13 de Julho nas Livrarias...


Bruce Chatwin é um dos mais notáveis escritores britânicos dos nossos tempos, quer no romance, quer na literatura de viagem. Os seus livros tornaram-se clássicos contemporâneos e desafiam qualquer tipo de categorização: assimilam elementos de ficção, de ensaio, de reportagem, de história, de mexerico, e são inspirados ao mesmo tempo que espelham as suas incríveis viagens. Tragicamente, a sua voz narrativa foi interrompida no momento em que a encontrou. Um mês antes da sua morte, Chatwin lamentava-se: “Há tantas coisas que quero fazer.” “Bruce tinha acabado de começar” - diria o seu amigo Salman Rushdie - “Só vimos o primeiro ato.”
Chatwin deixou um conjunto de escritos de uma frescura avassaladora, que nos permitem regressar ao seu universo: um legado de cartas e postais que escreveu à família e aos amigos ao longo da sua curta vida. "Debaixo do Sol" revela mais de si do que ele quis mostrar nos seus livros: o seu património; as suas finanças; as suas ambições e preferências literárias; os seus gostos; o desassossego quanto à sua orientação sexual; a procura constante do lugar certo para viver – uma súmula vívida da variedade dos seus interesses e preocupações, um registo altamente revelador de um dos maiores e mais enigmáticos escritores do século XX.

Bruce Chatwin "Debaixo do sol" quetzal, 2012
Diane Arbus [ Susan Sontag ] 1965

"A princípio será o Sono. Animal profundamente adormecido, morna e tranquila massa misteriosamente isolada, area fechada e cheia de vida que transportas para o dia a minha história e o meu possível, ignoras-me, conservas-me, és a minha permanência inexprimível: o teu tesouro é o meu segredo."

Paul Valéry, in "Alfabeto" iuc, 2012
trad. Cristina RObalo Cordeiro

nova edição...


Galego da província de Ourense, Benito Prada vem para Portugal ganhar a vida, deixando para trás os seus trabalhos e paixões: a casa pobre, o pai afiador, as poucas letras aprendidas na Meiga de Ventosela. Sendo uma obra de ficção não deixa ainda assim de abordar acontecimentos e personagens históricas da primeira metade do século XX, como a visita de Franco à Universidade de Coimbra para receber o título de Doutor honoris causa em Direito. Um livro vibrante escrito num português sumptuoso.

Fernando Assis Pacheco "Trabalhos e paixões de Benito Prada" assírio & alvim, 2012

em junho...


Os contos de Julio Ramón Ribeyro são um espelho da sua vida e do mundo em que viveu. A palavra do mudo dá voz àqueles que foram excluídos do festim da vida: seres anónimos, discretos, condenados a uma existência mediana e rodeada de solidão. Através de uma escrita límpida e genuína, Ribeyro transmite as aspirações, os sonhos e as angústias dos seus protagonistas. O presente volume recolhe alguns do contos mais representativos do génio de Ribeyro, entre eles Sílvio no Roseiral e o autobiográfico Só para fumadores, dois exemplos do seu inconfundível universo literário. Segundo o escritor Alfredo Bryce Echenique, estes dois textos bastariam para situar o autor entre os maiores expoentes da narrativa breve contemporânea.

Julio Ramon Ribeyro "a palavra do mudo" ahab, 2012

Kurt Vonnegut...


O doutor Felix Hoenikker, um dos «pais» da bomba atómica, deixou à humanidade um legado fatídico. Foi ele o inventor do gelo-nove, um químico letal capaz de congelar o mundo inteiro. As investigações de John, o escritor que está a preparar uma biografia de Felix, conduzem-no aos três excêntricos filhos do cientista, a uma ilha nas Caraíbas onde se pratica a religião bokononista e, mais tarde, ao amor e à loucura. Narrado com um humor desarmante e uma ironia amarga, este livro de culto acerca da destruição global é uma sátira hilariante e assustadora sobre o fim do mundo e a loucura dos homens.

Kurt Vonnegut "cama de gato" bertrand, 2012

brevemente...

O presente volume reúne toda a poesia de Daniel Faria e dá a conhecer ao público, pela primeira vez, treze poemas inéditos. A edição é de Vera Vouga, professora do poeta que acompanhou os seus primeiros passos literários.

Daniel Faria "Poesia" assírio & alvim, 2012

leitura recomendada...


A obra foi escrita para satisfazer uma encomenda do livreiro René Hilsum para que Paul Valéry escrevesse 24 poemas em prosa cuja inicial fosse cada uma das letras do alfabeto, retirando desse "alfabeto" o K e o W por serem raras as palavras francesas com essas iniciais. Valéry aproveitou a ausência das duas letras para encaixar os seus textos nas 24 horas do dia, fazendo-as "corresponder a um estado e uma ocupação ou uma disposição da alma diferente".

Paul Valéry "alfabeto" iuc, 2012
trad. Cristina Robalo Cordeiro

em Junho na quetzal...


«É possível, num poema ou num conto, escrever sobre coisas e objetos quotidianos usando linguagem quotidiana mas precisa, e dotar essas coisas – uma cadeira, uma cortina, um garfo, uma pedra, os brincos de uma mulher – de um poder imenso, quase espantoso. É possível escrever uma linha de diálogo aparentemente inócuo e fazer com que essa linha provoque um arrepio na espinha do leitor – a fonte de deleite artístico, como queria Nabokov. É esse género de escrita que me interessa. Detesto escrita confusa ou aleatória, seja ela experimentação ou simplesmente realismo desastrado. No maravilhoso conto “Guy de Maupassant”, de Isaac Babel, o narrador tem o seguinte a dizer sobre a escrita de ficção: Nenhum ferro pode trespassar o coração com tanta força como um ponto final no lugar certo.”»

Raymond Carver "Fogos" quetzal, 2012
trad. João Tordo e João Luís Barreto Guimarães

SEGUNDO POEMA

Novamente manhã, nada que fazer, talvez comprar um piano ou fazer disparates.
Pelo menos limpar o quarto, para assegurar que como o meu pai sacudi a cinza & beatas ao pé da cama no chão.
Mas primeiro limpar os óculos e beber a água para lavar a boca mal-cheirosa.
Uma pancada na porta, entra uma gata, atrás dela o elefante bebé do Zoo exigindo panquecas ─ não suporto mais estas alucinações.
Tempo para outro cigarro e depois deixo subir as cortinas, reparo então que o lixo faz um carreiro até ao caixote.
Não frigorífico por isso uma toranja seca.
Haverá alguma coisa simples que eu possa fazer pelo meu quarto, talvez pintá-lo cor-de-rosa ou instalar um elevador do chão para a cama ou talvez tomar um banho na cama?
De que serve viver se não posso fazer paraíso no meu próprio quarto-país?
Porque esta gota de tempo nos meus olhos
como o sofrimento de uma estrela vermelha num cigarro
faz-me sentir que a vida trespassa mais depressa do que tesouras.
Sei que se pudesse fazer a barba as pulgas à volta do meu rosto desapareceriam para sempre.
Os buracos nos meus sapatos são só temporários, eu sei.
O meu tapete está sujo, mas de quem é que não está?
Há sempre um momento na vida em que toda a gente tem que fazer uma mija no lavadouro ─ aqui deixem-me pintar a janela de preto por um minuto.
Atirei um prato & parti-o por maldade ─ ou talvez só inocentemente o deixasse cair por acidente quando andava à volta da mesa.
Diante do espelho pareço um fantasma do Saara,
ou na cama pareço uma múmia chorosa oláando por ar,
ou à mesa sinto-me como Napoleão.
Mas agora a principal tarefa do dia ─ lavar a minha roupa interior ─ abusada dois meses ─ que diriam disto as formigas?
Como posso eu lavar a minha roupa ─ porque eu, eu, eu seria uma mulher se o fizesse.
Não, antes engraxar as sandálias e quanto ao chão é mais criativo pintá-lo do que limpá-lo.
Quanto aos pratos pode ser pois estou a pensar em arranjar um emprego num restaurante.
A minha vida e o meu quarto são como duas pulgas enormes perseguindo-me à volta do globo.
Graças a deus tenho uma maneira inocente de olhar para a natureza.
Nasci para recordar uma canção sobre o amor ─ numa colina uma borboleta faz uma taça donde eu bebo, caminhando sobre uma ponte de flores.

Peter Orlovsky, in "antologia da novíssima poesia norte americana" futura, 1973
trad. Manuel de Seabra

Estão reunidos neste volume alguns contos de Fernando Pessoa, uma parte apenas da vasta prosa ficcional que o autor nos deixou. Contos filosóficos, ou intelectuais como Pessoa chegou a chamar-lhes, contos paradoxais quando as situações que apresentam contrariam o senso comum, contos em jeito de fábula, com uma moralidade final e ainda outros. Todos eles parte integrante do universo pessoano. Há diálogos filosóficos com enigmáticos mestres que assumem diferentes rostos de conto para conto - o mendigo, o eremita, o bêbado - transmitindo as suas máximas a quem os encontra no caminho. Um caminho iniciático até uma diferente dimensão, percorrido pelo peregrino do conto com o mesmo nome, que segue a estrada até ao fim impelido pelas palavras de um homem de preto. Outro tipo de diálogo é aquele que se desenvolve entre o marinheiro e quem o encontra, de madrugada, no Cais das Colunas, local de onde se avista uma outra margem. Estas narrativas, até aqui inéditas ou pouco conhecidas, irão surpreender os leitores de Fernando Pessoa. Dos doze contos que compõem a presente edição, cinco são inéditos. Os restantes, apesar de já publicados em França pela editora La Différence e em Portugal pela revista Mealibra, permaneciam por divulgar junto do grande público.

Fernando Pessoa "O mendigo e outros contos" assírio & alvim, 2012

em Junho na quetzal...


O tema deste poema em prosa é o fascínio e o temor pela Natureza, e o que a torna incompatível com a sociedade. Nele relata o percurso – a vida, o amor e a morte - de três homens separados no tempo por séculos, cada qual tendo vivido, à sua maneira, o doloroso conflito que se trava entre o Homem e o mundo natural: O pintor Matthaeus Grünewald de Aschaffenburg; o explorador Georg Wilhelm Steller; e o próprio autor. Neste que é o primeiro livro de W. G. Sebald e que se manteve inédito em Portugal até ao momento, encontramos uma poesia atmosférica sobre uma melancólica melodia de fundo – uma verdadeira obra prima da linguagem.

W. G. Sebald "Do Natural - Um Poema Elementar" quetzal, 2012



Cinquenta anos de viagens celebrados por uma recolha de textos que formaram Paul Theroux enquanto leitor e enquanto viajante – um manual literário de viagem, um guia filosófico, uma antologia de grandes autores que viajaram, entre eles Theroux. A Arte da Viagem mostra toda a bagagem - espiritual ou física - que levaram e que trouxeram; os lugares por onde passaram, ou nunca passaram; os prazeres e os sofrimentos do viajante, os paradoxos da viagem, a solidão, o anonimato, o encontro com estranhos; a estrada enquanto vida; as cidades, os comboios, as paisagens; a aventura; e a tradição, a política e a pornografia na viagem; o tempo e o amor na viagem; e a viagem enquanto transformação. Neste extraordinário tributo encontramos, entre muitos, Vladimir Nabokov, Samuel Johnson, Evelyn Waugh, Mark Twain, Bruce Chatwin, Graham Greene, Isak Dineses, Anton Tchekov, Ernest Hemingway e o melhor de Paul Theroux.

Paul Theroux "A arte da Viagem" quetzal, 2012

PAUSA

Parecia-me que este dia
sem ti
devia ser inquieto,
escuro. Em vez disso está repleto
de uma estranha doçura, que aumenta
com o passar das horas –
quase como a terra
após um aguaceiro,
que fica sozinha no silêncio a beber
a água caída
e pouco a pouco
nas veias mais profundas se sente
penetrada.

A alegria que ontem foi angústia,
tempestade –
regressa agora em rápidas
golfadas ao coração,
como um mar amansado:
à luz suave do sol reaparecido brilham,
inocentes dádivas,
as conchas que a onda
deixou sobre a praia.

Antonia Pozzi, in "Morte de uma estação" averno, 2012
trad. Inês Dias

a chegar...


No princípio Lembro-me: estava ao colo de alguém. Havia um terreiro, uma casa ao fundo, ou no meio, isolada. Nem ár- vores, nem arbustos, só um corvo esgravatava, na terra ver- melha, como um borrão saltitante.E o sol. Meio-dia, talvez. Porque a luz vinha de todos os lados, e na casa não se distin- guia um refúgio, uma sombra: desenho trémulo, sem protu- berâncias nem reentrâncias que, de vez em quando, um golpe de vento parecia arrastar. — É ali. A minha chegada são estas palavras, com a sua clareza, ditas por ninguém. Voz sem corpo que soava um pouco atrás de mim, voz sem nome, sem sexo. Voz que afastava as coisas. Que me começou a perseguir, que me continuou a perseguir, que ainda me persegue. Voz que estará, no instante da minha morte, a dizer-me: — é ali. Eu tinha nove meses e não deveria lembrar-me. Mas lembro-me. Com a exactidão desfocada dos que não sa- bem morrer. O mundo começava com uma chegada, que era uma partida. Com uma viagem. É ali: lugar a que mais tarde viria a dar um nome. Um lugar que começou a crescer, até não haver lugar algum. Ou só a indiferença de todos os lugares:

Rui Nunes, in "Barro" relógio d'água, 2012

Alejandro Zambra


Cristián Jiménez [ Bonsái ] 2011

«No final ela morre e ele fica sozinho, embora na realidade tivesse ficado sozinho vários anos antes da morte dela, de Emília. Digamos que ela chama-se ou chamava-se Emília e que ele chama-se, chamava-se e continua a chamar-se Júlio. Júlio e Emília. No final Emília morre e Júlio não morre. O resto é literatura:»

Alejandro Zambra, in "Bonsái" teorema, 2008
trad. Jorge Fallorca


TERESINHA

Aquele que amei tive de deixar no sítio
mesmo onde nunca soube perdoar:
aí persiste observando o rancor
que lhe impede a respiração da pele
até ao dia em que se desfará —
pedaços de lepra contra a consciência.
Pratico com ele a indiferença, exigente
solução de diluir o que não irá mudar.

Aquele que instintivamente toquei
não deu mais satisfações;
imagino-o absorto numa oficina
com um escopro ou um compasso
descrevendo a solidão, satisfeito consigo.
ou no convívio de terceiras pessoas.
Por ele, sem que que tenha esquecido,
disciplinei o corpo a emudecer.

Aquele a quem um instante quis chegar
não fica, antecipa partidas, vai
e volta, vai mais vezes do que volta;
retira as esperanças, logo não desilude:
quando vem traz o coração aberto
e os braços um tanto ocupados.
Admito com ele ter suspendido
a fraqueza em virtude do acanho.

Aquele a quem não pedi nada
e que invoco às manhãs,
aparece todavia pelas tarde com notícias
e tempo, que estende em desafogo aparente,
às vezes na cama demora quanto quer
e deixa os lábios no meu ombro.
Trato com ele a justiça que suscita
o que reconhecemos e não nos interroga.


Margarida Vale de Gato, in "Mulher ao mar" mariposa azual, 2010
fotog. Ingmar Bergman [ Sommaren med Monika ] 1953

O SENHOR K. E OS GATOS

O senhor K. não gostava de gatos. Não lhe parecia que fossem amigos do homem, e portanto não era amigo deles. «Se tivéssemos os mesmos interesses», dizia, «a sua atitude hostil ser-me-ia indiferente.» No entanto, o senhor K ficava contrariado se tivesse de fazer os gatos saltarem da sua cadeira. «Deitarmo-nos a descansar é um trabalho», dizia, «e deve por isso ter êxito.» Por outro lado, quando os gatos se punham a miar atrás da porta levantava-se da cama, mesmo que fizesse frio, e deixava-os entrar para o quente. «O cálculo que eles fazem é simples», dizia. «Quando deixamos de ir abrir-lhes a porta, deixam de chamar. Logo, chamar é um progresso.»

Bertolt Brecht, in "Assinar a pele" assírio & alvim, 2001
trad. Luís Bruhein

reedição...


Bruce Chatwin "Utz" quetzal, 2012

Tonino Guerra 1920/2012



AMOU TANTO

Agora era velhinha e não conseguia sentir-se tomada de qualquer sentimento em relação a coisa alguma, mas tinha amado muito.
Esperava ainda encontrar-se com algum ser que se movesse sobre a crosta da terra.
Até que se enamorou pela fachada de uma igreja de Assis, decidindo mudar-se para aquela cidade. Era Inverno, e durante os temporais nocturnos, saía com um guarda-chuva para fazer companhia à igreja, plena de uma luz amedrontada.
Depois, chegou a Primavera, e todas as manhãs e todas as tardes, com as mãos, tocava as pedras quentes e enxutas. Foi um amor sereno e sem traições que durou até à sua morte.

Tonino Guerra, in "Histórias para uma noite de calmaria" assírio & alvim, 2002
trad. Mário Rui de Oliveira


CANTO NONO

Terá chovido durante cem dias e a água infiltrada
pelas raizes das ervas
chegou à biblioteca banhando as palavras santas
guardadas no convento.

Quando tornou o bom tempo,
Sajat-Novà o frade mais jovem
levou os livros todos por uma escada até ao telhado
e abriu-os ao sol para que o ar quente
enxugasse o papel molhado.

Um mês de boa estação passou
e o frade de joelhos no claustro
esperava dos livros um sinal de vida.
Uma manhã finalmente as páginas começaram
a ondular ligeiras no sopro do vento
parecia que tinha chegado um enxame aos telhados
e ele chorava porque os livros falavam.


Tonino Guerra, in "O Mel" assírio & alvim, 2003
trad. Mário Rui de Oliveira

um país que sonha...


"Um país que sonha, cem anos de poesia colombiana" assírio & alvim, 2012
selecção e prologo de Lauren Mendinueta
trad. Nuno Júdice

DA BOA UTILIZAÇÃO DOS CALMANTES

O médico marcou-me consulta, e eu pensei cá comigo: porreiro, não vou ter de esperar.
Cheguei lá; quinze pessoas. Não fiquei nada contente. Felizmente, tinha lá revistas. Pus-me a olhar para as figuras. Doze pessoas. Fiz as palavras cruzadas. Oito pessoas. Fiz o problema de bridge, mas como não sei jogar, foi bastante difícil.
Por fim, chegou a minha vez.
Entrei. O médico disse-me: dispa as calças.
- Ah, desculpe — disse-lhe. - Vim cá porque me dói a cabeça.
- Ah ah, dor de cabeça — disse-me ele. - Tem ideias fixas?
- Tenho, fixas à cabeça
- Consegue localizar a dor?
Localizar — que é que ele queria com aquele localizar? Mais uma palavra fina para assustar as pessoas.
- Vou examiná-lo — disse-me ele.
- Isso não é coisa difícil — disse-lhe eu e abri a boca e mostrei-lhe o dente do siso, o que está estragado.
Pôs-se a olhar para ele e disse-me:
- Já estou a ver o que é. Precisa de uns calmantes.

Raymond Queneau, in "ficções de humor" tinta permanente, 2003

INTERIOR

As coisas que entram pelo silêncio começam a chegar ao quarto. Sabemo-lo porque deixamos esquecidos lá dentro os nossos olhos. A solidão chega pelos espelhos vazios; a morte desce dos quadros, quebrando suas vitrinas de museu; os recantos abrem-se como romãs para que entre o grilo com seus alfinetes; e, embora nos esqueçamos de apagar a luz, a escuridão dá uma luz negra mais potente, que eclipsa a outra.
Mas não são estas as coisas que entram pelo silêncio, mas outras ainda mais subtis; se não tivéssemos deixado a boca também esquecida, saberíamos dizer seus nomes. Para sugeri-las, os preceptistas aconselham a falar de paralelas, que, sem deixar de o ser, se encontram e se beijam. Mas as crianças que resolvem equações do segundo grau suicidam-se sempre logo que chegam aos oitenta anos; e preferimos por isso olhar sem nomes o que entra pelo silêncio, e deixar que todos continuem a afirmar que dois e dois são quatro.

Gilberto Owen, in "rosa do mundo" assírio & alvim, 2001
trad. José Bento

brevemente...

«Estamos em 1979 e, no Irão, sopram os ventos de mudança. O Xá foi deposto, mas Revolução foi desviada do seu objetivo secular pelo Ayatollah e os seus mercenários fundamentalistas. Marjane Satrapi é uma criança de dez anos irreverente e rebelde, filha de um casal de classe alta e convicções marxistas. Vive em Teerão e, apesar de conhecer bem o materialismo dialético, ter um fetiche por Che Guevara e acreditar que consegue falar diretamente com Deus, é uma criança como qualquer outra, mergulhada em circunstâncias extraordinárias. Nesta autobiografia gráfica, narrada com ilustrações monocromáticas simples mas muito eloquentes, Satrapi conta a história de uma adolescência durante a qual familiares e amigos "desaparecem", mulheres e raparigas são obrigadas a usar véu, os bombardeamentos iraquianos fazem parte do quotidiano e a música rock é ilegal. Contudo, a sua família resiste, tentando viver uma vida com um sentido de normalidade. Um livro inteligente, muito relevante e profundamente humano.» Com esta memória inteligente, divertida e comovente de uma rapariga que cresce no Irão durante a Revolução Islâmica, Marjane Satrapi consegue transmitir uma mensagem universal de liberdade e tolerância.

Marjane Satrapi "Persépolis" contraponto, 2012
trad. Duarte Sousa Tavares

nova edição...


Harper Lee "Mataram a cotovia" relógio d'água, 2012

brevemente, na quetzal...

Durante muitos anos, o grande poeta Von Humboldt Fleisher e Charlie Citrine, uma jovem inflamado pelo amor à literatura, foram os melhores amigos. No momento em que morreu, Humboldt era um falhado, tornara-se pobre e só; e Citrine, por seu turno, também não se encontrava numa fase muito auspiciosa da vida: deixara de progredir na carreira, debatia-se nas malhas de um divórcio litigioso, e vivia uma paixoneta por uma jovem mulher pouco recomendável, envolvida com um mafioso neurótico. De repente, é como se Humboldt agisse a partir do além para deixar Charlie um legado inesperado - legado esse que poderá mudar o rumo da sua vida.

Saul Below "O legado de Humboldt" quetzal, 2012


Aclamado como obra-prima aquando da sua publicação em Itália, "Às Cegas" é um romance de grande originalidade e intensidade poética. A sua forma inovadora - um caudal, uma torrente, um oceano de palavras que fluem livremente - serve na perfeição a narrativa de um louco sobre a sua viagem no tempo e no espaço, e que se polariza nas duas categorias antagónicas dos que fazem a revolução e dos seus perseguidores. Claudio Magris trabalha aqui também motivos recorrentes na sua obra: o das vidas afundadas – que é preciso “resgatar para a literatura”; ou o da figura de proa que, à imagem do Homem, tendo perdido o rumo, continua a desbravar os mares, às cegas, num ato único de esperança.
Uma miríade de lugares, situações, símbolos, coincidências e reflexos, que atravessam continentes e séculos - e um retrato da falência da ideologia e do indivíduo à deriva.

Claudio Magris "Às cegas" quetzal, 2012
trad. Sara Ludovico

novo blogue da assírio & alvim...


http://livrariasassirio.blogspot.pt/

brevemente...

Um prolífico escritor vai a um extravagante congresso, para o qual recebeu convite, com alguma estranheza e uma certa inquietação. No mesmo encontro, participa, em lugar do pai recentemente falecido, Vilnius, um jovem criativo com um certo ar de Dylan, que tem como objectivo último da sua vida alcançar o mais total e absoluto fracasso, tema que preside ao invulgar congresso.
Mas fracassar absolutamente não é nada fácil. Que fazer? Nada? Ou pedir ajuda?
O escritor, por sua vez, deseja pôr um ponto final na sua já vasta obra e atingir o silêncio total e definitivo. Fascinado por Vilnius, segue-lhe o percurso e observa-lhe os estratagemas para chegar ao fracasso. É possível que, com a sua improvável união, rodeados e isolados por uma teia de personagens, consigam ter sucesso na busca do fracasso. Talvez o sucesso não seja o que em geral se pensa. Assim, fracasso e sucesso deixariam de ser antónimos, para se transformarem numa mesma coisa.
Como tão bem escreveu um crítico italiano, Vila-Matas «é um funâmbulo que caminha sobre uma linha que não existe».

Enrique Vila-Matas "Ar de Dylan" teodolito, 2012
trad. Miranda das Neves