
A UMA FREIRA QUE, SATIRIZANDO A DELGADA FISIONOMIA DO POETA, LHE CHAMOU PICA-FLOR
Se pica-flor me chamais.
Pica-flor aceito ser,
Mas resta agora saber
Se no nome que me dais
Meteis a flor que guardais
No passarinho melhor!
Se me dais este favor,
Sendo só de mim o pica
E o mais vosso, claro fica
Que fico então pica-flor.
Gregório de Matos, in "Boca do inferno" & etc, 1982

PÂTÉ DE CAMPÓNIO Esquartejem um campónio, tirem-lhe as vísceras e desossem-no inteiramente. Cortem-no depois em pedaços do comprimento e da espessura do seu dedo mindinho.
Peguem a seguir em cinco a seis quilos de carne de salsicha e acrescentem-lhe o coração e o fígado do campónio cortados. Temperem tudo com pimenta, sal e especiarias. Metam depois no fundo de uma panela sal, pimenta, uma pequena folha de louro, tomilho cortado e uma camada de carne de salsicha. Coloquem sobre este recheio pedaços de campónio, mais uma fatia de recheio e assim sucessivamente até a panela estar cheia. Comprimam com força e ponham por cima fatias finas de toucinho de maneira a cobrir inteiramente o pâté. Voltem a temperar com sal, pimenta e um pouco mais de louro. Por fim, reguem tudo com umas gotas de aguardente e abram pequenos buracos para que o líquido possa penetrar; fechem hermeticamente com uma tampa e ponham no forno durante cerca de três horas.
Roland Topor, in "A cozinha canibal" fenda, 2000
trad. Ernesto Sampaio
brevemente...

A inquietante procura de grandes escritores faz com que a maioria dos recém chegados tenham ar de sair duma estufa: dominam-se, trabalham-se, martirizam-se, aperfeiçoam-se, querem estar à altura do que deles se espera, à altura da sua época. O crítico, esse, não desiste : descobrirá custe o que custar, é a sua missão. Esta não é uma época como as outras. Todas as semanas lhe é preciso um novo objecto para lançar na arena ao som de fanfarras: um filósofo tahitiano, um grafito, Rimbaud redivivus; dir-se-ia por vezes, no meio da fiesta ritual e colorida que se tornou a nossa «vida literária», uma corneta enlouquecida que tocasse para tudo ao mesmo tempo com medo de se esquecer de alguma coisa: a saída do toro e a do cavalo do picador. A "saída" dum novo escritor oferece-nos frequentemente o espectáculo penoso duma pileca esgalgada tentando lugubremente levantar a garupa no meio dum estralejar teatral de chicotes de circo – nada a fazer; uma volta à pista e basta, fareja o estábulo imediatamente e logo corre para a mangedoura; já não presta senão para arengar ou repetir-se, ou para meter num júri literário, onde por sua vez incubará qualquer novo potro de pernas e dentes longos.
Julien Gracq, in "A literatura no estômago" assírio & alvim, 1987
trad. Ernesto Sampaio

Os nossos dois olhos não tornam a nossa condição melhor; um serve-nos para ver os bens, e o outro para ver os males da vida; muita gente tem o mau hábito de fechar o primeiro, e poucos fecham o segundo; eis a razão pela qual tantos prefeririam ser cegos a ver tudo o que os olhos vêem. Felizes os zarolhos privados desse mau olho que deteriora tudo o que vemos!
Voltaire, in "a aventura da memória e outros contos" estrofes & versos, 2009
trad. Susana Pires

NOCTURNO DE LISBOA
Pela noite adiante, com a morte na algibeira,
cada homem procura um rio para dormir,
e com os pés na lua ou num grão de areia
enrola-se no sono que lhe quer fugir.
Cada sonho morre às mãos doutro sonho.
Dez-réis de amor foram gastos a esperar.
O céu que nos promete um anjo bêbado
é um colchão sujo num quinto andar.
Eugénio de Andrade
ilust. Gérard Dubois
lições...

Depois de seis longos meses a trabalhar numa livraria como moço de recados, eis que finalmente chega a hora de atender o primeiro cliente. A excitação e o nervosismo eram enormes, finalmente iria transformar-se num livreiro a sério. Mas antes o velho livreiro, famoso por ter uma carteira de clientes invejável e responsável pela formação, decide fazer uma pequena palestra sobre as regras básicas de atendimento ao cliente.
- Presta bem atenção, que eu não duro para sempre. Em primeiro lugar estão os nossos clientes e logo a seguir empresa:
Regra n.º 1 – Cuidado com o teu tom de voz, que deve ser agradável e o mais natural possível.
Regra n.º 2 – Isto de atender tem que se lhe diga e pode não ser fácil. Nunca deves perder a calma. Ter paciência é fundamental nesta profissão. Se alguma coisa estranha acontecer, o melhor é pedires ajuda.
Regra n.º 3 – Cada pessoa é única e merece uma atenção especial.
Regra n.º 4 – Deves ser formal e nunca usar a intimidade. Deves utilizar termos como: Senhor, Senhora, por favor, queira desculpar, etc.
Regra n.º 5 – A postura e apresentação são muito importantes, os braços não devem estar atrás das costas. Atende as pessoas com um sorriso e sempre olhos nos olhos.
Regra n.º 6 – Facilita a vida ao cliente, não compliques e não inventes.
- Olha! Vem aí um cliente. Presta atenção, vou mostra-te como se faz.
Adoptando uma postura hirta diz:
- Bom dia. O Senhor deseja?
- Estou à procura do livro O Homem Sem Qualidades, de Robert Musil.
O velho livreiro, olhando o cliente nos olhos e com uma voz suave, triste, tanto quanto é possível fazer-se, responde:
- Infelizmente, senhor, esse livro encontra-se esgotado há uns anos e é muito difícil conseguir um exemplar.
Desesperado, o cliente exclama:
- Isso já eu sei! Mas onde o vou encontrar se não for você a arranjar-mo?
- Obrigado pelo elogio e por depositar confiança em mim. Dê-me então 48 horas e verei o que posso fazer.
- Posso ter esperança de que mo vai conseguir arranjar?
- Farei tudo para não o decepcionar.
- Muito obrigado e até daqui a dois dias.
- Até breve, senhor.
De sorriso malicioso, mal o cliente sai, logo o velho livreiro sobe umas escadas, e tira o respectivo livro da estante.
Espantado, o livreiro novato pergunta:
- Se já tinha o livro aqui, porque é que faz o cliente ter de voltar daqui a dois dias?
Sem se atrapalhar.
- Porque este... este ainda não era meu cliente, e eu tenho uma reputação a manter.
Jaime Bulhosa
texto e imagem retirados daqui
nova edição...

Biografia imaginária, conto pitoresco, fábula filosófica, fresco histórico, simultaneamente sério e burlesco, alucinante de verdade e de invenção, fantasticamente realista e realisticamente fantástico, este livro que o autor classifica simplesmente como "romance de aventuras", contém em si mil romances diferentes, sendo ao mesmo tempo muito mais do que um romance. Estimulo para a imaginação, abrir de novos caminhos para o pensamento reflexivo, antídoto de "sonho" para o quotidiano programado, metalizado, desumanizado. Um "sonho" que não seja fuga da realidade, mas fonte de calor para a viver e modificar.
Reinaldo Arenas "O mundo alucinante" dom quixote, 2010

CHOVE. É DIA DE NATAL.
Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal,
E o frio que ainda é pior.
E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.
Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.
Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.
Fernando Pessoa

que fala —
percorre as linhas onde se escrevem (como na areia)
por onde se descrevem
lápis devorado duma ponta à outra
pela luz onde se esmola
entre dejectos
águas emperradas
e regressa sustentado pelo mesmo fogo
à mesma paisagem que a solidão —
não falemos dela.
vamos antes alugar uma varanda voltada para este estrondo
Jorge Fallorca, in "Assim," & etc, 1980

POST SCRIPTUM
Van Gogh não morreu de um estado de delírio a sério
mas por ter sido corporalmente campo de um problema à volta do qual se debate, desde as origens, o espírito iníquo desta humanidade.
O da predominância da carne sobre o espírito, ou do corpo sobre a carne, ou do espírito sobre uma e outro.
E neste delírio, onde fica o lugar do eu humano?
Durante toda a vida Van Gogh procurou o seu com energia e determinação estranhas,
e não se suicidou num ataque de loucura, no transe de lá não chegar,
pelo contrário acabava de chegar lá e descobrir o que ele era e quem era quando a consciência geral da sociedade, para castigo de ter-se dela,
o suicidou.
Deu-se isto com Van Gogh, como é hábito como se dá por altura de todas as bacanais, missas, absolvições gerais ou qualquer outro rito de consagração, possessão, sucubação ou incubação.
Meteu-se-lhe pois no corpo
esta sociedade
absolvida,
consagrada,
santificada,
e possessa,
apagou-lhe a sobrenatural consciência que ele acabava de tomar e, como se fora uma inundação de corvos negros nas fibras da sua árvore interna,
submergiu-o num acesso repentino
e tomando-lhe o lugar
matou-o.
Porque é lógica anatómica do homem moderno é nunca ter podido viver nem pensar em viver senão à possesso.
Antonin Artaud, in "Van Gogh o suicidado da sociedade" & etc, 1983
trad. Aníbal Fernandes

O AMOR É LOUCURA
Quem pisa do Amor a linha pura,
não aceita uma asa, retira-a prudente,
pois não é verdadeiro Amor, mas loucura,
o juízo do destino e a sábia gente.
Tal como Roldão não chega à ventura
a sua fúria há-de mostrar-se noutro acidente
senão, vede o sinal para enlouquecer
por bem querer outro e se perder.
Diversos são os efeitos, mas a loucura
uma, pois perde-os sempre
é como numa selva espessa, escura,
onde qualquer um erra o seu caminho
e aqui ou lá o extraviado passo procura.
Digo, a concluir, que é sobejamente digno
o que envelhece amando, outra grande pena
a ter perene o cepo que nos condena.
Hão-de falar: «Vós sois garboso
ensinando o outro a andar em erro cego.»
Entendo, respondo confuso,
agora que vejo claro o falso jogo.
Bem o procuro e julgo ter repouso,
fugir quero do erro e do acerbo fogo,
mas acabarei assim o caso,
pois o mal me penetrou até ao osso.
Ludovico Ariosto, in "Rosa do mundo" assírio & alvim, 2001
trad. Jorge Henrique Bastos
Lolita, luz da minha vida, fogo da minha virilidade. Meu pecado, minha alma. Lo-li-ta: a ponta da língua faz uma viagem de três passos pelo céu da boca abaixo e, no terceiro, bate nos dentes. Lo. Li. Ta.
Pela manhã, um metro e trinta e dois a espichar dos soquetes; era Lo, apenas Lo. De calças práticas, era Lola. Na escola, era Dolly. Era Dolores na linha pontilhada onde assinava o nome. Mas nos meus braços era sempre Lolita.
Vladimir Nabokov, in "Lolita" teorema, 1985
trad. Fernanda Pinto Rodrigues
escutar...

[ Record Club is an informal meeting of various musicians to record an album in a day. The album chosen to be reinterpreted is used as a framework. Nothing is rehearsed or arranged ahead of time. A track is put up here once a week. The songs are rough renditions, often first takes that document what happened over the course of a day as opposed to a polished rendering. There is no intention to 'add to' the original work or attempt to recreate the power of the original recording. Only to play music and document what happens. ]
record club
¿Por qué no te callas?

Dizem por aí que o meu nome é Francisco Rogido, sou brasileiro de origem galega e trabalho na Biblioteca do Congresso, em Washington DC...
aqui

PARA O CATÁLOGO DA MINHA PRIMEIRA EXPOSIÇÃO POR SINAL SURREALISTA, ESCANDALOSA, LISBOETA
Qual seria a explicação
para rolar o corpo despreocupadamente
pela vertente de uma serra
se a descida fossem cacos?
cacos de garrafas voluntárias?
Foi necessário
como o entrar numa casa
só pela necessidade de sair por ela
Deixar que pelo corpo se crivassem
os poros do mistério
Jogar por valas abertas
em sítios impróprios mas atraentes
Dançar pelas vielas da noite
como os carrinhos do tear
como os poros das horas
janelas de mim-mesmo
sem fora nem dentro
Foi mortalmente necessário o amar por contacto
como o que pelas mãos começa
e pelas mãos escorre em areia fina
Tal algumas mulheres de Picasso
que fugindo das obscenidades que lhes são dirigidas
vão refugiar-se nuas na noite em couraças de ferro
sob o vento metálico e cardíaco
das praças do Chirico
Hoje nesta planície chegado
estrangeiro como pedras
teimosamente elástico e por onde sei
arrastarem os poemas do homem
nos assobios secretos da noite
inventando pequenos animais
ditos segredos ao ouvido como esquecidas
migalhas num bolso ou pedras caras
Tudo maquinal e previsto
Haverá outras vertentes? cacos? mulheres nuas
desafiando a noite nas paisagens fortuitas?
ou sempre um Sol que vem cinicamente
todos os dias
verificar o bem e o mal ambos sem remédio
Ou possuir a planície que nunca sorri por vontade própria
devorar a chuva que a excitação lhe mata
esconder ou fazer esconder
pelas preocupações diárias
os agigantados sossegos da morte tirana
irmã lapidar desfeita
Acordar lentamente
a todas as quatro horas das manhãs
para surpreender em flagrante
os idílios amorosos na pintura antiga
e assistir ao pudor que sei que há
do lado de lá de todas as figuras pintadas
suspender as emoções alheias
arrancar os botões do exagero
só os que são úteis e por isso se chamam
botões
virar por um atalho mais perto e sem saída
andar alheio como os funerais dos outros
ou uma gota de água que se recusa ao dilúvio?…
Fernando Lemos, in "A única real tradição viva, antologia da poesia surrealista portuguesa" assírio & alvim, 1998

Diálogo entre um penitente freirático e um confessor casmurro
A um fradalhão bojudo e rabugento
Seus crimes confessava um desgraçado,
E entre eles dizia ter pecado
Com uma santa freira num convento:
Grita o frade: «Não tardam num momento
Raios mil, que subvertam tal malvado;
Que as esposas de Cristo há profanado
No santo asilo seu, sacro aposento!
«Ora diga, infeliz, como ousaria
Tal crime confessar, e acções tão brutas
A Jesus Cristo, lá no extremo dia?...»
«Padre, deixemos pois essas disputas;
Se ele me perguntasse, eu lhe diria:
Quem vos manda, Senhor, casar com putas?»
António Lobo de Carvalho (o lobo da madragoa), in "se a lira pulsas e o pandeiro tocas..." & etc, 1984
com o diabo no corpo...

«Um homem desorganizado que vai morrer e não desconfia disso põe subitamente em ordem tudo à sua volta. A sua vida muda. Arquiva papéis. Levanta-se cedo e deita-se cedo. Renuncia aos vícios. Os seus familiares congratulam-se. Assim, a sua morte repentina parece ainda mais injusta. Ia viver feliz.»
Raymond Radiguet
pint. Jean Cocteau [ Raymond Radiguet ] 1929

PASSA-SE QUALQUER COISA COMIGO
Passa-se qualquer coisa comigo
a acreditar nos meus
sentidos isto não é só
outra distracção minha cara
Continuo atado
na mesma velha pele
nas ideias puras e nas grandes aspirações
pixota limpa cheia de saúde
custe o que custar
mas começam-me os pés
a dizer coisas
de si
da sua nova relação com
as minhas mãos coração cabelo e olhos
Passa-se qualquer coisa comigo
se pudesse perguntava-te
sentiste isto alguma vez
mas estás tão longe
tu esta noite não penso
que ouvisses e depois
a minha voz também foi afectada
Passa-se qualquer coisa comigo
não te admires se
ao acordares um dia a este claro
sol mediterrânico olhares
para mim e descobrires uma mulher
no meu lugar
ou pior
um estranho homem com brancas
a escrever um poema
alguém que já não sabe formar palavras
que simplesmente move os lábios
e tenta
contar-te qulquer coisa.
Raymond Carver, in "heroísmos não, por favor" teorema, 1993
trad. Telma Costa
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