nova edição dia 16 Setembro...

«Tendo acabado de obter dispensa da Marinha, Benny Profane contenta-se com uma existência ociosa passada entre os amigos, onde a única ambição é a de ser perfeito na arte do engano, e onde a palavra «responsabilidade» é considerada obscena. Entre os seus amigos – chamados Whole Six Crew – está Slab, um artista que parece ser incapaz de pintar outra coisa que não seja queijo dinamarquês. Mas a vida de Profane muda dramaticamente quando ele se torna amigo de Stencil, um jovem ambicioso e activo com uma missão intrigante – a de descobrir a identidade de uma mulher chamada V., que conheceu o seu pai durante a guerra, mas que desapareceu repentina e misteriosamente.»

Thomas Pynchon "V." bertrand, 2011

O AVÔ E O NETO

Ao ver o neto a brincar,
Diz o avô, entristecido:
«Ah, quem me dera voltar
A estar assim entretido!

«Quem me dera o tempo quando
Castelos assim fazia,
E que os deixava ficando
Às vezes p´ra o outro dia;

«E toda a tristeza minha
Era, ao acordar p´ra vê-lo,
Ver que a criada já tinha
Arrumado o meu castelo».

Mas o neto não o ouve
Porque está preocupado
Com um engano que houve
No portão para o soldado.

E, enquanto o avô cisma, e triste
Lembra a infância que lá vai,
Já mais uma casa existe
Ou mais um castelo cai;

E o neto, olhando afinal
E vendo o avô a chorar,
Diz, «Caiu, mas não faz mal:
Torna-se já a arranjar.»


Fernando Pessoa, in "ficções do interlúdio" bi, 2007

«Posso estar presente durante horas sem que ninguém repare em mim. E, de repente, torno-me o ponto focal do olhar de todos, as pessoas falam comigo, louvam-me, fazem-me realizar truques. Perdi o meu nome, o meu nome de família. Sou apenas o Jan. Um belo nome curto para um cão.»

Hjalmar Bergman , in "memórias de um morto" eucleia, 2011
trad. João Reis

Quando alguém parte, tem de deitar
ao mar o chapéu com as conchas
apanhadas ao longo do verão,
e ir-se com o cabelo ao vento,
tem de lançar ao mar
a mesa que pôs para o seu amor,
tem de deitar ao mar
o resto do vinho que ficou no copo,
tem de dar o seu pão aos peixes
e misturar no mar uma gota de sangue,
tem de espetar bem a faca nas ondas
e afundar o sapato
coração, âncora e cruz
e ir-se com o cabelo ao vento!
Depois, regressará.
Quando?
Não perguntes.


Ingeborg Bachmann

li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então eu indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
?e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável, apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a paixão e eu me perdesse nela,
a paixão grega


Herberto Helder in, "a faca não corta o fogo" assírio & alvim, 2008

brevemente...


Escutem: Billy Pilgrim tornou-se volúvel no tempo. Assim começa o clássico de Vonnegut, um livro de culto antiguerra que se tornou um dos textos literários mais influentes do século XX. Billy viaja no tempo e no espaço; detém-se em diversos momentos da sua vida, incluindo na sua demorada visita ao planeta Tralfamadore, onde é exibido, juntamente com uma estrela de filmes pornográficos, num jardim zoológico, e na sua experiência na Segunda Guerra Mundial, onde (à semelhança do próprio Vonnegut) é feito prisioneiro de guerra e assiste à destruição de Dresden.

Kurt Vonnegut "Matadouro Cinco" bertrand, 2011

POnto Quê?


«Prazer.
Qual é a palavra que vem imediatamente à cabeça quando se fala em prazer? Adivinhou. Num mundo em que o direito à felicidade é elementar e inquestionável, a procura do prazer é hoje uma constante da vida. Numa sociedade livre e emancipada, a satisfação sexual é fundamental para o bem-estar físico e emocional. Mais do que apenas um guia sobre o prazer no sexo, "Ponto quê?" revela-nos os quês do complexo e fascinante mundo da sexualidade feminina. Porque antes de falar de prazer, é preciso falar de desejo, e de todos os outros ingredientes que compõem a receita da satisfação sexual. Com um estilo directo, acessível e bem-humorado, Vânia Beliz, psicóloga especialista em sexualidade, ajuda-nos a evitar as armadilhas mais comuns, identifica problemas e soluções, derruba os eternos mitos, e sugere-nos técnicas, truques e fantasias. Como se escutasse as nossas dúvidas e anseios, leva-nos à descoberta de uma sexualidade mais plena e satisfatória.»

Vânia Beliz "Ponto quê? O prazer no feminino" objectiva, 2011

http://www.belizsexologia.blogspot.com/

tomai lá qué da ahab...


«Uma Ilha selvagem no Sul do Alasca, a que só se consegue chegar de barco ou de hidroavião, repleta de florestas virgens e montanhas escarpadas. Este é o cenário inóspito que Jim escolhe para fortalecer a relação com o seu filho Roy, que mal conhece. Doze meses pela frente, numa cabana isolada do resto do mundo. Mas as difíceis condições de sobrevivência e a tensão emocional a que se vêem sujeitos rapidamente transformam esta viagem num pesadelo, tornando a situação incontrolável.»

David Vann "A ilha de Sukkwan" ahab, 2011
trad. José Lima

leitura recomendada...


«A partir da vida de empregados de escritório em Nova Iorque, de um taxista que ambiciona a imortalidade, de jovens romancistas frustados, de professores desprezados pelos alunos, de homens do subúrbio e das suas mulheres deprimidas e negligenciadas, de aperitivos e martínis e bares de jazz sem "glamour" nenhum, Richard Yates constrói um mosaico assombroso dos anos 1950, período em que o sonho americano começava finalmente a concretizar-se e, em simultâneo, a revelar um grande vazio. Publicado a seguir ao romance que o consagrou - "Revolutionary Road" -, o conjunto de onze histórias - ilustrando cada uma delas uma vertente desses Onze Tipos de Solidão - cria, para lá do retrato, uma forte atmosfera de alienação e desajustamento social.»

Richard Yates "Onze tipos de solidão" quetzal, 2011
trad. Nuno Guerreiro Josué

dia 17 de junho nas livrarias...

«Este é o primeiro livro de Patti Smith em prosa. É um livro de memórias - que começa no Verão em que Coltrane morreu, no Verão do amor livre e de todos os motins, no Verão em que conheceu a figura central deste livro, o lendário fotógrafo americano Robert Mapplethorpe. Mas é também o retrato de uma época - dos dias do Hotel Chelsea, da Nova Iorque do fim dos anos 1960 e início dos anos 1970 - e uma comovente história de juventude e amizade. Uma fábula em que encontramos poesia, "rock'n'roll", sexo e arte e que começa numa história de amor e acaba numa elegia.»

Patti Smith "apenas miúdos" quetzal, 2011
trad. Jorge Pereirinha Pires

CARÍCIA DIVINA

Cordeiro do Senhor nunca queiras escravo.
A hóstia branca que levamos à boca
é a mesma lua cheia que ilumina
o meu corpo a deslizar no teu.
Porque deus é amor e nós fiéis.
Porque nos fez com uma carícia
assim te acaricio e me cobres
de felicidade pela noite dentro.
Bendito seja quem assim ama.
Livrai-nos Senhor de todos os cordeiros
e dai-nos um ao outro cada dia.


Rosa Alice Branco, in "Gado do Senhor" & etc, 2011

A UMA CAVEIRA

Esta cabeça, quando viva, teve
na arquitectura destes ossos coesos
carne e cabelos, por que foram presos
os olhos que olhá-la ela deteve.
Aqui a rosa de uma boca esteve,
murcha com beijos frios, já não acesos;
aqui os olhos de esmeralda impressos,
a cor que tantas almas entreteve.
Aqui o raciocínio em que existia
o princípio de todo o movimento,
das potencias aqui toda a harmonia
Mortal beleza, papagaio ao vento!,
- onde tão alta presunção vivia
Desprezam sempre os vermes aposento?

Lope de Vega, in “Antologia poética” assírio & alvim, 2011
trad. José Bento

CADERNO AZUL Nº 10

Era uma vez um homem ruivo, sem olhos nem orelhas. Também não tinha cabelos, e só por convenção lhe chamávamos ruivo.
Não podia falar porque não tinha boca. E nariz também não.
Nem sequer tinha braços e pernas. Também não tinha barriga, nem coluna vertebral, nem mesmo entranhas. Não tinha coisa nenhuma! Por isso pergunto de quem estamos nós a falar.
Desta forma é preferível nada acrescentarmos a seu respeito.

Daniil Harms, in “Crónicas da razão louca” hiena, 1994
trad. Sérgio Mota

nova edição a 17 de Junho nas Livrarias...


"Gráfico de Vendas com Orquídea" apresenta um conjunto de textos seleccionados pelo autor - originalmente escritos entre 1977e 1993 e acrescentados do subtítulo «e outras formas de arrumação de conhecimentos». Com este volume, a Quetzal conclui a série de obras de Dinis Machado publicadas em vida - e, ao mesmo tempo, anuncia a publicação de vários volumes temáticos dedicados ao cinema, à literatura ou ao desporto.

Dinis Machado "gráfico de vendas com orquídea" quetzal, 2011

dia 20 de Maio nas Livrarias...


O mais recente livro de Julian Barnes é, entre muitas coisas, uma memória de família, um diálogo com o irmão filósofo, uma meditação sobre a mortalidade e o medo da morte, uma celebração da arte, uma discussão com e sobre Deus e uma homenagem ao escritor francês Jules Renard. E aos pinguins.

Julian Barnes "nada a temer" quetzal, 2011

amanhã nas livrarias...


Munique-Paris, de 23 de Novembro a 14 de Dezembro de 1974.
«Outra pessoa apanhava de imediato um avião e estava em Paris numa hora e meia. Werner Herzog preferiu demorar três semanas, porque acreditava que quanto mais tempo demorasse mais tempo a sua amiga Lotte Eisner tinha para ficar boa. Ele confiava nos sonhos mais tresloucados, e nada impedia que aquela viagem de Inverno impedisse a morte de alguém.
Herzog atravessa bosques, aldeias, rios, vinhas, passa por radares, locais históricos, inscrições religiosas, vê corvos, cães, veados, extasia-se com as estrelas, avança pelo vento e o nevoeiro, sofre a chuva e a neve. Quando chegou a Paris, encontrou a quase octogenária Lotte doente mas estável. «Alguém lhe deve ter dito por telefone que eu tinha chegado a pé - eu não queria revelá-lo. Sentia-me embaraçado e pousei as pernas doridas num segundo sofá que ela empurrou para perto de mim.» Em silêncio, ela agradece o esforço, ele está esfusiante por ter conseguido. Lotte Eisner morreu em 1983, e só não morreu nove anos antes porque em 1974 Werner Herzog não a deixou morrer.»

Werner Herzog "caminhar no gelo" tinta da china, 2011
trad. Isabel Castro Silva

em abril...


«Há alguns anos vi numa exposição de arte um quadro, num certo sentido, impressionante e rico, a “Arlesiana” de Van Gogh, o retrato de uma mulher tão bela, sendo uma mulher do povo já velha, calmamente sentada numa cadeira e olhando em frente com um ar sério. Traz vestida uma saia, daquelas que se vêem todos os dias e tem mãos como várias vezes se encontra sem se reparar sequer nelas, por não serem, de modo nenhum, belas. Também não há nada de extraordinário numa modesta fita no cabelo. O rosto da mulher é duro. Os traços do rosto apontam para diversas experiências marcantes.
Confesso até com prazer que observei o quadro, que me parecia, sem dúvida, um belo trabalho, primeiro sem grande atenção, com o propósito de prosseguir rapidamente e ver outros objectos, sendo que me senti, no entanto, como que preso por alguma coisa estranha. Perguntei-me o que haveria ali de extraordinário, tendo-me convencido que seria lamentável o artista gastar do seu suor com algo tão desinteressante e insignificante. Se é que gostaria de possuir o quadro, perguntei a mim mesmo; mas não me atrevi a dar uma resposta, positiva ou negativa.
Em seguida, coloquei-me a questão aparentemente simples e julgo que não totalmente despropositada de saber se existiria sequer, na nossa sociedade, um lugar apropriado para quadros do tipo desta “Arlesiana”. Ninguém poderia ter encomendado este género de obra; aparentemente, terá sido o próprio artista a atribuir a si mesmo a tarefa, pintado o que nenhum homem quer ver representado. Quem é que estaria interessado em pendurar este velho quadro no seu quarto?
“Mulheres sublimes”, dizia para comigo mesmo, “foram pintadas por Tiziano, Rubens e Lucas Cranach”. Ao mesmo tempo que dizia isto, o nosso artista, que foi certamente mais sofredor que de espírito alegre, feria tanto a minha sensibilidade como a do nosso tempo, que podemos caracterizar como difícil e sombrio. É verdade que o mundo nunca deixará de ser certamente belo e bons propósitos terão sempre os seus frutos. Contudo, ninguém contestará o facto de algumas circunstâncias serem realmente opressivas.
Ainda que paire em torno do quadro de Van Gogh algo triste ou desagradável, parecendo que todas as duras condições de vida se manifestam com clareza suficiente, senti-me ainda assim contente, dado o quadro ser uma espécie de obra-prima. A cor e o domínio do pincel são de uma precisão impressionante e a configuração é de grande nível. O quadro contém, entre outras coisas, um magnífico pedaço de vermelho num fluxo encantador. Como um todo tem, no entanto, uma maior beleza interior que exterior. Não existem também alguns livros que não têm uma recepção fácil, por serem duros, isto é, por ser difícil atribuir-lhes um determinado valor? A beleza, por vezes, só é revelada de forma insuficiente.»


Robert Walser, in " Histórias de Imagens" cotovia, 2011
trad. Pedro Sepúlvedra

em abril...

Josep Pla "O caderno cinzento" cotovia, 2011 trad. Rita Custódio e Àlex Tarradellas

VISITAÇÃO:

Não. Grita. Com medo de um regresso. Sabe que as palavras matam. Mas. De vez em quando. Uma. Outra. Têm um destino. Qual. A crueldade de uma frase. Uma história. Vulgar. A pocilga. A pocilga cheia. A pocilga cheia de porcos. Sujos. De esterco. Os focinhos contra a rede de arame. Esmagados. Os seus olhos com a desmesura de frinchas. No róseo de uma carne já podre. Grunhiam. Vida boçal. Sempre famintos. Por vezes, ratavam os pés das crianças que as mães esqueciam no cortelho. Enquanto. Enquanto atiçavam o lume. Afogueadas. Cala-te, estafermo: berravam de longe. E os porcos roíam. Roíam. Até ao silêncio. Adormeceu: pensavam as mães. As crianças, porém, estavam mortas. E rodeadas de bichos.
Sôfregos.
Sôfrego.
És um animal sôfrego.

Rui Nunes, in "A mão do oleiro" relógio d'água, 2011

leitura obrigatória...


Rui Nunes "A mão do oleiro" relógio d'água, 2011

entre o vivo, o não-vivo e o morto...



concepção de Paulo Serra, edição do CEPiA - Centro de Estudos Performativos i Artísticos. é, no entender do seu criador, uma revista de pensamento e, no seu conteúdo e formato, embora temporariamente extinta - ou seja, descobre-se no plano que faz justiça ao seu nome - continua a ser uma revista única no campo editorial português. não se dirá mais sobre ela - há que tê-la na mão - senão os nomes dos que participaram:

designers - Sara Inglês, Isabel Bilro e Pedro do Ó
ilustradores - Isotta Dardilli e Kaja Avberšek
artistas plásticos - Tamara Alves e Marija Toskovic
escritores - Pedro Ferreira, Jaime Carvalho, Lília Parreira, António Carvalho, Rui Alberto, Pedro Oliveira, Célia Rocha, A. Pedro Ribeiro, Nuno Ramalho, Marta Bernardes, José Manuel Martins, Vítor Moreira, Rui Cancela, Fernando Machado Silva, Sílvia Ramalho, Hugo Milhanas Machado, Pedro S. Martins, Rui Sousa, Adolfo Luxúria Canibal, Rui Manuel Amaral, J. M. de Barros Dias, Paulo José Miranda, Henrique Manuel Bento Fialho, Sílvia das Fadas, valter hugo mãe
entrevistadores - Alexandre Nunes de Oliveira e Gonçalo Frota
entrevistados - Alexander Sokurov, J-P- Simões e Beatriz Batarda

termina assim o editorial da nº 3:
"Agora que cumprimos um ano de existência volto à noção de «abertura» assumida desde o princípio. O conceito de abertura, aqui adoptado, não tem relação directa com dimensão/medida. A entre o vivo, o não-vivo e o morto não pretende abranger tudo - isso não é abertura -, até porque, o próprio conceito de abertura contém nele o fechamento, a exclusão (tal como o conceito de justiça inere o da injustiça); e só assim pode funcionar como projecto de abertura. Talvez os mal-entendidos surjam por pensar em «abertura» como conceito puro, mas se restam dúvidas: não o é. Nem puro nem inocente. O conceito de abertura mantém-se. Mantém-se no editorial. Mantém-se na entre o vivo, o não-vivo e o morto. A minha proposta é simples: generalizar é fantasiar; temos que parar de fantasiar que o grande (ou o volumoso) é obrigatoriamente bom e o barato é mau (que não tem qualidade)"

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O EXTRAORDINÁRIO PIERRE GOULD

Pierre Gould regressou de uma longa viagem na companhia de uma jovem morena, que por única roupa, usava uma manta colorida. Andava descalça, mostrando os tornozelos e a parte inferior da barriga das pernas; não dizia nada e mantinha-se imóvel atrás de Pierre, olhando o vazio.
- Quem é? - perguntou um de nós.
- Perdão?
- A rapariga. Pierre pareceu surpreendido e voltou-se para trás.
- Oh, ela! Trouxe-a para a acabar no metro, mas acabei por não ter tempo. A sua resposta deixou-nos sem voz.
-É um livro - explicou ele. - Presumo que é a primeira vez que vêem um do género. Aquiescemos.
- No país de onde venho, o papel é caríssimo, e reservam-no para a edição dos clássicos e dos dicionários. Os escritores não têm, por isso, outra solução que não seja tatuarem os seus textos sobre a pele, porem uma manta por cima das costas e irem vender-se em pessoa à livraria.
Observou pensativamente a sua mulher-livro.
- Aqui, o primeiro capítulo está escrito na garganta; os dois seguintes sobre os seios; o quarto no ventre, e assim por diante, até às coxas. A seguir, temos de a virar. Há muitas autoras qeu fazem gravar o fim nas nádegas, e o desenlace na intimidade.
À maneira de prova, levantou a manta da rapariga, e vimos que ela tinha a pele coberta de minúsculos caracteres de imprensa.
- Não imaginam a que ponto isto encoraja o amor pela literatura - acrescentou. - Lá, os jovens já não lêem os livros: devoram-nos.
E depois, irónico:
- A leitura, este vício impune...

Bernard Quiriny, in "Contos Carnívoros" ahab, 2011
trad. Miguel Serras Pereira

nova edição...


Nota do Tradutor

Thomas de Quincey escreveu este seu primeiro livro em 1821. Redigiu-o em poucas semanas e publicou-o em folhetim no 'London Magazine', anonimamente, em Setembro e Outubro do mesmo ano. Tinha 36 anos, decidira ser escritor. Precisava de dinheiro. Ganhou, além de dinheiro, fama, e nunca mais deixou de escrever. Convencido de que o livro, por ter sido escrito à pressa, era imperfeito e fragmentário, resolveu em 1856, ao compilar as "Obras Completas", introduzir no texto algumas melhorias. Mas é o próprio autor quem confessa o falhanço desse trabalho, dando razão aos leitores que preferem a primeira versão. É que, na sua primeira versão, o livro é um exorcismo. A maturidade e o cansaço que produziram as emendas da segunda versão não poderiam melhorar (antes pelo contrário) um texto vigoroso e tenso como este, filho da Droga e do Inconsciente. Foi a primeira versão que Baudelaire leu-traduziu-adaptou nos seus "Paraísos Artificiais". Foi essa versão que Edgar Allan Poe leu e que tanto o influenciou. É essa a versão que hoje em dia se divulga nas edições inglesas para o grande público. É essa primeira versão a que aqui se traduz.

Manuel João Gomes


Thomas de Quincey "Confissões de um ópiomano inglês" alfabeto, 2011
trad. Manuel João Gomes

O TABACO DA VIDA

De amor cantando,
sem nele demasiado acreditar,
dei a volta ao coração (demorei anos):
está só - mas sem nenhuma vontade de parar...

Desiludidos? Paciência, amigos...
Bebamos mais, fumemos, refumemos,
entre as mulheres, o tabaco e a vida.
Como cedilhas pendurados que felizes seremos,

exemplares cretinos nesta noite comprida...


Alexandre O'Neill, in "Poesias Completas" assírio & alvim, 2000