Edward Hooper [summer interior] 1909


Aceito a ordem
das coisas, a geometria
imposta do quarto?
Os objectos no
seu lugar de sempre,
a distância exacta
da cadeira à mesa,
do meiple à janela?
O sono do tapete?
O universo diário
do quarto alugado,
as molduras que
cercam, resguardam
naturezas mortas,
paisagens imóveis?
Aceito a minha vida?
Ou mexo no candeeiro,
desvio-o alguns centímetros
na mesa, altero
as relações das coisas,
afinal tão frágeis
que o simples desvio
dum objecto pode
romper o equilíbrio?
Pego no telefone
e grito ao primeiro
desconhecido: ouves-me?
Ou deixo tudo
tal como está,
medido, quieto
no rigor do quarto,
e eu hesitante
entre o soalho e o tecto?
Desloco o cinzeiro
sabendo que posso
matar mandarins,
provocar cataclismos,
fracturas, amores,
eclipses, sonhos,
com a ponta dum dedo?
Ou apago a lâmpada
eléctrica e entro
no mesmo torpor
que as flores do tapete,
a fruta dos quadros,
o frio, o bolor,
no chão, nas paredes,
o poema na mesa,
a mesa no espaço
do quarto comprado
mês a mês? Confundo
o aluguer e o tempo,
deixo-me ser
em cada milímetro,
em cada segundo,
do quarto, da vida,
o outro objecto
chamado inquilino?
Ou desencadeio
a insurreição
mudando de sítio
o meiple, a cadeira,
mudando-me a mim?

Carlos de Oliveira, in "O aprendiz de feiticeiro" assírio & alvim, 2004
W. H. Auden "O prolífico e o devorador" & etc, 2010
trad. Helder Moura Pereira

[ Mr. Arkadin (Orson Welles) ] 1955

«Pelo final de uma tarde de há uns dois anos, foi avistado um avião a cerca de cem quilómetros do aeroporto de Orly, em Paris. Era um avião particular, de tamanho médio, e não levava ninguém a bordo; absolutamente ninguém. O avião, mantendo sempre rumo em direcção a Paris, voava entregue a si próprio. Por que razão estava vazio? Quem o pilotara? E porquê, e sob que circunstâncias, o haviam abandonado? Porquê? A esse respeito, conta-se uma história.»

Orson Welles, in "Mr. Arkadin" ulisseia, 2010
trad. Carlos Sebastião e Silva
Henri Fantin-Latour [ Natureza Morta ] 1866

A BIBLIOTECA REQUINTADA

«Uma biblioteca requintada é igual à nossa barriga. Temos de ter muito cuidado com o que lá se vai encontrar. Permitimos apenas o que é próprio de cada um desses lugares. Se numa biblioteca dessas calhasse um livro que não lhe pertence, seria como se com imprudência engolíssemos algo que nem sequer é comestível. Ficaríamos nauseados e enjoados. Eram exactamente essas as sensações que tive quando, ao ter entrado no escritório, encontrei na minha biblioteca um livro que eu, de certeza absoluta, nunca tinha colocado ali. As sensações foram tão fortes que reprimiram por completo a questão natural de saber como é que ele fora ali parar. Mas também é verdade que uma pessoa em cujo estômago se encontra algo impróprio não se preocupa muito em determinar o que aconteceu, mas antes de mais tenta expelir esse objecto estranho. A saúde é apesar de tudo mais premente do que a mera curiosidade intelectual.(…)»

Zoran Živković, in "A Biblioteca" cavalo de ferro, 2010
trad. Arijana Medvedec

O DESPERTADOR

Um despertador exposto sobre um tapete cheio de pó era tudo quanto possuía, para vender, o pobre comerciante árabe. Durante dias, reparou que uma velha se interessava pelo relógio. Era uma beduína, pertencente a uma daquelas tribos que voam com o vento.
«Desejas comprá-lo?», perguntou-lhe um dia.
«Quanto custa?»
«Pouco. Mas não sei se o vendo. Se também este desaparecer deixarei de ter um trabalho».
«Então porque o tens exposto?»
«Porque me dá a sensação de viver. E tu porque o queres, não vês que lhe faltam os ponteiros?»
«Faz tiquetaque?», quis saber a velha.
O comerciante deu corda ao despertador fazendo soar um sonoro e metálico tiquetaque. A velha fechou os olhos e percebeu que,
na escuridão da noite, podia assemelhar-se a um coração que bate ao lado do seu.

Tonino Guerra, in "Histórias para uma noite de calmaria" assírio & alvim, 2002
trad. Mário Rui de Carvalho
Malick Sidibé [ Toumani Diabaté ]

uma boa notícia...


«Pan» é, desde a sua publicação, um dos livros mais apreciados e amados de Knut Hamsun. Uma obra-prima da literatura, onde «a natureza fala na língua subtil e sonhadora de um breve e idílico Verão nórdico». Através dos papéis encontrados depois da sua morte, o tenente Glahn relata-nos a sua trágica paixão pela jovem Edwarda, num crescendo de exaltação que invade e se confunde com a paisagem envolvente, tornando-se difícil distinguir entre natureza e psique.

Knut Hamsun "Pan" cavalo de ferro, 2010
trad. Mário Cruz e João Cruz

«Como é que os livros chegaram à minha biblioteca? Por uma conjunção de acasos, de curiosidade sistemática e vontades súbitas durante conversas e leituras.
Para falar de descobertas que remontam a tempos distantes, o elemento desencadeador pode ter sido um título misterioso (O Lobo das Estepes sem fazer ideia de quem era Hermann Hesse), uma capa (Lolita em livro de bolso, versão de 1971, ignorando tudo sobre Nabokov, só porque nela aparecia o rosto de uma jovem rapariga com tranças loiras e, na contracapa, a sua nuca, tudo sobre um fundo verde que produzia um belo efeito), um filme (O Leopardo, de Visconti e Lampedusa; O Tesouro da Sierra Madre, de Huston e Traven; À Beira do Abismo, de Hawks e Chandler; A Senhora do Cãozinho, de Heifetz e Tchekhov; etc), uma anedota (um artigo de Gilles Lapouge que falava de um exemplar de Pan, de Hamsun, esquecido sobre um banco e reencontrado um ano mais tarde num clube nocturno num dos cais do Sena. O artigo tinha, para além disto, o atractivo de evocar uma «sociedade secreta» dos apreciadores de Knut Hamsun. É impossível resistir à oportunidade de pertencer a uma sociedade secreta de leitores!).
(…)»

Jacques Bonnet, in "Bibliotecas Cheias de Fantasmas" quetzal, 2010
trad. José Mário Silva

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Peter Broderick [ How They Are ] 2010

leitura recomendada...

Georges Perec "A arte e o modo de abordar o seu chefe de serviço para lhe pedir um aumento" presença, 2010
trad. Isabel Pascoal

«Em cada livro que se abre pela primeira vez há um efeito de «cofre arrombado». Sim, é exactamente isso, o leitor frenético é como um assaltante que passou horas a escavar um túnel para chegar à sala dos cofres de um banco. Ele encontra-se diante de centenas de cofres todos parecidos e vai abrindo-os um a um. De cada vez, o cofre finalmente aberto perde o seu anonimato para se tornar único: há um que tem quadros lá dentro, outro esconde maços de notas, um outro jóias, ou cartas atadas com uma fita, gravuras, objectos sem valor, baixelas de prata, fotografias, moedas antigas, flores secas, dossiês, copos de cristal, brinquedos de criança, etc. Há qualquer coisa de inebriante sempre que se abre um novo, ao descobrir o seu conteúdo, e qualquer coisa de exaltante ao compreendermos que não estamos, ao fim de um tempo, face a uma sequência de cofres mas sim em presença das riquezas e das miseráveis banalidades a que se pode resumir a existência humana.»

Jaques Bonnet, in “Bibliotecas cheias de fantasmas” quetzal, 2010
Trad. José Mário Silva

ilust. Gérard Dubois

a partir de 19 de Outubro...


Herberto Helder "O Bebedor Nocturno" assírio & alvim, 2010


Herberto Helder "As Magias" assírio & alvim, 2010

a partir de 19 de Outubro...

Walter Benjamin "Sobre o haxixe e outras drogas" assírio & alvim, 2010
trad. João Barrento

dia 22 de Outubro



A literatura Nazi é uma enciclopédia ficcional composta de pequenas biografias de autores pan-americanos imaginários. Estes nazis literários — fascistas, fanáticos e reaccionários — são retratados numa galeria de medíocres aleinados, snobes, oportunistas, narcisistas e criminosos.
Numa entrevista, Roberto Bolaño referiu-se aos seus autores nazis na América como uma metáfora do mundo das letras, às vezes heróico, outras desprezível.
E, na verdade, ainda que inventados, estes escritores são personagens de histórias, essas sim reais, de grandes nomes da literatura das américas.

Roberto Bolaño "A Literatura Nazi nas Américas" quetzal, 2010

dia 22 de Outubro...


Alexandra Lucas Coelho "Viva México" tinta da china, 2010

dia 6 de Outubro...


«A nossa vida é tão curta, a nossa miséria tão ínfima, tão desesperada a luta em que nos vamos, que no que se pensa é em viver au jour le jour, empenhado em dois fitos: fazer oiro de meio mundo, e guerrear ou escarnecer do outro meio. Ser mau tornou-se uma necessidade
contemporânea. Ser perverso um ideal… que infelizmente poucos saboreiam.»

Fialho de Almeida, in "Carta a D. Luís sobre as vantagens de ser assassinado" assírio & alvim, 2010

dia 6 de Outubro...


«Não passa por nós um sopro daquele ar que envolveu os que vieram antes de nós? Não é a voz a que damos ouvidos um eco de outras já silenciadas? As mulheres que cortejamos não têm irmãs que já não conheceram? A ser assim, então existe um acordo secreto entre as gerações passadas e a nossa. Então, fomos esperados sobre esta Terra. Então, foi-nos dada, como a todas as gerações que nos antecederam, uma ténue força messiânica a que o passado tem direito. Não se pode rejeitar de ânimo leve esse direito. E o materialista histórico sabe disso.»

Walter Benjamin, in "O Anjo da História" assírio & alvim, 2010
trad. João Barrento

«Há um quadro de Klee intitulado Angelus Novus. Representa um anjo que parece preparar-se para se afastar de qualquer coisa que olha fixamente. Tem os olhos esbugalhados, a boca escancarada e as asas abertas. O anjo da história deve ter este aspecto. Voltou o rosto para o passado. A cadeia de factos que aparece diante dos nossos olhos é para ele uma catástrofe sem fim, que incessantemente acumula ruínas sobre ruínas e lhas lança aos pés. Ele gostaria de parar para acordar os mortos e reconstituir, a partir dos seus fragmentos, aquilo que foi destruído. Mas do paraíso sopra um vendaval que se enrodilha nas suas asas, e que é tão forte que o anjo já as não consegue fechar. Este vendaval arrasta-o imparavelmente para o futuro, a que ele volta costas, enquanto o monte de ruínas à sua frente cresce até ao céu. Aquilo a que chamamos o progresso é este vendaval.»


Walter Benjamin, in "O Anjo da História" assírio & alvim, 2010
trad. João Barrento
pint. Paul Klee [ Angelus Novus ] 1920

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Maximum Balloon [ Maximum Balloon ] 2010

«Os livros não se fazem como os filhos, mas como as pirâmides, com um plano longamente pensado, e pondo grandes blocos de pedra uns em cima dos outros, à custa de esforço, tempo e suor. E não serve para nada! Fica assim erguida no deserto! Mas domina-o de uma maneira prodigiosa. Os chacais mijam-lhe na base, e os burgueses trepam-lhe ao topo.»

Julian Barnes, in "O papagaio de Flaubert" quetzal, 1988
trad. Ana Maria Amador

dia 8 de Outubro...


Jacques Bonnet "Bibliotecas cheias de Fantasmas" quetzal, 2010
trad. José Mário Silva

«Tem medo de morrer durante o sono esmagado pela sua biblioteca? A acumulação de livros coloca a existência da sua família em risco? Arruma os livros por tema, língua, autor, data de edição, ou formato, ou segundo um critério que só você conhece? Poderemos pôr lado a lado na estante dois autores irremediavelmente desavindos? São muitas as questões que envolvem esta espécie em vias de extinção: os bibliófilos que, além da paixão pela posse de livros, têm a obsessão pela leitura.»

dia 8 de Outubro...


Em parte noir, em parte farsa psicadélica, protagonizado por Doc Sportello, detective privado, que de vez em quando se ergue de uma névoa de marijuana para assistir ao fim de uma era.

«Há já algum tempo que Doc Sportello não vê a ex-namorada. Mas um dia ela aparece com uma história acerca de um plano para raptar o milionário por quem por acaso se apaixonou. Esta ponta solta dos anos sessenta em Los Angeles é o mote para o livro, mas Doc sabe que o «amor» não passa de mais uma palavra que anda na moda, como trip ou «curte».
Mais um livro inesquecível de um dos escritores mais influentes da actualidade.»

Thomas Pynchon "Vício Intrínseco" bertrand, 2010

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Chilly Gonzales [ Ivory Tower ] 2010
Jeff Stahler

ISSO É UM LIVRO?

«"O Nariz de Gógol", solicitei. A rapariga era uma virago: "Isso é um livro?" O extravagante diálogo decorreu numa tarde de Abril numa livraria que já teve as suas horas, nesta cidade mesmo de Lisboa."Não vinha aqui procurar sapatos."A empregada, furibunda, avançou para o computador, gritando para uma colega: "Já ouviste falar de um livro chamado O Nariz?" A outra aconselhou a busca no computador. Lá fomos, e ainda ouvimos a voz desta segunda, perguntando: "Isso é recente?" "Sim, saiu uma edição há uns dois anos."
Velho livrariófilo (não é bibliófilo, é viciado em livrarias e estantes), desconfio destas livrarias onde os vendedores se precipitam para as máquinas à procura de stocks, não sabem o que está nas estantes, nem a cor do livro, nem me aconselham outra edição, ou mesmo outra obra ou outra ainda. Embora já o tenha, teria comprado as Almas Mortas tivesse a rapariga dito um "este saiu há menos tempo e é uma tradução do russo". E teria comprado Kafka, se me tivesse dito "são parecidos"; e então se tivesse apontado o que de Gógol há em Rodrigues Miguéis, cá trazia eu para casa mais uma Gente da Terceira Classe.
Depois da lenta consulta — e eu a querer fumar —, lá disse a assertiva jovem (também há jovens imbecis): "Isso não existe." A outra, mais simpática, trouxe-me até à porta e sussurrou: "Vá àquela ali, é melhor, nós não percebemos nada disto. "Lamentei, cá para mim, as misérias da vida que obrigam uma moça alegremente ignorante a trabalhar numa livraria e não numa lojinha de bugigangas, segui o conselho.
Pois não é que a empregada desta outra livraria, a "melhor", empregada mais antiga que fazia crochet, interrompe o passatempo e me olha, aterradora: "Isso é um livro?" pergunta. "É. E saiu há uns dois anos." "Ó Não-sei-Quantas chega aqui, conheces uma editora que se chama O Nariz?" grita para o fundo. "Não é uma editora, é uma novela, a edição é da Assírio & Alvim." "Dessa, temos umas coisas" disse, pousando o crochet e deixando-me com ténue esperança. "Não sei bem o quê, mas temos." E lá atacou o amaldiçoado computador. "Olhe, temos o Fernando Pessoa, esse temos, não quer?"
"Não, queria o Gógol" repeti, e já passara meia hora desde que me dera aquele desejo maldito de comprar uma das mais belas novelas desde sempre e jamais. "Isso é um livro?" repetiu a livreira, e foi a terceira vez que, numa livraria, me fizeram esta pergunta. Lá disse que supunha que, nas livrarias, se vendem livros (embora, para dizer a verdade, durante esta já quase hora, não tenha eu visto nem um cliente nem uma venda).
Talvez pudesse ter ido a uma "grande superfície", aí não me perguntam "Isso é um livro?", vêm o código de barras e fazem plim, mas não fui, meti-me num supermercado a comprar iogurtes, voltei para casa, tristonho, sem o meu cobiçado Nariz (salvo seja). (…) »

Público, Mil Folhas, 5 de Outubro de 2002

Jorge Silva Melo, in "Século Passado" cotovia, 2007

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Goldmund [ Famous Places ] 2010