brevemente...


«Publicados em 1993, no ano da sua morte, estes Três Prantos centram-se nas personagens (ou só vozes?) de Cleópatra, Herodíades e Maria, são monólogos em verso, lamentos de amor de Cleópatra que chora António, de Herodíades que arde de desejo pelo Baptista que a recusa, e pranto antiquíssimo de Maria, que Testori reinventa, carnal, retirando-a do cheiro das velas, e vendo abrir os braços ao perdão, maneira que tem o céu de se abrir. E será neste último pranto que a trilogia se encontra, na esperança, na redenção, na aceitação do sacrifício aqui na terra»

Jorge Silva Melo

Giovanni Testori "Três Prantos" assírio & alvim, 2012
trad. Miguel Serras Pereira
apres. Jorge Silva Melo

SINTAXE

Aonde a planície já não tiver um sentido
e os campos forem já só o horizonte
aí o teu vestido há-de ser cor esmaecido
e sobre ti a minha fronte.
Por te sobre os joelhos uma flor rubra
por te no lugar das pernas o mais amor que me houver
aí onde a flor deixa o pólen
aí o sémen mulher.
Por te sobre o sémen o gemido do teu acto
por te sobre o gemido
a planície sem sentido
aí o teu vestido há-de ser cor esmaecido
por te sobre as pernas me dilato.

António Gancho, in "O ar da manhã" assírio & alvim, 1995

SOBRESSALTOS

Uma noite estava ele sentado à mesa dele com a cabeça entre as mãos quando se viu a si mesmo a levantar-se e a ir-se. Uma noite ou um dia. Pois quando se apagou a luz dele não ficou na escuridão. Na altura vinha uma espécie de luz da única janela alta. Debaixo dela ainda o banco por onde ele subia para ver o céu até mais não poder ou não querer. Se não se esticava para ver o que havia lá por baixo era talvez porque a janela não era feita para abrir ou porque ele não a podia ou não queria abrir. Talvez ele soubesse até bem de mais o que havia lá por baixo e nunca mais o quisesse ver. E assim mais não fazia que pôr-se ali de pé bem alto acima da terra a olhar através do vidro nublado para o céu sem nuvens. A luz fraca e fixa do céu como nenhuma outra luz de que ele se lembrasse dos dias e das noites em que dia dava em noite e noite dava em dia. Então esta luz exterior quando a luz que ele tinha se apagou tornou-se na única luz que tinha até que por sua vez se apagou e deixou-o na escuridão. Até que por sua vez se apagou.
(...)

Samuel Beckett, in" Últimos Trabalhos" o independente, assírio & alvim, 1996
trad. Miguel Esteves Cardoso

moradas de silêncio...


http://colectivochato.blogspot.com/

A curva dos teus olhos dá a volta ao meu peito.
É uma dança de roda e de doçura.
Berço nocturno e auréola do tempo,
Se já não sei tudo o que vivi
É que os teus olhos não me viram sempre.

Folhas do dia e musgos do orvalho,
Hastes de brisas, sorrisos de perfume,
Asas de luz cobrindo o mundo inteiro,
Barcos de céu e barcos do mar,
Caçadores dos sons e nascentes das cores.

Perfume esparso dum manancial de auroras
Abandonando sobre a palha dos astros,
Como o dia depende da inocência
O mundo inteiro depende dos teus olhos
E todo o meu sangue corre no teu olhar.

Paul Éluard, in “tempo de poesia” tempo, 1970
trad. António Ramos Rosa

a vossa opinião conta...

Franz Kupka [ The Yellow Scale ] 1907


As livrarias Bertrand querem conhecer melhor os hábitos de leitura e consumo de livros nos dias que correm. O questionário é anónimo e confidencial, demora 5 minutos a responder. Todas as experiências são importantes. Participe e pode contribuir para sermos melhores.

https://www.surveymonkey.com/s/5FC8G66

Jan Švankmajer [ Darkness, Light, Darkness ] 1989


SÓ ESSA

repito, de mim para mim, vezes sem numero,
a promessa que fomos entre as primaveras abraçadas
e o fio de luz que escoava nos plátanos, já noite.
recordo o aroma doce que, misturado nos teus lábios,
abria vento fora o corpo e o carinho do corpo e a voz,
de mel que vinha dormir junto de mim, o teu nome

lembro também o ano em que habitávamos o frio,
no Inverno vertical que caía sobre nós com os dias
e os minutos em que o lume se internava na madeira
e, por momentos, nos deixava a sós com o estrondo
da casa quase vazia, a maneira como nos tocávamos.

«e se as esquinas não dessem para outra rua e tudo
se abismasse de súbito: como saberias de mim?»,
perguntaste-me quando os teus pulsos acharam o azul
e redondos espreitaram no mar a constelação de búzios
onde dizes ter nascido – como podia eu saber de ti?

compreendo por que deitaste para dormir, em silencio,
sem te demorares na varanda, sem escutares a floresta,
assim como quem descobre uma palavra nunca ouvida
e sabe que só essa valeria o dizer – e fui eu o poço

vou uma vez mais até ao extremo desta terra estremecida
e encontro o lugar vazio onde a bruma anuncia o que talvez não retorne
por não haver sangue entre nós, um segredo que leve a tua mão à minha,
uma volta de planeta que devolva as ruas e as esquinas em que eu sei de ti.


Vasco Gato, in “um mover de mão” assírio & alvim, 2000

brevemente na tinta da china...


«Jornalista e escritor, Fernando Assis Pacheco (1937-1995) marcou, pelas suas invulgares qualidades intelectuais e de personalidade, toda uma geração. As reportagens e crónicas que escreveu para o 'Diário de Lisboa', o 'República', 'O Jornal e a Visão', entre outros, quebraram os cânones e abriram caminho a novas formas, mais literárias, de fazer jornalismo. A sua figura tornou-se extremamente popular após a participação no concurso televisivo Cornélia. Foi um homem de esquerda e opositor declarado da ditadura, publicando os primeiros poemas contra a guerra colonial. Esta é a sua primeira biografia.»

Nuno Costa Santos "Trabalhos e paixões de Fernando Assis Pacheco" tinta da china, 2012

brevemente na quetzal...

Dave Eggers maneja a narrativa curta de forma tão magnífica – coadjuvado pela sua revista McSweeney’s e pelos seus muitos imitadores – que devolveu a este género o relevo e o estatuto que sempre teve no panorama literário norte-americano. Enquanto isso, e divulgando o trabalho de terceiros, Eggers tem mostrado ser um dos grandes mestres desta forma. Nesta imperdível seleção, Dave Eggers revela o seu talento numa imensa variedade de registos - histórias sombrias, divertidas, ousadas e infinitamente inventivas.

Dave Eggers "Como estamos famintos" quetzal, 2012


Uma história de dois irmãos britânicos que, justamente, personificam os anseios espirituais e sexuais do próprio Isherwood. Um dos irmãos, Oliver, que vive nas margens do Ganges, escreve ao outro, Patrick, anunciando-lhe que se tornará monge de um mosteiro hindu. Patrick, por sua vez, decide partir de imediato para a Índia, numa tentativa de dissuadir o irmão de o que considera um tremendo erro. Patrick tem a mulher e os filhos em casa, em Londres, e está na Califórnia em negócios. Mas há mais alguma coisa que aí o prende, uma pessoa, um segredo.

Christopher Isherwood "Encontro à beira-rio" quetzal, 2012

fevereiro é mês de Borges


«Não mostrei a ninguém o meu tesouro. À felicidade de possuí-lo juntou-se o medo de que mo roubassem, e depois o receio de que não fosse verdadeiramente infinito. Essas duas inquietações agravaram a minha já velha misantropia. Sobravam uns amigos; deixei de vê-los. Examinei com uma lupa a lombada já gasta e as capas e rejeitei a possibilidade de algum artifício. Comprovei que as pequenas ilustrações distavam duas mil páginas uma da outra. Fui-as anotando num registo alfabético, que não tardei a encher. Nunca se repetiram. De noite, nos escassos intervalos que me concedia a insónia, sonhava com o livro.»


«O movimento, ocupação de lugares diferentes em instantes diferentes, é inconcebível sem o tempo; igualmente o é a imobilidade, ocupação de um mesmo lugar em pontos diferentes do tempo. Como pude não sentir que a eternidade, ansiada com amor por poetas, é um artifício esplêndido que nos livra, embora de maneira fugaz, da intolerável opressão do sucessivo?»

em janeiro...



A música I: breve súmula dos mais importantes ditados do Ministro Calvo


Concordemos todos: o perigo que é ouvir pássaros cantarem melodias
alegres. O perigo que é! Felizmente, o Muro serve de barreira, a
Floresta fica longe, e os ramos das árvores. Mas não sejamos
desprevenidos. A música não é apenas, como muitos julgam, mera
organização matemática de sons. Ou: que bonito!, ou: que horror! A
música também é medicamento: pode deter a eficácia inata de um
poderoso ansiolítico, ou guardar fortes propriedades vitamínicas. Daí
alterar estados de ânimo, compassos cardíacos. Pois, tal como uma arma
de grande calibre quando empunhada, um violoncelo, um saxofone,
derrubam, imobilizam, silenciam, amolecem, colocam lágrimas onde antes
não as tínhamos. E, de igual forma, vocês sabem isto, um piano faz
deslizar o corpo, ou levanta-nos de um pulo como um gafanhoto, ou
põe-nos a correr com o vento da alegria a arreganhar a boca.
Posto isto, colocam-se questões indispensáveis:
Que música deve o Governo ouvir para se fazer mais forte, e irresistível?
E que música permitiremos nós dar a todas as cabeças silvestres e
corações toscos que nesta cidade abundam, para que não lhes cresça na
boca a espuma da baba raivosa?

Sandro William Junqueira, in "um piano para cavalos altos" caminho, 2012
— Boas festas!!

If time had a place,
And space for your past.
Like a little novel,
I wanted to read again and again,
Would i be in your novel,
Would i begin and end in it.
If I had a place,
And space for your little boy eyes,
Could you really believe,
I certainly dare you,
I do not want to scare you,
Anymore.
Oh what a fuss when the king rides by,
Oh what a fuss when the king rides,
Straight through my heart,
Straight through my life.
I need your love more than you'd ever know.
If I kissed and touched your hand,
A million things I will never understand,
Oh what a fuss when the king trades in,
Oh what a fuss when the king trades.
Oh love, my love, for someone else's hand,
Needing love more than you'll ever know.
You don't miss your water,
You don't miss your water,
'Till your well is gone.

It Was The Night by Other Lives on Grooveshark

Com um passo ligeiro
passa
de uma cor para outra
de um fruto para outro

um bom jardineiro
mostra uma flor com um estaca
um homem feliz
o sol azul

depois disso
endireita os óculos
e serve chá
resmunga
acaricia o gato

quando o Senhor criou o mundo
franziu o sobrolho
fez muitos cálculos
é por isso que o mundo é perfeito
e inabitável

pelo contrário
o mundo de um pintor
é bom
e cheio de erros
o olhar vagueia
de uma cor para outra
de um fruto para outro

o olhar resmunga
sorri
recorda

diz que é tolerável
apenas se conseguirmos
entrar lá dentro
onde o pintor está
sem asas
de chinelos que caem
sem Virgílio
com um gato no bolso
uma fantasia benevolente
e uma mão
que sem saber
corrige o mundo


Zbigniew Herbert, in "Escolhido pelas estrelas" assírio & alvim, 2009
trad. Jorge Sousa Braga

It's Getting Dark by Summer Fiction on Grooveshark

Throw Your Arms Around Me by Summer Fiction on Grooveshark

AS COISAS

Há em todas as coisas uma mais-que-coisa
fitando-nos como se dissesse: “Sou eu”,
algo que já lá não está ou se perdeu
antes da coisa, e essa perda é que é a coisa.

Em certas tardes altas, absolutas,
quando o mundo por fim nos recebe
como se também nós fossemos mundo,
a nossa própria ausência é uma coisa.

Então acorda a casa e os livros imaginam-nos
do tamanho da sua solidão.
Também nós tivemos um nome
mas, se alguma vez o ouvimos, não o reconhecemos.

Manuel António Pina, in “como se desenha uma casa” assírio & alvim, 2011

uma boa notícia...

Bohumil Hrabal "Terno Bárbaro" teodolito, 2011

em novembro...


Corre o ano de 1972, os argentinos esperam o regresso de Perón. A uma vila rural da província de Buenos Aires chega um estranho forasteiro, Tony Durán, nascido em Porto Rico, educado como um norte-americano de Nova Jersey. Vem seguindo as belas gémeas Ada e Sofía Belladona, com quem mantinha um caso tórrido. Tony Durán é assassinado, e o comissário Croce investiga: por quem, porquê? Qual o papel de Luca Belladona, construtor de uma fábrica irreal perdida no meio do campo? O aparecimento de Emílio Renzi, a tradicional personagem de Piglia, dá uma conclusão irónica e comovente à história. Situado na imperturbável paisagem da planura argentina, este romance policial transmuta-se em combinação de veloz romance de género e esplêndida construção literária, de trama ao mesmo tempo direta e complexa, povoada de personagens memoráveis. Este romance excecional confirma incontestavelmente Ricardo Piglia como um dos grandes escritores de língua castelhana do nosso tempo.

Ricardo Piglia "Alvo Noturno" teorema, 2011
trad. Jorge Fallorca

UM DIA NÃO MUITO LONGE NÃO MUITO PERTO

Às vezes sabes sinto-me farto
por tudo isto ser sempre assim
Um dia não muito longe não muito perto
um dia muito normal um dia quotidiano
um dia não é que eu pareça lá muito hirto
entrarás no quarto e chamarás por mim
e digo-te já que tenho pena de não responder
de não sair do meu ar vagamente absorto
farei um esforço parece mas nada a fazer
hás-de dizer que pareço morto
que disparate dizias tu que houve um surto
não sabes de quê não muito perto
e eu sem nada para te dizer
um pouco farto não muito hirto e vagamente absorto
não muito perto desse tal surto
queres tu ver que hei-de estar morto?

Ruy Belo, in "Homem de Palavra[s]" assírio & alvim, 2011

«Não se percebe se está a brincar ou se está assustado. Não se percebe se sabe nadar porque o plano é muito próximo e só vemos os olhos. O homem de boina preta pára e põe-se de pé. A água dá-lhe pelos joelhos. Levanta os braços em sinal de rendição. Mas talvez o seu gesto não tenha sido percebido a tempo.»

Gonçalo M. Tavares, in "Short Movies" caminho, 2011

Aceito a ordem
das coisas, a geometria
imposta do quarto?
Os objectos no
seu lugar de sempre,
a distância exacta
da cadeira à mesa,
do meiple à janela?
O sono do tapete?
O universo diário
do quarto alugado,
as molduras que
cercam, resguardam
naturezas mortas,
paisagens imóveis?
Aceito a minha vida?
Ou mexo no candeeiro,
desvio-o alguns centímetros
na mesa, altero
as relações das coisas,
afinal tão frágeis
que o simples desvio
dum objecto pode
romper o equilíbrio?
Pego no telefone
e grito ao primeiro
desconhecido: ouves-me?
Ou deixo tudo
tal como está,
medido, quieto
no rigor do quarto,
e eu hesitante
entre o soalho e o tecto?
Desloco o cinzeiro
sabendo que posso
matar mandarins,
provocar cataclismos,
fracturas, amores,
eclipses, sonhos,
com a ponta dum dedo?
Ou apago a lâmpada
eléctrica e entro
no mesmo torpor
que as flores do tapete,
a fruta dos quadros,
o frio, o bolor,
no chão, nas paredes,
o poema na mesa,
a mesa no espaço
do quarto comprado
mês a mês? Confundo
o aluguer e o tempo,
deixo-me ser
em cada milímetro,
em cada segundo,
do quarto, da vida,
o outro objecto
chamado inquilino?
Ou desencadeio
a insurreição
mudando de sítio
o meiple, a cadeira,
mudando-me a mim?

Carlos de Oliveira, in "O aprendiz de feiticeiro" dom quixote, 1971

COM UMA DISCUSSÃO ENSAIAR A MORTE


Com uma discussão ensaiar a morte
Ou requerer a pose, um reinado. Sim
Agarras-te aos encontros, à amizade
Sobretudo a essa civilização do bom dia
Boa tarde. Mil modos de laçar a gravata
Cortar as unhas ou cruzar os braços
Para que do desejo não transpareça
Senão uma pequena falta, facilmente desculpável.
Mas a sociologia, como a psicologia, meu caro
Há muito te trazem no catálogo.


Carlos Bessa, in "Lançam-se os Músculos em Brutal Oficina" & etc, 2000

CARTA ABERTA DE «GENTES DO LIVRO»


Senhor Presidente da República, Senhor Primeiro Ministro, Senhor Secretário de Estado da Cultura, Senhor Representante da República para a Região Autónoma da Madeira, Senhor Presidente do Governo Regional da Madeira, Senhor Secretário Regional da Educação e Cultura da Madeira.

No próximo dia 21 de Novembro de 2011 o livreiro Jorge Figueira de Sousa, da Livraria Esperança - «primeiro estabelecimento comercial no Funchal e na Madeira a vender exclusivamente livros» - completa 80 anos de vida.

Continuador de um sonho e de um projecto iniciado pelo seu avô, Jacintho Figueira de Sousa [1860-1932], e mantido pelo seu pai, José Figueira de Sousa [1899-1960], Jorge Figueira de Sousa, nascido no Funchal no dia 21 de Novembro de 1931, continua firmemente no seu posto e é para todos nós, «gentes do livro», um exemplo de vida e uma figura que muito honra a classe profissional dos livreiros portugueses, por vezes tão esquecida, não obstante o lugar central que ocupa no que deveria ser um fundamental desígnio nacional: a promoção do livro e da leitura como alicerce de um País mais culto, logo mais justo, mais livre e mais feliz.

Porque julgamos que o Livreiro Jorge Figueira de Sousa, pelo seu exemplo de juventude, tenacidade e persistência, é merecedor de público reconhecimento, rogamos a V. Ex.as se dignem honrá-lo com a distinção tida por conveniente e justa nesta circunstância.

Se deseja subscrever esta carta aberta entre aqui: encontro livreiro

brevemente...


Em Canções Mexicanas, Gonçalo M. Tavares apresenta-nos uma série de fragmentos narrativos de clara nitidez. É a sua visão da actual Cidade do México, uma megalópole de 20 milhões de habitantes, com loucos que se manifestam, lutas de raparigas ainda crianças e suicidas, seres para quem o sentimento europeu de procura de felicidade é algo de incompreensível.
É uma escrita, como em todos os seus livros, avessa às tradições líricas e sentimentais da prosa portuguesa.

Gonçalo M. Tavares "canções Mexicanas" relógio d'água, 2011

Baroque.me: J.S. Bach - Cello Suite No. 1 - Prelude

http://www.baroque.me/

25 de Novembro...


«O livro inspira-se em episódios relatados por imigrantes oriundos de diferentes países e períodos históricos, contando-se, entre eles, o testemunho do pai do próprio Shaun Tan que em 1960 emigrou para a Austrália Ocidental vindo da Malásia. Durante os quatro anos que durou o processo de criação de “Emigrantes”, o autor documentou-se em obras como “The Immigrants”, de Lowenstein e Loh, ou “Tales from a Suitcase”, de Davies e Dal Bosco. De realçar ainda é a influência artística do pintor australiano Tom Roberts e o arquivo gráfico da coleção do Museu da Imigração de Ellis Island, em Nova Iorque.»

Shaun Tan "Emigrantes" kalandraka, 2011

25 de Novembro...


“Depois de se ter deitado com um homem, lavava-se sempre numa infusão de folhas de arruda, apanhadas ao luar, e bebia tisanas com sementes de funcho e de sargacinha-dos-montes, para que as regras não lhe faltassem." Assim começa este romance que narra a vida e a morte (aos 33 anos, como Jesus) de José de Risso, um homem de virtude que nasceu marcado nas costas com um sinal em forma de folha de carvalho. Pelo meio há o enorme lobo de Espadañedo, um lobisomem que descia da serra quando a Lua lhe estava de feição; há receitas de chás e de tisanas que curam do mau-olhado, da má-sina com as mulheres, dos amores infelizes, das galhaduras, dos maus pensamentos; há chás e tisanas que fazem recobrar os ímpetos aos homens; há também Purísima de la Concepción, a muito bonita e alegre viúva galega, de quem se dizia (sem se ter a certeza) que encomendara a morte do marido a um matador de touros andaluz a quem as mulheres casadas chamavam, com disfarçado fervor e muita paixão contida, Niño del Teso.

José Riço Direitinho "Breviário das más inclinações" quetzal, 2011

25 de Novembro...

Luiz Pacheco era capaz das loucuras mais desapiedadas, mas também de actos de grande generosidade. Pessoa cheia de contrastes e incoerências, tinha uma enorme facilidade para relacionar-se com os outros e, depois, para cortar relações. Impulsivo e inconstante, aparecia e desaparecia de repente. Capaz de prescindir de tudo e de começar do zero, durante anos viveu em pensões manhosas, de onde muitas vezes era expulso por falta de pagamento. Era um especialista em dívidas e em não as pagar. Conheceu a miséria, o vício e a degradação. Gostava de estar perto dos marginais e das ovelhas ranhosas, porque com aqueles que não têm nada a perder conhecem-se melhor os labirintos da alma humana. Fundador da Editora Contraponto, conhecia bem o campo da edição e o meio das Letras, onde fervilhavam as intrigas e as capelinhas, e contra tudo isso lutou, recusando-se a participar na engrenagem dos manejos literários. Desmascarou os falsos prestígios e maltratou alguns intocáveis da cultura. Alguns viam Pacheco como um apocalíptico, um herdeiro da tradição dos grandes inconformistas. Mas foi simultaneamente um produto do próprio meio literário. Capaz de aparecer nu no meio do Montijo ou de pijama no Largo do Carmo, no 25 de Abril, em torno de Luiz Pacheco criou-se uma lenda, histórias e boatos que circulavam e que quase nunca se incomodou em desmentir, porque, como alguém disse, essa era a melhor forma de chegar a génio.

João Pedro George "Puta que os pariu!" tinta da china, 2011



Henry Miller dizia que "O Colosso de Maroussi" era o seu melhor livro. Seduzido pelas descrições da Grécia, Miller parte com o seu amigo Lawrence Durrell à descoberta do interior daquele país. Entre dias ao relento na praia, atropelados por rebanhos de ovelhas, noites em pensões decadentes mas carregadas de história, em aldeias com um único forno para toda a população, e peregrinações à Acrópole de Atenas, Miller descobriu na Grécia o sentido da civilização:
«Eu tinha caminhado com os olhos vendados, em passos cambaleantes, hesitantes; era orgulhoso, arrogante, satisfeito com a vida falsa e limitada de homem da cidade; a luz da Grécia abriu‑me os olhos, penetrou os meus poros, fez todo o meu corpo dilatar‑se. Descobri a minha pátria.»

Henry Miller "O colosso de Maroussi" tinta da china, 2011

escutar...

Onra “Chinoiseries part 2