Para os mais novos...

Vivaldo Bonfim é um escriturário entediado que leva romances e novelas para a repartição de finanças onde está empregado. Um dia, enquanto finge trabalhar, perde-se na leitura e desaparece deste mundo. Esta é a sua verdadeira história — contada na primeira pessoa pelo filho, Elias Bonfim, que irá à procura do seu pai, percorrendo clássicos da literatura cheios de assassinos, paixões devastadoras, feras e outros perigos feitos de letras.
Afonso Cruz "Os Livros que devoraram o meu pai, a estranha e mágica história de Vivaldo Bonfim" caminho, 2009

A UMA FREIRA QUE, SATIRIZANDO A DELGADA FISIONOMIA DO POETA, LHE CHAMOU PICA-FLOR
Se pica-flor me chamais.
Pica-flor aceito ser,
Mas resta agora saber
Se no nome que me dais
Meteis a flor que guardais
No passarinho melhor!
Se me dais este favor,
Sendo só de mim o pica
E o mais vosso, claro fica
Que fico então pica-flor.
Gregório de Matos, in "Boca do inferno" & etc, 1982

PÂTÉ DE CAMPÓNIO Esquartejem um campónio, tirem-lhe as vísceras e desossem-no inteiramente. Cortem-no depois em pedaços do comprimento e da espessura do seu dedo mindinho.
Peguem a seguir em cinco a seis quilos de carne de salsicha e acrescentem-lhe o coração e o fígado do campónio cortados. Temperem tudo com pimenta, sal e especiarias. Metam depois no fundo de uma panela sal, pimenta, uma pequena folha de louro, tomilho cortado e uma camada de carne de salsicha. Coloquem sobre este recheio pedaços de campónio, mais uma fatia de recheio e assim sucessivamente até a panela estar cheia. Comprimam com força e ponham por cima fatias finas de toucinho de maneira a cobrir inteiramente o pâté. Voltem a temperar com sal, pimenta e um pouco mais de louro. Por fim, reguem tudo com umas gotas de aguardente e abram pequenos buracos para que o líquido possa penetrar; fechem hermeticamente com uma tampa e ponham no forno durante cerca de três horas.
Roland Topor, in "A cozinha canibal" fenda, 2000
trad. Ernesto Sampaio
brevemente...

A inquietante procura de grandes escritores faz com que a maioria dos recém chegados tenham ar de sair duma estufa: dominam-se, trabalham-se, martirizam-se, aperfeiçoam-se, querem estar à altura do que deles se espera, à altura da sua época. O crítico, esse, não desiste : descobrirá custe o que custar, é a sua missão. Esta não é uma época como as outras. Todas as semanas lhe é preciso um novo objecto para lançar na arena ao som de fanfarras: um filósofo tahitiano, um grafito, Rimbaud redivivus; dir-se-ia por vezes, no meio da fiesta ritual e colorida que se tornou a nossa «vida literária», uma corneta enlouquecida que tocasse para tudo ao mesmo tempo com medo de se esquecer de alguma coisa: a saída do toro e a do cavalo do picador. A "saída" dum novo escritor oferece-nos frequentemente o espectáculo penoso duma pileca esgalgada tentando lugubremente levantar a garupa no meio dum estralejar teatral de chicotes de circo – nada a fazer; uma volta à pista e basta, fareja o estábulo imediatamente e logo corre para a mangedoura; já não presta senão para arengar ou repetir-se, ou para meter num júri literário, onde por sua vez incubará qualquer novo potro de pernas e dentes longos.
Julien Gracq, in "A literatura no estômago" assírio & alvim, 1987
trad. Ernesto Sampaio

Os nossos dois olhos não tornam a nossa condição melhor; um serve-nos para ver os bens, e o outro para ver os males da vida; muita gente tem o mau hábito de fechar o primeiro, e poucos fecham o segundo; eis a razão pela qual tantos prefeririam ser cegos a ver tudo o que os olhos vêem. Felizes os zarolhos privados desse mau olho que deteriora tudo o que vemos!
Voltaire, in "a aventura da memória e outros contos" estrofes & versos, 2009
trad. Susana Pires

NOCTURNO DE LISBOA
Pela noite adiante, com a morte na algibeira,
cada homem procura um rio para dormir,
e com os pés na lua ou num grão de areia
enrola-se no sono que lhe quer fugir.
Cada sonho morre às mãos doutro sonho.
Dez-réis de amor foram gastos a esperar.
O céu que nos promete um anjo bêbado
é um colchão sujo num quinto andar.
Eugénio de Andrade
ilust. Gérard Dubois
lições...

Depois de seis longos meses a trabalhar numa livraria como moço de recados, eis que finalmente chega a hora de atender o primeiro cliente. A excitação e o nervosismo eram enormes, finalmente iria transformar-se num livreiro a sério. Mas antes o velho livreiro, famoso por ter uma carteira de clientes invejável e responsável pela formação, decide fazer uma pequena palestra sobre as regras básicas de atendimento ao cliente.
- Presta bem atenção, que eu não duro para sempre. Em primeiro lugar estão os nossos clientes e logo a seguir empresa:
Regra n.º 1 – Cuidado com o teu tom de voz, que deve ser agradável e o mais natural possível.
Regra n.º 2 – Isto de atender tem que se lhe diga e pode não ser fácil. Nunca deves perder a calma. Ter paciência é fundamental nesta profissão. Se alguma coisa estranha acontecer, o melhor é pedires ajuda.
Regra n.º 3 – Cada pessoa é única e merece uma atenção especial.
Regra n.º 4 – Deves ser formal e nunca usar a intimidade. Deves utilizar termos como: Senhor, Senhora, por favor, queira desculpar, etc.
Regra n.º 5 – A postura e apresentação são muito importantes, os braços não devem estar atrás das costas. Atende as pessoas com um sorriso e sempre olhos nos olhos.
Regra n.º 6 – Facilita a vida ao cliente, não compliques e não inventes.
- Olha! Vem aí um cliente. Presta atenção, vou mostra-te como se faz.
Adoptando uma postura hirta diz:
- Bom dia. O Senhor deseja?
- Estou à procura do livro O Homem Sem Qualidades, de Robert Musil.
O velho livreiro, olhando o cliente nos olhos e com uma voz suave, triste, tanto quanto é possível fazer-se, responde:
- Infelizmente, senhor, esse livro encontra-se esgotado há uns anos e é muito difícil conseguir um exemplar.
Desesperado, o cliente exclama:
- Isso já eu sei! Mas onde o vou encontrar se não for você a arranjar-mo?
- Obrigado pelo elogio e por depositar confiança em mim. Dê-me então 48 horas e verei o que posso fazer.
- Posso ter esperança de que mo vai conseguir arranjar?
- Farei tudo para não o decepcionar.
- Muito obrigado e até daqui a dois dias.
- Até breve, senhor.
De sorriso malicioso, mal o cliente sai, logo o velho livreiro sobe umas escadas, e tira o respectivo livro da estante.
Espantado, o livreiro novato pergunta:
- Se já tinha o livro aqui, porque é que faz o cliente ter de voltar daqui a dois dias?
Sem se atrapalhar.
- Porque este... este ainda não era meu cliente, e eu tenho uma reputação a manter.
Jaime Bulhosa
texto e imagem retirados daqui
nova edição...

Biografia imaginária, conto pitoresco, fábula filosófica, fresco histórico, simultaneamente sério e burlesco, alucinante de verdade e de invenção, fantasticamente realista e realisticamente fantástico, este livro que o autor classifica simplesmente como "romance de aventuras", contém em si mil romances diferentes, sendo ao mesmo tempo muito mais do que um romance. Estimulo para a imaginação, abrir de novos caminhos para o pensamento reflexivo, antídoto de "sonho" para o quotidiano programado, metalizado, desumanizado. Um "sonho" que não seja fuga da realidade, mas fonte de calor para a viver e modificar.
Reinaldo Arenas "O mundo alucinante" dom quixote, 2010

CHOVE. É DIA DE NATAL.
Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal,
E o frio que ainda é pior.
E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.
Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.
Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.
Fernando Pessoa

que fala —
percorre as linhas onde se escrevem (como na areia)
por onde se descrevem
lápis devorado duma ponta à outra
pela luz onde se esmola
entre dejectos
águas emperradas
e regressa sustentado pelo mesmo fogo
à mesma paisagem que a solidão —
não falemos dela.
vamos antes alugar uma varanda voltada para este estrondo
Jorge Fallorca, in "Assim," & etc, 1980

POST SCRIPTUM
Van Gogh não morreu de um estado de delírio a sério
mas por ter sido corporalmente campo de um problema à volta do qual se debate, desde as origens, o espírito iníquo desta humanidade.
O da predominância da carne sobre o espírito, ou do corpo sobre a carne, ou do espírito sobre uma e outro.
E neste delírio, onde fica o lugar do eu humano?
Durante toda a vida Van Gogh procurou o seu com energia e determinação estranhas,
e não se suicidou num ataque de loucura, no transe de lá não chegar,
pelo contrário acabava de chegar lá e descobrir o que ele era e quem era quando a consciência geral da sociedade, para castigo de ter-se dela,
o suicidou.
Deu-se isto com Van Gogh, como é hábito como se dá por altura de todas as bacanais, missas, absolvições gerais ou qualquer outro rito de consagração, possessão, sucubação ou incubação.
Meteu-se-lhe pois no corpo
esta sociedade
absolvida,
consagrada,
santificada,
e possessa,
apagou-lhe a sobrenatural consciência que ele acabava de tomar e, como se fora uma inundação de corvos negros nas fibras da sua árvore interna,
submergiu-o num acesso repentino
e tomando-lhe o lugar
matou-o.
Porque é lógica anatómica do homem moderno é nunca ter podido viver nem pensar em viver senão à possesso.
Antonin Artaud, in "Van Gogh o suicidado da sociedade" & etc, 1983
trad. Aníbal Fernandes

O AMOR É LOUCURA
Quem pisa do Amor a linha pura,
não aceita uma asa, retira-a prudente,
pois não é verdadeiro Amor, mas loucura,
o juízo do destino e a sábia gente.
Tal como Roldão não chega à ventura
a sua fúria há-de mostrar-se noutro acidente
senão, vede o sinal para enlouquecer
por bem querer outro e se perder.
Diversos são os efeitos, mas a loucura
uma, pois perde-os sempre
é como numa selva espessa, escura,
onde qualquer um erra o seu caminho
e aqui ou lá o extraviado passo procura.
Digo, a concluir, que é sobejamente digno
o que envelhece amando, outra grande pena
a ter perene o cepo que nos condena.
Hão-de falar: «Vós sois garboso
ensinando o outro a andar em erro cego.»
Entendo, respondo confuso,
agora que vejo claro o falso jogo.
Bem o procuro e julgo ter repouso,
fugir quero do erro e do acerbo fogo,
mas acabarei assim o caso,
pois o mal me penetrou até ao osso.
Ludovico Ariosto, in "Rosa do mundo" assírio & alvim, 2001
trad. Jorge Henrique Bastos
Lolita, luz da minha vida, fogo da minha virilidade. Meu pecado, minha alma. Lo-li-ta: a ponta da língua faz uma viagem de três passos pelo céu da boca abaixo e, no terceiro, bate nos dentes. Lo. Li. Ta.
Pela manhã, um metro e trinta e dois a espichar dos soquetes; era Lo, apenas Lo. De calças práticas, era Lola. Na escola, era Dolly. Era Dolores na linha pontilhada onde assinava o nome. Mas nos meus braços era sempre Lolita.
Vladimir Nabokov, in "Lolita" teorema, 1985
trad. Fernanda Pinto Rodrigues
escutar...

[ Record Club is an informal meeting of various musicians to record an album in a day. The album chosen to be reinterpreted is used as a framework. Nothing is rehearsed or arranged ahead of time. A track is put up here once a week. The songs are rough renditions, often first takes that document what happened over the course of a day as opposed to a polished rendering. There is no intention to 'add to' the original work or attempt to recreate the power of the original recording. Only to play music and document what happens. ]
record club
¿Por qué no te callas?

Dizem por aí que o meu nome é Francisco Rogido, sou brasileiro de origem galega e trabalho na Biblioteca do Congresso, em Washington DC...
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