De tanto te imaginar, de olhos fechados,
sei lá se te perdi!
E se esta sombra com quem voo nos telhados
és tu em vez de ti.

Só sei que quando vieres, real,
a cheirar a pele e a punhal,
com entranhas e caveira...

...terei de coser a tua sombra à minha,
atar o rio à Nuvem da tardinha,
a labareda ao fumo da fogueira.


José Gomes Ferreira, in "Poesia IV" portugália, 1970

PERGUNTAS DE UM OPERÁRIO LETRADO

Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilónia, tantas vezes destruida,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
Sò tinha palácios
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.

O jovem Alexandre conquistou as Indias
Sózinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos
Quem mais a ganhou?

Em cada página uma vitòria.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?

Tantas histórias
Quantas perguntas


DIFICULDADE DE GOVERNAR

Dificuldade de Governar1.
Todos os dias os ministros dizem ao povo
Como é difícil governar. Sem os ministros
O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima.
Nem um pedaço de carvão sairia das minas
Se o chanceler não fosse tão inteligente. Sem o ministro da Propaganda
Mais nenhuma mulher poderia ficar grávida. Sem o ministro da Guerra
Nunca mais haveria guerra. E atrever-se ia a nascer o sol
Sem a autorização do Führer?
Não é nada provável e se o fosse
Ele nasceria por certo fora do lugar.

2.
E também difícil, ao que nos é dito,
Dirigir uma fábrica. Sem o patrão
As paredes cairiam e as máquinas encher-se-iam de ferrugem.
Se algures fizessem um arado
Ele nunca chegaria ao campo sem
As palavras avisadas do industrial aos camponeses: quem,
De outro modo, poderia falar-lhes na existência de arados? E que
Seria da propriedade rural sem o proprietário rural?
Não há dúvida nenhuma que se semearia centeio onde já havia batatas.

3.
Se governar fosse fácil
Não havia necessidade de espíritos tão esclarecidos como o do Führer.
Se o operário soubesse usar a sua máquina
E se o camponês soubesse distinguir um campo de uma forma para tortas
Não haveria necessidade de patrões nem de proprietários.
E só porque toda a gente é tão estúpida
Que há necessidade de alguns tão inteligentes.

4.
Ou será que
Governar só é assim tão difícil porque a exploração e a mentira
São coisas que custam a aprender?


Bertolt Brecht, in "poemas" presença, 1976
trad. Sylvie Deswarte, Arnaldo Saraiva

AMANHÃ ACONTECEU

Que é notícia?

Um hoje que nunca é hoje,
um amanhã que é já ontem
entre ontens que se perdem
no anteontem dos anos
no tresantontem dos lustros...

Que é notícia?

Amanhã acontecido,
notícia é sempre um depois,
é um a viver vivido...

Que é notícia?

Notícia é devoração!
Aí vai ela pela goela
que há-de engolir tudo e todos!
Aí vai ela, lá foi ela!

Nem trabalho de moela
retém notícia...

Notícia sem coração!

Que é notícia?

Cão perdeu-se! Por que não?
Cão achou-se! Ainda bem!
Ainda melhor, por sinal,
se o cão perdido e o achado
forem um só e o mesmo
«lidos» no mesmo jornal!

Que é notícia?

Damos notícia um ao outro
do nosso interesse comum.
Fui Cavalheiro amanhã.
Ontem Senhora serás.
Como eu não há nenhum!...

Que é notícia?

Quando o primeiro tortulho
se abre no céu (silhueta
que em símbolo se tornará)
onde estou, estouvava eu?
Estava com a tia Henriqueta...

Que é notícia?

Fechada para balanço,
tia Queta dormitava.
Com a folhinha nos joelhos,
do tortulho, que treslera,
já em feto se engelhava...

Que é notícia?

Das convulsões deste mundo
dava meu pai a versão:
- Ailitla por toda a Europa...
O guarda-roupa, meu filho,
varia, a tragédia não...

Que é notícia?

O bom do velhote ia
na terceira dentição...

Que é notícia?

Alcatruz que se abalança
a tornar à sua água?
Já o de Éfeso sabia:
não se molha duas vezes
o lenço na mesma mágoa...

Que é notícia?

Notícia em primeira mão
na minha mão infantil:
o papagaio empinado
no claro céu da manhã,
meu jornal publicado
por cima de tanto afã...

Mas terá sido notícia?

Que é notícia?


Alexandre O'Neill, in "De Ombro na Ombreira" dom quixote, 1969

If...


IF you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you,
If you can trust yourself when all men doubt you,
But make allowance for their doubting too;
If you can wait and not be tired by waiting,
Or being lied about, don't deal in lies,
Or being hated, don't give way to hating,
And yet don't look too good, nor talk too wise:
If you can dream - and not make dreams your master;
If you can think - and not make thoughts your aim;
If you can meet with Triumph and Disaster
And treat those two impostors just the same;
If you can bear to hear the truth you've spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to, broken,
And stoop and build 'em up with worn-out tools:

If you can make one heap of all your winnings
And risk it on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breathe a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: 'Hold on!'

If you can talk with crowds and keep your virtue,
' Or walk with Kings - nor lose the common touch,
if neither foes nor loving friends can hurt you,
If all men count with you, but none too much;
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds' worth of distance run,
Yours is the Earth and everything that's in it,
And - which is more - you'll be a Man, my son!


Rudyard Kipling

Não sei como dizer-te que a minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e casta.
Não sei o que dizer, especialmente quando os teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e tu estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima,
— eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.

Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
o coração é uma semente inventada
em seu ascético escuro e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a minha casa ardesse pousada na noite.
— E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes caem no meio do tempo,
— não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.

Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço —
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra vai cair da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me falta
um girassol, uma pedra, uma ave — qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,

que te procuram.


Herberto Helder, in "Poesia Toda" assírio & alvim, 1981

PARÁBOLA

Os pescadores tiraram uma garrafa das profundezas. Havia nela um papel que continha as seguintes palavras: "Acudam! Estou aqui. O oceano atirou-me para uma ilha deserta. Estou junto à água à espera de ajuda. Estou aqui!"
- Não traz data. Por certo já é tarde. A garrafa poderia ter andado à deriva por muito tempo — disse o primeiro pescador.
- E não indicou o lugar. O oceano, pode ser um qualquer — disse o segundo pescador.
- Não é por ser tarde nem longe. A ilha Aqui pode estar em qualquer parte — disse o terceiro pescador.
Sentiram embaraço, fez-se silêncio. Com as verdades universais, é sempre assim.

Wislawa Szymborska, in "Alguns gostam de poesia" cavalo de ferro, 2004

leitura recomendada...


http://fora-daqui.blogspot.com/

Manuel João Vieira...


Por demais conhecido via Rádio (cançonetista?) e Televisão (actor cómico?), mas também como pintor (homeoestético), agitador (animador?) nocturno e até como insistente candidato à Presidência da República («se for eleito, demito-me»), Manuel João Vieira estreia-se aqui como letrista (poeta?), de companhia com o incontornável Fernando Brito (dos Irmãos Catita) e uma meia-dúzia de heterónimos, ou isso.

O livro resulta exemplarmente feio, porco e mau, quer-se dizer: à exacta altura do Portugal Alcatifado que nos rodeia. A edição, essa, só pode encarar-se como exercício de absoluta liberdade, com maiúscula.

Lello, Brito & irmão "Portugal alcatifado canções anormais" & etc, 2012

o doutor glas...



«Como em Eugénie Grandet de Balzac e em Washington Square de Henry James, mas desta vez misturado com uma sensibilidade semelhante à de Strindberg e de Ingmar Bergman. É assim possível ter uma ideia da força e sinceridade desta obra-prima no Norte da Europa.»

Susan Sontag

Hjalmar Söderberg "O Doutor Glas" relógio d'água, 2012

brevemente...



Ola Nilsson, vencedor do Prémio Literário Norrland, em 2010, nasceu na Suécia em 1972 e é, hoje em dia, um dos autores mais promissores do seu país. O seu estilo cruel e minimal capta genialmente a vida de pessoas inadaptadas e o modo como estas se tentam integrar.
"Os Cães" aborda a vida de alguns jovens no escuro e frio nordeste da Suécia, numa pequena localidade onde uma ponte marca o dia-a-dia da comunidade. A ponte – símbolo da decadência da região e da entrada no mundo moderno – é o local de encontro dos jovens que, não tendo mais para onde ir e lidando com problemas de álcool, aí se juntam. Apesar do alcoolismo, das perigosas relações sexuais e da falta de orientação, existe, ainda assim, uma vontade constante de sobreviver, alimentada pela ansiedade e esperança de uma outra vida. Um história cruel, violenta e emotiva a que não se consegue ficar indiferente.

«A narrativa dramática com caracterização mínima e diálogo abrupto que normalmente associamos a autores da região de Norrland – como Torgny Lindgren e Sara Lidman – tem em Ola Nilsson um novo representante. (…) O tema dificilmente terá sido abordado deste modo.»

Tidningen Kulturen

«O estilo de Nilsson é sereno, tendo, por vezes, algum humor lacónico, mas sem nunca resvelar para sentimentalismos sobre o modo de vida das personagens: alcoólicos empedernidos que ainda não saíram da adolescência. Lembra Lars Görling: a poesia na brutalidade e na pobreza, a beleza presente na vida miserável. Os Cães de Ola Nilsson é um grande romance: contido no seu estilo curto e simples, mas com um alcance enorme.»

Hallands Nyheter

Ola Nilsson "Os Cães" eucleia, 2012
trad. João Reis

em primeira mão...

Tudo se passa durante um mês de verão numa praia do Mediterrâneo. Há uma mansão arruinada, uma bonita patinadora em decadência, e a paixão de um autarca de província. É há um crime, nas diferentes versões de três narradores que se vão completando e corrigindo. Remo Móran, Gaspar Heredia e Enric Rosquelles estão ligados a esse acontecimento central e, sem o saberem, podiam tê-lo impedido.
Pista de Gelo – que se constrói sobre as linhas características do projeto narrativo de Roberto Bolaño – é um espaço de reflexão sobre a corruptibilidade dos políticos, sobre a ação perturbadora do amor nas pessoas, sobre o desenraizamento, a amizade e a dissolução dos sonhos. E mostra-nos, sobretudo, que nada é o que aparenta ser, nada é bem o que nos contam; e que, mesmo na ausência de sentido, a vida prossegue.

Roberto Bolaño "A pista de gelo" quetzal, 2012

dia 9 de Março nas Livrarias

brevemente...

Isaac Babel "contos escolhidos" relógio d'água, 2012

google feat. François Truffaut



brevemente na tinta da china...

E se o mundo quisesse falar connosco, revelar-nos íntimos segredos, ocultos mecanismos? Que léxico usaria, de modo a descer até ao nosso entendimento? São 18 palavras «difíceis», articuladas neste livro para descrever pequenos prodígios sem consequências, mas também dramas e cataclismos. E como se organizam estas palavras? Em listas, rascunhos, cabriolas de estilo, apropriações indevidas, estruturas falsas, homenagens improváveis. Para compor uma tabela periódica capaz de revelar as leis escondidas de vidas, livros, recordações, esquecimentos. São 18 histórias com dispositivos variados, do registo confessional ao pastiche, do jogo labiríntico à banda desenhada – aqui com o traço inconfundível de João Fazenda. Um livro com armadilhas e surpresas ao virar de cada página e que se lê como quem passa em revista um labirinto feito do bricabraque da memória.

Luís Miguel Rainha "18 palavras difíceis" tinta da china, 2012

«Em tempos de auge a conjetura de que a existência do Homem é uma quantidade constante invariável pode entristecer ou irritar; em tempos que declinam (como este), é a promessa de que nenhum opróbrio, nenhuma calamidade nem nenhum ditador poderá empobrecer-nos.»

Jorge Luís Borges, in “história da eternidade” quetzal, 2012
trad. José Colaço Barreiros

O DEUS ABANDONA MARCO ANTÓNIO

Quando subitamente se ouve à meia-noite
um cortejo que invisível passa
com sublimes músicas e cânticos -
a tua fortuna que desiste, as tuas obras
que falharam, os planos de uma vida inteira
tornados nada -, não vale chorar.
Como aquele de há muito preparado, corajosamente
diz-lhe adeus, à Alexandria que de ti se afasta.
Acima de tudo não te iludas, nunca digas que foi
apenas sonho, um engano, quanto ouviste:
não te agarres a tão vãs esperanças.
Como aquele de há muito preparado, corajosamente,
e como é próprio de quem, como tu, era digno de uma tal cidade,
aproxima-te firme da janela,
e escuta emocionado, mas não
com lamentos e súplicas cobardes,
escuta, derradeira alegria tua, os sons que passam,
os sublimes instrumentos do cortejo místico,
e diz adeus, adeus à Alexandria que perdeste.


Constantino Cavafy, in "90 e mais quatro poemas" asa, 2003
trad. Jorge de Sena

Em 2003, regressando do Afeganistão, tive de parar em Baku, no Azerbaijão. Fiquei num hotel chamado Apcheron, nome da península sobre a qual a cidade foi construída. Escrevia na altura Suite no Hotel Crystal, um livro composto por umas quarenta histórias passadas em quartos de hotel do mundo inteiro. O nome Apcheron, tão próximo do do rio dos mortos grego, sugeriu-me a ideia de aí encenar o meu próprio suicídio. A nota biográfica na capa do livro viria a mencionar a minha data de nascimento e de morte: Boulogne-Billancourt, 1947 - Baku, 2009. A partir de 2004, eu tinha pois morrido em Baku em 2009, no quarto 1123 do Hotel Apcheron.
À medida que esse fatídico ano de 2009 se ia aproximando, as recomendações dos amigos tornavam-se mais insistentes: se fores convidado para ir a Baku em 2009, não vás! Estes alertas fizeram naturalmente nascer em mim a ideia de que, pelo contrário, devia mesmo ir a Baku, para honrar uma espécie de promessa e aí permanecer o tempo suficiente para dar à ficção da minha morte à beira do Cáspio uma razoável hipótese de se concretizar. Este livro é, em certa medida, o diário da minha estada na cidade onde era suposto morrer. Retratos, coisas vistas, sonhos, leituras, notas de viagem, evocação de figuras do passado, etc. Claro que se tratava de um jogo, iniciado por um jogo de palavras, mas esse jogo dava um certo colorido aos meus pensamentos, orientava até certo ponto as minhas imaginações e mesmo os meus olhares.

Olivier Rolin, in "Baku, últimos dias" sextante, 2012
trad. Manuela Torres

Wislawa Szymborska 1923/2012


POSSIBILIDADES

Prefiro cinema.
Prefiro os gatos.
Prefiro os carvalhos nas margens do Warta.
Prefiro Dickens a Doistoievski.
Prefiro-me gostando dos homens
em vez de estar amando a humanidade.
Prefiro ter uma agulha preparada com a linha.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não afirmar
que a razão é culpada de tudo.
Prefiro as excepções.
Prefiro sair mais cedo.
Prefiro conversar com os médicos sobre outra coisa.
Prefiro as velhas ilustrações listradas.
Prefiro o ridículo de escrever poemas
ao ridículo de não escrever.
No amor prefiro os aniversários não redondos
para serem comemorados cada dia.
Prefiro os moralistas,
que não prometem nada.
Prefiro a bondade esperta à bondade ingénua demais.
Prefiro a terra à paisana.
Prefiro os países conquistados aos países conquistadores.
Prefiro ter abjecções.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro contos de fada de Grimm às manchetes de jornais.
Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro os cães com o rabo não cortado.
Prefiro os olhos claros porque os tenho escuros.
Prefiro as gavetas.
Prefiro muitas coisas que aqui não disse,
e outras tantas não mencionadas aqui.
Prefiro os zeros à solta
a tê-los numa fila junto ao algarismo.
Prefiro o tempo do insecto ao tempo das estrelas.
Prefiro isolar.
Prefiro não perguntar quanto tempo ainda e quando.
Prefiro levar em consideração até a possibilidade
do ser ter a sua razão.


Wislawa Szymborska, in "rosa do mundo" assírio & alvim, 2001

My Pussy Belongs To Daddy by Faye Richmonde on Grooveshark

brevemente...


Poemas de Mário Cesariny e Adolfo Luxúria Canibal ditos por este último, numa edição em parceria com a Fundação Cupertino de Miranda, onde Adolfo Luxúria Canibal interpreta três poemas seus e cinco poemas de Mário Cesariny, acompanhado musicalmente por António Rafael (pianos, teclados e programações), Henrique Fernandes (contrabaixo eléctrico) e Jorge Coelho (guitarra eléctrica).

assírio & alvim, 2012

brevemente...


«Publicados em 1993, no ano da sua morte, estes Três Prantos centram-se nas personagens (ou só vozes?) de Cleópatra, Herodíades e Maria, são monólogos em verso, lamentos de amor de Cleópatra que chora António, de Herodíades que arde de desejo pelo Baptista que a recusa, e pranto antiquíssimo de Maria, que Testori reinventa, carnal, retirando-a do cheiro das velas, e vendo abrir os braços ao perdão, maneira que tem o céu de se abrir. E será neste último pranto que a trilogia se encontra, na esperança, na redenção, na aceitação do sacrifício aqui na terra»

Jorge Silva Melo

Giovanni Testori "Três Prantos" assírio & alvim, 2012
trad. Miguel Serras Pereira
apres. Jorge Silva Melo

SINTAXE

Aonde a planície já não tiver um sentido
e os campos forem já só o horizonte
aí o teu vestido há-de ser cor esmaecido
e sobre ti a minha fronte.
Por te sobre os joelhos uma flor rubra
por te no lugar das pernas o mais amor que me houver
aí onde a flor deixa o pólen
aí o sémen mulher.
Por te sobre o sémen o gemido do teu acto
por te sobre o gemido
a planície sem sentido
aí o teu vestido há-de ser cor esmaecido
por te sobre as pernas me dilato.

António Gancho, in "O ar da manhã" assírio & alvim, 1995

SOBRESSALTOS

Uma noite estava ele sentado à mesa dele com a cabeça entre as mãos quando se viu a si mesmo a levantar-se e a ir-se. Uma noite ou um dia. Pois quando se apagou a luz dele não ficou na escuridão. Na altura vinha uma espécie de luz da única janela alta. Debaixo dela ainda o banco por onde ele subia para ver o céu até mais não poder ou não querer. Se não se esticava para ver o que havia lá por baixo era talvez porque a janela não era feita para abrir ou porque ele não a podia ou não queria abrir. Talvez ele soubesse até bem de mais o que havia lá por baixo e nunca mais o quisesse ver. E assim mais não fazia que pôr-se ali de pé bem alto acima da terra a olhar através do vidro nublado para o céu sem nuvens. A luz fraca e fixa do céu como nenhuma outra luz de que ele se lembrasse dos dias e das noites em que dia dava em noite e noite dava em dia. Então esta luz exterior quando a luz que ele tinha se apagou tornou-se na única luz que tinha até que por sua vez se apagou e deixou-o na escuridão. Até que por sua vez se apagou.
(...)

Samuel Beckett, in" Últimos Trabalhos" o independente, assírio & alvim, 1996
trad. Miguel Esteves Cardoso

moradas de silêncio...


http://colectivochato.blogspot.com/

A curva dos teus olhos dá a volta ao meu peito.
É uma dança de roda e de doçura.
Berço nocturno e auréola do tempo,
Se já não sei tudo o que vivi
É que os teus olhos não me viram sempre.

Folhas do dia e musgos do orvalho,
Hastes de brisas, sorrisos de perfume,
Asas de luz cobrindo o mundo inteiro,
Barcos de céu e barcos do mar,
Caçadores dos sons e nascentes das cores.

Perfume esparso dum manancial de auroras
Abandonando sobre a palha dos astros,
Como o dia depende da inocência
O mundo inteiro depende dos teus olhos
E todo o meu sangue corre no teu olhar.

Paul Éluard, in “tempo de poesia” tempo, 1970
trad. António Ramos Rosa

a vossa opinião conta...

Franz Kupka [ The Yellow Scale ] 1907


As livrarias Bertrand querem conhecer melhor os hábitos de leitura e consumo de livros nos dias que correm. O questionário é anónimo e confidencial, demora 5 minutos a responder. Todas as experiências são importantes. Participe e pode contribuir para sermos melhores.

https://www.surveymonkey.com/s/5FC8G66

Jan Švankmajer [ Darkness, Light, Darkness ] 1989


SÓ ESSA

repito, de mim para mim, vezes sem numero,
a promessa que fomos entre as primaveras abraçadas
e o fio de luz que escoava nos plátanos, já noite.
recordo o aroma doce que, misturado nos teus lábios,
abria vento fora o corpo e o carinho do corpo e a voz,
de mel que vinha dormir junto de mim, o teu nome

lembro também o ano em que habitávamos o frio,
no Inverno vertical que caía sobre nós com os dias
e os minutos em que o lume se internava na madeira
e, por momentos, nos deixava a sós com o estrondo
da casa quase vazia, a maneira como nos tocávamos.

«e se as esquinas não dessem para outra rua e tudo
se abismasse de súbito: como saberias de mim?»,
perguntaste-me quando os teus pulsos acharam o azul
e redondos espreitaram no mar a constelação de búzios
onde dizes ter nascido – como podia eu saber de ti?

compreendo por que deitaste para dormir, em silencio,
sem te demorares na varanda, sem escutares a floresta,
assim como quem descobre uma palavra nunca ouvida
e sabe que só essa valeria o dizer – e fui eu o poço

vou uma vez mais até ao extremo desta terra estremecida
e encontro o lugar vazio onde a bruma anuncia o que talvez não retorne
por não haver sangue entre nós, um segredo que leve a tua mão à minha,
uma volta de planeta que devolva as ruas e as esquinas em que eu sei de ti.


Vasco Gato, in “um mover de mão” assírio & alvim, 2000

brevemente na tinta da china...


«Jornalista e escritor, Fernando Assis Pacheco (1937-1995) marcou, pelas suas invulgares qualidades intelectuais e de personalidade, toda uma geração. As reportagens e crónicas que escreveu para o 'Diário de Lisboa', o 'República', 'O Jornal e a Visão', entre outros, quebraram os cânones e abriram caminho a novas formas, mais literárias, de fazer jornalismo. A sua figura tornou-se extremamente popular após a participação no concurso televisivo Cornélia. Foi um homem de esquerda e opositor declarado da ditadura, publicando os primeiros poemas contra a guerra colonial. Esta é a sua primeira biografia.»

Nuno Costa Santos "Trabalhos e paixões de Fernando Assis Pacheco" tinta da china, 2012

brevemente na quetzal...

Dave Eggers maneja a narrativa curta de forma tão magnífica – coadjuvado pela sua revista McSweeney’s e pelos seus muitos imitadores – que devolveu a este género o relevo e o estatuto que sempre teve no panorama literário norte-americano. Enquanto isso, e divulgando o trabalho de terceiros, Eggers tem mostrado ser um dos grandes mestres desta forma. Nesta imperdível seleção, Dave Eggers revela o seu talento numa imensa variedade de registos - histórias sombrias, divertidas, ousadas e infinitamente inventivas.

Dave Eggers "Como estamos famintos" quetzal, 2012


Uma história de dois irmãos britânicos que, justamente, personificam os anseios espirituais e sexuais do próprio Isherwood. Um dos irmãos, Oliver, que vive nas margens do Ganges, escreve ao outro, Patrick, anunciando-lhe que se tornará monge de um mosteiro hindu. Patrick, por sua vez, decide partir de imediato para a Índia, numa tentativa de dissuadir o irmão de o que considera um tremendo erro. Patrick tem a mulher e os filhos em casa, em Londres, e está na Califórnia em negócios. Mas há mais alguma coisa que aí o prende, uma pessoa, um segredo.

Christopher Isherwood "Encontro à beira-rio" quetzal, 2012

fevereiro é mês de Borges


«Não mostrei a ninguém o meu tesouro. À felicidade de possuí-lo juntou-se o medo de que mo roubassem, e depois o receio de que não fosse verdadeiramente infinito. Essas duas inquietações agravaram a minha já velha misantropia. Sobravam uns amigos; deixei de vê-los. Examinei com uma lupa a lombada já gasta e as capas e rejeitei a possibilidade de algum artifício. Comprovei que as pequenas ilustrações distavam duas mil páginas uma da outra. Fui-as anotando num registo alfabético, que não tardei a encher. Nunca se repetiram. De noite, nos escassos intervalos que me concedia a insónia, sonhava com o livro.»


«O movimento, ocupação de lugares diferentes em instantes diferentes, é inconcebível sem o tempo; igualmente o é a imobilidade, ocupação de um mesmo lugar em pontos diferentes do tempo. Como pude não sentir que a eternidade, ansiada com amor por poetas, é um artifício esplêndido que nos livra, embora de maneira fugaz, da intolerável opressão do sucessivo?»

em janeiro...



A música I: breve súmula dos mais importantes ditados do Ministro Calvo


Concordemos todos: o perigo que é ouvir pássaros cantarem melodias
alegres. O perigo que é! Felizmente, o Muro serve de barreira, a
Floresta fica longe, e os ramos das árvores. Mas não sejamos
desprevenidos. A música não é apenas, como muitos julgam, mera
organização matemática de sons. Ou: que bonito!, ou: que horror! A
música também é medicamento: pode deter a eficácia inata de um
poderoso ansiolítico, ou guardar fortes propriedades vitamínicas. Daí
alterar estados de ânimo, compassos cardíacos. Pois, tal como uma arma
de grande calibre quando empunhada, um violoncelo, um saxofone,
derrubam, imobilizam, silenciam, amolecem, colocam lágrimas onde antes
não as tínhamos. E, de igual forma, vocês sabem isto, um piano faz
deslizar o corpo, ou levanta-nos de um pulo como um gafanhoto, ou
põe-nos a correr com o vento da alegria a arreganhar a boca.
Posto isto, colocam-se questões indispensáveis:
Que música deve o Governo ouvir para se fazer mais forte, e irresistível?
E que música permitiremos nós dar a todas as cabeças silvestres e
corações toscos que nesta cidade abundam, para que não lhes cresça na
boca a espuma da baba raivosa?

Sandro William Junqueira, in "um piano para cavalos altos" caminho, 2012
— Boas festas!!

If time had a place,
And space for your past.
Like a little novel,
I wanted to read again and again,
Would i be in your novel,
Would i begin and end in it.
If I had a place,
And space for your little boy eyes,
Could you really believe,
I certainly dare you,
I do not want to scare you,
Anymore.
Oh what a fuss when the king rides by,
Oh what a fuss when the king rides,
Straight through my heart,
Straight through my life.
I need your love more than you'd ever know.
If I kissed and touched your hand,
A million things I will never understand,
Oh what a fuss when the king trades in,
Oh what a fuss when the king trades.
Oh love, my love, for someone else's hand,
Needing love more than you'll ever know.
You don't miss your water,
You don't miss your water,
'Till your well is gone.