Paul Van Ostaijen
TERESINHA
Aquele que amei tive de deixar no sítio
mesmo onde nunca soube perdoar:
aí persiste observando o rancor
que lhe impede a respiração da pele
até ao dia em que se desfará —
pedaços de lepra contra a consciência.
Pratico com ele a indiferença, exigente
solução de diluir o que não irá mudar.
Aquele que instintivamente toquei
não deu mais satisfações;
imagino-o absorto numa oficina
com um escopro ou um compasso
descrevendo a solidão, satisfeito consigo.
ou no convívio de terceiras pessoas.
Por ele, sem que que tenha esquecido,
disciplinei o corpo a emudecer.
Aquele a quem um instante quis chegar
não fica, antecipa partidas, vai
e volta, vai mais vezes do que volta;
retira as esperanças, logo não desilude:
quando vem traz o coração aberto
e os braços um tanto ocupados.
Admito com ele ter suspendido
a fraqueza em virtude do acanho.
Aquele a quem não pedi nada
e que invoco às manhãs,
aparece todavia pelas tarde com notícias
e tempo, que estende em desafogo aparente,
às vezes na cama demora quanto quer
e deixa os lábios no meu ombro.
Trato com ele a justiça que suscita
o que reconhecemos e não nos interroga.
Margarida Vale de Gato, in "Mulher ao mar" mariposa azual, 2010
fotog. Ingmar Bergman [ Sommaren med Monika ] 1953

O SENHOR K. E OS GATOS
O senhor K. não gostava de gatos. Não lhe parecia que fossem amigos do homem, e portanto não era amigo deles. «Se tivéssemos os mesmos interesses», dizia, «a sua atitude hostil ser-me-ia indiferente.» No entanto, o senhor K ficava contrariado se tivesse de fazer os gatos saltarem da sua cadeira. «Deitarmo-nos a descansar é um trabalho», dizia, «e deve por isso ter êxito.» Por outro lado, quando os gatos se punham a miar atrás da porta levantava-se da cama, mesmo que fizesse frio, e deixava-os entrar para o quente. «O cálculo que eles fazem é simples», dizia. «Quando deixamos de ir abrir-lhes a porta, deixam de chamar. Logo, chamar é um progresso.»
Bertolt Brecht, in "Assinar a pele" assírio & alvim, 2001
trad. Luís Bruhein
Tonino Guerra 1920/2012

AMOU TANTO
Agora era velhinha e não conseguia sentir-se tomada de qualquer sentimento em relação a coisa alguma, mas tinha amado muito.
Esperava ainda encontrar-se com algum ser que se movesse sobre a crosta da terra.
Até que se enamorou pela fachada de uma igreja de Assis, decidindo mudar-se para aquela cidade. Era Inverno, e durante os temporais nocturnos, saía com um guarda-chuva para fazer companhia à igreja, plena de uma luz amedrontada.
Depois, chegou a Primavera, e todas as manhãs e todas as tardes, com as mãos, tocava as pedras quentes e enxutas. Foi um amor sereno e sem traições que durou até à sua morte.
Tonino Guerra, in "Histórias para uma noite de calmaria" assírio & alvim, 2002
trad. Mário Rui de Oliveira
CANTO NONO
Terá chovido durante cem dias e a água infiltrada
pelas raizes das ervas
chegou à biblioteca banhando as palavras santas
guardadas no convento.
Quando tornou o bom tempo,
Sajat-Novà o frade mais jovem
levou os livros todos por uma escada até ao telhado
e abriu-os ao sol para que o ar quente
enxugasse o papel molhado.
Um mês de boa estação passou
e o frade de joelhos no claustro
esperava dos livros um sinal de vida.
Uma manhã finalmente as páginas começaram
a ondular ligeiras no sopro do vento
parecia que tinha chegado um enxame aos telhados
e ele chorava porque os livros falavam.
Tonino Guerra, in "O Mel" assírio & alvim, 2003
trad. Mário Rui de Oliveira
um país que sonha...

DA BOA UTILIZAÇÃO DOS CALMANTES
O médico marcou-me consulta, e eu pensei cá comigo: porreiro, não vou ter de esperar.
Cheguei lá; quinze pessoas. Não fiquei nada contente. Felizmente, tinha lá revistas. Pus-me a olhar para as figuras. Doze pessoas. Fiz as palavras cruzadas. Oito pessoas. Fiz o problema de bridge, mas como não sei jogar, foi bastante difícil.
Por fim, chegou a minha vez.
Entrei. O médico disse-me: dispa as calças.
- Ah, desculpe — disse-lhe. - Vim cá porque me dói a cabeça.
- Ah ah, dor de cabeça — disse-me ele. - Tem ideias fixas?
- Tenho, fixas à cabeça
- Consegue localizar a dor?
Localizar — que é que ele queria com aquele localizar? Mais uma palavra fina para assustar as pessoas.
- Vou examiná-lo — disse-me ele.
- Isso não é coisa difícil — disse-lhe eu e abri a boca e mostrei-lhe o dente do siso, o que está estragado.
Pôs-se a olhar para ele e disse-me:
- Já estou a ver o que é. Precisa de uns calmantes.
Raymond Queneau, in "ficções de humor" tinta permanente, 2003

INTERIOR
As coisas que entram pelo silêncio começam a chegar ao quarto. Sabemo-lo porque deixamos esquecidos lá dentro os nossos olhos. A solidão chega pelos espelhos vazios; a morte desce dos quadros, quebrando suas vitrinas de museu; os recantos abrem-se como romãs para que entre o grilo com seus alfinetes; e, embora nos esqueçamos de apagar a luz, a escuridão dá uma luz negra mais potente, que eclipsa a outra.
Mas não são estas as coisas que entram pelo silêncio, mas outras ainda mais subtis; se não tivéssemos deixado a boca também esquecida, saberíamos dizer seus nomes. Para sugeri-las, os preceptistas aconselham a falar de paralelas, que, sem deixar de o ser, se encontram e se beijam. Mas as crianças que resolvem equações do segundo grau suicidam-se sempre logo que chegam aos oitenta anos; e preferimos por isso olhar sem nomes o que entra pelo silêncio, e deixar que todos continuem a afirmar que dois e dois são quatro.
Gilberto Owen, in "rosa do mundo" assírio & alvim, 2001
trad. José Bento
brevemente...
«Estamos em 1979 e, no Irão, sopram os ventos de mudança. O Xá foi deposto, mas Revolução foi desviada do seu objetivo secular pelo Ayatollah e os seus mercenários fundamentalistas. Marjane Satrapi é uma criança de dez anos irreverente e rebelde, filha de um casal de classe alta e convicções marxistas. Vive em Teerão e, apesar de conhecer bem o materialismo dialético, ter um fetiche por Che Guevara e acreditar que consegue falar diretamente com Deus, é uma criança como qualquer outra, mergulhada em circunstâncias extraordinárias. Nesta autobiografia gráfica, narrada com ilustrações monocromáticas simples mas muito eloquentes, Satrapi conta a história de uma adolescência durante a qual familiares e amigos "desaparecem", mulheres e raparigas são obrigadas a usar véu, os bombardeamentos iraquianos fazem parte do quotidiano e a música rock é ilegal. Contudo, a sua família resiste, tentando viver uma vida com um sentido de normalidade. Um livro inteligente, muito relevante e profundamente humano.» Com esta memória inteligente, divertida e comovente de uma rapariga que cresce no Irão durante a Revolução Islâmica, Marjane Satrapi consegue transmitir uma mensagem universal de liberdade e tolerância.Marjane Satrapi "Persépolis" contraponto, 2012
trad. Duarte Sousa Tavares
brevemente, na quetzal...
Durante muitos anos, o grande poeta Von Humboldt Fleisher e Charlie Citrine, uma jovem inflamado pelo amor à literatura, foram os melhores amigos. No momento em que morreu, Humboldt era um falhado, tornara-se pobre e só; e Citrine, por seu turno, também não se encontrava numa fase muito auspiciosa da vida: deixara de progredir na carreira, debatia-se nas malhas de um divórcio litigioso, e vivia uma paixoneta por uma jovem mulher pouco recomendável, envolvida com um mafioso neurótico. De repente, é como se Humboldt agisse a partir do além para deixar Charlie um legado inesperado - legado esse que poderá mudar o rumo da sua vida.Saul Below "O legado de Humboldt" quetzal, 2012
Aclamado como obra-prima aquando da sua publicação em Itália, "Às Cegas" é um romance de grande originalidade e intensidade poética. A sua forma inovadora - um caudal, uma torrente, um oceano de palavras que fluem livremente - serve na perfeição a narrativa de um louco sobre a sua viagem no tempo e no espaço, e que se polariza nas duas categorias antagónicas dos que fazem a revolução e dos seus perseguidores. Claudio Magris trabalha aqui também motivos recorrentes na sua obra: o das vidas afundadas – que é preciso “resgatar para a literatura”; ou o da figura de proa que, à imagem do Homem, tendo perdido o rumo, continua a desbravar os mares, às cegas, num ato único de esperança.Uma miríade de lugares, situações, símbolos, coincidências e reflexos, que atravessam continentes e séculos - e um retrato da falência da ideologia e do indivíduo à deriva.
Claudio Magris "Às cegas" quetzal, 2012
trad. Sara Ludovico
brevemente...
Um prolífico escritor vai a um extravagante congresso, para o qual recebeu convite, com alguma estranheza e uma certa inquietação. No mesmo encontro, participa, em lugar do pai recentemente falecido, Vilnius, um jovem criativo com um certo ar de Dylan, que tem como objectivo último da sua vida alcançar o mais total e absoluto fracasso, tema que preside ao invulgar congresso.Mas fracassar absolutamente não é nada fácil. Que fazer? Nada? Ou pedir ajuda?
O escritor, por sua vez, deseja pôr um ponto final na sua já vasta obra e atingir o silêncio total e definitivo. Fascinado por Vilnius, segue-lhe o percurso e observa-lhe os estratagemas para chegar ao fracasso. É possível que, com a sua improvável união, rodeados e isolados por uma teia de personagens, consigam ter sucesso na busca do fracasso. Talvez o sucesso não seja o que em geral se pensa. Assim, fracasso e sucesso deixariam de ser antónimos, para se transformarem numa mesma coisa.
Como tão bem escreveu um crítico italiano, Vila-Matas «é um funâmbulo que caminha sobre uma linha que não existe».
Enrique Vila-Matas "Ar de Dylan" teodolito, 2012
trad. Miranda das Neves

De tanto te imaginar, de olhos fechados,
sei lá se te perdi!
E se esta sombra com quem voo nos telhados
és tu em vez de ti.
Só sei que quando vieres, real,
a cheirar a pele e a punhal,
com entranhas e caveira...
...terei de coser a tua sombra à minha,
atar o rio à Nuvem da tardinha,
a labareda ao fumo da fogueira.
José Gomes Ferreira, in "Poesia IV" portugália, 1970

PERGUNTAS DE UM OPERÁRIO LETRADO
Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilónia, tantas vezes destruida,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
Sò tinha palácios
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.
O jovem Alexandre conquistou as Indias
Sózinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos
Quem mais a ganhou?
Em cada página uma vitòria.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?
Tantas histórias
Quantas perguntas
DIFICULDADE DE GOVERNAR
Dificuldade de Governar1.
Todos os dias os ministros dizem ao povo
Como é difícil governar. Sem os ministros
O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima.
Nem um pedaço de carvão sairia das minas
Se o chanceler não fosse tão inteligente. Sem o ministro da Propaganda
Mais nenhuma mulher poderia ficar grávida. Sem o ministro da Guerra
Nunca mais haveria guerra. E atrever-se ia a nascer o sol
Sem a autorização do Führer?
Não é nada provável e se o fosse
Ele nasceria por certo fora do lugar.
2.
E também difícil, ao que nos é dito,
Dirigir uma fábrica. Sem o patrão
As paredes cairiam e as máquinas encher-se-iam de ferrugem.
Se algures fizessem um arado
Ele nunca chegaria ao campo sem
As palavras avisadas do industrial aos camponeses: quem,
De outro modo, poderia falar-lhes na existência de arados? E que
Seria da propriedade rural sem o proprietário rural?
Não há dúvida nenhuma que se semearia centeio onde já havia batatas.
3.
Se governar fosse fácil
Não havia necessidade de espíritos tão esclarecidos como o do Führer.
Se o operário soubesse usar a sua máquina
E se o camponês soubesse distinguir um campo de uma forma para tortas
Não haveria necessidade de patrões nem de proprietários.
E só porque toda a gente é tão estúpida
Que há necessidade de alguns tão inteligentes.
4.
Ou será que
Governar só é assim tão difícil porque a exploração e a mentira
São coisas que custam a aprender?
Bertolt Brecht, in "poemas" presença, 1976
trad. Sylvie Deswarte, Arnaldo Saraiva

AMANHÃ ACONTECEU
Que é notícia?
Um hoje que nunca é hoje,
um amanhã que é já ontem
entre ontens que se perdem
no anteontem dos anos
no tresantontem dos lustros...
Que é notícia?
Amanhã acontecido,
notícia é sempre um depois,
é um a viver vivido...
Que é notícia?
Notícia é devoração!
Aí vai ela pela goela
que há-de engolir tudo e todos!
Aí vai ela, lá foi ela!
Nem trabalho de moela
retém notícia...
Notícia sem coração!
Que é notícia?
Cão perdeu-se! Por que não?
Cão achou-se! Ainda bem!
Ainda melhor, por sinal,
se o cão perdido e o achado
forem um só e o mesmo
«lidos» no mesmo jornal!
Que é notícia?
Damos notícia um ao outro
do nosso interesse comum.
Fui Cavalheiro amanhã.
Ontem Senhora serás.
Como eu não há nenhum!...
Que é notícia?
Quando o primeiro tortulho
se abre no céu (silhueta
que em símbolo se tornará)
onde estou, estouvava eu?
Estava com a tia Henriqueta...
Que é notícia?
Fechada para balanço,
tia Queta dormitava.
Com a folhinha nos joelhos,
do tortulho, que treslera,
já em feto se engelhava...
Que é notícia?
Das convulsões deste mundo
dava meu pai a versão:
- Ailitla por toda a Europa...
O guarda-roupa, meu filho,
varia, a tragédia não...
Que é notícia?
O bom do velhote ia
na terceira dentição...
Que é notícia?
Alcatruz que se abalança
a tornar à sua água?
Já o de Éfeso sabia:
não se molha duas vezes
o lenço na mesma mágoa...
Que é notícia?
Notícia em primeira mão
na minha mão infantil:
o papagaio empinado
no claro céu da manhã,
meu jornal publicado
por cima de tanto afã...
Mas terá sido notícia?
Que é notícia?
Alexandre O'Neill, in "De Ombro na Ombreira" dom quixote, 1969
If...
Are losing theirs and blaming it on you,
If you can trust yourself when all men doubt you,
But make allowance for their doubting too;
If you can wait and not be tired by waiting,
Or being lied about, don't deal in lies,
Or being hated, don't give way to hating,
And yet don't look too good, nor talk too wise:
If you can dream - and not make dreams your master;
If you can think - and not make thoughts your aim;
If you can meet with Triumph and Disaster
And treat those two impostors just the same;
If you can bear to hear the truth you've spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to, broken,
And stoop and build 'em up with worn-out tools:
If you can make one heap of all your winnings
And risk it on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breathe a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: 'Hold on!'
If you can talk with crowds and keep your virtue,
' Or walk with Kings - nor lose the common touch,
if neither foes nor loving friends can hurt you,
If all men count with you, but none too much;
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds' worth of distance run,
Yours is the Earth and everything that's in it,
And - which is more - you'll be a Man, my son!
Rudyard Kipling

Não sei como dizer-te que a minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e casta.
Não sei o que dizer, especialmente quando os teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e tu estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima,
— eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.
Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
o coração é uma semente inventada
em seu ascético escuro e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a minha casa ardesse pousada na noite.
— E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes caem no meio do tempo,
— não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.
Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço —
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra vai cair da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me falta
um girassol, uma pedra, uma ave — qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,
que te procuram.
Herberto Helder, in "Poesia Toda" assírio & alvim, 1981

PARÁBOLA
Os pescadores tiraram uma garrafa das profundezas. Havia nela um papel que continha as seguintes palavras: "Acudam! Estou aqui. O oceano atirou-me para uma ilha deserta. Estou junto à água à espera de ajuda. Estou aqui!"
- Não traz data. Por certo já é tarde. A garrafa poderia ter andado à deriva por muito tempo — disse o primeiro pescador.
- E não indicou o lugar. O oceano, pode ser um qualquer — disse o segundo pescador.
- Não é por ser tarde nem longe. A ilha Aqui pode estar em qualquer parte — disse o terceiro pescador.
Sentiram embaraço, fez-se silêncio. Com as verdades universais, é sempre assim.
Wislawa Szymborska, in "Alguns gostam de poesia" cavalo de ferro, 2004
Manuel João Vieira...

Por demais conhecido via Rádio (cançonetista?) e Televisão (actor cómico?), mas também como pintor (homeoestético), agitador (animador?) nocturno e até como insistente candidato à Presidência da República («se for eleito, demito-me»), Manuel João Vieira estreia-se aqui como letrista (poeta?), de companhia com o incontornável Fernando Brito (dos Irmãos Catita) e uma meia-dúzia de heterónimos, ou isso.
O livro resulta exemplarmente feio, porco e mau, quer-se dizer: à exacta altura do Portugal Alcatifado que nos rodeia. A edição, essa, só pode encarar-se como exercício de absoluta liberdade, com maiúscula.
Lello, Brito & irmão "Portugal alcatifado canções anormais" & etc, 2012
o doutor glas...

«Como em Eugénie Grandet de Balzac e em Washington Square de Henry James, mas desta vez misturado com uma sensibilidade semelhante à de Strindberg e de Ingmar Bergman. É assim possível ter uma ideia da força e sinceridade desta obra-prima no Norte da Europa.»
Susan Sontag
Hjalmar Söderberg "O Doutor Glas" relógio d'água, 2012
brevemente...

Ola Nilsson, vencedor do Prémio Literário Norrland, em 2010, nasceu na Suécia em 1972 e é, hoje em dia, um dos autores mais promissores do seu país. O seu estilo cruel e minimal capta genialmente a vida de pessoas inadaptadas e o modo como estas se tentam integrar.
"Os Cães" aborda a vida de alguns jovens no escuro e frio nordeste da Suécia, numa pequena localidade onde uma ponte marca o dia-a-dia da comunidade. A ponte – símbolo da decadência da região e da entrada no mundo moderno – é o local de encontro dos jovens que, não tendo mais para onde ir e lidando com problemas de álcool, aí se juntam. Apesar do alcoolismo, das perigosas relações sexuais e da falta de orientação, existe, ainda assim, uma vontade constante de sobreviver, alimentada pela ansiedade e esperança de uma outra vida. Um história cruel, violenta e emotiva a que não se consegue ficar indiferente.
«A narrativa dramática com caracterização mínima e diálogo abrupto que normalmente associamos a autores da região de Norrland – como Torgny Lindgren e Sara Lidman – tem em Ola Nilsson um novo representante. (…) O tema dificilmente terá sido abordado deste modo.»
Tidningen Kulturen
«O estilo de Nilsson é sereno, tendo, por vezes, algum humor lacónico, mas sem nunca resvelar para sentimentalismos sobre o modo de vida das personagens: alcoólicos empedernidos que ainda não saíram da adolescência. Lembra Lars Görling: a poesia na brutalidade e na pobreza, a beleza presente na vida miserável. Os Cães de Ola Nilsson é um grande romance: contido no seu estilo curto e simples, mas com um alcance enorme.»
Hallands Nyheter
Ola Nilsson "Os Cães" eucleia, 2012
trad. João Reis
em primeira mão...
Pista de Gelo – que se constrói sobre as linhas características do projeto narrativo de Roberto Bolaño – é um espaço de reflexão sobre a corruptibilidade dos políticos, sobre a ação perturbadora do amor nas pessoas, sobre o desenraizamento, a amizade e a dissolução dos sonhos. E mostra-nos, sobretudo, que nada é o que aparenta ser, nada é bem o que nos contam; e que, mesmo na ausência de sentido, a vida prossegue.
Roberto Bolaño "A pista de gelo" quetzal, 2012
dia 9 de Março nas Livrarias
brevemente na tinta da china...
Luís Miguel Rainha "18 palavras difíceis" tinta da china, 2012

«Em tempos de auge a conjetura de que a existência do Homem é uma quantidade constante invariável pode entristecer ou irritar; em tempos que declinam (como este), é a promessa de que nenhum opróbrio, nenhuma calamidade nem nenhum ditador poderá empobrecer-nos.»
Jorge Luís Borges, in “história da eternidade” quetzal, 2012
trad. José Colaço Barreiros

O DEUS ABANDONA MARCO ANTÓNIO
Quando subitamente se ouve à meia-noite
um cortejo que invisível passa
com sublimes músicas e cânticos -
a tua fortuna que desiste, as tuas obras
que falharam, os planos de uma vida inteira
tornados nada -, não vale chorar.
Como aquele de há muito preparado, corajosamente
diz-lhe adeus, à Alexandria que de ti se afasta.
Acima de tudo não te iludas, nunca digas que foi
apenas sonho, um engano, quanto ouviste:
não te agarres a tão vãs esperanças.
Como aquele de há muito preparado, corajosamente,
e como é próprio de quem, como tu, era digno de uma tal cidade,
aproxima-te firme da janela,
e escuta emocionado, mas não
com lamentos e súplicas cobardes,
escuta, derradeira alegria tua, os sons que passam,
os sublimes instrumentos do cortejo místico,
e diz adeus, adeus à Alexandria que perdeste.
Constantino Cavafy, in "90 e mais quatro poemas" asa, 2003
trad. Jorge de Sena

Em 2003, regressando do Afeganistão, tive de parar em Baku, no Azerbaijão. Fiquei num hotel chamado Apcheron, nome da península sobre a qual a cidade foi construída. Escrevia na altura Suite no Hotel Crystal, um livro composto por umas quarenta histórias passadas em quartos de hotel do mundo inteiro. O nome Apcheron, tão próximo do do rio dos mortos grego, sugeriu-me a ideia de aí encenar o meu próprio suicídio. A nota biográfica na capa do livro viria a mencionar a minha data de nascimento e de morte: Boulogne-Billancourt, 1947 - Baku, 2009. A partir de 2004, eu tinha pois morrido em Baku em 2009, no quarto 1123 do Hotel Apcheron.
À medida que esse fatídico ano de 2009 se ia aproximando, as recomendações dos amigos tornavam-se mais insistentes: se fores convidado para ir a Baku em 2009, não vás! Estes alertas fizeram naturalmente nascer em mim a ideia de que, pelo contrário, devia mesmo ir a Baku, para honrar uma espécie de promessa e aí permanecer o tempo suficiente para dar à ficção da minha morte à beira do Cáspio uma razoável hipótese de se concretizar. Este livro é, em certa medida, o diário da minha estada na cidade onde era suposto morrer. Retratos, coisas vistas, sonhos, leituras, notas de viagem, evocação de figuras do passado, etc. Claro que se tratava de um jogo, iniciado por um jogo de palavras, mas esse jogo dava um certo colorido aos meus pensamentos, orientava até certo ponto as minhas imaginações e mesmo os meus olhares.
Olivier Rolin, in "Baku, últimos dias" sextante, 2012
trad. Manuela Torres
Wislawa Szymborska 1923/2012

POSSIBILIDADES
Prefiro cinema.
Prefiro os gatos.
Prefiro os carvalhos nas margens do Warta.
Prefiro Dickens a Doistoievski.
Prefiro-me gostando dos homens
em vez de estar amando a humanidade.
Prefiro ter uma agulha preparada com a linha.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não afirmar
que a razão é culpada de tudo.
Prefiro as excepções.
Prefiro sair mais cedo.
Prefiro conversar com os médicos sobre outra coisa.
Prefiro as velhas ilustrações listradas.
Prefiro o ridículo de escrever poemas
ao ridículo de não escrever.
No amor prefiro os aniversários não redondos
para serem comemorados cada dia.
Prefiro os moralistas,
que não prometem nada.
Prefiro a bondade esperta à bondade ingénua demais.
Prefiro a terra à paisana.
Prefiro os países conquistados aos países conquistadores.
Prefiro ter abjecções.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro contos de fada de Grimm às manchetes de jornais.
Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro os cães com o rabo não cortado.
Prefiro os olhos claros porque os tenho escuros.
Prefiro as gavetas.
Prefiro muitas coisas que aqui não disse,
e outras tantas não mencionadas aqui.
Prefiro os zeros à solta
a tê-los numa fila junto ao algarismo.
Prefiro o tempo do insecto ao tempo das estrelas.
Prefiro isolar.
Prefiro não perguntar quanto tempo ainda e quando.
Prefiro levar em consideração até a possibilidade
do ser ter a sua razão.
Wislawa Szymborska, in "rosa do mundo" assírio & alvim, 2001
brevemente...
Poemas de Mário Cesariny e Adolfo Luxúria Canibal ditos por este último, numa edição em parceria com a Fundação Cupertino de Miranda, onde Adolfo Luxúria Canibal interpreta três poemas seus e cinco poemas de Mário Cesariny, acompanhado musicalmente por António Rafael (pianos, teclados e programações), Henrique Fernandes (contrabaixo eléctrico) e Jorge Coelho (guitarra eléctrica).
assírio & alvim, 2012
brevemente...

«Publicados em 1993, no ano da sua morte, estes Três Prantos centram-se nas personagens (ou só vozes?) de Cleópatra, Herodíades e Maria, são monólogos em verso, lamentos de amor de Cleópatra que chora António, de Herodíades que arde de desejo pelo Baptista que a recusa, e pranto antiquíssimo de Maria, que Testori reinventa, carnal, retirando-a do cheiro das velas, e vendo abrir os braços ao perdão, maneira que tem o céu de se abrir. E será neste último pranto que a trilogia se encontra, na esperança, na redenção, na aceitação do sacrifício aqui na terra»
Jorge Silva Melo
Giovanni Testori "Três Prantos" assírio & alvim, 2012
trad. Miguel Serras Pereira
apres. Jorge Silva Melo
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