brevemente na Ahab...


Julio Ramón Ribeyro "Prosas apátridas" ahab, 2011

dia 31 de Janeiro...

No seu estudo das obras de Charles Sealsfield, Leopold Kompert e Karl Emil Franzos, de Peter Altenberg, Franz Kafka, Hermann Broch e Joseph Roth, bem como de Jean Améry, Gerhard Roth e Peter Handke, W. G. Sebald analisa o complexo temático da pátria e do exílio que tão característico é da literatura austríaca dos séculos XIX e XX.

W. G. Sebald "Pátria Apátrida" teorema, 2011
Henri-Georges Clouzot [ Les Diaboliques ] 1955

Rêve Oublié

Neste meu hábito surpreendente de te trazer de costas
neste meu desejo irreflectido de te possuir num trampolim
nesta minha mania de te dar o que tu gostas
e depois esquecer-me irremediavelmente de ti

Agora na superfície da luz a procurar a sombra
agora encostado ao vidro a sonhar a terra
agora a oferecer-te um elefante com uma linda tromba
e depois matar-te e dar-te vida eterna

Continuar a dar tiros e modificar a posição dos astros
continuar a viver até cristalizar entre neve
continuar a contar a lenda duma princesa sueca
e depois fechar a porta para tremermos de medo

Contar a vida pelos dedos e perdê-los
contar um a um os teus cabelos e seguir a estrada
contar as ondas do mar e descobrir-lhes o brilho
e depois contar um a um os teus dedos de fada

Abrir-se a janela para entrarem estrelas
abrir-se a luz para entrarem olhos
abrir-se o tecto para cair um garfo no centro da sala
e depois ruidosa uma dentadura velha
E no CIMO disto tudo uma montanha de ouro

E no FIM disto tudo um Azul-de-Prata.


António Maria Lisboa, in "Poemas" assírio & alvim, 1995

Alex Gross, 2011

gato maltês (Janeiro 2011)...

«Balzac: dezoito anos de tumultuosa criação literária, três anos de doloroso declínio; uma imaginação que se levantou alto para os êxitos, e teve momentos menos gloriosos em alguns fracassos. Uma energia: vital e consumida naquela chama que está no incêndio de todas as paixões do mundo. O escritor Balzac, ele próprio construído como personagem de um possível e nunca escrito romance de Balzac.»

Honoré de Balzac "O Coronel Chabert" assírio & alvim, 2011
trad. Aníbal Fernandes


«Uma das mais célebres das seis novelas da recolha "Les Diaboliques". Escrita por volta de 1870, esta história de uma paixão adúltera começa num salão de armas e desenrola-se, de espada na mão, até ao crime. Romancista, poeta e jornalista, Barbey D'Aurevilly mostra nesta novela, mais do que em qualquer outra, o seu génio literário.»

Barbey D'Aurevilly "A felicidade no crime" assírio & alvim, 2011
trad. Aníbal Fernandes


«A minha obra favorita», anunciou em Julho de 1881 ao seu amigo William E. Henley. «É uma sonata fantástica sobre o mar e os naufrágios. [...] É a primeira e verdadeira tentativa de eu escrever uma história; uma coisa estranha, senhor, bastante minha apesar de lá ter um pouco do "Pirate" de Walter Scott; e como poderia acontecer de outro modo? Para o romanesco de tais lugares, ele dispunha daquilo que é a sua verdadeira raiz.»

Robert Louis Stevenson "Os folgazões" assírio & alvim, 2011
trad. Aníbal Fernandes


«O tema da Salomé bíblica seduzia-o, como seduziu muitos nomes das artes do final do século XIX orientalista e decadentista, mas pela vontade de lhe acrescentar uma venenosa dimensão necrófila. Salomé era a beleza maldita, a luxúria e a histeria, era o animal monstruoso, de uma sobre-humanidade indiferente a tudo o que não satisfizesse a sua sensualidade de mulher.»

Oscar Wilde "Salomé" assírio & alvim, 2011
trad. Aníbal Fernandes

SEM TÍTULO E BASTANTE BREVE

Tenho o olhar preso aos ângulos escuros da casa
tento descobrir um cruzar de linhas misteriosas, e
com elas quero construir um templo em forma de ilha
ou de mãos disponíveis para o amor....

na verdade, estou derrubado
sobre a mesa em fórmica suja duma taberna verde,
não sei onde
procuro as aves recolhidas na tontura da noite
embriagado entrelaço os dedos
possuo os insectos duros como unhas dilacerando
os rostos brancos das casas abandonadas, á beira mar...

dizem que ao possuir tudo isto
poderia Ter sido um homem feliz, que tem por defeito
interrogar-se acerca da melancolia das mãos....
...esta memória lamina incansável

um cigarro
outro cigarro vai certamente acalmar-me
....que sei eu sobre as tempestades do sangue?
E da água?
no fundo, só amo o lodo escondido das ilhas...

amanheço dolorosamente, escrevo aquilo que posso
estou imóvel, a luz atravessa-me como um sismo
hoje, vou correr à velocidade da minha solidão


Al Berto, in "Degredo no Sul" assírio & alvim, 2007
foto. via assírio & alvim

blog da cotovia...


http://blogdacotovia.blogspot.com/


LIBERDADE

No limiar da tua porta
No soalho reluzente
Na caixa do teu piano
Escrevo o teu nome

No primeiro dos degraus
No segundo e nos outros
Na porta da tua casa
Escrevo o teu nome

Nas paredes do nosso quarto
No papel viperino
Na lareira de cinzas
Escrevo o teu nome

Na almofada nos lençóis
No colchão feito de lã
No travesseiro encardido
Escrevo o teu nome

No teu rosto que me estendes
Nas tuas narinas abertas
Em cada um dos seios agudos
Escrevo o teu nome

No teu ventre como um escudo
Nas tuas coxas afastadas
No teu mistério corrediço
Escrevo o teu nome

Vim na noite
Conspurcar tudo isso
Vim pelo teu nome
Para o escrever
Com esperma.


Boris Vian, in "Escritos pornográficos" guerra & paz, 2010
trad. Rita Sousa Lopes

PERDA

No poroso branco das lajes
da limpa escada de pedra
sobre o abismo feliz
das claridades eternas
cada passo
perde
lentamente
a esperança de ser o último

A obra sem peso
da minha paciência
corre sobre a terra
constrói o silêncio
onde tu te anuncias

No reflexo das horas
como uma imagem de vidro
onde só vejo
a luz do vento
eu sei que a cor do mundo
está perdida


Ernesto Sampaio, in "Feriados Nacionais" fenda, 1999
Phil Douglis [ Fez ] 2006


«Qualquer cidade natal traz no ventre um pouco de cinza. Fez encheu-me a boca de terra amarela e de poeira cinzenta. Uma fuligem de madeira e de carvão ficou-me depositada nos brônquios e tornou as minhas asas mais pesadas. Como amar aquela cidade que me pregou à terra e por muito tempo me velou o olhar? Como esquecer a tirania daquele amor cego, daqueles silêncios pesados e prolongados, daquelas ausências atormentadas? Quando ando por aquelas ruas, deixo os meus dedos na pedra e roço as mãos pelas paredes até as esfolar e lamber-lhes o sangue. (…).»

Tahar Ben Jelloun, in "O escrivão público" cavalo de ferro, 2005
trad. Maria do Rosário Mendes

brevemente...


«Ismael, um velhor professor reformado, e a sua mulher, Otília, vivem um quotidiano modesto e pacato numa povoação do interior chamada San Jose. Em cima de uma escada e enquanto apanha laranjas, Ismael gosta de espiar o quintal do vizinho - a razão é a esbelta Geraldina, a mulher do brasileiro, que tomas banhos de sol nua, enquanto este tange a guitarra e os miúdos - Eusebito, o filho, e Gracielita, a criada adolescente - brincam em redor. Este ambiente idílico da aldeia será em breve ensombrado pelo desaparecimento de alguns dos seus habitantes. E ao voltar de um passeio, Ismael descobrirá que os vizinhos foram raptados e tenta, em vão, encontrar a mulher.»

Evelio Rosero "Os exércitos" quetzal, 2011
trad. Margarida Amado Acosta

nova edição...


«Raymond Carver disse que era possível "escrever sobre lugares-comuns, sobre coisas e objectos usando lugares-comuns, mas também uma linguagem precisa, conferindo assim a estas coisas - uma cadeira, uma cortina, um garfo, uma pedra, um brinco de mulher - uma força e uma cintilação imensas". Em parte nenhuma é tão evidente esta alquimia, como em "Catedral".»

Raymond Carver "Catedral" quetzal, 2011
trad. João Tordo

Celebrado como a obra-prima de Christopher Isherwood, "Um Homem Singular" conta a história de George Falconer, um professor de inglês de meia-idade destroçado pela morte súbita do amante de longa data. Numa Califórnia suburbana dos anos 1960, George Falconer tenta reaprender a viver, cumprindo os gestos diários e os ritos sociais. E observa-se com o distanciamento de um estranho e com a premência de encontrar em si alguma coisa reconhecível do seu passado. Com uma clarividência e humor extraordinários, Christopher Isherwood mostra a determinação de George em continuar a viver (e não morrer de saudade de Jim), evocando os prazeres inesperados que a vida apesar de tudo reserva, e a capacidade que temos de superar a perda e a alienação. "Um Homem Singular" foi recentemente adaptado ao cinema, no filme homónimo de Tom Ford.

Christopher Isherwood "Um Homem Singular" quetzal, 2010
trad. Filomena Duarte
[ Boy Meets Girl (Leos Carax) ] 1984

«Amanhã recomeçarei a vida pelo princípio, serei o adulto sério e responsável que a minha mãe deseja e a minha família aguarda, chegarei a tempo à enfermaria, pontual e grave, pentearei o cabelo para tranquilizar os pacientes, mondarei o meu vocabulário de obscenidades pontiagudas. Talvez mesmo, meu amor, que compre uma tapeçaria de tigres como a do Senhor Ferreira: podes achar idiota mas preciso de qualquer coisa que me ajude a existir.»

António Lobo Antunes, in " Memória de Elefante" dom quixote, 2009

Lançamento da Revista Atlântica nº6, com tequila, margueritas e pequenos sabores mexicanos:
Sábado, 11 de Dez., 19horas, Casa Manuel Teixeira Gomes, Portimão.


AMEI

Amei palavras gastas que ninguém
ousava. Encantou-me a rima flor
amor,
a mais antiga das difíceis do mundo.

Amei a verdade jazente no fundo,
quase um sonho olvidado, que a convulsão
redescobre amiga. Com medo o coração
dela se aproxima, e não mais se farta.

Amei-te a ti que me escutas, e a minha carta
boa deixada ao fim deste meu jogo.


PAIXÕES

São feitas de lágrimas e de sangue
e ainda de outras coisas. O coração
bate à esquerda.


Umberto Saba, in "Poesia" assírio & alvim, 2010
trad. José Manuel de Vasconcelos

escutar...

David Lynch [ Good Day Today ] 2010
Jean-Honoré Fragonard [ Les hasards heureux de l'escarpolette ] 1767/68


«O BALOUÇO», DE FRAGONARD

Como balouça pelos ares no espaço
entre arvoredo que tremula e saias
que lânguidas esvoaçam indiscretas!
Que pernas se entrevêem, e que mais
não se vê o que indiscreto se reclina
no gozo de escondido se mostrar!
Que olhar e que sapato pelos ares,
na luz difusa como névoa ardente
do palpitar de entranhas na folhagem!
Como um jardim se emprenha de volúpia,
torcendo-se nos ramos e nos gestos,
nos dedos que se afilam, e nas sombras!
Que roupas se demoram e constrangem
o sexo e os seios que avolumam presos,
e adivinhados na malícia tensa!
Que estátuas e que muros se balouçam
nessa vertigem de que as cordas são
tão córnea a graça de um feliz marido!
Como balouça, como adeja, como
é galanteio o gesto com que, obsceno,
o amante se deleita olhando apenas!
Como ele a despe e como ela resiste
no olhar que pousa enviesado e arguto
sabendo quantas rendas a rasgar!
Como do mundo nada importa mais!

Jorge de Sena, in "Antologia Poética" guimarães, 2010

o bairro...


«Poderemos dizer que a cidade é tão aborrecida que tem horários para cada som. Numa cidade divertida um cego nunca saberia as horas exactas. Mas porque a cidade não é divertida: ele sabe.»

Gonçalo M. Tavares, in "O senhor Eliot e as conferências" caminho, 2010

brevemente...


À semelhança de muitos jovens, Jonathan Safran Foer passou grande parte da sua adolescência e dos anos de universidade alternando entre o ser um carnívoro entusiasta e um vegetariano ocasional. Quando se tornou marido de alguém, e depois pai, as dimensões morais da alimentação tornaram-se cada vez mais importantes para ele. Encarando a perspectiva de ter de explicar por que razão comemos uns animais e não outros, Foer dispôs-se a explorar as origens de muitas tradições alimentares e as ficções que ajudaram a criá-las. Viajando para os recantos mais escuros dos nossos hábitos alimentares, Foer levanta a questão silenciosa que está por trás de cada peixe que comemos, de cada frango que fritamos e de cada hambúrguer que grelhamos. Em parte memórias e em parte relatório de investigação, "Comer Animais" é um livro que, nas palavras do 'Los Angeles Times', senta Jonathan Safran Foer «à mesa com os nossos melhores filósofos». Ao contrário da maioria dos outros livros sobre o assunto, este também explora as possibilidades para aqueles que comem carne, para que o façam com mais responsabilidade, fazendo deste um livro importante não apenas para vegetarianos, mas para qualquer pessoa que esteja preocupada com as ramificações e o significado do seu estilo de vida.

Jonathan Safran Foer "Comer animais" bertrand, 2010

Goncourt 2010


Michel Houellebecq, La carte et le territoire

OS LIVROS DAS PESSOAS

Se muitas máquinas gravassem tudo o que dizemos uns aos outros, todos os ruídos da nossa terra, todos os uivos…
Se muitas máquinas filmassem tudo o que vemos, todos os rostos, os sítios onde vamos, os céus, as alucinações…
Se muitas máquinas transcrevessem tudo o pensamos e sonhamos, as coisas todas que nos passam pela cabeça…
E se todos os dias houvesse outras máquinas que copiassem tudo isto — cada palavra, cada som, cada imagem — para um rolo infinito de papel branco, e tudo isto se guardasse, como o registo do que andamos todos aqui a fazer e a imaginar…

E se, depois de tudo isto, houvesse muitas pessoas, muitas pessoas diferentes, que passassem tudo a limpo, cortando e revendo, re-escrevendo e mudando, se tudo isto se fizesse, não seria a maior maravilha?
Não há maior maravilha que os livros.

"Um livro é…"
É costume dizer muito bem dos livros, mas os livros não são nem bons nem maus. Há livros que nos põem doentes, livros que nos desencaminham, livros até que nos tiram a vontade de ler outros.
O que são então os livros? São as pessoas.
No mundo, os livros e as pessoas têm a mesma importância. Haver ou não haver pessoas más, livros que não prestam, tanto faz, não interessa. Os livros não "fazem" parte de nós, não são "espelho" de nós, não são nada de tão simples ou de tão acessório. Os livros são as pessoas, são elas todas, incluindo nós.
É preciso tê-los, mesmo que não se leiam, e lê-los mesmo que não se tenham, e querê-los mesmo quando não existam, e escrevê-los mesmo quando não nos são pedidos.

Há tantas coisas que nunca teriam sido pensadas se não tivessem sido escritas.

Os livros são repetições, explosões repetidas do milagre do sinal. É triste como se vê o livro, como coisa estranha. É estranho quando se vê o livro como coisa exterior. É absurdo quando se vê o livro como coisa especial.
O livro nem sequer coisa é.

Os livros guardam todos os recados que o mundo ainda tem para nos dar.


Miguel Esteves Cardoso, in "A Phala nº5 abril/maio/junho 1987" assírio & alvim
ilust. Alex Dukal
Frederick Sommer [ Coyotes ] 1945


«a juventude alimenta-se do que as garras apanham, e os antigos defendem-se das gerações insaciáveis atirando carne podre»

Herberto Helder, in "Photomaton & Vox" assírio & alvim, 1995
Edward Hooper [summer interior] 1909


Aceito a ordem
das coisas, a geometria
imposta do quarto?
Os objectos no
seu lugar de sempre,
a distância exacta
da cadeira à mesa,
do meiple à janela?
O sono do tapete?
O universo diário
do quarto alugado,
as molduras que
cercam, resguardam
naturezas mortas,
paisagens imóveis?
Aceito a minha vida?
Ou mexo no candeeiro,
desvio-o alguns centímetros
na mesa, altero
as relações das coisas,
afinal tão frágeis
que o simples desvio
dum objecto pode
romper o equilíbrio?
Pego no telefone
e grito ao primeiro
desconhecido: ouves-me?
Ou deixo tudo
tal como está,
medido, quieto
no rigor do quarto,
e eu hesitante
entre o soalho e o tecto?
Desloco o cinzeiro
sabendo que posso
matar mandarins,
provocar cataclismos,
fracturas, amores,
eclipses, sonhos,
com a ponta dum dedo?
Ou apago a lâmpada
eléctrica e entro
no mesmo torpor
que as flores do tapete,
a fruta dos quadros,
o frio, o bolor,
no chão, nas paredes,
o poema na mesa,
a mesa no espaço
do quarto comprado
mês a mês? Confundo
o aluguer e o tempo,
deixo-me ser
em cada milímetro,
em cada segundo,
do quarto, da vida,
o outro objecto
chamado inquilino?
Ou desencadeio
a insurreição
mudando de sítio
o meiple, a cadeira,
mudando-me a mim?

Carlos de Oliveira, in "O aprendiz de feiticeiro" assírio & alvim, 2004
W. H. Auden "O prolífico e o devorador" & etc, 2010
trad. Helder Moura Pereira