dia 6 de Outubro...


«A nossa vida é tão curta, a nossa miséria tão ínfima, tão desesperada a luta em que nos vamos, que no que se pensa é em viver au jour le jour, empenhado em dois fitos: fazer oiro de meio mundo, e guerrear ou escarnecer do outro meio. Ser mau tornou-se uma necessidade
contemporânea. Ser perverso um ideal… que infelizmente poucos saboreiam.»

Fialho de Almeida, in "Carta a D. Luís sobre as vantagens de ser assassinado" assírio & alvim, 2010

dia 6 de Outubro...


«Não passa por nós um sopro daquele ar que envolveu os que vieram antes de nós? Não é a voz a que damos ouvidos um eco de outras já silenciadas? As mulheres que cortejamos não têm irmãs que já não conheceram? A ser assim, então existe um acordo secreto entre as gerações passadas e a nossa. Então, fomos esperados sobre esta Terra. Então, foi-nos dada, como a todas as gerações que nos antecederam, uma ténue força messiânica a que o passado tem direito. Não se pode rejeitar de ânimo leve esse direito. E o materialista histórico sabe disso.»

Walter Benjamin, in "O Anjo da História" assírio & alvim, 2010
trad. João Barrento

«Há um quadro de Klee intitulado Angelus Novus. Representa um anjo que parece preparar-se para se afastar de qualquer coisa que olha fixamente. Tem os olhos esbugalhados, a boca escancarada e as asas abertas. O anjo da história deve ter este aspecto. Voltou o rosto para o passado. A cadeia de factos que aparece diante dos nossos olhos é para ele uma catástrofe sem fim, que incessantemente acumula ruínas sobre ruínas e lhas lança aos pés. Ele gostaria de parar para acordar os mortos e reconstituir, a partir dos seus fragmentos, aquilo que foi destruído. Mas do paraíso sopra um vendaval que se enrodilha nas suas asas, e que é tão forte que o anjo já as não consegue fechar. Este vendaval arrasta-o imparavelmente para o futuro, a que ele volta costas, enquanto o monte de ruínas à sua frente cresce até ao céu. Aquilo a que chamamos o progresso é este vendaval.»


Walter Benjamin, in "O Anjo da História" assírio & alvim, 2010
trad. João Barrento
pint. Paul Klee [ Angelus Novus ] 1920

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Maximum Balloon [ Maximum Balloon ] 2010

«Os livros não se fazem como os filhos, mas como as pirâmides, com um plano longamente pensado, e pondo grandes blocos de pedra uns em cima dos outros, à custa de esforço, tempo e suor. E não serve para nada! Fica assim erguida no deserto! Mas domina-o de uma maneira prodigiosa. Os chacais mijam-lhe na base, e os burgueses trepam-lhe ao topo.»

Julian Barnes, in "O papagaio de Flaubert" quetzal, 1988
trad. Ana Maria Amador

dia 8 de Outubro...


Jacques Bonnet "Bibliotecas cheias de Fantasmas" quetzal, 2010
trad. José Mário Silva

«Tem medo de morrer durante o sono esmagado pela sua biblioteca? A acumulação de livros coloca a existência da sua família em risco? Arruma os livros por tema, língua, autor, data de edição, ou formato, ou segundo um critério que só você conhece? Poderemos pôr lado a lado na estante dois autores irremediavelmente desavindos? São muitas as questões que envolvem esta espécie em vias de extinção: os bibliófilos que, além da paixão pela posse de livros, têm a obsessão pela leitura.»

dia 8 de Outubro...


Em parte noir, em parte farsa psicadélica, protagonizado por Doc Sportello, detective privado, que de vez em quando se ergue de uma névoa de marijuana para assistir ao fim de uma era.

«Há já algum tempo que Doc Sportello não vê a ex-namorada. Mas um dia ela aparece com uma história acerca de um plano para raptar o milionário por quem por acaso se apaixonou. Esta ponta solta dos anos sessenta em Los Angeles é o mote para o livro, mas Doc sabe que o «amor» não passa de mais uma palavra que anda na moda, como trip ou «curte».
Mais um livro inesquecível de um dos escritores mais influentes da actualidade.»

Thomas Pynchon "Vício Intrínseco" bertrand, 2010

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Chilly Gonzales [ Ivory Tower ] 2010
Jeff Stahler

ISSO É UM LIVRO?

«"O Nariz de Gógol", solicitei. A rapariga era uma virago: "Isso é um livro?" O extravagante diálogo decorreu numa tarde de Abril numa livraria que já teve as suas horas, nesta cidade mesmo de Lisboa."Não vinha aqui procurar sapatos."A empregada, furibunda, avançou para o computador, gritando para uma colega: "Já ouviste falar de um livro chamado O Nariz?" A outra aconselhou a busca no computador. Lá fomos, e ainda ouvimos a voz desta segunda, perguntando: "Isso é recente?" "Sim, saiu uma edição há uns dois anos."
Velho livrariófilo (não é bibliófilo, é viciado em livrarias e estantes), desconfio destas livrarias onde os vendedores se precipitam para as máquinas à procura de stocks, não sabem o que está nas estantes, nem a cor do livro, nem me aconselham outra edição, ou mesmo outra obra ou outra ainda. Embora já o tenha, teria comprado as Almas Mortas tivesse a rapariga dito um "este saiu há menos tempo e é uma tradução do russo". E teria comprado Kafka, se me tivesse dito "são parecidos"; e então se tivesse apontado o que de Gógol há em Rodrigues Miguéis, cá trazia eu para casa mais uma Gente da Terceira Classe.
Depois da lenta consulta — e eu a querer fumar —, lá disse a assertiva jovem (também há jovens imbecis): "Isso não existe." A outra, mais simpática, trouxe-me até à porta e sussurrou: "Vá àquela ali, é melhor, nós não percebemos nada disto. "Lamentei, cá para mim, as misérias da vida que obrigam uma moça alegremente ignorante a trabalhar numa livraria e não numa lojinha de bugigangas, segui o conselho.
Pois não é que a empregada desta outra livraria, a "melhor", empregada mais antiga que fazia crochet, interrompe o passatempo e me olha, aterradora: "Isso é um livro?" pergunta. "É. E saiu há uns dois anos." "Ó Não-sei-Quantas chega aqui, conheces uma editora que se chama O Nariz?" grita para o fundo. "Não é uma editora, é uma novela, a edição é da Assírio & Alvim." "Dessa, temos umas coisas" disse, pousando o crochet e deixando-me com ténue esperança. "Não sei bem o quê, mas temos." E lá atacou o amaldiçoado computador. "Olhe, temos o Fernando Pessoa, esse temos, não quer?"
"Não, queria o Gógol" repeti, e já passara meia hora desde que me dera aquele desejo maldito de comprar uma das mais belas novelas desde sempre e jamais. "Isso é um livro?" repetiu a livreira, e foi a terceira vez que, numa livraria, me fizeram esta pergunta. Lá disse que supunha que, nas livrarias, se vendem livros (embora, para dizer a verdade, durante esta já quase hora, não tenha eu visto nem um cliente nem uma venda).
Talvez pudesse ter ido a uma "grande superfície", aí não me perguntam "Isso é um livro?", vêm o código de barras e fazem plim, mas não fui, meti-me num supermercado a comprar iogurtes, voltei para casa, tristonho, sem o meu cobiçado Nariz (salvo seja). (…) »

Público, Mil Folhas, 5 de Outubro de 2002

Jorge Silva Melo, in "Século Passado" cotovia, 2007

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Goldmund [ Famous Places ] 2010

brevemente...


Nikolai Gógol "O casamento, fragmentos e cenas" assírio & alvim, 2010
trad. Nina Guerra e Filipe Guerra

3 de Setembro nas livarias...



«Destruir o pai. Parece impossível para Jean Calmet, professor de Latim em Lausanne, na Suíça. Depois de assistir à cremação do pai, os fantasmas e as humilhações do passado voltam para o tiranizar. Neste livro, que ganhou o Prémio Goncourt em 1973, Jacques Chessex desenrola o fio de uma vida devorada por um ogre estrondoso que roubou o prazer da vida aos filhos e lhes fez pagar a sua cobardia. Um pai nunca morre...»

Jacques Chessex "O Ogre" sextante, 2010

O GATO

Na minha casa desejo ter
Uma mulher que imponha a sua razão
Um gato passeando por entre os livros
E porque sem eles não posso viver
Amigos seja qual for a estação

Guillaume Appolinaire, in "Assinar a pele" assírio & alvim, 2001

uma boa notícia...


George Perec "L’Art et la Manière d’Aborder Votre Chef de Service Pour Lui Demander Une Augmentation"

em Outubro na presença

via http://www.bibliotecariodebabel.com/

COISAS QUE NUNCA – 1

Há coisas que nunca
tivemos em crianças e perdem
o valor para sempre. Aquele sempre
dos primeiros dez anos, onde o tempo,
as pessoas, as coisas
parecem enormes e indestrutíveis.

Disfarçar-se de relâmpago
ou de outras coisas impossíveis, comer
todos os chocolates, ter uma bicicleta igual
à do estúpido do vizinho, fazer
as coisas que os adultos escondem
atrás da porta dos quartos, retribuir
a bofetada aos nossos
legítimos superiores, querer
morder com justa causa
tanta gente no mundo e
só poder no escuro
morder uma almofada.


Inês Lourenço, in “Coisas que nunca” & etc, 2010

musicas de verão #2

musicas de verão #1


Au Revoir Simone [ Night Light ] moshi moshi, 2010


Vi roma arder, e neros vários
bronzeados à luz da califórnia
guardar em naftalina nos armários
timidamente, a lira babilónia;
as capitais da terra, uma a uma,
desfeitas em rumor e negra espuma,
atingidas de noite no seu centro;
mas nunca vi paris contigo dentro.
E falta-me esta imagem para ter
inteiro o álbum que me coube em sorte
como um cinema onde passava «a morte»;
solene imperador, abrindo o manto
onde ocultei a cólera e o pranto,
falta-me ver paris contigo dentro.

António Franco Alexandre, in "Duende" assírio & alvim, 2003


[ Woody Allen e Romy Schneider, Paris 1964 ]
[ The Man Who Laughs (Paul Leni) ] 1928



«No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra»


Mário Cesariny

A MOSCA

Terei de matar-te de novo.
Matei-te tantas vezes, em Casablanca, em Lima,
em Cristiânia,
em Montparnasse, numa casa do partido de Lobos,
no bordel, na cozinha, sobre um pente,
no escritório, nesta almofada
terei de matar-te de novo,
eu, com a minha única vida.


Julio Cortázar, in "Papéis inesperados" cavalo de ferro, 2010
trad. Sofia Castro Rodrigues e Virgílio Tenreiro Viseu

dia 15 nas Livrarias...


«Kjell Askildsen é reconhecido como uma das vozes mais singulares e intensas da narrativa breve contemporânea. A sua escrita concisa e dolorosamente eficaz, o humor negro que destila e a sua capacidade para iluminar as tragédias da vida quotidiana são alguns dos traços deste escritor norueguês, por muitos considerado o Raymond Carver europeu. Neste volume reúnem-se alguns dos seus melhores contos, seleccionados pelo próprio autor, entre eles Um repentino pensamento libertador e o aclamado Últimas notas de Thomas F. para o público em geral, que em 2006 foi eleito pelo jornal Dagbladet a melhor obra de ficção publicada na Noruega nos últimos 25 anos. Em todos eles, Askildsen surpreende as suas personagens em cenários quotidianos, aparentemente insignificantes, para desvelar, com a cumplicidade do leitor, os profundos sismos da alma.»

Kiel Askildsen "Um Repentino Pensamento Libertador" ahab, 2010
trad. Mário Semião


«Conheço agora alguma da minha capacidade… Sei o que quero fazer com a minha vida, tudo isto sendo tão simples, mas tão difícil para mim sabê-lo no passado. Quero dormir com muitas pessoas – quero viver e odeio morrer – não vou ensinar, nem tirar um mestrado depois de fazer a licenciatura…
Não tenciono deixar que o meu intelecto tome conta de mim, e a última coisa que quero fazer é admirar o conhecimento ou pessoas que detêm o conhecimento! Não quero saber da agregação de factos de ninguém, excepto quando for um reflexo [da] sensibilidade básica que necessito… Tenciono fazer tudo…»

Susan Sontag, in “Renascer” quetzal, 2010
trad. Nuno Guerreiro Josué
[ Pierrot le fou (Jean-Luc Godard) ] 1965


ORLA MARÍTIMA

O tempo das suaves raparigas
é junto ao mar ao longo da avenida
ao sol dos solitários dias de dezembro
Tudo ali pára como nas fotografias
É a tarde de agosto o rio a música o teu rosto
alegre e jovem hoje ainda quando tudo ia mudar
És tu surges de branco pela rua antigamente
noite iluminada noite de nuvens ó melhor mulher
(E nos alpes o cansado humanista canta alegremente)
«Mudança possui tudo»? Nada muda
nem sequer o cultor dos sistemáticos cuidados
levanta a dobra da tragédia nestas brancas horas
Deus anda à beira de água calça arregaçada
como umhomemse deita como umhomemse levanta
Somos crianças feitas para grandes férias
pássaros pedradas de calor
atiradas ao frio em redor
pássaros compêndios de vida
e morte resumida agasalhada em asas
Ali fica o retrato destes dias
gestos e pensamentos tudo fixo
Manhã dos outros não nossa manhã
pagão solar de uma alegria calma
De terra vem a água e da água a alma
o tempo é a maré que leva e traz
o mar às praias onde eternamente somos
Sabemos agora em que medida merecemos a vida


Ruy Belo, in "O tempo das suaves raparigas e outros poemas de amor" assírio & alvim, 2010











Tamra Davis [ The Radiant Child ] 2010

Partiste

O que resta da cidade que foi nossa
Por uns dias
Abre no coração um espaço pânico

Vazio
completamente mudo
Aonde
Para maior desespero
As lágrimas não conseguem assomar


Alberto de Lacerda, in "O pajem formidavél dos indícios" assírio & alvim, 2010