O GATO

Na minha casa desejo ter
Uma mulher que imponha a sua razão
Um gato passeando por entre os livros
E porque sem eles não posso viver
Amigos seja qual for a estação

Guillaume Appolinaire, in "Assinar a pele" assírio & alvim, 2001

uma boa notícia...


George Perec "L’Art et la Manière d’Aborder Votre Chef de Service Pour Lui Demander Une Augmentation"

em Outubro na presença

via http://www.bibliotecariodebabel.com/

COISAS QUE NUNCA – 1

Há coisas que nunca
tivemos em crianças e perdem
o valor para sempre. Aquele sempre
dos primeiros dez anos, onde o tempo,
as pessoas, as coisas
parecem enormes e indestrutíveis.

Disfarçar-se de relâmpago
ou de outras coisas impossíveis, comer
todos os chocolates, ter uma bicicleta igual
à do estúpido do vizinho, fazer
as coisas que os adultos escondem
atrás da porta dos quartos, retribuir
a bofetada aos nossos
legítimos superiores, querer
morder com justa causa
tanta gente no mundo e
só poder no escuro
morder uma almofada.


Inês Lourenço, in “Coisas que nunca” & etc, 2010

musicas de verão #2

musicas de verão #1


Au Revoir Simone [ Night Light ] moshi moshi, 2010


Vi roma arder, e neros vários
bronzeados à luz da califórnia
guardar em naftalina nos armários
timidamente, a lira babilónia;
as capitais da terra, uma a uma,
desfeitas em rumor e negra espuma,
atingidas de noite no seu centro;
mas nunca vi paris contigo dentro.
E falta-me esta imagem para ter
inteiro o álbum que me coube em sorte
como um cinema onde passava «a morte»;
solene imperador, abrindo o manto
onde ocultei a cólera e o pranto,
falta-me ver paris contigo dentro.

António Franco Alexandre, in "Duende" assírio & alvim, 2003


[ Woody Allen e Romy Schneider, Paris 1964 ]
[ The Man Who Laughs (Paul Leni) ] 1928



«No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra»


Mário Cesariny

A MOSCA

Terei de matar-te de novo.
Matei-te tantas vezes, em Casablanca, em Lima,
em Cristiânia,
em Montparnasse, numa casa do partido de Lobos,
no bordel, na cozinha, sobre um pente,
no escritório, nesta almofada
terei de matar-te de novo,
eu, com a minha única vida.


Julio Cortázar, in "Papéis inesperados" cavalo de ferro, 2010
trad. Sofia Castro Rodrigues e Virgílio Tenreiro Viseu

dia 15 nas Livrarias...


«Kjell Askildsen é reconhecido como uma das vozes mais singulares e intensas da narrativa breve contemporânea. A sua escrita concisa e dolorosamente eficaz, o humor negro que destila e a sua capacidade para iluminar as tragédias da vida quotidiana são alguns dos traços deste escritor norueguês, por muitos considerado o Raymond Carver europeu. Neste volume reúnem-se alguns dos seus melhores contos, seleccionados pelo próprio autor, entre eles Um repentino pensamento libertador e o aclamado Últimas notas de Thomas F. para o público em geral, que em 2006 foi eleito pelo jornal Dagbladet a melhor obra de ficção publicada na Noruega nos últimos 25 anos. Em todos eles, Askildsen surpreende as suas personagens em cenários quotidianos, aparentemente insignificantes, para desvelar, com a cumplicidade do leitor, os profundos sismos da alma.»

Kiel Askildsen "Um Repentino Pensamento Libertador" ahab, 2010
trad. Mário Semião


«Conheço agora alguma da minha capacidade… Sei o que quero fazer com a minha vida, tudo isto sendo tão simples, mas tão difícil para mim sabê-lo no passado. Quero dormir com muitas pessoas – quero viver e odeio morrer – não vou ensinar, nem tirar um mestrado depois de fazer a licenciatura…
Não tenciono deixar que o meu intelecto tome conta de mim, e a última coisa que quero fazer é admirar o conhecimento ou pessoas que detêm o conhecimento! Não quero saber da agregação de factos de ninguém, excepto quando for um reflexo [da] sensibilidade básica que necessito… Tenciono fazer tudo…»

Susan Sontag, in “Renascer” quetzal, 2010
trad. Nuno Guerreiro Josué
[ Pierrot le fou (Jean-Luc Godard) ] 1965


ORLA MARÍTIMA

O tempo das suaves raparigas
é junto ao mar ao longo da avenida
ao sol dos solitários dias de dezembro
Tudo ali pára como nas fotografias
É a tarde de agosto o rio a música o teu rosto
alegre e jovem hoje ainda quando tudo ia mudar
És tu surges de branco pela rua antigamente
noite iluminada noite de nuvens ó melhor mulher
(E nos alpes o cansado humanista canta alegremente)
«Mudança possui tudo»? Nada muda
nem sequer o cultor dos sistemáticos cuidados
levanta a dobra da tragédia nestas brancas horas
Deus anda à beira de água calça arregaçada
como umhomemse deita como umhomemse levanta
Somos crianças feitas para grandes férias
pássaros pedradas de calor
atiradas ao frio em redor
pássaros compêndios de vida
e morte resumida agasalhada em asas
Ali fica o retrato destes dias
gestos e pensamentos tudo fixo
Manhã dos outros não nossa manhã
pagão solar de uma alegria calma
De terra vem a água e da água a alma
o tempo é a maré que leva e traz
o mar às praias onde eternamente somos
Sabemos agora em que medida merecemos a vida


Ruy Belo, in "O tempo das suaves raparigas e outros poemas de amor" assírio & alvim, 2010











Tamra Davis [ The Radiant Child ] 2010

Partiste

O que resta da cidade que foi nossa
Por uns dias
Abre no coração um espaço pânico

Vazio
completamente mudo
Aonde
Para maior desespero
As lágrimas não conseguem assomar


Alberto de Lacerda, in "O pajem formidavél dos indícios" assírio & alvim, 2010

;)


em julho nas livrarias...


«Este é o primeiro de três volumes que constituem os diários e apontamentos de Susan Sontag — e um surpreendente registo da formação de uma grande figura intelectual. O livro começa com entradas diarísticas dos anos de faculdade e as primeiras experiências ficcionais; e acaba em 1963, quando Sontag já se tornara participante e observadora da vida intelectual e artística da cidade de Nova Iorque.
Renascer é um auto-retrato caleidoscópico de uma das maiores escritoras e pensadoras norte-americanas, dona de uma curiosidade voraz e de um intenso apetite pela vida. Ao longo das suas páginas compreendemos a complexidade da sua escrita de juventude, partilhamos os encontros com escritores que ajudaram a formar o seu pensamento, e somos arrebatados pelo seu brilho incontestável.
Susan Sontag foi uma das mais importantes e influentes intelectuais norte-americanas da segunda metade do século xx. Foi professora universitária, activista na defesa dos direitos das mulheres e dos direitos humanos em geral, foi ficcionista e ensaísta amplamente premiada e traduzida. A sua escrita foi presença assídua nas publicações The New Yorker, The New York Review of Books, The New York Times, The Times Literary Supplement, Art in America, Antaeus, Parnassus, The Nation, e Granta, entre outras. Susan Sontag teve um filho, David Rieff – editor do diários que agora se publicam –, e viveu os últimos anos da sua vida com a fotógrafa Annie Leibovitz.
Susan Sontag nasceu em 1933 em Nova Iorque, cidade onde morreu, em 2004.»

Susan Sontag "Renascer" quetzal, 2010
trad. Nuno Guerreiro Josué
[ À flor do mar (João Cesar Monteiro) ] 1986


RASTO

Sonhei que dormíamos juntos
mas não nos tocávamos, como em Kawabata.

Tudo é literatura, e até os teus sonhos
são literatura, dir-me-ás.

À superfície da densa água
reconhecerei a tua pele branca,

cirurgicamente exposta.


Luís Quintais, in "Mais espesso que a água" cotovia, 2008

Arthur Crabtree [ Fiend Without a Face ] 1958

brevemente...


Festejado como um acontecimento editorial pela crítica e amantes de todo o mundo da obra de Julio Cortázar, «Papéis inesperados – escritos inéditos» é uma deslumbrante colecção de textos inéditos e dispersos escritos pelo autor de Rayuela durante toda a sua vida e recentemente encontrados num móvel da sua casa no XV Bairro de Paris. Os protagonistas desta surpreendente história - que recorda o baú de inéditos de Pessoa - são Aurora Bernárdez, a sua viúva e herdeira universal, e o especialista na obra do autor, Carles Álvarez Garriga, responsáveis pela edição do livro.

Dividido em 3 partes (prosas, entrevistas perante o espelho, poemas), reúnem-se neste volume contos nunca antes publicados em livro; histórias de cronópios julgadas desaparecidas; um capítulo suprimido de Rayuela; textos sobre literatura, política, viagens, «de emergência», de «palmada-nas-costas»; auto-entrevistas; poemas inéditos, e muitos outros autênticos tesouros que oferecem ao leitor uma visão completa das várias facetas da escrita de Julio Cortázar.

Julio Cortázar "Papéis inesperados" cavalo de ferro, 2010
trad. Sofia Castro Rodrigues e Virgílio Tenreiro Viseu


reedição...


«O inglês Geoffrey Braithwaite atravessa o Canal da Mancha e dirige-se a Rouen, a terra natal de Gustave Flaubert. A intenção é a de ver o papagaio embalsamado que serviu de modelo a Flaubert durante a escrita de um dos seus livros. Mas o que é apenas uma viagem transforma-se, lentamente, numa lição maravilhosa e genial sobre o autor de Madame Bovary — o seu talento indiscutível mas também os seus defeitos, manias, tiques insuportáveis, vaidades e medos —, sobre literatura, sobre o amor (entre ele mesmo e a sua mulher Helen, que morreu recentemente; entre Flaubert e Louise Colet), sobre o que falha e o que não tem sentido na vida, sobre os segredos que a rodeiam e lhe dão sentido. Tudo para concluir que a vida verdadeira é a vida que vem nos livros. Porque é a única que se pode interrogar.
Um romance magistral sobre literatura, talento, comboios, compotas de groselha, ursos, ficção, vestidos de mulher, George Sand, política, século XIX, absurdo, morte, solidão, escritores, crítica literária — e beleza.
A obra-prima de Julian Barnes.»

Julian Barnes "O papagaio de Flaubert" quetzal, 2010
trad. Ana Maria Amador

escutar...


Mock & Toof [ Tuning Echoes ] 2010



[ Un Homme qui dort (George Perec, Bernard Queysanne) ] 1974


«Agora vives no terror do silêncio. Mas não serás tu o mais silencioso de todos?»

George Perec, in "Um homem que dorme" presença, 1991
trad. Maria Jorge Vilar de Figueiredo

a biblioteca de babel...


«A minuciosa burocracia, exaltada satiricamente, é o tema essencial da inacabada fantasia de O Crocodilo de Dostoiévski. Prefigurando Kafka, a situação gira sobre si mesma e vai revelando os caracteres. Pode ser considerada arbitrária a vizinhança, neste volume, de Andréev e de Dostoiévski. Deveria no entanto observar-se que os dois coincidem no ímpeto patético e na desconsolada visão de um mundo hostil. O Lázaro de Andréev, depois de passar pela morte, sente que aqui na terra tudo é inconsistente. e no seu olhar atroz parece estar escrito o fim. Nos dois textos precedentes, o elemento fantástico é claro desde o princípio. Em A Morte de Ivan Illitch, de Lev Tolstói, a revelação sobrenatural chega, inevitável e surpreendente, como a última experiência de uma alma.»

Jorge Luis Borges

Dostoiévski, Andréev, Tolstói "Contos Russos" presença, 2010
trad. Nina Guerra e Filipe Guerra (Dostoiévski, Andréev) Natália Vakhmistrova e José Augusto (Tolstói)

MORADA

Habitamos
uma casa quando
a sombra dos nossos gestos
fica mesmo depois
de fecharmos a porta.

Margarida Ferra, in "Curso intensivo de jardinagem" & etc, 2010

«Acrescenta-se às páginas de O Festim da Aranha para formar uma biologia de histórias encontradas — encontradas na extensão «beltenebra» de muitos anos de leituras.
O assassínio nas suas variações: exercício da morte decidida sempre pela reflexão ou pelo ímpeto não dominado, mas a escolher o Indivíduo; levado a tema (como o amor, a guerra ou a traição).
O assassino: indiferente às morais que justificam o castigo, ou a admitir-se vítima dos olhares vendados da Injustiça e da Fatalidade; a percorrer a história com as insolências do executor impune.
A morte: programada, desejada e em muitos exemplos belamente imaginada — do Outro.»

AAVV "Este é o tempo dos assassinos" assírio & alvim, 2010
org. e trad. Aníbal Fernandes

hoje acordei assim…


PORTUGAL

Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra, surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!

Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há «papo-de-anjo» que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.

Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...


Alexandre O'Neill, in "Feira Cabisbaixa" Sá da Costa, 1979

«Medíocre não é aquele que não sabe escrever contos — pensava ele —, medíocre é aquele que os escreve e não sabe esconder a sua mediocridade.»

Anton Tchékhov, in "Iónitch (contos, vol. II)" relógio d'água, 2001
trad. Nina Guerra e Filipe Guerra