Chicken Lips [ Experience of Malfunction ] 2010
brevemente...
À semelhança de muitos jovens, Jonathan Safran Foer passou grande parte da sua adolescência e dos anos de universidade alternando entre o ser um carnívoro entusiasta e um vegetariano ocasional. Quando se tornou marido de alguém, e depois pai, as dimensões morais da alimentação tornaram-se cada vez mais importantes para ele. Encarando a perspectiva de ter de explicar por que razão comemos uns animais e não outros, Foer dispôs-se a explorar as origens de muitas tradições alimentares e as ficções que ajudaram a criá-las. Viajando para os recantos mais escuros dos nossos hábitos alimentares, Foer levanta a questão silenciosa que está por trás de cada peixe que comemos, de cada frango que fritamos e de cada hambúrguer que grelhamos. Em parte memórias e em parte relatório de investigação, "Comer Animais" é um livro que, nas palavras do 'Los Angeles Times', senta Jonathan Safran Foer «à mesa com os nossos melhores filósofos». Ao contrário da maioria dos outros livros sobre o assunto, este também explora as possibilidades para aqueles que comem carne, para que o façam com mais responsabilidade, fazendo deste um livro importante não apenas para vegetarianos, mas para qualquer pessoa que esteja preocupada com as ramificações e o significado do seu estilo de vida.
Jonathan Safran Foer "Comer animais" bertrand, 2010

OS LIVROS DAS PESSOAS
Se muitas máquinas gravassem tudo o que dizemos uns aos outros, todos os ruídos da nossa terra, todos os uivos…
Se muitas máquinas filmassem tudo o que vemos, todos os rostos, os sítios onde vamos, os céus, as alucinações…
Se muitas máquinas transcrevessem tudo o pensamos e sonhamos, as coisas todas que nos passam pela cabeça…
E se todos os dias houvesse outras máquinas que copiassem tudo isto — cada palavra, cada som, cada imagem — para um rolo infinito de papel branco, e tudo isto se guardasse, como o registo do que andamos todos aqui a fazer e a imaginar…
E se, depois de tudo isto, houvesse muitas pessoas, muitas pessoas diferentes, que passassem tudo a limpo, cortando e revendo, re-escrevendo e mudando, se tudo isto se fizesse, não seria a maior maravilha?
Não há maior maravilha que os livros.
"Um livro é…"
É costume dizer muito bem dos livros, mas os livros não são nem bons nem maus. Há livros que nos põem doentes, livros que nos desencaminham, livros até que nos tiram a vontade de ler outros.
O que são então os livros? São as pessoas.
No mundo, os livros e as pessoas têm a mesma importância. Haver ou não haver pessoas más, livros que não prestam, tanto faz, não interessa. Os livros não "fazem" parte de nós, não são "espelho" de nós, não são nada de tão simples ou de tão acessório. Os livros são as pessoas, são elas todas, incluindo nós.
É preciso tê-los, mesmo que não se leiam, e lê-los mesmo que não se tenham, e querê-los mesmo quando não existam, e escrevê-los mesmo quando não nos são pedidos.
Há tantas coisas que nunca teriam sido pensadas se não tivessem sido escritas.
Os livros são repetições, explosões repetidas do milagre do sinal. É triste como se vê o livro, como coisa estranha. É estranho quando se vê o livro como coisa exterior. É absurdo quando se vê o livro como coisa especial.
O livro nem sequer coisa é.
Os livros guardam todos os recados que o mundo ainda tem para nos dar.
Miguel Esteves Cardoso, in "A Phala nº5 abril/maio/junho 1987" assírio & alvim
ilust. Alex Dukal
Aceito a ordem
das coisas, a geometria
imposta do quarto?
Os objectos no
seu lugar de sempre,
a distância exacta
da cadeira à mesa,
do meiple à janela?
O sono do tapete?
O universo diário
do quarto alugado,
as molduras que
cercam, resguardam
naturezas mortas,
paisagens imóveis?
Aceito a minha vida?
Ou mexo no candeeiro,
desvio-o alguns centímetros
na mesa, altero
as relações das coisas,
afinal tão frágeis
que o simples desvio
dum objecto pode
romper o equilíbrio?
Pego no telefone
e grito ao primeiro
desconhecido: ouves-me?
Ou deixo tudo
tal como está,
medido, quieto
no rigor do quarto,
e eu hesitante
entre o soalho e o tecto?
Desloco o cinzeiro
sabendo que posso
matar mandarins,
provocar cataclismos,
fracturas, amores,
eclipses, sonhos,
com a ponta dum dedo?
Ou apago a lâmpada
eléctrica e entro
no mesmo torpor
que as flores do tapete,
a fruta dos quadros,
o frio, o bolor,
no chão, nas paredes,
o poema na mesa,
a mesa no espaço
do quarto comprado
mês a mês? Confundo
o aluguer e o tempo,
deixo-me ser
em cada milímetro,
em cada segundo,
do quarto, da vida,
o outro objecto
chamado inquilino?
Ou desencadeio
a insurreição
mudando de sítio
o meiple, a cadeira,
mudando-me a mim?
Carlos de Oliveira, in "O aprendiz de feiticeiro" assírio & alvim, 2004
das coisas, a geometria
imposta do quarto?
Os objectos no
seu lugar de sempre,
a distância exacta
da cadeira à mesa,
do meiple à janela?
O sono do tapete?
O universo diário
do quarto alugado,
as molduras que
cercam, resguardam
naturezas mortas,
paisagens imóveis?
Aceito a minha vida?
Ou mexo no candeeiro,
desvio-o alguns centímetros
na mesa, altero
as relações das coisas,
afinal tão frágeis
que o simples desvio
dum objecto pode
romper o equilíbrio?
Pego no telefone
e grito ao primeiro
desconhecido: ouves-me?
Ou deixo tudo
tal como está,
medido, quieto
no rigor do quarto,
e eu hesitante
entre o soalho e o tecto?
Desloco o cinzeiro
sabendo que posso
matar mandarins,
provocar cataclismos,
fracturas, amores,
eclipses, sonhos,
com a ponta dum dedo?
Ou apago a lâmpada
eléctrica e entro
no mesmo torpor
que as flores do tapete,
a fruta dos quadros,
o frio, o bolor,
no chão, nas paredes,
o poema na mesa,
a mesa no espaço
do quarto comprado
mês a mês? Confundo
o aluguer e o tempo,
deixo-me ser
em cada milímetro,
em cada segundo,
do quarto, da vida,
o outro objecto
chamado inquilino?
Ou desencadeio
a insurreição
mudando de sítio
o meiple, a cadeira,
mudando-me a mim?
Carlos de Oliveira, in "O aprendiz de feiticeiro" assírio & alvim, 2004
«Pelo final de uma tarde de há uns dois anos, foi avistado um avião a cerca de cem quilómetros do aeroporto de Orly, em Paris. Era um avião particular, de tamanho médio, e não levava ninguém a bordo; absolutamente ninguém. O avião, mantendo sempre rumo em direcção a Paris, voava entregue a si próprio. Por que razão estava vazio? Quem o pilotara? E porquê, e sob que circunstâncias, o haviam abandonado? Porquê? A esse respeito, conta-se uma história.»
Orson Welles, in "Mr. Arkadin" ulisseia, 2010
trad. Carlos Sebastião e Silva
Orson Welles, in "Mr. Arkadin" ulisseia, 2010
trad. Carlos Sebastião e Silva

Henri Fantin-Latour [ Natureza Morta ] 1866
«Uma biblioteca requintada é igual à nossa barriga. Temos de ter muito cuidado com o que lá se vai encontrar. Permitimos apenas o que é próprio de cada um desses lugares. Se numa biblioteca dessas calhasse um livro que não lhe pertence, seria como se com imprudência engolíssemos algo que nem sequer é comestível. Ficaríamos nauseados e enjoados. Eram exactamente essas as sensações que tive quando, ao ter entrado no escritório, encontrei na minha biblioteca um livro que eu, de certeza absoluta, nunca tinha colocado ali. As sensações foram tão fortes que reprimiram por completo a questão natural de saber como é que ele fora ali parar. Mas também é verdade que uma pessoa em cujo estômago se encontra algo impróprio não se preocupa muito em determinar o que aconteceu, mas antes de mais tenta expelir esse objecto estranho. A saúde é apesar de tudo mais premente do que a mera curiosidade intelectual.(…)»
Zoran Živković, in "A Biblioteca" cavalo de ferro, 2010
trad. Arijana Medvedec

O DESPERTADOR
Um despertador exposto sobre um tapete cheio de pó era tudo quanto possuía, para vender, o pobre comerciante árabe. Durante dias, reparou que uma velha se interessava pelo relógio. Era uma beduína, pertencente a uma daquelas tribos que voam com o vento.
«Desejas comprá-lo?», perguntou-lhe um dia.
«Quanto custa?»
«Pouco. Mas não sei se o vendo. Se também este desaparecer deixarei de ter um trabalho».
«Então porque o tens exposto?»
«Porque me dá a sensação de viver. E tu porque o queres, não vês que lhe faltam os ponteiros?»
«Faz tiquetaque?», quis saber a velha.
O comerciante deu corda ao despertador fazendo soar um sonoro e metálico tiquetaque. A velha fechou os olhos e percebeu que,
na escuridão da noite, podia assemelhar-se a um coração que bate ao lado do seu.
Tonino Guerra, in "Histórias para uma noite de calmaria" assírio & alvim, 2002
trad. Mário Rui de Carvalho
uma boa notícia...

«Pan» é, desde a sua publicação, um dos livros mais apreciados e amados de Knut Hamsun. Uma obra-prima da literatura, onde «a natureza fala na língua subtil e sonhadora de um breve e idílico Verão nórdico». Através dos papéis encontrados depois da sua morte, o tenente Glahn relata-nos a sua trágica paixão pela jovem Edwarda, num crescendo de exaltação que invade e se confunde com a paisagem envolvente, tornando-se difícil distinguir entre natureza e psique.
Knut Hamsun "Pan" cavalo de ferro, 2010
trad. Mário Cruz e João Cruz
,+Paris.jpg)
«Como é que os livros chegaram à minha biblioteca? Por uma conjunção de acasos, de curiosidade sistemática e vontades súbitas durante conversas e leituras.
Para falar de descobertas que remontam a tempos distantes, o elemento desencadeador pode ter sido um título misterioso (O Lobo das Estepes sem fazer ideia de quem era Hermann Hesse), uma capa (Lolita em livro de bolso, versão de 1971, ignorando tudo sobre Nabokov, só porque nela aparecia o rosto de uma jovem rapariga com tranças loiras e, na contracapa, a sua nuca, tudo sobre um fundo verde que produzia um belo efeito), um filme (O Leopardo, de Visconti e Lampedusa; O Tesouro da Sierra Madre, de Huston e Traven; À Beira do Abismo, de Hawks e Chandler; A Senhora do Cãozinho, de Heifetz e Tchekhov; etc), uma anedota (um artigo de Gilles Lapouge que falava de um exemplar de Pan, de Hamsun, esquecido sobre um banco e reencontrado um ano mais tarde num clube nocturno num dos cais do Sena. O artigo tinha, para além disto, o atractivo de evocar uma «sociedade secreta» dos apreciadores de Knut Hamsun. É impossível resistir à oportunidade de pertencer a uma sociedade secreta de leitores!).
(…)»
Jacques Bonnet, in "Bibliotecas Cheias de Fantasmas" quetzal, 2010
trad. José Mário Silva
leitura recomendada...

«Em cada livro que se abre pela primeira vez há um efeito de «cofre arrombado». Sim, é exactamente isso, o leitor frenético é como um assaltante que passou horas a escavar um túnel para chegar à sala dos cofres de um banco. Ele encontra-se diante de centenas de cofres todos parecidos e vai abrindo-os um a um. De cada vez, o cofre finalmente aberto perde o seu anonimato para se tornar único: há um que tem quadros lá dentro, outro esconde maços de notas, um outro jóias, ou cartas atadas com uma fita, gravuras, objectos sem valor, baixelas de prata, fotografias, moedas antigas, flores secas, dossiês, copos de cristal, brinquedos de criança, etc. Há qualquer coisa de inebriante sempre que se abre um novo, ao descobrir o seu conteúdo, e qualquer coisa de exaltante ao compreendermos que não estamos, ao fim de um tempo, face a uma sequência de cofres mas sim em presença das riquezas e das miseráveis banalidades a que se pode resumir a existência humana.»
Jaques Bonnet, in “Bibliotecas cheias de fantasmas” quetzal, 2010
Trad. José Mário Silva
ilust. Gérard Dubois
a partir de 19 de Outubro...
escutar...

Gonjasufi [ The Caliph's Tea Party ] warp, 2010
http://soundcloud.com/warp-records/sets/gonjasufi-caliph/s-Xcsnl
dia 22 de Outubro

A literatura Nazi é uma enciclopédia ficcional composta de pequenas biografias de autores pan-americanos imaginários. Estes nazis literários — fascistas, fanáticos e reaccionários — são retratados numa galeria de medíocres aleinados, snobes, oportunistas, narcisistas e criminosos.
Numa entrevista, Roberto Bolaño referiu-se aos seus autores nazis na América como uma metáfora do mundo das letras, às vezes heróico, outras desprezível.
E, na verdade, ainda que inventados, estes escritores são personagens de histórias, essas sim reais, de grandes nomes da literatura das américas.
Roberto Bolaño "A Literatura Nazi nas Américas" quetzal, 2010
dia 6 de Outubro...

«A nossa vida é tão curta, a nossa miséria tão ínfima, tão desesperada a luta em que nos vamos, que no que se pensa é em viver au jour le jour, empenhado em dois fitos: fazer oiro de meio mundo, e guerrear ou escarnecer do outro meio. Ser mau tornou-se uma necessidade
contemporânea. Ser perverso um ideal… que infelizmente poucos saboreiam.»
Fialho de Almeida, in "Carta a D. Luís sobre as vantagens de ser assassinado" assírio & alvim, 2010
Fialho de Almeida, in "Carta a D. Luís sobre as vantagens de ser assassinado" assírio & alvim, 2010
dia 6 de Outubro...

«Não passa por nós um sopro daquele ar que envolveu os que vieram antes de nós? Não é a voz a que damos ouvidos um eco de outras já silenciadas? As mulheres que cortejamos não têm irmãs que já não conheceram? A ser assim, então existe um acordo secreto entre as gerações passadas e a nossa. Então, fomos esperados sobre esta Terra. Então, foi-nos dada, como a todas as gerações que nos antecederam, uma ténue força messiânica a que o passado tem direito. Não se pode rejeitar de ânimo leve esse direito. E o materialista histórico sabe disso.»
Walter Benjamin, in "O Anjo da História" assírio & alvim, 2010
trad. João Barrento

«Há um quadro de Klee intitulado Angelus Novus. Representa um anjo que parece preparar-se para se afastar de qualquer coisa que olha fixamente. Tem os olhos esbugalhados, a boca escancarada e as asas abertas. O anjo da história deve ter este aspecto. Voltou o rosto para o passado. A cadeia de factos que aparece diante dos nossos olhos é para ele uma catástrofe sem fim, que incessantemente acumula ruínas sobre ruínas e lhas lança aos pés. Ele gostaria de parar para acordar os mortos e reconstituir, a partir dos seus fragmentos, aquilo que foi destruído. Mas do paraíso sopra um vendaval que se enrodilha nas suas asas, e que é tão forte que o anjo já as não consegue fechar. Este vendaval arrasta-o imparavelmente para o futuro, a que ele volta costas, enquanto o monte de ruínas à sua frente cresce até ao céu. Aquilo a que chamamos o progresso é este vendaval.»
Walter Benjamin, in "O Anjo da História" assírio & alvim, 2010
trad. João Barrento
pint. Paul Klee [ Angelus Novus ] 1920

«Os livros não se fazem como os filhos, mas como as pirâmides, com um plano longamente pensado, e pondo grandes blocos de pedra uns em cima dos outros, à custa de esforço, tempo e suor. E não serve para nada! Fica assim erguida no deserto! Mas domina-o de uma maneira prodigiosa. Os chacais mijam-lhe na base, e os burgueses trepam-lhe ao topo.»
Julian Barnes, in "O papagaio de Flaubert" quetzal, 1988
trad. Ana Maria Amador
Subscrever:
Mensagens (Atom)




+Summer+Interior.jpg)
























+%5D+1925+.jpg)




