CANTO NONO

Terá chovido durante cem dias e a água infiltrada
pelas raizes das ervas
chegou à biblioteca banhando as palavras santas
guardadas no convento.

Quando tornou o bom tempo,
Sajat-Novà o frade mais jovem
levou os livros todos por uma escada até ao telhado
e abriu-os ao sol para que o ar quente
enxugasse o papel molhado.

Um mês de boa estação passou
e o frade de joelhos no claustro
esperava dos livros um sinal de vida.
Uma manhã finalmente as páginas começaram
a ondular ligeiras no sopro do vento
parecia que tinha chegado um enxame aos telhados
e ele chorava porque os livros falavam.


Tonino Guerra, in "O Mel" assírio & alvim, 2003
trad. Mário Rui de Oliveira
na fotografia: Tarkovsky, Michelangelo Antonioni e Tonino Guerra

PREFÁCIO

«Excepcional e engenhoso monólogo, o livro de Brendan Behan é um solilóquio tão emotivo quanto humoristico sobre a cidade de Nova Iorque, que o autor considera (eu também) o lugar mais fascinante do mundo. Nada — diz Behan — pode comparar-se a essa cidade eléctrica, que é o centro do universo. O resto é silêncio, flagrante obscuridade.
«Depois de ter estado em Nova Iorque», diz Behan, «qualquer pessoa que regresse a casa dar-se-á conta de que o seu lugar de origem é bastante escuro.» A mim acontece-me sempre isto quando deixo Nova Iorque e regresso à minha cidade, e este livro de Behan é em parte culpado de isso me acontecer, porque o livro deixou em mim uma estranha saudade de bares onde nunca entrei.Ele escreveu-o em fim de vida no Hotel Chelsea, quando já estava muito alcoolizado, no princípio dos anos sessenta. Eram dias de twist e madison, mas também de uma incipiente revolução.Alguns anos antes, o galês Dylan Thomas tinha-se apresentado no Chelsea, na noite de 3 de Novembro de 1953, anunciando que tomara dezoito uísques seguidos e que considerava aquilo um recorde (morreu seis dias depois).Passados uns dez anos, como se aquele fosse sem tirar nem pôr o próprio «barco ébrio» do poema de Rimbaud, o irlandês Behan havia de apresentar-se também naquele hotel em condições tão alcoolizadas como as do galês, e seria auxiliado pelo dono do Chelsea, que lhe daria alojamento e que lhe permitiu escrever este livro nos corredores do hotel.Porque ele escreveu o livro fora do seu quarto, num corredor — depois de várias incursões pelo Chelsea consegui confirmá-lo — do mesmo andar em que vivera Dylan Thomas. E o livro foi ditado, não foi escrito, porque Behan já andava por esses dias espectacularmente bêbado.Vivia na memória doa bares que agora eu, sem nunca os ter frequentado, costumo recordar.»

Enrique Vila-Matas

Bredan Behan "Nova Iorque" tinta da china, 2010
trad. Rita Graña

NOTA BIOGRÁFICA

Brendan Behan (1923-1964) foi um destacado poeta, romancista e dramaturgo irlandês, que escreveu tanto em inglês como em irlandês.
A sua ligação de juventude ao IRA levou-o à prisão, experiência que relata no romance autobiográfico «Borstal Boy», de 1958.
Behan escreveu também, de forma crítica, sobre os seus antigos companheiros na peça de teatro «The Hostage», de 1957.
Além do reconhecimento como escritor, Behan tornou-se conhecido como personagem singular e heterodoxa, por vezes provocadora, fama essa em parte motivada pelo seu consumo imoderado de álcool, que seria a causa da sua morte prematura. Ele próprio se definia como «um alcoólico com problemas de escrita».
«Nova Iorque» é o primeiro livro do autor publicado em Portugal.

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Depois de abandonar o emprego e o casamento por motivos que guardam uma infeliz coincidência, Júnior pede abrigo ao pai. Sem dinheiro nem perspectivas, divide os dias entre o velho sofá da sala, o bar onde bebe com desocupados e as conversas com a jovem inquilina da casa, Bruna, que o pai espia por um furo no armário. Num cenário típico de uma classe-média baixa, Júnior entrega-se a um quotidiano feito de objectivos pequenos e imediatos - a próxima refeição, a ida ao bar da esquina, o dinheiro do cigarro. Mas esta pasmaceira é interrompida quando pacotes misteriosos começam a chegar pelo correio. Lentamente, a realidade ganha contornos distorcidos e Júnior vai sendo arrastado para um mergulho na própria consciência - que revelará os seus limites e abismos.

Lourenço Mutarelli "A arte de produzir efeito sem causa" quetzal, 2010

UM POETA

Um poeta
É um ser único
Em montes de exemplares
Que só pensa em versos
E só escreve em música
Sobre assuntos diversos
Uns vermelhos outros verdes
Mas sempre magníficos


Boris Vian, in "Canções e poemas" assírio & alvim, 1997
trad. Irene Freire Nunes e Fernando Cabral Martins


Au hasard Balthazar, 1966


Um suspiro, um silêncio, uma palavra, uma frase, um tumulto, uma mão, o teu modelo por inteiro, o seu rosto, descansado, em movimento, de perfil, de frente, uma vista imensa, um espaço restrito… Cada coisa exactamente no seu lugar: os teus únicos meios.

Robert Bresson, in "notas sobre o cinematógrafo" porto editora, 2003
trad. Pedro Mexia

nova edição


Jean Cocteau "O Livro Branco" assírio & alvim, 2009
trad. Aníbal Fernandes

2ª edição


Herman Melville "Bartleby" assírio & alvim, 2009
trad. Gil de Carvalho

as Folhas...


cinemateca portuguesa, 2009

"Now you're almost Alice"


Bud Townsend [ Alice in Wonderland: An X-Rated Musical Fantasy ] 1976

Para os mais novos...


Vivaldo Bonfim é um escriturário entediado que leva romances e novelas para a repartição de finanças onde está empregado. Um dia, enquanto finge trabalhar, perde-se na leitura e desaparece deste mundo. Esta é a sua verdadeira história — contada na primeira pessoa pelo filho, Elias Bonfim, que irá à procura do seu pai, percorrendo clássicos da literatura cheios de assassinos, paixões devastadoras, feras e outros perigos feitos de letras.

Afonso Cruz "Os Livros que devoraram o meu pai, a estranha e mágica história de Vivaldo Bonfim" caminho, 2009

A UMA FREIRA QUE, SATIRIZANDO A DELGADA FISIONOMIA DO POETA, LHE CHAMOU PICA-FLOR

Se pica-flor me chamais.
Pica-flor aceito ser,
Mas resta agora saber
Se no nome que me dais
Meteis a flor que guardais
No passarinho melhor!
Se me dais este favor,
Sendo só de mim o pica
E o mais vosso, claro fica
Que fico então pica-flor.


Gregório de Matos, in "Boca do inferno" & etc, 1982

Edgar G. Ulmer [ The Black Cat ] 1934

PÂTÉ DE CAMPÓNIO Esquartejem um campónio, tirem-lhe as vísceras e desossem-no inteiramente. Cortem-no depois em pedaços do comprimento e da espessura do seu dedo mindinho.
Peguem a seguir em cinco a seis quilos de carne de salsicha e acrescentem-lhe o coração e o fígado do campónio cortados. Temperem tudo com pimenta, sal e especiarias. Metam depois no fundo de uma panela sal, pimenta, uma pequena folha de louro, tomilho cortado e uma camada de carne de salsicha. Coloquem sobre este recheio pedaços de campónio, mais uma fatia de recheio e assim sucessivamente até a panela estar cheia. Comprimam com força e ponham por cima fatias finas de toucinho de maneira a cobrir inteiramente o pâté. Voltem a temperar com sal, pimenta e um pouco mais de louro. Por fim, reguem tudo com umas gotas de aguardente e abram pequenos buracos para que o líquido possa penetrar; fechem hermeticamente com uma tampa e ponham no forno durante cerca de três horas.

Roland Topor, in "A cozinha canibal" fenda, 2000
trad. Ernesto Sampaio

brevemente...

Roberto Bolaño [ O terceiro Reich ] quetzal, 2010


Raymond Carver [ O que sabemos do amor ] quetzal, 2010


A inquietante procura de grandes escritores faz com que a maioria dos recém chegados tenham ar de sair duma estufa: dominam-se, trabalham-se, martirizam-se, aperfeiçoam-se, querem estar à altura do que deles se espera, à altura da sua época. O crítico, esse, não desiste : descobrirá custe o que custar, é a sua missão. Esta não é uma época como as outras. Todas as semanas lhe é preciso um novo objecto para lançar na arena ao som de fanfarras: um filósofo tahitiano, um grafito, Rimbaud redivivus; dir-se-ia por vezes, no meio da fiesta ritual e colorida que se tornou a nossa «vida literária», uma corneta enlouquecida que tocasse para tudo ao mesmo tempo com medo de se esquecer de alguma coisa: a saída do toro e a do cavalo do picador. A "saída" dum novo escritor oferece-nos frequentemente o espectáculo penoso duma pileca esgalgada tentando lugubremente levantar a garupa no meio dum estralejar teatral de chicotes de circo – nada a fazer; uma volta à pista e basta, fareja o estábulo imediatamente e logo corre para a mangedoura; já não presta senão para arengar ou repetir-se, ou para meter num júri literário, onde por sua vez incubará qualquer novo potro de pernas e dentes longos.

Julien Gracq, in "A literatura no estômago" assírio & alvim, 1987
trad. Ernesto Sampaio