Bright Future - Mit Dir by seriusad

With You With You
Within the depth of night
We snuck into your room
into the morning light

Outside Outside
Outside the air so cold
I could feel your icy breath
As I laid beside you

Inside
Inside I feltyour warmth
We laid beside so close
Inside...

Outside outside
Outside the fires blazed
The road was lined with gasoline
outside the fires blazed.

When I'm with you
When I'm with you
With you
With you

bom fim de semana...



Quando um galdério tem uma ideia brilhante partilha‑a logo com outro vadio. Colectivização intelectual. Uma grande ideia fica a secar se não for disponibilizada. E como não há dois sem três, estende‑se a rede e monta‑se a urdidura. Vala grande, saltar de trás. Ponderadas as valências de cada factor e os recursos disponíveis, o projecto avança, científico e inseguro. Quando duas irmãs, já entradas na vida, sonham com teres e haveres, mundos melhores, segurança de estado e paz de espírito, o destino costuma intrometer‑se, turvar os planos, rasteirar os desígnios. Dessas contrariedades é feita a literatura que se dá mal com os harpejos dos anjos nas nuvens e prefere o diabo, sempre atrás da porta, vigilante, até a rezar. Quando um ancião rabugento anda por aí a bengalar à solta, ocorre a alguns visionários que ele está mesmo a pedi‑las.

Mário de Carvalho "quando o diabo reza" tinta da china, 2011



«O cogumelo é uma questão outonal, como a salsicha, pelas mesmas razões que também são assunto outonal o toucinho, o feijão branco e a melancolia.»

Josep Pla, in "Viagem de Autocarro" tinta da china, 2011

leitura recomendada...

Com uma elevadíssima dose de originalidade e sentido de humor, Tomi Ungerer transforma uma enorme serpente num fiel animal de estimação de uma adorável velhinha. “Crictor” resulta da insólita mescla entre o exotismo africano e o refinamento da antiquada sociedade francesa, aqui tratada com ironia e de forma surrealista. Este laureado clássico de 1963 mantém ainda todo o seu vigor, e frescura também, para continuar a cativar novas gerações de leitores.
Longe de aterrorizar, Crictor é uma jiboia dócil que Ungerer humaniza e descontextualiza, chegando a extremos surpreendentes, visíveis no detalhe das ilustrações, salpicadas de suaves tons verdes: desde vesti-la até pô-la a frequentar a escola, e inclusivamente levá-la a ir tomar um refresco ou a passear num parque cheio de neve… No final, será um ato heroico que a transformará numa personagem célebre e admirada por toda a cidade. Com um pouco de imaginação, trata-se aqui de um forte candidato ao título de “melhor amigo do homem”

Tomi Ungerer "Crictor" kalandraka, 2011

Durante os meses de Outubro a Dezembro de 2011, todos os desempregados e jovens à procura do primeiro emprego beneficiarão de um desconto de 50% em todos os cursos da Booktailors.

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AH, DIZ-ME A VERDADE ACERCA DO AMOR

Há quem diga que o amor é um rapazinho,
E quem diga que ele é um pássaro;
Há quem diga que faz o mundo girar,
E quem diga que é um absurdo,
E quando perguntei ao meu vizinho,
Que tinha ar de quem sabia,
A sua mulher zangou-se mesmo muito,
E disse que isso não servia para nada.

Será parecido com uns pijamas,
Ou com o presunto num hotel de abstinência?
O seu odor faz lembrar o dos lamas,
Ou tem um cheiro agradável?
É áspero ao tacto como uma sebe espinhosa
Ou é fofo como um edredão de penas?
É cortante ou muito polido nos seus bordos?
Ah, diz-me a verdade acerca do amor.

Os nossos livros de história fazem-lhe referências
Em curtas notas crípticas,
É um assunto de conversa muito vulgar
Nos transatlânticos;
Descobri que o assunto era mencionado
Em relatos de suicidas,
E até o vi escrevinhado
Nas costas dos guias ferroviários.

Uiva como um cão de Alsácia esfomeado,
Ou ribomba como uma banda militar?
Poderá alguém fazer uma imitação perfeita
Com um serrote ou um Steinway de concerto?
O seu canto é estrondoso nas festas?
Ou gosta apenas de música clássica?
Interrompe-se quando queremos estar sossegados?
Ah! diz-me a verdade acerca do amor.

Espreitei a casa de verão,
E não estava lá,
Tentei o Tamisa em Maidenhead
E o ar tonificante de Brighton,
Não sei o que cantava o melro,
Ou o que a tulipa dizia;
Mas não estava na capoeira,
Nem debaixo da cama.

Fará esgares extraordinários?
Enjoa sempre num baloiço?
Passa todo o seu tempo nas corridas?
Ou a tocar violino em pedaços de cordel?
Tem ideias próprias sobre o dinheiro?
Pensa ser o patriotismo suficiente?
As suas histórias são vulgares mas divertidas?
Ah, diz-me a verdade acerca do amor.

Chega sem avisar no instante
Em que meto o dedo no nariz?
Virá bater-me à porta de manhã,
Ou pisar-me os pés no autocarro?
Virá como uma súbita mudança de tempo?
O seu acolhimento será rude ou delicado?
Virá alterar toda a minha vida?
Ah, diz-me a verdade acerca do amor.


W.H. Auden, in "Diz-me a verdade acerca do amor" relógio d'água, 1994
trad. Maria de Lourdes Guimarães

leitura recomendada...


Daniil Harms "esqueci-me como se chama" bruaá, 2011
trad. Nina e Filipe Guerra
Ilust. Gonçalo Viana

bom dia...

primeiro parágrafo…


«Mas na metrópole há cerejas. Cerejas grandes e luzidias que as raparigas põem nas orelhas a fazer brincos. Raparigas bonitas como só as da metrópole podem ser. As raparigas daqui não sabem como são as cerejas, dizem que são como as pitangas. Ainda que sejam, nunca as vi com brincos de pitangas a rirem-se umas com as outras como as raparigas da metrópole fazem nas fotografias.»

Maria Dulce Cardoso, in “o retorno” tinta da china, 2011

brevemente...

“Como é que é o herói Ferdydurke? Interiormente é apenas fermento, caos, imaturidade. Para se manifestar exteriormente, e sobretudo face aos outros homens, é que ele tem necessidade da forma (…) mas esta forma limita-o, viola-o, deforma-o”. O herói é Jozio, que acaba de fazer trinta anos e é raptado pelo seu ex-professor para voltar ao liceu. Condenado a sentar-se nas carteiras de uma sala de aulas, rodeado de adolescentes e de um mestre antigo-regime, a sanidade do protagonista passa a enfrentar uma permanente ameaça, forçado pelo absurdo das circunstâncias. A sua resposta face ŕs pressões deformantes da vida quotidiana, atreitas a fabricar inteligências, doutrinas, obras-de-arte, ciência, morais e responsabilidades de etiqueta social, é a chacota, a imaturidade, o disparate, o grotesco, a embirração, a inteligência trágica de tudo pôr em causa.”

Witold Gombrowicz "Ferdydurke" 7 nós

bom fim de semana...


set.2011

dia 23 de setembro nas livrarias...


Para escapar ao anonimato de uma vida comum, à solidão da escrita e ao esquecimento dos futuros leitores, o narrador de Uma Mentira Mil Vezes Repetida inventou uma obra monumental, um autor – um judeu húngaro com uma vida aventurosa – e uma miríade de personagens e de histórias que narra entusiasticamente a quem ao pé dele se senta nos transportes públicos. Assim vai desfiando as andanças literárias de Marcos Sacatepequez e o seu singular destino, a desgraça do Homem-Zebra de Polvorosa, o caos postal de Granada, a maldição do marinheiro Albrecht e as memórias do velho Afonso Cão, amigo de Cassiano Consciência, advogado e proprietário do único exemplar conhecido de Cidade Conquistada, a obra-prima de Oscar Schidinski. Enquanto o autocarro se aproxima de Cedofeita, ou pára na rua do Bolhão, quem o escuta viaja do Belize a Budapeste, passando pelas Honduras, por estâncias alpinas, por Toulon ou por Lisboa. Mas se o nosso narrador não encontrou a glória - senão por breves momentos e na mente alheada de quem cumpre uma rotina - talvez tenha encontrado o amor. Ou será ele também inventado.

Manuel Jorge Marmelo "uma mentira mil vezes repetida" quetzal, 2011

PASSAGEM DOS SONHOS

Inclinada ou deitada sobre o braço esquerdo
é uma mulher-montanha ou uma montanha-mulher
da cintura para cima vê-se o corpo nu
no seio do lado direito há uma ferida-cratera violácea
ela diz: aqui é luz
depois movendo a mão direita
assinala outro sítio que não é bem o seio esquerdo
julgo que ainda é o seio direito
e diz: aqui é sombra
(não é bem sombra o que ela diz
seria antes o lugar de uma cor
que não sei porquê se opõe à luz)
depois desce lentamente com um dedo espalmado
na direcção do sexo
a unha ao deslizar abre um sulco-ranhura
semelhante a uma fenda aberta na terra
já não se vê carne mas uma planície
com no meio a fenda separadora
descendo mais a mão desaparece entre sedas
que revelam-ocultam outro corpo montanha

Mário Cesariny, in "19 Projectos de Prémio Aldonso Ortigão Seguidos de Poemas de Londres" quadrante, 1971

SONETO DE FIDELIDADE

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.


Vinicius de Moraes
fotografia: P.F.

A tua voz, os teu olhos,
as tuas mãos, os teus lábios.
O nosso silêncio, as nossas palavras.
A luz que desaparece,
a luz que regressa.

Um único sorriso para os dois.
Por precisar de saber,
vi a noite criar o dia
sem que mudássemos de aparência.

Ó bem amado por todos e bem amado por um.
Em silêncio, a tua boca prometeu ser feliz.
"Afasta-te, afasta-te", diz o ódio.
"Aproxima-te mais", diz o amor.

Pelas nossas carícias, saímos da infância.
Vejo cada vez melhor a forma humana.
Como um diálogo entre amantes,
o coração só tem uma boca.

Tudo é ao acaso.
Todas as palavras são espontâneas.
Os sentimentos à deriva.
Os homens vagueiam pela cidade.

O olhar, a palavra.
E o facto de eu te amar.

Tudo está em movimento.
Basta avançar para viver,
seguir em frente, em direcção a tudo o que amamos.

Ia na tua direcção, seguia sem parar em direcção à luz.
Se sorris, é para melhor me envolveres.
Os teus braços luminosos entreabrem o nevoeiro.


Paul Éluard

hoje acordei assim...

para os mais pequenos...




«Ana Fernández-Abascal junta três personagens como protagonistas de um conto em que cada uma vai lendo
sucessivamente um livro, após a enunciação de uma fórmula que se vai repetindo à laia de estribilho. Todas elas valem-se pois de um livro para satisfazer a dose de emoção, entretenimento ou aprendizagem que a televisão não lhes proporciona. “O Senhor Nicanor” contrapõe assim o valor da leitura à hegemonia dos meios audiovisuais e das novas tecnologias.
As expressivas ilustrações de Flavio Morais são planas, esquemáticas, de cores muito intensas, produzindo chamativos contrastes. A proposta artística é moderna e atractiva, jogando com a alternância de cores predominantes em cada página, introduzindo figuras baseadas na cultura iconográfica, e logrando assim um resultado de estética “pop”.»

"O senhor Nicanor" kalandraka, 2011
texto. Ana Fernández-Abascal
ilust. Flavio Morais

no prelo...

[Julia Breckenreid]

Michel Houellebecq “o mapa e o território” alfaguara
Ryunosuke Akutagawa “rashomon e outras histórias” cavalo de ferro
Kjell Askildsen “uma vasta e deserta paisagem” ahab
José Agostinho Baptista “caminharei pelo vale da sombra” assírio & Alvim
Enrique Vila-Matas “perder teorias” teodolito
Atiq Rahimi “maldito seja Dostoiévski” teodolito
Dylan Thomas “poesia completa” relógio d’água
Jacques Rancière “o destino das imagens” orfeu negro
Ricardo Piglia “alvo nocturno” teorema
Eudora Welty “as maçãs douradas” antígona

nova edição dia 16 Setembro...

«Tendo acabado de obter dispensa da Marinha, Benny Profane contenta-se com uma existência ociosa passada entre os amigos, onde a única ambição é a de ser perfeito na arte do engano, e onde a palavra «responsabilidade» é considerada obscena. Entre os seus amigos – chamados Whole Six Crew – está Slab, um artista que parece ser incapaz de pintar outra coisa que não seja queijo dinamarquês. Mas a vida de Profane muda dramaticamente quando ele se torna amigo de Stencil, um jovem ambicioso e activo com uma missão intrigante – a de descobrir a identidade de uma mulher chamada V., que conheceu o seu pai durante a guerra, mas que desapareceu repentina e misteriosamente.»

Thomas Pynchon "V." bertrand, 2011