POST SCRIPTUM

Van Gogh não morreu de um estado de delírio a sério
mas por ter sido corporalmente campo de um problema à volta do qual se debate, desde as origens, o espírito iníquo desta humanidade.
O da predominância da carne sobre o espírito, ou do corpo sobre a carne, ou do espírito sobre uma e outro.
E neste delírio, onde fica o lugar do eu humano?
Durante toda a vida Van Gogh procurou o seu com energia e determinação estranhas,
e não se suicidou num ataque de loucura, no transe de lá não chegar,
pelo contrário acabava de chegar lá e descobrir o que ele era e quem era quando a consciência geral da sociedade, para castigo de ter-se dela,
o suicidou.
Deu-se isto com Van Gogh, como é hábito como se dá por altura de todas as bacanais, missas, absolvições gerais ou qualquer outro rito de consagração, possessão, sucubação ou incubação.
Meteu-se-lhe pois no corpo
esta sociedade
absolvida,
consagrada,
santificada,
e possessa,
apagou-lhe a sobrenatural consciência que ele acabava de tomar e, como se fora uma inundação de corvos negros nas fibras da sua árvore interna,
submergiu-o num acesso repentino
e tomando-lhe o lugar
matou-o.
Porque é lógica anatómica do homem moderno é nunca ter podido viver nem pensar em viver senão à possesso.


Antonin Artaud, in "Van Gogh o suicidado da sociedade" & etc, 1983
trad. Aníbal Fernandes
Noah Baumbach [ Greenberg ] 2010

O AMOR É LOUCURA

Quem pisa do Amor a linha pura,
não aceita uma asa, retira-a prudente,
pois não é verdadeiro Amor, mas loucura,
o juízo do destino e a sábia gente.
Tal como Roldão não chega à ventura
a sua fúria há-de mostrar-se noutro acidente
senão, vede o sinal para enlouquecer
por bem querer outro e se perder.
Diversos são os efeitos, mas a loucura
uma, pois perde-os sempre
é como numa selva espessa, escura,
onde qualquer um erra o seu caminho
e aqui ou lá o extraviado passo procura.
Digo, a concluir, que é sobejamente digno
o que envelhece amando, outra grande pena
a ter perene o cepo que nos condena.
Hão-de falar: «Vós sois garboso
ensinando o outro a andar em erro cego.»
Entendo, respondo confuso,
agora que vejo claro o falso jogo.
Bem o procuro e julgo ter repouso,
fugir quero do erro e do acerbo fogo,
mas acabarei assim o caso,
pois o mal me penetrou até ao osso.


Ludovico Ariosto, in "Rosa do mundo" assírio & alvim, 2001
trad. Jorge Henrique Bastos


Lolita, luz da minha vida, fogo da minha virilidade. Meu pecado, minha alma. Lo-li-ta: a ponta da língua faz uma viagem de três passos pelo céu da boca abaixo e, no terceiro, bate nos dentes. Lo. Li. Ta.
Pela manhã, um metro e trinta e dois a espichar dos soquetes; era Lo, apenas Lo. De calças práticas, era Lola. Na escola, era Dolly. Era Dolores na linha pontilhada onde assinava o nome. Mas nos meus braços era sempre Lolita.


Vladimir Nabokov, in "Lolita" teorema, 1985
trad. Fernanda Pinto Rodrigues

escutar...


[ Record Club is an informal meeting of various musicians to record an album in a day. The album chosen to be reinterpreted is used as a framework. Nothing is rehearsed or arranged ahead of time. A track is put up here once a week. The songs are rough renditions, often first takes that document what happened over the course of a day as opposed to a polished rendering. There is no intention to 'add to' the original work or attempt to recreate the power of the original recording. Only to play music and document what happens. ]

record club

¿Por qué no te callas?


Dizem por aí que o meu nome é Francisco Rogido, sou brasileiro de origem galega e trabalho na Biblioteca do Congresso, em Washington DC...

aqui

PARA O CATÁLOGO DA MINHA PRIMEIRA EXPOSIÇÃO POR SINAL SURREALISTA, ESCANDALOSA, LISBOETA

Qual seria a explicação
para rolar o corpo despreocupadamente
pela vertente de uma serra
se a descida fossem cacos?
cacos de garrafas voluntárias?

Foi necessário
como o entrar numa casa
só pela necessidade de sair por ela
Deixar que pelo corpo se crivassem
os poros do mistério
Jogar por valas abertas

em sítios impróprios mas atraentes
Dançar pelas vielas da noite
como os carrinhos do tear
como os poros das horas
janelas de mim-mesmo
sem fora nem dentro

Foi mortalmente necessário o amar por contacto
como o que pelas mãos começa
e pelas mãos escorre em areia fina
Tal algumas mulheres de Picasso
que fugindo das obscenidades que lhes são dirigidas

vão refugiar-se nuas na noite em couraças de ferro
sob o vento metálico e cardíaco
das praças do Chirico

Hoje nesta planície chegado
estrangeiro como pedras
teimosamente elástico e por onde sei
arrastarem os poemas do homem
nos assobios secretos da noite

inventando pequenos animais
ditos segredos ao ouvido como esquecidas
migalhas num bolso ou pedras caras

Tudo maquinal e previsto
Haverá outras vertentes? cacos? mulheres nuas
desafiando a noite nas paisagens fortuitas?

ou sempre um Sol que vem cinicamente
todos os dias
verificar o bem e o mal ambos sem remédio

Ou possuir a planície que nunca sorri por vontade própria
devorar a chuva que a excitação lhe mata
esconder ou fazer esconder
pelas preocupações diárias
os agigantados sossegos da morte tirana
irmã lapidar desfeita

Acordar lentamente
a todas as quatro horas das manhãs
para surpreender em flagrante
os idílios amorosos na pintura antiga
e assistir ao pudor que sei que há
do lado de lá de todas as figuras pintadas
suspender as emoções alheias
arrancar os botões do exagero
só os que são úteis e por isso se chamam
botões

virar por um atalho mais perto e sem saída
andar alheio como os funerais dos outros

ou uma gota de água que se recusa ao dilúvio?…


Fernando Lemos, in "A única real tradição viva, antologia da poesia surrealista portuguesa" assírio & alvim, 1998

Diálogo entre um penitente freirático e um confessor casmurro


A um fradalhão bojudo e rabugento
Seus crimes confessava um desgraçado,
E entre eles dizia ter pecado
Com uma santa freira num convento:

Grita o frade: «Não tardam num momento
Raios mil, que subvertam tal malvado;
Que as esposas de Cristo há profanado
No santo asilo seu, sacro aposento!

«Ora diga, infeliz, como ousaria
Tal crime confessar, e acções tão brutas
A Jesus Cristo, lá no extremo dia?...»

«Padre, deixemos pois essas disputas;
Se ele me perguntasse, eu lhe diria:
Quem vos manda, Senhor, casar com putas?»


António Lobo de Carvalho (o lobo da madragoa), in "se a lira pulsas e o pandeiro tocas..." & etc, 1984



Walerian Borowczyk [ Les héroïnes du mal ] 1979

com o diabo no corpo...


«Um homem desorganizado que vai morrer e não desconfia disso põe subitamente em ordem tudo à sua volta. A sua vida muda. Arquiva papéis. Levanta-se cedo e deita-se cedo. Renuncia aos vícios. Os seus familiares congratulam-se. Assim, a sua morte repentina parece ainda mais injusta. Ia viver feliz.»

Raymond Radiguet

pint. Jean Cocteau [ Raymond Radiguet ] 1929

PASSA-SE QUALQUER COISA COMIGO

Passa-se qualquer coisa comigo
a acreditar nos meus
sentidos isto não é só
outra distracção minha cara
Continuo atado
na mesma velha pele
nas ideias puras e nas grandes aspirações
pixota limpa cheia de saúde
custe o que custar
mas começam-me os pés
a dizer coisas
de si
da sua nova relação com
as minhas mãos coração cabelo e olhos

Passa-se qualquer coisa comigo
se pudesse perguntava-te
sentiste isto alguma vez
mas estás tão longe
tu esta noite não penso
que ouvisses e depois
a minha voz também foi afectada

Passa-se qualquer coisa comigo
não te admires se
ao acordares um dia a este claro
sol mediterrânico olhares
para mim e descobrires uma mulher
no meu lugar
ou pior
um estranho homem com brancas
a escrever um poema
alguém que já não sabe formar palavras
que simplesmente move os lábios
e tenta
contar-te qulquer coisa.


Raymond Carver, in "heroísmos não, por favor" teorema, 1993
trad. Telma Costa

Roger Corman [ The Wasp Woman ] 1959


Roger Corman [ Pit and the Pendulum ] 1961

«Un poeta lo puede soportar todo. Lo que equivale a decir que un hombre lo puede soportar todo. Pero no es verdade: son pocas las cosas que un hombre puede soportar. Soportar de verdad. Un poeta, en cambio, lo puede soportar todo. Com esta covicción crecimos. El primer enunciado es cierto, pero conduce a la ruina, a la locura, a la muerte.»

Roberto Bolaño, in "Llamadas telefónicas" anagrama, 1997



quando, daqui a umas horas a manhã vier, branca e fina, saberei eu andar?
conseguirei eu, lembrar-me, de como se põe um pé à frente do outro? sem cair…


Al Berto, in "À procura do vento num jardim d'agosto" ed. autor, 1977


UM DISCURSO TRANSPARENTE

Avanço através de um caos silencioso.
Nem um som nem uma sombra. É uma lenta descida.
É vazio o princípio do princípio. Solipsismo.
A possibilidade de nascer é o desejo que nasce.
Esquecer, viver. Tudo dizer em evidências brancas.

Com as armas mais puras, com a luz das minhas ervas
enuncio a fragrância de uma lâmpada. Comovo-me
com a água do poema. Crianças de cor solar
acenam em campos silenciosos. É suficiente estar aqui
mais além de todo o lugar, na superfície nua.

Habito agora o movimento do meio-dia.
Inesgotável um campo tão contínuo.
O sol fixou-se na corola do tempo, o espaço é puro.
O mar levanta-se do fundo até aos seus limites.
Um discurso flui completo e transparente.


António Ramos Rosa, in "Volante verde" moraes editores, 1986


SUICIDE—HOUSE

(...)
— Este corredor aonde leva?
— Ah, é a secção de asfixia. Queira entrar. A asfixia é ainda hoje um dos suicídios de maior actualidade. Temo-las para todos os gostos: fogareiro, gás de iluminação, vapores clorídricos, iodo… A menos que, sendo V. Ex.ª de seu natural artista, e um pouco poeta, não prefira envenenar-se com o aroma de flores desconhecidas. Há agora uma combinação de nenúfares de Java com flores de de Takeoka, que extingue, evocando rondas de deidades, todas nuas, maravilhosas de lascívia, as quais beijam na boca o — porque assim o chamemos — padecente. É imprevisto, hem? Ora sente-se o Snr. Duque neste fauteuil: vou-lhe fazer um principiozinho de experiência… Há-de gostar! Nada receie: a porta assim calafetada — como vê, todo o recinto tem uma couraça impermeável ao ar exterior — agora abre-se aqui esta torneira. Atenção! Desejava V. Ex.ª fazer, antes de partir, disposições testamentárias? Quer confiar ao fonógrafo a sua frase célebre? Se não trouxe frase, a casa fornece. Há em mimoso, em desesperado, em filosófico…
— Decididamente a asfixia maça-me. Que mais tem?
(…)

Fialho D'Almeida, in "Fialho Negro" & etc, 1981

em Novembro nas Livrarias…

Julio Cortázar [ A volta ao dia em 80 mundos ]
trad. Alberto Simões


Lars Saabye Christensen [ O modelo ]
trad. Mário Semião


Carmen Laforet [ A ilha e os demónios ]
trad. Sofia Castro Rodrigues e Virgílio Tenreiro Viseu


www.cavalodeferro.com



"procurei em todo o universo o repouso e não o encontrei em mais parte nenhuma senão num canto com um livro."

Pascal Quignard, in "As sombras errantes" gótica, 2003
trad. Maria da Piedade Ferreira


hoje acordei assim…


«Os seios descaem-lhe um pouco e tem covas nos ombros. Tanto me faz, porque nunca me sirvo deles. O ombro da mulher é para os dançarinos e os seios são para os filhos.»

Jules Renard, in "O pendura" assírio & alvim, 2009
trad. Aníbal Fernandes
pint. Félix Vallotton [ the lie ] 1898

leitura recomendada...


Em meados dos anos cinquenta, um grupo de jovens intelectuais americanos criou uma revista chamada The paris Review. Os seus autores dificilmente terão tido a percepção de que estavam a fazer nascer uma abordagem nova à literatura e à arte da escrita e de que, por outro lado, se constituiria a partir dali o mais extraordinário arquivo do fascínio que uma entrevista literária pode alcançar.
Entre a entrevista a E.M. Foster, a primeira deste volume, e a entrevista a Jack Kerouac, a última, decorrem quinze anos. O tempo que corresponde a uma mudança social drástica que a literatura soube espelhar. E que estas peças também revelam por inteiro: do aprumo formal de Foster à conversa com anfetaminas em casa de Kerouac.
Sem a Paris Review, teríamos as mesmas obras de Faulkner, Hemingway ou Borges – para citar apenas três dos dez autores que estão neste livro – mas não teríamos a mesma imagem que temos hoje de alguns dos escritores decisivos para a arte literária no século xx.

E.M. Foster, Graham Greene, William Faulkner, Trumam Capote, Ernest Hemingway, Lawrence Durrell, Boris Pasternak, Saul Bellow, Jorge Luis Borges, Jack Kerouac.

«Se eu não tivesse existido, alguém me teria escrito, a mim, a Hemingway, a Dostoiévski, a todos nós.»
William Faulkner

[ Entrevistas da Paris Review ] tinta da china, 2009
selecção e tradução de Carlos Vaz Marques

LOUVORES A DEUS

É louco o homem que neste mundo
Se cansa e cessa de louvar a Deus.
As aves o não fazem e alma não têm.
Só as anima o sopro do vento.


Anónimo (séc XI), in "Rosa do Mundo" assírio & alvim, 2001
trad. José Domingos Morais
ilust. Christian Northeast

brevemente...



«Quando olhou para o espelho, os olhos, do outro lado, disseram-lhe coisas estranhas. Por exemplo: pode-se vomitar tudo menos o medo e a solidão.»

Dennis McShade [ Blackpot ] assírio & alvim, 2009


«As epidemias só desaparecem quando os micróbios se enjoam das suas toxinas.»

Louis-Ferdinand Céline

nova edição...


«No segundo decénio do nosso século, Franz Kafka criou uma forma notável do género fantástico em cujas páginas inesquecíveis o inacreditável assenta mais no comportamento das personagens do que nos factos. Assim, em O Processo (Der Prozess) o protagonista vê-se julgado e executado por um tribunal destituído de qualquer autoridade, cujo rigor aceita sem o mínimo protesto. Melville, mais de meio século antes, cria o estranho caso de O Escrivão Bartleby, que não só age de forma contrária a toda a lógica, como constrange os outros a tornarem-se seus desalentados cúmplices.»

Jorge Luis Borges

Herman Melville "Bartleby, o Escrivão" presença, 2009
trad. Maria João da Rocha Afonso

escutar...


Broadcast [ Mother is the Milky Way ] warp, 2009

O teu nome é um vocábulo
de amor, uma carícia
que a língua desenvolve.
Não o posso pronunciar
em voz alta
quando não estou só. As
respirações alheias
corrompem: poderia
dissolver-se no vento,
fragmentar-se
perder
o seu mistério indecifrável,
desviar
a flecha do seu alvo.
Pronuncio-o eliminando
o som, das duas sílabas
que rolam no meu corpo,
abrem os poros e,
pelos olhos,
enviam a mensagem necessária
ao suporte de Outubro.
Tudo canta, rodeando o silêncio,
a ligeira brisa que perfuma
as letras
quando passas a porta
e o teu sorriso doce
avança para mim
A garganta abre-se,
as sílabas esvoaçam, transformam
o espaço em música,
os acordes da água:
o meu corpo é agora um piano
onde a alegria abre
a felicidade, as suas asas.


Egito Gonçalves, in "A ferida amável" campo das letras, 2000
ilust. Alberto Vargas

uma boa notícia...

Eudora Welty "Os melhores contos" relógio d'água, 2009
trad. Miguel Serras Pereira

leitura recomendada...


De um encontro em Paris de Umberto Eco, um dos mais respeitados pensadores e romancistas da actualidade, com o cineasta e ensaísta Jean-Claude Carriére, nasce um extraordinário e contemporâneo diálogo em torno do papel dos livros no decurso da História.
Em «A Obsessão do Fogo», somos levados a percorrer mais de dois mil anos de histórias sobre livros, seguindo uma discussão erudita e divertida, culta e pessoal, filosófica e anedótica, curiosa e apetecível, plena de ironia, astúcia e referências culturais. Atravessamos tempos e lugares diversos; encontramos personalidades reais e personagens fictícias; deparamo-nos com elogio à estupidez, bem como com a análise da paixão pelo coleccionismo; e compreendemos a razão pela qual cada época gera as suas obras-primas. Para além disso, ficamos ainda a saber por que motivo “as galinhas levaram mais de um século para aprender a não atravessar a estrada” e porque é que “o nosso conhecimento do passado deve-se a cretinos, imbecis ou contraditores”.
Com a inteligência e o humor que lhes são reconhecidos, Eco e Carriere encetam uma viagem pela história dos livros e da literatura no geral, desde os papiros até à era digital da Internet e dos e-books. Um notável exercício de erudição de dois leitores apaixonados e coleccionadores de livros, uma espécie cada vez mais escassa numa era de obstinação pelo progresso tecnológico.

Umberto Eco e Jean-Claude Carrière "A Obsessão pelo Fogo" difel, 2009
trad. Joana Chaves

FLAUBERT

Excelentíssima madame, eis que primeiro vou descrever o seu esplendoroso vestido e logo a seguir, sim, a despirei com toda a ansiedade possível.
Belo programa, meu bom senhor. Mas essa primeira parte, não poderá saltar-se?
Excelentíssima madame, eu sou um escritor, não sou um fornicador.
Oh, meu bom senhor, que pena.

Gonçalo M. Tavares, in "Biblioteca" campo das letras, 2004