dia 17 de junho nas livrarias...

«Este é o primeiro livro de Patti Smith em prosa. É um livro de memórias - que começa no Verão em que Coltrane morreu, no Verão do amor livre e de todos os motins, no Verão em que conheceu a figura central deste livro, o lendário fotógrafo americano Robert Mapplethorpe. Mas é também o retrato de uma época - dos dias do Hotel Chelsea, da Nova Iorque do fim dos anos 1960 e início dos anos 1970 - e uma comovente história de juventude e amizade. Uma fábula em que encontramos poesia, "rock'n'roll", sexo e arte e que começa numa história de amor e acaba numa elegia.»

Patti Smith "apenas miúdos" quetzal, 2011
trad. Jorge Pereirinha Pires

CARÍCIA DIVINA

Cordeiro do Senhor nunca queiras escravo.
A hóstia branca que levamos à boca
é a mesma lua cheia que ilumina
o meu corpo a deslizar no teu.
Porque deus é amor e nós fiéis.
Porque nos fez com uma carícia
assim te acaricio e me cobres
de felicidade pela noite dentro.
Bendito seja quem assim ama.
Livrai-nos Senhor de todos os cordeiros
e dai-nos um ao outro cada dia.


Rosa Alice Branco, in "Gado do Senhor" & etc, 2011

A UMA CAVEIRA

Esta cabeça, quando viva, teve
na arquitectura destes ossos coesos
carne e cabelos, por que foram presos
os olhos que olhá-la ela deteve.
Aqui a rosa de uma boca esteve,
murcha com beijos frios, já não acesos;
aqui os olhos de esmeralda impressos,
a cor que tantas almas entreteve.
Aqui o raciocínio em que existia
o princípio de todo o movimento,
das potencias aqui toda a harmonia
Mortal beleza, papagaio ao vento!,
- onde tão alta presunção vivia
Desprezam sempre os vermes aposento?

Lope de Vega, in “Antologia poética” assírio & alvim, 2011
trad. José Bento

CADERNO AZUL Nº 10

Era uma vez um homem ruivo, sem olhos nem orelhas. Também não tinha cabelos, e só por convenção lhe chamávamos ruivo.
Não podia falar porque não tinha boca. E nariz também não.
Nem sequer tinha braços e pernas. Também não tinha barriga, nem coluna vertebral, nem mesmo entranhas. Não tinha coisa nenhuma! Por isso pergunto de quem estamos nós a falar.
Desta forma é preferível nada acrescentarmos a seu respeito.

Daniil Harms, in “Crónicas da razão louca” hiena, 1994
trad. Sérgio Mota

nova edição a 17 de Junho nas Livrarias...


"Gráfico de Vendas com Orquídea" apresenta um conjunto de textos seleccionados pelo autor - originalmente escritos entre 1977e 1993 e acrescentados do subtítulo «e outras formas de arrumação de conhecimentos». Com este volume, a Quetzal conclui a série de obras de Dinis Machado publicadas em vida - e, ao mesmo tempo, anuncia a publicação de vários volumes temáticos dedicados ao cinema, à literatura ou ao desporto.

Dinis Machado "gráfico de vendas com orquídea" quetzal, 2011

dia 20 de Maio nas Livrarias...


O mais recente livro de Julian Barnes é, entre muitas coisas, uma memória de família, um diálogo com o irmão filósofo, uma meditação sobre a mortalidade e o medo da morte, uma celebração da arte, uma discussão com e sobre Deus e uma homenagem ao escritor francês Jules Renard. E aos pinguins.

Julian Barnes "nada a temer" quetzal, 2011

amanhã nas livrarias...


Munique-Paris, de 23 de Novembro a 14 de Dezembro de 1974.
«Outra pessoa apanhava de imediato um avião e estava em Paris numa hora e meia. Werner Herzog preferiu demorar três semanas, porque acreditava que quanto mais tempo demorasse mais tempo a sua amiga Lotte Eisner tinha para ficar boa. Ele confiava nos sonhos mais tresloucados, e nada impedia que aquela viagem de Inverno impedisse a morte de alguém.
Herzog atravessa bosques, aldeias, rios, vinhas, passa por radares, locais históricos, inscrições religiosas, vê corvos, cães, veados, extasia-se com as estrelas, avança pelo vento e o nevoeiro, sofre a chuva e a neve. Quando chegou a Paris, encontrou a quase octogenária Lotte doente mas estável. «Alguém lhe deve ter dito por telefone que eu tinha chegado a pé - eu não queria revelá-lo. Sentia-me embaraçado e pousei as pernas doridas num segundo sofá que ela empurrou para perto de mim.» Em silêncio, ela agradece o esforço, ele está esfusiante por ter conseguido. Lotte Eisner morreu em 1983, e só não morreu nove anos antes porque em 1974 Werner Herzog não a deixou morrer.»

Werner Herzog "caminhar no gelo" tinta da china, 2011
trad. Isabel Castro Silva

em abril...


«Há alguns anos vi numa exposição de arte um quadro, num certo sentido, impressionante e rico, a “Arlesiana” de Van Gogh, o retrato de uma mulher tão bela, sendo uma mulher do povo já velha, calmamente sentada numa cadeira e olhando em frente com um ar sério. Traz vestida uma saia, daquelas que se vêem todos os dias e tem mãos como várias vezes se encontra sem se reparar sequer nelas, por não serem, de modo nenhum, belas. Também não há nada de extraordinário numa modesta fita no cabelo. O rosto da mulher é duro. Os traços do rosto apontam para diversas experiências marcantes.
Confesso até com prazer que observei o quadro, que me parecia, sem dúvida, um belo trabalho, primeiro sem grande atenção, com o propósito de prosseguir rapidamente e ver outros objectos, sendo que me senti, no entanto, como que preso por alguma coisa estranha. Perguntei-me o que haveria ali de extraordinário, tendo-me convencido que seria lamentável o artista gastar do seu suor com algo tão desinteressante e insignificante. Se é que gostaria de possuir o quadro, perguntei a mim mesmo; mas não me atrevi a dar uma resposta, positiva ou negativa.
Em seguida, coloquei-me a questão aparentemente simples e julgo que não totalmente despropositada de saber se existiria sequer, na nossa sociedade, um lugar apropriado para quadros do tipo desta “Arlesiana”. Ninguém poderia ter encomendado este género de obra; aparentemente, terá sido o próprio artista a atribuir a si mesmo a tarefa, pintado o que nenhum homem quer ver representado. Quem é que estaria interessado em pendurar este velho quadro no seu quarto?
“Mulheres sublimes”, dizia para comigo mesmo, “foram pintadas por Tiziano, Rubens e Lucas Cranach”. Ao mesmo tempo que dizia isto, o nosso artista, que foi certamente mais sofredor que de espírito alegre, feria tanto a minha sensibilidade como a do nosso tempo, que podemos caracterizar como difícil e sombrio. É verdade que o mundo nunca deixará de ser certamente belo e bons propósitos terão sempre os seus frutos. Contudo, ninguém contestará o facto de algumas circunstâncias serem realmente opressivas.
Ainda que paire em torno do quadro de Van Gogh algo triste ou desagradável, parecendo que todas as duras condições de vida se manifestam com clareza suficiente, senti-me ainda assim contente, dado o quadro ser uma espécie de obra-prima. A cor e o domínio do pincel são de uma precisão impressionante e a configuração é de grande nível. O quadro contém, entre outras coisas, um magnífico pedaço de vermelho num fluxo encantador. Como um todo tem, no entanto, uma maior beleza interior que exterior. Não existem também alguns livros que não têm uma recepção fácil, por serem duros, isto é, por ser difícil atribuir-lhes um determinado valor? A beleza, por vezes, só é revelada de forma insuficiente.»


Robert Walser, in " Histórias de Imagens" cotovia, 2011
trad. Pedro Sepúlvedra

em abril...

Josep Pla "O caderno cinzento" cotovia, 2011 trad. Rita Custódio e Àlex Tarradellas

VISITAÇÃO:

Não. Grita. Com medo de um regresso. Sabe que as palavras matam. Mas. De vez em quando. Uma. Outra. Têm um destino. Qual. A crueldade de uma frase. Uma história. Vulgar. A pocilga. A pocilga cheia. A pocilga cheia de porcos. Sujos. De esterco. Os focinhos contra a rede de arame. Esmagados. Os seus olhos com a desmesura de frinchas. No róseo de uma carne já podre. Grunhiam. Vida boçal. Sempre famintos. Por vezes, ratavam os pés das crianças que as mães esqueciam no cortelho. Enquanto. Enquanto atiçavam o lume. Afogueadas. Cala-te, estafermo: berravam de longe. E os porcos roíam. Roíam. Até ao silêncio. Adormeceu: pensavam as mães. As crianças, porém, estavam mortas. E rodeadas de bichos.
Sôfregos.
Sôfrego.
És um animal sôfrego.

Rui Nunes, in "A mão do oleiro" relógio d'água, 2011

leitura obrigatória...


Rui Nunes "A mão do oleiro" relógio d'água, 2011

entre o vivo, o não-vivo e o morto...



concepção de Paulo Serra, edição do CEPiA - Centro de Estudos Performativos i Artísticos. é, no entender do seu criador, uma revista de pensamento e, no seu conteúdo e formato, embora temporariamente extinta - ou seja, descobre-se no plano que faz justiça ao seu nome - continua a ser uma revista única no campo editorial português. não se dirá mais sobre ela - há que tê-la na mão - senão os nomes dos que participaram:

designers - Sara Inglês, Isabel Bilro e Pedro do Ó
ilustradores - Isotta Dardilli e Kaja Avberšek
artistas plásticos - Tamara Alves e Marija Toskovic
escritores - Pedro Ferreira, Jaime Carvalho, Lília Parreira, António Carvalho, Rui Alberto, Pedro Oliveira, Célia Rocha, A. Pedro Ribeiro, Nuno Ramalho, Marta Bernardes, José Manuel Martins, Vítor Moreira, Rui Cancela, Fernando Machado Silva, Sílvia Ramalho, Hugo Milhanas Machado, Pedro S. Martins, Rui Sousa, Adolfo Luxúria Canibal, Rui Manuel Amaral, J. M. de Barros Dias, Paulo José Miranda, Henrique Manuel Bento Fialho, Sílvia das Fadas, valter hugo mãe
entrevistadores - Alexandre Nunes de Oliveira e Gonçalo Frota
entrevistados - Alexander Sokurov, J-P- Simões e Beatriz Batarda

termina assim o editorial da nº 3:
"Agora que cumprimos um ano de existência volto à noção de «abertura» assumida desde o princípio. O conceito de abertura, aqui adoptado, não tem relação directa com dimensão/medida. A entre o vivo, o não-vivo e o morto não pretende abranger tudo - isso não é abertura -, até porque, o próprio conceito de abertura contém nele o fechamento, a exclusão (tal como o conceito de justiça inere o da injustiça); e só assim pode funcionar como projecto de abertura. Talvez os mal-entendidos surjam por pensar em «abertura» como conceito puro, mas se restam dúvidas: não o é. Nem puro nem inocente. O conceito de abertura mantém-se. Mantém-se no editorial. Mantém-se na entre o vivo, o não-vivo e o morto. A minha proposta é simples: generalizar é fantasiar; temos que parar de fantasiar que o grande (ou o volumoso) é obrigatoriamente bom e o barato é mau (que não tem qualidade)"

saiba como comprar aqui

O EXTRAORDINÁRIO PIERRE GOULD

Pierre Gould regressou de uma longa viagem na companhia de uma jovem morena, que por única roupa, usava uma manta colorida. Andava descalça, mostrando os tornozelos e a parte inferior da barriga das pernas; não dizia nada e mantinha-se imóvel atrás de Pierre, olhando o vazio.
- Quem é? - perguntou um de nós.
- Perdão?
- A rapariga. Pierre pareceu surpreendido e voltou-se para trás.
- Oh, ela! Trouxe-a para a acabar no metro, mas acabei por não ter tempo. A sua resposta deixou-nos sem voz.
-É um livro - explicou ele. - Presumo que é a primeira vez que vêem um do género. Aquiescemos.
- No país de onde venho, o papel é caríssimo, e reservam-no para a edição dos clássicos e dos dicionários. Os escritores não têm, por isso, outra solução que não seja tatuarem os seus textos sobre a pele, porem uma manta por cima das costas e irem vender-se em pessoa à livraria.
Observou pensativamente a sua mulher-livro.
- Aqui, o primeiro capítulo está escrito na garganta; os dois seguintes sobre os seios; o quarto no ventre, e assim por diante, até às coxas. A seguir, temos de a virar. Há muitas autoras qeu fazem gravar o fim nas nádegas, e o desenlace na intimidade.
À maneira de prova, levantou a manta da rapariga, e vimos que ela tinha a pele coberta de minúsculos caracteres de imprensa.
- Não imaginam a que ponto isto encoraja o amor pela literatura - acrescentou. - Lá, os jovens já não lêem os livros: devoram-nos.
E depois, irónico:
- A leitura, este vício impune...

Bernard Quiriny, in "Contos Carnívoros" ahab, 2011
trad. Miguel Serras Pereira

nova edição...


Nota do Tradutor

Thomas de Quincey escreveu este seu primeiro livro em 1821. Redigiu-o em poucas semanas e publicou-o em folhetim no 'London Magazine', anonimamente, em Setembro e Outubro do mesmo ano. Tinha 36 anos, decidira ser escritor. Precisava de dinheiro. Ganhou, além de dinheiro, fama, e nunca mais deixou de escrever. Convencido de que o livro, por ter sido escrito à pressa, era imperfeito e fragmentário, resolveu em 1856, ao compilar as "Obras Completas", introduzir no texto algumas melhorias. Mas é o próprio autor quem confessa o falhanço desse trabalho, dando razão aos leitores que preferem a primeira versão. É que, na sua primeira versão, o livro é um exorcismo. A maturidade e o cansaço que produziram as emendas da segunda versão não poderiam melhorar (antes pelo contrário) um texto vigoroso e tenso como este, filho da Droga e do Inconsciente. Foi a primeira versão que Baudelaire leu-traduziu-adaptou nos seus "Paraísos Artificiais". Foi essa versão que Edgar Allan Poe leu e que tanto o influenciou. É essa a versão que hoje em dia se divulga nas edições inglesas para o grande público. É essa primeira versão a que aqui se traduz.

Manuel João Gomes


Thomas de Quincey "Confissões de um ópiomano inglês" alfabeto, 2011
trad. Manuel João Gomes

O TABACO DA VIDA

De amor cantando,
sem nele demasiado acreditar,
dei a volta ao coração (demorei anos):
está só - mas sem nenhuma vontade de parar...

Desiludidos? Paciência, amigos...
Bebamos mais, fumemos, refumemos,
entre as mulheres, o tabaco e a vida.
Como cedilhas pendurados que felizes seremos,

exemplares cretinos nesta noite comprida...


Alexandre O'Neill, in "Poesias Completas" assírio & alvim, 2000

amanhã nas livrarias...


Livros Licenciosos...

em abril...


Jacques Prévert "Para fazer o retrato de um pássaro" faktoria k de livros, 2011
ilustração: Mordicai Gerstein
trad. Ana M. Noronha


PARA FAZER O RETRATO DE UM PÁSSARO

Pintar primeiro uma gaiola
com uma porta aberta
pintar em seguida
qualquer coisa bonita
qualquer coisa simples
qualquer coisa bela
qualquer coisa útil
para o pássaro
encostar depois a tela a uma árvore
num jardim
num bosque
ou numa floresta
esconder-se atrás da árvore
sem dizer uma palavra
sem fazer um gesto...
Às vezes o pássaro vem logo
mas pode também demorar muitos anos
a decidir-se
Não desanimar
esperar
esperar anos, se necessário for
pois a rapidez ou demora da chegada do pássaro
nada tem a ver com a qualidade do quadro
Quando o pássaro chegar
se por acaso chegar
manter um rigoroso silêncio
aguardar que o pássaro entre na gaiola
e quando ele entrar
fechar lentamente a porta com o pincel
em seguida
apagar uma a uma todas as grades
tendo o cuidado de não tocar nas penas do pássaro
Pintar depois a árvore
escolhendo o seu mais belo ramo
para o pássaro
pintar também o verde da folhagem e a frescura do vento
os raios de sol
e o clamor dos insectos no calor do Verão
em seguida aguardar que o pássaro se decida a cantar
Se o pássaro não cantar
é mau sinal
é sinal que o quadro não presta
mas se ele cantar é bom sinal
sinal que se pode assinar
Arrancar então com todo o cuidado
uma pena do pássaro
e escrever o nome num canto do quadro.

Jacques Prévert, in "Palavras/Paroles" sextante, 2007
trad. Manuela Torres

recomenda-se...


é já no próximo domingo...


é já no próximo domingo, dia 27 de Março de 2011, a partir das 15 horas, na Livraria Culsete (Setúbal).

Confirmações de presença, dúvidas, envio de textos, etc.
encontro.livreiro@gmail.com

http://encontrolivreiro.blogspot.com/

1.

Confiscaram-me os bens:
árvores, raízes, pedras, folhas soltas, os saltimbancos da minha fase rosa, figuras azuis tremendo de frio, flores ao fundo num cenário de guerra, a colecção das espécies em vias de extinção.

...

António Ferra, in "Marias Pardas" &etc, 2011

viagem obrigatória...

ilustração: Thomaz de Mello

Deserto com vozes, Urbano Tavares Rodrigues, Seara Nova, 1976
ilustração: Henrique Ruivo

Um Rapaz às Direitas, Odette de Saint-Maurice, Portugália, Biblioteca dos Rapazes 20, 1960
ilustração: João da Câmara Leme

http://almanaquesilva.wordpress.com/

leitura recomendada...


«Para alguém como José Fontana terá sido uma grande aventura, descer das montanhas suíças até ao mar dos descobridores, e, finalmente, aí tornar-se livreiro e intelectual numa grande cidade europeia, amigo do poeta Antero de Quental e colaborador de revistas e jornais. A viagem desde a oficina de relojoeiro na Suíça até à histórica Livraria Bertrand em Lisboa. Das fantasias infantis à descoberta do socialismo nos primórdios do movimento operário onde só pensar que se tinham direitos já era uma revolução e um motivo de esperança. A história de um José Fontana existencial e ideológico narrada por Alberto Nessi num romance profundamente humano, e que reflecte as grandes preocupações sociais do século XIX convidando-nos a uma constante comparação com o presente e com o desejo de justiça e solidariedade.»

Alberto Nessi "Na próxima semana, talvez" bertrand, 2011
trad. Simonetta Neto

«Perguicemos em tudo, excepto no amor e na bebida, excepto na preguiça»

Gotthold Ephraim Lessing
Richard Artschwager

Viver sempre também cansa.

O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinzento, negro, quase-verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.

O mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.

As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.

Tudo é igual, mecânico e exacto.

Ainda por cima os homens são homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.

E há bairros miseráveis sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida...

E obrigam-me a viver até à Morte!

Pois não era mais humano
morrer um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois,
achando tudo mais novo?

Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima dum divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.

Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
"Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela."

E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo...


José Gomes Ferreira, in "A Poesia da «Presença»" cotovia, 2003

OS LIVROS caíam sobre a minha máscara (e onde havia um esgar de velho moribundo), e as palavras açoitavam-me e um remoinho de gente gritava contra os livros, assim que os lancei todos à fogueira para que o fogo desfizesse as palavras...

E saiu um fumo azul dizendo adeus aos livros e à minha mão que escreve: “Rumpete libros, ne rumpant anima vestra”: que ardam, pois, os livros nos jardins e nas lixeiras e que se queimem os meus versos sem sair dos meus lábios:

o único imperador é o imperador do gelado, com o seu sorriso tosco, que imita a natureza e seu odor a queijo podre e vinagre. Os seus lábios não falam e ante essa mudez de assombro, caio estático de joelhos, ante o cadáver da poesia.


Leopoldo Maria Panero, in "poemas do manicómio de Mondragón" alma azul, 2003
trad. Jorge Melícias

edições, reedições e novas traduções...



Crack-Up e Outros Escritos é um auto-retrato da ascensão e queda de um grande escritor. Misturando romance e realismo, o livro conta a história do percurso que foi de um êxito brilhante ao desesperante vazio, que atingiu Scott Fitzgerald aos 39 anos. Esta colecção dos principais ensaios de Fitzgerald fala-nos de um homem com charme e talento para esbanjar, que o tornaram um símbolo vivo da era do jazz, mas cuja imprudência o levou ao declínio.


As principais obras de F. Scott Fitzgerald vão ser editadas ou reeditadas durante o mês de Março.
Entre as novas edições, destacamos Crack-Up e Outros Escritos, que, juntamente com O Grande Gatsby e Terna É a Noite, é uma das mais importantes obras do autor. Terna É a Noite sairá em nova tradução (José Miguel Silva).
Entre as reedições contam-se O Grande Gatsby, O Último Magnate, Sonhos de Inverno e Outros Contos, Belos e Malditos e Este Lado do Paraíso.

via http://relogiodaguaeditores.blogspot.com/

NA FLORISTA

Um homem entra numa florista
e escolhe umas flores
a florista embrulha as flores
o homem leva a mão ao bolso
para tirar o dinheiro
dinheiro para pagar as as flores
mas ao mesmo tempo
subitamente
leva a mão ao coração
e cai

Ao cair
o dinheiro corre pelo chão
e depois as flores caem
ao mesmo tempo que o homem
ao mesmo tempo que o dinheiro
e a florista ali parada
com o dinheiro a correr
com as flores a murchar
com o homem a morrer
Claro que tudo isto é muito triste
e ela tem que fazer qualquer coisa
a florista
mas não sabe como proceder
não sabe
por onde começar
Há tanta coisa a fazer
com aquele homem a morrer
com aquelas flores a murchar
e com aquele dinheiro
aquele dinheiro a correr
e que não pára de correr.


Jaques Prévert, in "Palavras/Paroles" sextante, 2007
trad. Manuela Torres

brevemente...


Knut Hamsun "Victoria" cavalo de ferro, 2011
trad. Carlos Aboim de Brito

dia 24 de Março...

Um botânico enamorado da sua planta carnívora. Um padre argentino que tem a faculdade de se desdobrar em corpos diferentes. Onze escritores mortos que o leitor nunca leu. Uma mulher-laranja que se deixa literalmente beber pelos seus amantes. Uma sociedade de estetas fascinados pelas marés negras. Uma tribo de índios da Amazónia que nenhum linguista compreende. E o extraordinário Pierre Gould, que ressurge incessantemente em diferentes trajes e disfarces...

Bernard Quiriny "Contos Carnívoros" ahab, 2011
trad. Miguel Serras Pereira