A MAIS CURIOSA DAS CRIATURAS

Como o escorpião, meu irmão,
Tu és como o escorpião
Numa noite de medo.
Como o pardal, meu irmão,
Tu és como o pardal
No seu miúdo desassossego.
És como o mexilhão, meu irmão,
Tu és como o mexilhão
Fechado e tranquilo.
Tu és terrível, meu irmão,
Como a boca
De um extinto vulcão.
E tu, ai de mim, não és um,
Não és cinco,
Tu és milhões.
Tu és como a ovelha, meu irmão.
Quando o carrasco vestido da tua pele,
Quando ele levanta a sua vara
Apressas-te a alcançar o rebanho
E vais para o matadouro a correr,
Quase orgulhoso.
Em suma, és a mais curiosa das criaturas,
Mais curiosa que o peixe
Que vive no mar ignorando o mar.
E se há tanta miséria na terra
É graças a ti meu irmão.
Se somos famintos, esgotados,
Se somos esfolados até ao sangue,
Espremidos como uvas para o nosso vinho.
Iria até ao ponto de dizer que é culpa tua,
Mas não,
Isso nada tem a ver contigo meu irmão.


Nâzim Hikmet, in "Poemas da Prisão e do Exílio" & etc, 2000
trad. Rui Caeiro

AUTOFICÇÃO DA CIDADE AMOROSA

Construí-a
irreal
transparente
lúcida esguia um mar
inferior na barriga
correias de transmissão nos cabelos

Os anéis de saturno são a força centri-
fuga centrípeta que lhe agita os braços
no espasmo amoroso

Halley o metropolitano

75 milhões de anos-luz atravessam-na da cabeça à cauda

deito-me com ela todas as noites na via láctea


Pedro Oom, in "A Actuação escrita" & etc, 1979/80
ilust. Carlos Ferreiro
[ Éloge de l'amour (Jean-Luc Godard) ] 2001


PARSIFAL ESCREVE À SUA AMIGA

No meu íntimo sou ainda muito novo, escrevia Parsifal à sua amiga, e por isso descuro muitas coisas, leio todos os livros e dedico a minha atenção, de passagem, à generalidade das pessoas, sejam elas quem forem. Acontece comigo o que acontece com todas as outras pessoas: preferimos ocupar-nos com os outros do que com nós próprios, preocupamo-nos com eles, porque notamos os seus defeitos. Os meus são notados pelos outros mais do que por mim próprio e eu sou citado nas conversas deles tal como eles são tema das minhas conversas. Nunca me passou pela cabeça pensar mal de mim próprio. A convicção de que tenho algum valor nunca me abandona. Tu e outros como tu, no entanto, bem gostariam de me intimidar, mas como hei-de eu enganar-me a mim próprio só para vos agradar? Para isso teria de ser desonesto. Só de pensar nos teus encantos, comecei a dançar e caí ao chão; dei entrada no hospital e, em vez de te mandar dizer o que me sucedera, como seria devido, deixei-me embalar pela ilusão de que estava sempre junto a ti. Tu estavas sempre à minha beira e a olhar para mim. Talvez seja verdade que o amor é o próprio inimigo do amor. Foi unicamente por lealdade que fui desleal para contigo e agi de modo bem feio unicamente para poder desfrutar da beleza. Depois, quando caí em mim, já não tive coragem para ir ter contigo, andei a vaguear por aí, o meu espírito e a minha alma para sempre intimamente dependentes de ti e, portanto, tranquilos para sempre. Olha, amiga minha, a verdade é esta: não me aprouve ir ter contigo, porque tu me tinhas já feito demasiado feliz e poderias, talvez, tirar-me aquilo que já era meu. Para falar francamente, eu já tinha de ti o suficiente, ou seja, estava já tão possuído por ti que não carecia mais da tua presença. Além disso, sentia-me envergonhado, porque tinha pensado demasiado em ti. Algo me impele a travar conhecimento com uma outra mulher qualquer para a enganar de maneira sedutora, para lhe prestar todas as atenções, atenções a que só tu tens direito. Não é verdade que me roubaste toda a minha alegria, que me qualificaste de criança insegura? O amor faz de nós crianças; será que eu devo permitir que me inflijam tal empobrecimento? Foi por, na tua presença, me ter tornado assim um pobrezinho que já não pude dispor-me a voltar para ti e que usei de todas as minhas forças para reencontrar o caminho que conduz a mim mesmo. A pouco e pouco, fui deixando de saber chorar com saudades tuas. Esquecer-te, isso não poderei nunca, mas tão-pouco me posso forçar a descurar, por tua causa, aquilo que me rodeia. Com o passar do tempo, uma chama como esta tornar-se-ia monótona. Terei eu o direito de permitir a um único sentimento que faça o meu espírito mergulhar nas trevas, de lhe permitir que conceda à felicidade o poder de me tornar infeliz? Tenho o dever de velar por que as minhas faculdades se mantenham vivas. Por causa do amor que nutro por ti não vou descurar o dever que todo o homem tem de procurar honrar o seu semelhante, proporcionando-lhe a visão de algo a que ele possa dizer sim. À visão de alguém que se sente desgraçado pela derrocada de um sentimento afectivo o mundo diz não, e eu não sou homem para não me sentir magoado, se vir alguém tratar-me com comiseração. Amo-te e tu és minha e, porque és minha, não sinto necessidade de voltar a ver-te. Para quê pormo-nos em movimento para apanharmos aquilo que já nos pertence? Cumulaste-me de tudo à saciedade e para sempre, deste-me em demasia, deixaste que eu te tomasse demais para que eu agora necessite que me dês ainda qualquer coisa mais. Quem iria querer que lhe continuassem a verter líquido num recepiente que já está cheio até à borda? Numa palavra, acho-te demasiado bela para seres desejada e coloquei-te demasiado alto para que possas continuar a satisfazer-me. Não gosto de me dar com quem habita as alturas e não quero desempenhar um papel de que tu não poderias deixar de fazer mau uso. Alguma vez te considerei inteligente? De maneira nenhuma! Tão-pouco me aproveitei de ti e, se alguma vez te veio à mente sorrir da humildade da minha atitude, terás decerto ficado já também surpreendida comigo, o que eu estou quase disposto a permitir-te, porque, a par de todo o prazer que sinto em me dedicar aos outros, há sempre em mim o vivo desejo de que sintam consideração por mim. Este desejo será talvez demasiado evidente, mas, tendo sido dotado com ele, não posso deixar de o ter em linha de conta. E depois há qualquer coisa em mim que me faz sentir feliz, quando desdenho da felicidade. O meu desdém por ti, minha bela, leva-me a pôr as mãos em prece para pedir perdão a Deus mas, ainda que esteja morto de saudades tuas, não me agrada nada a ideia de me sentir dependente de ti. Não posso confiar em ninguém senão em mim próprio, porque só eu sei o caminho que devo trilhar e, portanto, tenho de ser fiel a mim próprio.

Robert Walser, in "A Rosa" relógio d'água, 2004
trad. Leopoldina Almeida

A RUA

É uma rua longa e silenciosa.
Ando às escuras e tropeço e caio
e levanto-me e piso com pés cegos
as pedras mudas e as folhas secas
e alguém atras de mim também as pisa:
se eu paro, pára;
se corro, corre. Volto-me: ninguém.
Tudo está escuro e sem saída,
e dou voltas e voltas em esquinas
voltadas sempre para a rua
onde ninguém me espera nem me segue,
onde sigo um homem que tropeça,
se levanta e ao ver-me diz: ninguém.

Octavio Paz

in, "correspondência literária 1, Inverno" contexto, 1984
trad. José Bento
ilust. Gérard Dubois

as Folhas...


cinemateca portuguesa, 2010


«Actualmente [a cultura] não tem nenhuma relação com a sociedade, e esta separação leva-nos a uma conclusão perigosa: que a cultura está estritamente ligada à lei, à produção, ao dinheiro, ao produto nacional, ao status de cada indivíduo dentro da sociedade»

«Necessito construir um mundo autenticamente diferente, onde a ideia de arte tenha uma função especial que esteja relacionada com o conjunto da sociedade.»

Joseph Beuys, in "Cada Homem um Artista" 7 nós, 2010
trad. Júlio do Carmo Gomes

brevemente...


David Byrne "Diários da Bicicleta" quetzal, 2010
trad. Vasco Teles de Menezes
Tom Dicillo [ when you're strange ] 2009

CANTO NONO

Terá chovido durante cem dias e a água infiltrada
pelas raizes das ervas
chegou à biblioteca banhando as palavras santas
guardadas no convento.

Quando tornou o bom tempo,
Sajat-Novà o frade mais jovem
levou os livros todos por uma escada até ao telhado
e abriu-os ao sol para que o ar quente
enxugasse o papel molhado.

Um mês de boa estação passou
e o frade de joelhos no claustro
esperava dos livros um sinal de vida.
Uma manhã finalmente as páginas começaram
a ondular ligeiras no sopro do vento
parecia que tinha chegado um enxame aos telhados
e ele chorava porque os livros falavam.


Tonino Guerra, in "O Mel" assírio & alvim, 2003
trad. Mário Rui de Oliveira
na fotografia: Tarkovsky, Michelangelo Antonioni e Tonino Guerra

PREFÁCIO

«Excepcional e engenhoso monólogo, o livro de Brendan Behan é um solilóquio tão emotivo quanto humoristico sobre a cidade de Nova Iorque, que o autor considera (eu também) o lugar mais fascinante do mundo. Nada — diz Behan — pode comparar-se a essa cidade eléctrica, que é o centro do universo. O resto é silêncio, flagrante obscuridade.
«Depois de ter estado em Nova Iorque», diz Behan, «qualquer pessoa que regresse a casa dar-se-á conta de que o seu lugar de origem é bastante escuro.» A mim acontece-me sempre isto quando deixo Nova Iorque e regresso à minha cidade, e este livro de Behan é em parte culpado de isso me acontecer, porque o livro deixou em mim uma estranha saudade de bares onde nunca entrei.Ele escreveu-o em fim de vida no Hotel Chelsea, quando já estava muito alcoolizado, no princípio dos anos sessenta. Eram dias de twist e madison, mas também de uma incipiente revolução.Alguns anos antes, o galês Dylan Thomas tinha-se apresentado no Chelsea, na noite de 3 de Novembro de 1953, anunciando que tomara dezoito uísques seguidos e que considerava aquilo um recorde (morreu seis dias depois).Passados uns dez anos, como se aquele fosse sem tirar nem pôr o próprio «barco ébrio» do poema de Rimbaud, o irlandês Behan havia de apresentar-se também naquele hotel em condições tão alcoolizadas como as do galês, e seria auxiliado pelo dono do Chelsea, que lhe daria alojamento e que lhe permitiu escrever este livro nos corredores do hotel.Porque ele escreveu o livro fora do seu quarto, num corredor — depois de várias incursões pelo Chelsea consegui confirmá-lo — do mesmo andar em que vivera Dylan Thomas. E o livro foi ditado, não foi escrito, porque Behan já andava por esses dias espectacularmente bêbado.Vivia na memória doa bares que agora eu, sem nunca os ter frequentado, costumo recordar.»

Enrique Vila-Matas

Bredan Behan "Nova Iorque" tinta da china, 2010
trad. Rita Graña

NOTA BIOGRÁFICA

Brendan Behan (1923-1964) foi um destacado poeta, romancista e dramaturgo irlandês, que escreveu tanto em inglês como em irlandês.
A sua ligação de juventude ao IRA levou-o à prisão, experiência que relata no romance autobiográfico «Borstal Boy», de 1958.
Behan escreveu também, de forma crítica, sobre os seus antigos companheiros na peça de teatro «The Hostage», de 1957.
Além do reconhecimento como escritor, Behan tornou-se conhecido como personagem singular e heterodoxa, por vezes provocadora, fama essa em parte motivada pelo seu consumo imoderado de álcool, que seria a causa da sua morte prematura. Ele próprio se definia como «um alcoólico com problemas de escrita».
«Nova Iorque» é o primeiro livro do autor publicado em Portugal.

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Depois de abandonar o emprego e o casamento por motivos que guardam uma infeliz coincidência, Júnior pede abrigo ao pai. Sem dinheiro nem perspectivas, divide os dias entre o velho sofá da sala, o bar onde bebe com desocupados e as conversas com a jovem inquilina da casa, Bruna, que o pai espia por um furo no armário. Num cenário típico de uma classe-média baixa, Júnior entrega-se a um quotidiano feito de objectivos pequenos e imediatos - a próxima refeição, a ida ao bar da esquina, o dinheiro do cigarro. Mas esta pasmaceira é interrompida quando pacotes misteriosos começam a chegar pelo correio. Lentamente, a realidade ganha contornos distorcidos e Júnior vai sendo arrastado para um mergulho na própria consciência - que revelará os seus limites e abismos.

Lourenço Mutarelli "A arte de produzir efeito sem causa" quetzal, 2010

UM POETA

Um poeta
É um ser único
Em montes de exemplares
Que só pensa em versos
E só escreve em música
Sobre assuntos diversos
Uns vermelhos outros verdes
Mas sempre magníficos


Boris Vian, in "Canções e poemas" assírio & alvim, 1997
trad. Irene Freire Nunes e Fernando Cabral Martins


Au hasard Balthazar, 1966


Um suspiro, um silêncio, uma palavra, uma frase, um tumulto, uma mão, o teu modelo por inteiro, o seu rosto, descansado, em movimento, de perfil, de frente, uma vista imensa, um espaço restrito… Cada coisa exactamente no seu lugar: os teus únicos meios.

Robert Bresson, in "notas sobre o cinematógrafo" porto editora, 2003
trad. Pedro Mexia

nova edição


Jean Cocteau "O Livro Branco" assírio & alvim, 2009
trad. Aníbal Fernandes

2ª edição


Herman Melville "Bartleby" assírio & alvim, 2009
trad. Gil de Carvalho

as Folhas...


cinemateca portuguesa, 2009

"Now you're almost Alice"


Bud Townsend [ Alice in Wonderland: An X-Rated Musical Fantasy ] 1976

Para os mais novos...


Vivaldo Bonfim é um escriturário entediado que leva romances e novelas para a repartição de finanças onde está empregado. Um dia, enquanto finge trabalhar, perde-se na leitura e desaparece deste mundo. Esta é a sua verdadeira história — contada na primeira pessoa pelo filho, Elias Bonfim, que irá à procura do seu pai, percorrendo clássicos da literatura cheios de assassinos, paixões devastadoras, feras e outros perigos feitos de letras.

Afonso Cruz "Os Livros que devoraram o meu pai, a estranha e mágica história de Vivaldo Bonfim" caminho, 2009