O TABACO DA VIDA

De amor cantando,
sem nele demasiado acreditar,
dei a volta ao coração (demorei anos):
está só - mas sem nenhuma vontade de parar...

Desiludidos? Paciência, amigos...
Bebamos mais, fumemos, refumemos,
entre as mulheres, o tabaco e a vida.
Como cedilhas pendurados que felizes seremos,

exemplares cretinos nesta noite comprida...


Alexandre O'Neill, in "Poesias Completas" assírio & alvim, 2000

amanhã nas livrarias...


Livros Licenciosos...

em abril...


Jacques Prévert "Para fazer o retrato de um pássaro" faktoria k de livros, 2011
ilustração: Mordicai Gerstein
trad. Ana M. Noronha


PARA FAZER O RETRATO DE UM PÁSSARO

Pintar primeiro uma gaiola
com uma porta aberta
pintar em seguida
qualquer coisa bonita
qualquer coisa simples
qualquer coisa bela
qualquer coisa útil
para o pássaro
encostar depois a tela a uma árvore
num jardim
num bosque
ou numa floresta
esconder-se atrás da árvore
sem dizer uma palavra
sem fazer um gesto...
Às vezes o pássaro vem logo
mas pode também demorar muitos anos
a decidir-se
Não desanimar
esperar
esperar anos, se necessário for
pois a rapidez ou demora da chegada do pássaro
nada tem a ver com a qualidade do quadro
Quando o pássaro chegar
se por acaso chegar
manter um rigoroso silêncio
aguardar que o pássaro entre na gaiola
e quando ele entrar
fechar lentamente a porta com o pincel
em seguida
apagar uma a uma todas as grades
tendo o cuidado de não tocar nas penas do pássaro
Pintar depois a árvore
escolhendo o seu mais belo ramo
para o pássaro
pintar também o verde da folhagem e a frescura do vento
os raios de sol
e o clamor dos insectos no calor do Verão
em seguida aguardar que o pássaro se decida a cantar
Se o pássaro não cantar
é mau sinal
é sinal que o quadro não presta
mas se ele cantar é bom sinal
sinal que se pode assinar
Arrancar então com todo o cuidado
uma pena do pássaro
e escrever o nome num canto do quadro.

Jacques Prévert, in "Palavras/Paroles" sextante, 2007
trad. Manuela Torres

recomenda-se...


é já no próximo domingo...


é já no próximo domingo, dia 27 de Março de 2011, a partir das 15 horas, na Livraria Culsete (Setúbal).

Confirmações de presença, dúvidas, envio de textos, etc.
encontro.livreiro@gmail.com

http://encontrolivreiro.blogspot.com/

1.

Confiscaram-me os bens:
árvores, raízes, pedras, folhas soltas, os saltimbancos da minha fase rosa, figuras azuis tremendo de frio, flores ao fundo num cenário de guerra, a colecção das espécies em vias de extinção.

...

António Ferra, in "Marias Pardas" &etc, 2011

viagem obrigatória...

ilustração: Thomaz de Mello

Deserto com vozes, Urbano Tavares Rodrigues, Seara Nova, 1976
ilustração: Henrique Ruivo

Um Rapaz às Direitas, Odette de Saint-Maurice, Portugália, Biblioteca dos Rapazes 20, 1960
ilustração: João da Câmara Leme

http://almanaquesilva.wordpress.com/

leitura recomendada...


«Para alguém como José Fontana terá sido uma grande aventura, descer das montanhas suíças até ao mar dos descobridores, e, finalmente, aí tornar-se livreiro e intelectual numa grande cidade europeia, amigo do poeta Antero de Quental e colaborador de revistas e jornais. A viagem desde a oficina de relojoeiro na Suíça até à histórica Livraria Bertrand em Lisboa. Das fantasias infantis à descoberta do socialismo nos primórdios do movimento operário onde só pensar que se tinham direitos já era uma revolução e um motivo de esperança. A história de um José Fontana existencial e ideológico narrada por Alberto Nessi num romance profundamente humano, e que reflecte as grandes preocupações sociais do século XIX convidando-nos a uma constante comparação com o presente e com o desejo de justiça e solidariedade.»

Alberto Nessi "Na próxima semana, talvez" bertrand, 2011
trad. Simonetta Neto

«Perguicemos em tudo, excepto no amor e na bebida, excepto na preguiça»

Gotthold Ephraim Lessing
Richard Artschwager

Viver sempre também cansa.

O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinzento, negro, quase-verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.

O mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.

As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.

Tudo é igual, mecânico e exacto.

Ainda por cima os homens são homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.

E há bairros miseráveis sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida...

E obrigam-me a viver até à Morte!

Pois não era mais humano
morrer um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois,
achando tudo mais novo?

Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima dum divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.

Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
"Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela."

E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo...


José Gomes Ferreira, in "A Poesia da «Presença»" cotovia, 2003

OS LIVROS caíam sobre a minha máscara (e onde havia um esgar de velho moribundo), e as palavras açoitavam-me e um remoinho de gente gritava contra os livros, assim que os lancei todos à fogueira para que o fogo desfizesse as palavras...

E saiu um fumo azul dizendo adeus aos livros e à minha mão que escreve: “Rumpete libros, ne rumpant anima vestra”: que ardam, pois, os livros nos jardins e nas lixeiras e que se queimem os meus versos sem sair dos meus lábios:

o único imperador é o imperador do gelado, com o seu sorriso tosco, que imita a natureza e seu odor a queijo podre e vinagre. Os seus lábios não falam e ante essa mudez de assombro, caio estático de joelhos, ante o cadáver da poesia.


Leopoldo Maria Panero, in "poemas do manicómio de Mondragón" alma azul, 2003
trad. Jorge Melícias

edições, reedições e novas traduções...



Crack-Up e Outros Escritos é um auto-retrato da ascensão e queda de um grande escritor. Misturando romance e realismo, o livro conta a história do percurso que foi de um êxito brilhante ao desesperante vazio, que atingiu Scott Fitzgerald aos 39 anos. Esta colecção dos principais ensaios de Fitzgerald fala-nos de um homem com charme e talento para esbanjar, que o tornaram um símbolo vivo da era do jazz, mas cuja imprudência o levou ao declínio.


As principais obras de F. Scott Fitzgerald vão ser editadas ou reeditadas durante o mês de Março.
Entre as novas edições, destacamos Crack-Up e Outros Escritos, que, juntamente com O Grande Gatsby e Terna É a Noite, é uma das mais importantes obras do autor. Terna É a Noite sairá em nova tradução (José Miguel Silva).
Entre as reedições contam-se O Grande Gatsby, O Último Magnate, Sonhos de Inverno e Outros Contos, Belos e Malditos e Este Lado do Paraíso.

via http://relogiodaguaeditores.blogspot.com/

NA FLORISTA

Um homem entra numa florista
e escolhe umas flores
a florista embrulha as flores
o homem leva a mão ao bolso
para tirar o dinheiro
dinheiro para pagar as as flores
mas ao mesmo tempo
subitamente
leva a mão ao coração
e cai

Ao cair
o dinheiro corre pelo chão
e depois as flores caem
ao mesmo tempo que o homem
ao mesmo tempo que o dinheiro
e a florista ali parada
com o dinheiro a correr
com as flores a murchar
com o homem a morrer
Claro que tudo isto é muito triste
e ela tem que fazer qualquer coisa
a florista
mas não sabe como proceder
não sabe
por onde começar
Há tanta coisa a fazer
com aquele homem a morrer
com aquelas flores a murchar
e com aquele dinheiro
aquele dinheiro a correr
e que não pára de correr.


Jaques Prévert, in "Palavras/Paroles" sextante, 2007
trad. Manuela Torres

brevemente...


Knut Hamsun "Victoria" cavalo de ferro, 2011
trad. Carlos Aboim de Brito

dia 24 de Março...

Um botânico enamorado da sua planta carnívora. Um padre argentino que tem a faculdade de se desdobrar em corpos diferentes. Onze escritores mortos que o leitor nunca leu. Uma mulher-laranja que se deixa literalmente beber pelos seus amantes. Uma sociedade de estetas fascinados pelas marés negras. Uma tribo de índios da Amazónia que nenhum linguista compreende. E o extraordinário Pierre Gould, que ressurge incessantemente em diferentes trajes e disfarces...

Bernard Quiriny "Contos Carnívoros" ahab, 2011
trad. Miguel Serras Pereira

«A verdadeira vida não é redutível a palavras, faladas ou escritas, seja por quem for, nunca. A verdadeira vida tem lugar quando estamos sozinhos, a meditar, a sentir, perdidos na nossas memórias, a vasculhar sonhadoramente no nosso inconsciente, os momentos submicroscópicos.(...)»

Don DeLillo, in "Ponto Ómega " sextante, 2011
trad. Paulo Faria

Josep Pla


16 de Abril – Às vezes passeio pelas ruas com o objectivo exclusivo de olhar para a cara dos homens e das mulheres que passam. A cara dos homens e das mulheres que passaram dos trinta anos, que coisa tão impressionante! Que concentração de mistérios minúsculos e obscuros, à medida do homem; de tristeza venenosa e impotente, de ilusões cadavéricas arrastadas durante anos e anos; de cortesia momentânea e automática; de vaidade secreta e diabólica; de abatimento e de resignação perante o Grande Animal da natureza e da vida!
Há dias em que invento qualquer pretexto para falar com as pessoas que vou encontrando. Olho-as nos olhos. É um pouco difícil. É a última coisa que as pessoas deixam ver. Estremeço ao notar a escassa quantidade de gente que conserva no olhar algum rasto de ilusão e de poesia – da ilusão e da poesia dos dezassete anos. Da maioria dos olhos apagou-se todo o brilho pelas coisas abstractas e engraçadas, gratuitas, fascinantes, incertas, apaixonantes. Os olhares são duros ou mórbidos ou falsos, mas totalmente arrasados. São olhares puramente mecânicos, desprovidos de surpresa, de aventura, de imponderável.

Josep Pla, in "caderno cinzento" cotovia, 2011

"Caderno cinzento" vai ser em breve publicado na Cotovia como um dos primeiros títulos da preparada colecção "Grande literatura catalã".

via blog da cotovia

livros licenciosos...

N'"O Vício em Lisboa" (Antigo e Moderno), publicado pela primeira vez em 1912, o autor descreve com um alegado hiper-realismo experiente a vida das prostitutas lisboetas e seus clientes. Da degeneração das criaditas subjugadas ao vício do amor às costureirinhas ambiciosas, das hospedarias imundas aos bordéis e casas chiques, aqui se tecem as considerações morais sobre uma cidade de onde há até testemunho de cinema pornográfico com sexo ao vivo no mesmo ano de 1912. Inclui Regulamento Policial das Meretrizes e Casas Toleradas da Cidade de Lisboa, emitido pelo Governo Civil de Lisboa em 1865.

Fernando Schwalbach "O vício em Lisboa - antigo e moderno" tinta da china, 2011


O livro conta com os hilariantes desenhos de Rafael Bordalo Pinheiro (sob anonimato) e com textos de autores desconhecidos, mas sem dúvida com a mais elevada erudição e desbragado sentido de humor. Um almanaque típico do século XIX, com os habituais calendários, adágios, adivinhas, canções, enigmas, pequenos contos, textos pseudocientíficos, alguns dos quais alusivos às viagens em África ou aos progressos no campo das ciências naturais. Mas a temática, essa, é inteiramente distinta...

Rafael Bordalo Pinheiro "O Pauzinho do Matrimónio - Almanaque Perpétuo" tinta da china, 2011


Esta obra foi escrita na clandestinidade de um pseudónimo por Cândido de Figueiredo, ilustre lexicógrafo, presidente da Academia de Ciências de Lisboa e fundador da Sociedade de Geografia de Lisboa. Uma divertida e muitíssimo picante novela, definitivamente proibida a menores de 18 anos. Segue-se-lhe "Proezas de Frade ou Mistérios do Confessionário", um texto em verso também publicado no final do século XIX por autor anónimo. A temática, muito comum na época, envolve um clérigo e as suas escaldantes aventuras. A linguagem, para dizer o mínimo, libertina, apanhará desprevenidos os leitores, a quem apenas o riso poderá salvar da apoplexia.

Cândido de Figueiredo "Entre Lençóis - Episódios Inocentes para Educação e Recreio de Pessoas Casadoiras" tinta da china, 2011

colecção dirigida pelo Historiador António Ventura, a partir da sua biblioteca privada.

ir à Índia e voltar...


«O escritor de viagens com um bloqueio criativo; o pedido de ajuda que chega por carta; o jovem indiano que acorda no hotel com um cadáver ao lado; a remetente da carta, a enigmática viúva rica Senhora Unger; Calcutá, na sua atmosfera pungente, saturada de humidade e cheia de labirintos decadentes. E uma mão morta. O mais recente romance de Paul Theroux apresenta uma plêiade de personagens ricamente desenhadas, num caso de difícil resolução. É um fresco da Índia moderna, um "thriller", um devaneio erótico e uma reflexão sobre a idade e a perda da energia criativa.»

Paul Theroux "Mão Morta - Um crime em Calcutá" quetzal, 2011

NÃO HÁ PALAVRAS

Tocas um corpo, sentes-lhe o repetido tremor
sob os teus dedos, o cálido andamento do sangue.
Observas-lhe o lânguido amolecimento,
as suas sombras corporais, o seu desvelado esplendor.
Não há palavras. Tocas um corpo; um mundo
enche agora as tuas mãos, empurra o seu destino.
Estira-se o tempo nos pulmões
silva como um chicote rente aos lábios.
As horas, o instante, detêm-se,
extrais aí a tua pequena parcela de eternidade.
Antes foram os nomes e as datas,
a história tão clara e lúcida de dois rostos distantes.
Depois, aquilo a que chamas amor,
talvez se transforme em promessa arrancada,
muro erguido que pretende encerrar
aquilo que só em liberdade pode ganhar-se.
Não importa, agora nada importa.
Trocas um corpo, nele te fundes,
apalpas a vida, real, comum. Já não estás só.


Juan Luis Panero, in "Antes que chegue a noite" fenda, 2000
trad. António Cabrita e Teresa Noronha

brevemente...


Em Julho de 2003 Roberto Bolaño deu a sua última entrevista. Morreria nesse mesmo mês. A conversa que teve com Monica Maristain (precedida de outras com os jornalistas Héctor Soto e Matías Bravo, Carmen Boullosa e Eliseo Álvarez) revelam o homem por detrás da obra – uma das mais audaciosas dos nossos tempos –, o homem perto da morte. Nela fala-nos sobre os seus autores de eleição, os filhos, a poesia, os amigos, a literatura a literatura latino-americana, a liberdade, os inimigos, a consagração, o amor, o sexo, a vida em Blanes, a passagem do tempo, a doença, a morte, o Chile, o México, e o que gostaria de ter sido se não tivesse sido escritor.

AAVV "Roberto Bolaño: últimas entrevistas" quetzal, 2011

em março na quetzal...


«Um projecto que teve início em finais dos anos oitenta e que se prolongou até à morte do escritor. Numa carta de 1995, comenta: «Há anos que trabalho num romance que se intitula "Os Dissabores do Verdadeiro Polícia" e que é O MEU ROMANCE. O protagonista é um viúvo, cinquenta anos, professor universitário, filha de dezassete, que vai viver para Santa Teresa, cidade próxima da fronteira com os EUA. Oitocentas mil páginas, um enredo demencial (...).»
«Se no romance moderno se quebrou a barreira entre ficção e realidade, entre invenção e ensaio, a contribuição de Bolaño vai por outro caminho (...) - para nos aproximar de uma escrita visionária, onírica, delirante, fragmentada e poder-se-á até dizer que provisória. (...) O que importa é a participação activa do leitor, simultânea ao acto da escrita. Bolaño deixou isto bem claro a propósito do título: «O polícia é o leitor, que procura em vão ordenar este romance endemoninhado.» E no próprio corpo do livro insiste-se nesta concepção de um romance como uma vida.»

Roberto Bolaño "Os dissabores do verdadeiro polícia" quetzal, 2011



Este volume junta dezasseis ensaios e conferências escritos por Sontag nos últimos anos de vida, período em que as homenagens à sua obra se sucediam por todo o mundo. Em "AT THE SAME TIME" escreve sobre a liberdade da literatura, sobre a coragem e a resistência, e analisa destemidamente os dilemas da América do pós 11 de Setembro - da degradação da retórica política à horrível tortura dos prisioneiros de Abu Ghraib. No prefácio, David Rieff descreve a paixão que a impeliu toda a vida: «Interessava-se por tudo. Na verdade, se apenas tivesse uma palavra para a evocar, essa palavra seria avidez. Queria experimentar tudo, provar tudo, ir a toda a parte, fazer tudo (...) Penso que, para ela, a alegria de viver e a alegria de saber eram uma e a mesma coisa.» A inteligência incisiva de Susan Sontag, o brilho da sua expressividade, a profunda curiosidade pela arte e pela política e a sua responsabilidade de testemunhar enquanto autor, colocam-na entre os mais importantes pensadores e escritores do século XX.

Susan Sontag "Ao mesmo tempo" quetzal, 2011

leitura recomendada...

«Eric Lax é o autor da mais conhecida biografia de Woody Allen. Neste livro divulga as mais reveladoras e divertidas entrevistas feitas ao realizador de "Manhattan" e "Annie Hall". Ao longo de mais de três décadas, Woody Allen conversou regularmente com Eric Lax, permitindo-lhe um acesso sem precedentes aos seus locais de filmagens, pensamentos e observações. Em conversas entre 1971 e 2007, Allen discutiu sobre produção cinematográfica - os seus próprios filmes e o trabalho de realizadores que admira. Assim, este livro mostra a evolução de Woody Allen até aos dias de hoje (de escritor de comédia e comediante de "stand-up" a realizador famoso). Esta é, por isso, uma leitura essencial para quem se interessa por realização cinematográfica e para todos os que apreciam os seus filmes.»

Eric Lax "Conversas com Woody Allen" relógio d'água, 2011
trad. Carina Ribeiro

«Como o universo inteiro andara de automóvel ou velocípede, a ocasião de pular de alegria aproveitará a muito poucos. Os raros peões indigentes que tiverem escapado a extermínios anteriores serão cuidadosamente esmagados e tudo seguirá, em fúria, para o duplo abismo que a odiosa mecanização invoca: o da imbecilidade dos homens e o da esterilidade das mulheres. As pessoas vão “divertir-se” em podridão e demência.»

Léon Bloy, in "Histórias desagradáveis" estampa, 1982
trad. Aníbal Fernandes
Jordi Paris, 1970

dia 16 de fevereiro nas livrarias...


Enrique Vila-Matas "Dublinesca" teorema, 2011
trad. Jorge Fallorca

«É esta luta de pessoas dentro da própria pessoa, somos dois em cada um de nós, este drama nunca se esclarece, é terrível, luta sempre no auge quando o amor bate à porta, quando se é dominada pelo campo imenso da febre amorosa, momentos dissecados, dobrados, gémeos, de exame filatélico.(…)»

Ruben A., in “Silêncio para 4” assírio & alvim, 1990

viagens...


Saul Bellow "Jerusalém ida e volta" tinta da china, 2011

brevemente na Ahab...


Julio Ramón Ribeyro "Prosas apátridas" ahab, 2011

dia 31 de Janeiro...

No seu estudo das obras de Charles Sealsfield, Leopold Kompert e Karl Emil Franzos, de Peter Altenberg, Franz Kafka, Hermann Broch e Joseph Roth, bem como de Jean Améry, Gerhard Roth e Peter Handke, W. G. Sebald analisa o complexo temático da pátria e do exílio que tão característico é da literatura austríaca dos séculos XIX e XX.

W. G. Sebald "Pátria Apátrida" teorema, 2011
Henri-Georges Clouzot [ Les Diaboliques ] 1955

Rêve Oublié

Neste meu hábito surpreendente de te trazer de costas
neste meu desejo irreflectido de te possuir num trampolim
nesta minha mania de te dar o que tu gostas
e depois esquecer-me irremediavelmente de ti

Agora na superfície da luz a procurar a sombra
agora encostado ao vidro a sonhar a terra
agora a oferecer-te um elefante com uma linda tromba
e depois matar-te e dar-te vida eterna

Continuar a dar tiros e modificar a posição dos astros
continuar a viver até cristalizar entre neve
continuar a contar a lenda duma princesa sueca
e depois fechar a porta para tremermos de medo

Contar a vida pelos dedos e perdê-los
contar um a um os teus cabelos e seguir a estrada
contar as ondas do mar e descobrir-lhes o brilho
e depois contar um a um os teus dedos de fada

Abrir-se a janela para entrarem estrelas
abrir-se a luz para entrarem olhos
abrir-se o tecto para cair um garfo no centro da sala
e depois ruidosa uma dentadura velha
E no CIMO disto tudo uma montanha de ouro

E no FIM disto tudo um Azul-de-Prata.


António Maria Lisboa, in "Poemas" assírio & alvim, 1995

Alex Gross, 2011

gato maltês (Janeiro 2011)...

«Balzac: dezoito anos de tumultuosa criação literária, três anos de doloroso declínio; uma imaginação que se levantou alto para os êxitos, e teve momentos menos gloriosos em alguns fracassos. Uma energia: vital e consumida naquela chama que está no incêndio de todas as paixões do mundo. O escritor Balzac, ele próprio construído como personagem de um possível e nunca escrito romance de Balzac.»

Honoré de Balzac "O Coronel Chabert" assírio & alvim, 2011
trad. Aníbal Fernandes


«Uma das mais célebres das seis novelas da recolha "Les Diaboliques". Escrita por volta de 1870, esta história de uma paixão adúltera começa num salão de armas e desenrola-se, de espada na mão, até ao crime. Romancista, poeta e jornalista, Barbey D'Aurevilly mostra nesta novela, mais do que em qualquer outra, o seu génio literário.»

Barbey D'Aurevilly "A felicidade no crime" assírio & alvim, 2011
trad. Aníbal Fernandes


«A minha obra favorita», anunciou em Julho de 1881 ao seu amigo William E. Henley. «É uma sonata fantástica sobre o mar e os naufrágios. [...] É a primeira e verdadeira tentativa de eu escrever uma história; uma coisa estranha, senhor, bastante minha apesar de lá ter um pouco do "Pirate" de Walter Scott; e como poderia acontecer de outro modo? Para o romanesco de tais lugares, ele dispunha daquilo que é a sua verdadeira raiz.»

Robert Louis Stevenson "Os folgazões" assírio & alvim, 2011
trad. Aníbal Fernandes


«O tema da Salomé bíblica seduzia-o, como seduziu muitos nomes das artes do final do século XIX orientalista e decadentista, mas pela vontade de lhe acrescentar uma venenosa dimensão necrófila. Salomé era a beleza maldita, a luxúria e a histeria, era o animal monstruoso, de uma sobre-humanidade indiferente a tudo o que não satisfizesse a sua sensualidade de mulher.»

Oscar Wilde "Salomé" assírio & alvim, 2011
trad. Aníbal Fernandes

SEM TÍTULO E BASTANTE BREVE

Tenho o olhar preso aos ângulos escuros da casa
tento descobrir um cruzar de linhas misteriosas, e
com elas quero construir um templo em forma de ilha
ou de mãos disponíveis para o amor....

na verdade, estou derrubado
sobre a mesa em fórmica suja duma taberna verde,
não sei onde
procuro as aves recolhidas na tontura da noite
embriagado entrelaço os dedos
possuo os insectos duros como unhas dilacerando
os rostos brancos das casas abandonadas, á beira mar...

dizem que ao possuir tudo isto
poderia Ter sido um homem feliz, que tem por defeito
interrogar-se acerca da melancolia das mãos....
...esta memória lamina incansável

um cigarro
outro cigarro vai certamente acalmar-me
....que sei eu sobre as tempestades do sangue?
E da água?
no fundo, só amo o lodo escondido das ilhas...

amanheço dolorosamente, escrevo aquilo que posso
estou imóvel, a luz atravessa-me como um sismo
hoje, vou correr à velocidade da minha solidão


Al Berto, in "Degredo no Sul" assírio & alvim, 2007
foto. via assírio & alvim

blog da cotovia...


http://blogdacotovia.blogspot.com/