NADA

Arranquem a dentadura aos dicionários, tenho excesso de comprimidos na farmácia do cérebro, a passagem estreita da penumbra para o escuro esmaga-me mais do que o previsto, fim.

Se não tomo cuidado afogo-me, vou engolir o preservativo em vez do ansiolítico. Toma. Chega para cá o cinzeiro. Serei pássaro, ou gago?

Entre o esgoto e o caixão, amostras simpáticas da crise seguinte. Com floreados. Na melhor das hipóteses, não ser clonado.

Tens uma aspirina? Estou farto deste sabor, é do látex. Preferia a outra posição, mas teimas em ficar por baixo. Que fêmea da tua parte. Não. Eu disse uma aspirina. Claro que fazer amor não é lutar contra a dor de cabeça. É amar sem cabeça nem dor.

Olha, o escaravelho. Adora merda. Procria em merda. Transporta merda. É orgulhoso da merda que transporta. Eu também. Terei entrado na fase escaravelho, ou é apenas uma questão de idade?

Cada membro se move segundo uma regra, ou talvez estejam todos à mesma regra, eu estou preso no meu corpo e gostaria tanto que uma só vez fosse o meu corpo a estar preso em mim, mas não, há regras para tudo, até para o desejo de não haver regras.

Tenho a lucidez colada à retina, o desejo grudado na virilha, o arrependimento nas banhas, um estômago que fabrica fluido e digere pedaços de outros animais. E lamento não ser animal, apenas rudimentar, e conter tanto excedente de mim que raramente lá caibo.

Queria uma ternura de carne e osso, um beijo só de lábios, uma amor defendido por glóbulos brancos como num processo de infecções, queria que uma mulher me infectasse sem eu a ter procurado, queria uma explosão ensurdecedora, a meio do verão, que me cegasse e corroesse até à medula, até perder os ossos e a dor…

Mas nada acontece. Amo e não sou amado. Suo e não sou suado. Desejo e não sou desejado. E o meu corpo vegeta, porque nada acontece. Mordo, e a ninguém dói. Arranho, e nada se queixa. Sangro, e é sem sentir.

Quantos dedos terei nas mãos? Se soubesse, parava de escrever.


Manuel Cintra, in "Alçapão" & etc, 2009

nova edição…


Fiódor Dostoievski "Crime e Castigo" relógio d'água, 2009
trad. António Pescada

regressos…



A voz pública tem a teimosia como um defeito; crismada perseverança torna-se uma virtude.

Por teimosia (ou perseverança) A Phala regressa.

Concebida em 1986 por Manuel Hermínio Monteiro, prosseguiu, nesse formato inicial, até 2003. De periodicidade irregularmente trimestal foi assegurando o interesse dos leitores. Instrumento, sem dúvida, da construção da editora que a Assírio & Alvim era e da sua evolução, foi bastante mais que isso. Procurou (e é grato pensar que conseguiu) ser observador atento e agente de divulgação do que a cultura portuguesa ia produzindo – em particular da poesia escrita em português ou em português vertida. A que na altura era escrita e publicada e aquela que tinha de ser recuperada e promovida.

A certa altura, este projecto, na forma que adquiriu, pareceu esgotar-se. À procura de um modelo mais ambicioso, menos rotineiro, A Phala sofreu uma transformação, na forma e no conteúdo. O primeiro número foi publicado, com o privilégio de, até agora, se ter revelado único.

Mudam-se os tempos… (que não as vontades) e teimosamente A Phala regressa, adaptada às novas formas de comunicação. Os objectivos são os mesmos. Deseja-se que a qualidade seja a mesma e mereça, de novo, a atenção de antigos leitores e a nova atenção de outros.

José Alberto Oliveira


http://phala.wordpress.com/






Ted Bafaloukos [ Rockers ] 1978



Às vezes parece
que estamos no centro da festa.
No entanto
no centro da festa não há ninguém.
No centro da festa está o vazio.

Mas no centro do vazio há outra festa.


Roberto Juarroz, in "Poesia vertical" campo das letras, 1998
trad. Arnaldo Saraiva
ilust. Gerard Dubois


QUANDO ESTOU CONTIGO…

Quando estou contigo, ficamos acordados toda a noite.
Quando não estás comigo, não consigo adormecer.

Louvado seja Deus, por estas duas insónias!
E pela diferença entre elas.


Rumi

sítios a visitar…



www.oleitorsemqualidades.blogspot.com

brevemente...


«Recorrendo a histórias pessoais e a reflexões literárias ricas em humor e erudição subtil, Alberto Manguel leva-nos a reflectir sobre as delícias e responsabilidades da leitura — uma viagem despoletada pela humanidade do autor, pela curiosidade insaciável e extraordinária abrangência da percepção do mundo.»

Alberto Manguel "No bosque do espelho" dom quixote, 2009

escutar...


Vetiver [ Tight Knit ] sub pop, 2009

http://www.myspace.com/vetiverse

E. M. Cioran


O livro «Silogismos da Amargura» de E. M. Cioran acaba de ser editado pela Livraria Letra Livre numa tradução de Manuel de Freitas. Cioran, um dos mais interessantes, desafiadores e polémicos pensadores do século XX, até hoje só tinha duas obras editadas em Portugal, «História e Utopia» na Bertrand e «Tentação de Existir» na Editora Relógio D´Água.





Vera Chytilová [ Sedmikrásky (daisies) ] 1966

GRITAR

Aqui a acção simplifica-se
Derrubei a paisagem inexplicável da mentira
Derrubei os gestos sem luz e os dias impotentes
Lancei por terra os propósitos lidos e ouvidos
Ponho-me a gritar
Todos falavam demasiado baixo falavam e escreviam

Demasiado baixo

Fiz retroceder os limites do grito

A acção simplifica-se

Porque eu arrebato à morte essa visão da vida
Que lhes destinava um lugar perante mim

Com um grito

Tantas coisas desapareceram
Que nunca mais voltará a desaparecer
Nada do que merece viver

Estou perfeitamente seguro agora que o Verão
Canta debaixo das portas frias
Sob armaduras opostas
Ardem no meu coração as estações
As estações dos homens os seus astros
Trémulos de tão semelhantes serem

E o meu grito nu sobe um degrau
Da escadaria imensa da alegria

E esse fogo nu que pesa
Torna a minha força suave e dura

Eis aqui a amadurecer um fruto
Ardendo de frio orvalhado de suor
Eis aqui o lugar generoso
Onde só dormem os que sonham
O tempo está bom gritemos com mais força
Para que os sonhadores durmam melhor
Envoltos em palavras
Que põem o bom tempo nos meus olhos

Estou seguro de que a todo o momento
Filha e avó dos meus amores
Da minha esperança
A felicidade jorra do meu grito
Para a mais alta busca
Um grito de que o meu seja o eco.


Paul Éluard, in "Algumas das palavras" dom quixote, 1977
trad. António Ramos Rosa e Luisa Neto Jorge

«Tão pequena e tão grande! Aqui, homem finalmente digno do teu nome, é que estás como eu quero, aqui te encontras à escala dos teus desejos. Este lugar, não receies chegar bem perto o teu rosto e já a tua língua, tagarela, não pode refrear-se, este lugar de delícia e sombra, este pátio ardente nos seus limites de nácar, a bela imagem do pessimismo. Ó greta, húmida e macia greta, vertiginosa.
Nesta humana esteira é que os navios finalmente perdidos, com as máquinas para todo o sempre inúteis, de regresso à infância das viagens sobem num mastro de sorte as velas do desespero. Entre pintelhos frisados como a carne é bela: sob este bordado bem dividido pelo machado do amor surge amorosamente uma pele pura, espumosa e láctea. E as formosas pregas que levam aos grandes lábios entreabrem. Lábios tão belos, a vossa boca parece a do rosto debruçado num adormecido, não direi transversa e paralela a todas as bocas do mundo, mas fina e longa, crucial nos lábios palradores que a conservam em silêncio, prestes a um beijo prolongado pontual, lábios adoráveis que soubestes dar aos beijos um novo e terrível sentido para todo o sempre depravado.
Como eu gosto de uma cona que ressalta.
Como se aproxima dos nossos olhos, ela, como incha atraente e cheia com a sua cabeleira de onde sai, tão parecido com as três deusas nuas sobre as árvores do Monte Ida, o brilho incomparável do ventre e das duas pernas. Toquem só: que melhor emprego para as vossas mãos. Toquem só neste sorriso de volúpia, desenhem com os dedos estes hiatus de encanto. Ali: que as vossas palmas imóveis, as falanges rendidas e esta curva avançada se reunam no ponto mais duro, o melhor, que faz elevar esta ogiva santa até ao cume, ó minha igreja. E não se mexam agora, assim, e com a carícia de dois polegares aproveitem agora a boa-vontade desta criança cansada, entrem um pouco, com a carícia dos vossos dois polegares acariciadores, os dois polegares. E agora, palácio rosado te saúdo, estojo polido, alcova meio desmanchada pela alegria grave do amor, vulva um só instante surgida em toda a sua opulência. Debaixo do cetim repuxado do nascente, a cor do verão quando fechamos os olhos.»

Louis Aragon, in "A cona de Irène" & etc, 1983
trad. Aníbal Fernandes

escutar...


Bibio [ Ambivalence Avenue ] warp, 2009

http://www.myspace.com/mrbibio

leitura recomendada...


«Este é um livro de histórias: de uma menina, aluna num convento de freiras, que deu consigo a mudar de sexo na puberdade; de crianças que, trazendo-nos à memória os ciclopes de Homero, nascem com um único olho a meio da testa; de uma aldeia croata de anões de idades invulgarmente avançadas; de uma família hirsuta que foi conservada na corte do reino da Birmânia durante quatro gerações (e inspirou a Darwin uma das suas mais certeiras visões acerca da hereditariedade); e do povo dos pés de avestruz: os Wadoma, do vale do Zambeze.»

Em Mutantes, Armand Marie Leroi brinda-nos com uma brilhante narrativa da nossa gramática genética, falando-nos das pessoas cujos corpos no-la revelaram. Passando aparentemente sem esforço do mito para a biologia molecular, o objecto desta obra elegante e esclarecedora somos todos nós.


Armand Marie Leroi "Mutantes" gradiva, 2009
trad. Jorge Lima


Ken Loach [ poor cow ] 1967

Gosto de andar por aí.
Desço as escadas a correr,
salto os degraus dois a dois
e num instante entro na rua.
Na rua não há tecto. Sopra o vento.
Às vezes chove, às vezes faz sol.
Na rua não há paredes. Há estradas, muros e lugares,
mas o mundo é enorme (acho que não tem fim).


"andar por ai" planeta tangerina, 2009
texto: Isabel Minhós Martins
ilustração: Madalena Matoso

«Não procurei olhar para ela durante a viagem; com os olhos postos na luz que oscilava elástica no caminho de terra, não precisei de a olhar para lhe ver a cara, para em convencer de que a cara ia estar, até à morte, em dias luminosos e povoados, em noites semelhantes à que atravessámos, enfrentando a indubitável, fátua, ilusória aproximação dos homens; com o pequeno nariz que revelava, quase em qualquer posição da cabeça, as suas covas sinuosas, inocentes; sem convexidade, como simples esboços de olhos feitos com um lápis pardo num papel pardo de cor mais suave. Mas não era somente os homens que enfrentava, claro, os que iriam chegar depois deste de quem nos aproximávamos, e que ela faria certamente felizes sem lhes mentir, sem ter que forçar a sua bondade ou compreensão e que se separariam dela já condenados a confundir sempre o amor com a recordação da cara tranquila, das pontas de sorriso que ali estavam sem motivo nascido no pensamento ou no coração, o sorriso que apenas se formava para expressar a placidez orgânica de estar viva, coincidindo com a vida. Não era só os homens que enfrentava essa cara redonda e sem perfumes que não fazia por resistir aos safanões do carro, que se deixava balouçar, assentindo, com um cândido, obsceno costume de assentir; porque os homens apenas lhe podiam servir enquanto símbolos, marcos, pontos de referência para eventualmente pôr na vida uma ordem artificiosa e serviçal. Mas a cara também tinha sido feita para enfrentar o que os homens representavam e diferençavam; interminavelmente ansiosa, incapaz de surpresas verdadeiras, transformando logo tudo em memória, em remota experiência. Imaginei a cara, excitada, alerta, faminta, assimilando, enquanto ela afastava os joelhos para cada amor definitivo e para parir; imaginei a expressão recôndita dos seus olhos planos ante a velhice e agonia.»

Juan Carlos Onetti, in "os adeuses" relógio d'água, 2009
trad. Hélia Correia

hoje é dia de…


“On the Road” é um espectáculo-viagem baseado no livro homónimo de Jack Kerouac, criado em 2007 por Tó Trips e Tiago Gomes aquando do 50º aniversário do seu lançamento.
Este espectáculo foi apresentado na exposição “Remembering Jack Kerouac”, no espaço Av. da Liberdade 211, de onde partiu o convite para esta união em torno da Bíblia da Beat Generation, influência para viajantes de todos os tempos.
É de facto a viagem, uma estrada perdida e infinita para onde os dois performers e o vídeo remetem o espectador para a route 66, América de todos os sonhos que aqui são todas as estradas do mundo: vias rápidas, estradas secundárias, deserto, cidades perdidas na noite e becos sem saída.
Não é bem um concerto, nem tão pouco declamação de um texto, antes uma performance de música e leitura, enquadrada por uma projecção vídeo a cargo de Raquel Castro.

On The Road
Tó Trips e Tiago Gomes
5 de Junho, 22h00
Café-Concerto
Duração: 60m
Entrada Gratuita

TEMPO [Teatro Municipal de Portimão]

«a corrida quieta da leitura» (Maria Filomena Molder)

Cada livro dá uma velocidade de leitura; como um carro; um livro deveria ter na capa ou na contracapa indicações de velocidade máxima e mínima de leitura: não ler a menos do que vinte páginas por hora, não ler a mais do que quarenta páginas por hora. ( ideia a desenvolver)

Claro que a velocidade engana: livros imbecis, mas também livros perfeitos, podem ser lidos à mesma velocidade, suponhamos: cem páginas por hora. Não é tanto a velocidade potencial de leitura de um livro que dá a sua qualidade, é mais o local aonde se chega com essa velocidade.
E que importa estar num carro que vai a um grande velocidade, se ele chega a um sítio que eu não desejo (rapidamente, é certo)?
E que importa estar num carro que vai a uma velocidade para que os seus passageiros possam apreciar a paisagem, se a paisagem não é relevante?
Contemplar quando estamos em viagem se a coisa contemplada for interessante.

Claro, dirão, ler é bom para os sentimentos, para os abanar: por favor, não introduza dados quantitativos no prazer da leitura.
Porém, não esquecer: o que fez cada um com o que leu à velocidade que leu? Paisagens e sítios de chegada. Contabilidade económica da leitura.
(Não podemos ler tudo. Somos mortais, meu caro.)


Gonçalo M. Tavares, in "Breves notas sobre as ligações" relógio d'água, 2009
ilust. Gérard Dubois

DEZ MIL PELES-VERMELHAS

Para eles
o tempo existe
em estado nulo

Felizes de tanta felicidade
Dez mil peles-vermelhas agacham-se
na pradaria
e preludiam à sublime dança

Engolem os dias
despenteiam as noites

Dez mil peles vermelhas e lúcidas
preparam-se para fazer rir a chuva
as terras engelhadas por desejo e sede
fazendo os tambores soarem de som cheio

Som
cheio

Dez mil peles vermelhas apaixonadas
preparam-se para misturar o seu sangue irrequieto 
ao leite sombrio das mulheres tão calmas
ao mel risonho dos seus lindos filhos

Filhos do século
onde estão os vossos tridentes

Dez mil peles vermelhas
pálidas mas sólidas
abandonam a família para morrer à parte

Dez mil peles-vermelhas
de sangue em fogo
a sua vida ainda lá está
a desencantar demónios


Max Ernst, in "identidade instantânea" & etc, 1983
trad. Aníbal Fernandes

in dub…

Bruno Natal [ dub Echoes ] 2007

escutar...

Andrew Bird [ Fitz and the Dizzy Spells, ep ] 2009

Nas Livrarias…


«Do alto do muro a vista era ambivalente: de um lado, esperava-o um campo aceso de lajes – Aqui jaz. Ali jaz. – Um campo de ossos, fotografias e epitáfios semeados por mensagens de despedida ou saudade e ardentes chamas trémulas. Enquanto do outro se apresentava a cidade: fantasmagoricamente iluminada pelas luzes indecisas dos candeeiros; guardada pelos cães vadios e as gruas de aço. Onde, dentro das casas e edifícios, supostamente deitados sobre colchões e lençóis pestilentos, os peitos dos homens e das mulheres horizontais, cravados de ódios e maledicências, levantavam-se e baixavam-se ao ritmo de inspirações e expirações mais ou menos inconscientes.
Eles respiram, pensou o amputado.»

Sandro William Junqueira "O caderno do Algoz" caminho, 2009