horas –
quase como a terra
após um aguaceiro,
que fica sozinha no silêncio a beber
a água caída
e pouco a pouco
nas veias mais profundas se sente
penetrada.

A alegria que ontem foi angústia,
tempestade –
regressa agora em rápidas
golfadas ao coração,
como um mar amansado:
à luz suave do sol reaparecido brilham,
inocentes dádivas,
as conchas que a onda
deixou sobre a praia.

Antonia Pozzi, in "Morte de uma estação" averno, 2012
trad. Inês Dias

a chegar...


No princípio Lembro-me: estava ao colo de alguém. Havia um terreiro, uma casa ao fundo, ou no meio, isolada. Nem ár- vores, nem arbustos, só um corvo esgravatava, na terra ver- melha, como um borrão saltitante.E o sol. Meio-dia, talvez. Porque a luz vinha de todos os lados, e na casa não se distin- guia um refúgio, uma sombra: desenho trémulo, sem protu- berâncias nem reentrâncias que, de vez em quando, um golpe de vento parecia arrastar. — É ali. A minha chegada são estas palavras, com a sua clareza, ditas por ninguém. Voz sem corpo que soava um pouco atrás de mim, voz sem nome, sem sexo. Voz que afastava as coisas. Que me começou a perseguir, que me continuou a perseguir, que ainda me persegue. Voz que estará, no instante da minha morte, a dizer-me: — é ali. Eu tinha nove meses e não deveria lembrar-me. Mas lembro-me. Com a exactidão desfocada dos que não sa- bem morrer. O mundo começava com uma chegada, que era uma partida. Com uma viagem. É ali: lugar a que mais tarde viria a dar um nome. Um lugar que começou a crescer, até não haver lugar algum. Ou só a indiferença de todos os lugares:

Rui Nunes, in "Barro" relógio d'água, 2012