QUANDO ESTOU CONTIGO…

Quando estou contigo, ficamos acordados toda a noite.
Quando não estás comigo, não consigo adormecer.

Louvado seja Deus, por estas duas insónias!
E pela diferença entre elas.


Rumi

sítios a visitar…



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brevemente...


«Recorrendo a histórias pessoais e a reflexões literárias ricas em humor e erudição subtil, Alberto Manguel leva-nos a reflectir sobre as delícias e responsabilidades da leitura — uma viagem despoletada pela humanidade do autor, pela curiosidade insaciável e extraordinária abrangência da percepção do mundo.»

Alberto Manguel "No bosque do espelho" dom quixote, 2009

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Vetiver [ Tight Knit ] sub pop, 2009

http://www.myspace.com/vetiverse

E. M. Cioran


O livro «Silogismos da Amargura» de E. M. Cioran acaba de ser editado pela Livraria Letra Livre numa tradução de Manuel de Freitas. Cioran, um dos mais interessantes, desafiadores e polémicos pensadores do século XX, até hoje só tinha duas obras editadas em Portugal, «História e Utopia» na Bertrand e «Tentação de Existir» na Editora Relógio D´Água.





Vera Chytilová [ Sedmikrásky (daisies) ] 1966

GRITAR

Aqui a acção simplifica-se
Derrubei a paisagem inexplicável da mentira
Derrubei os gestos sem luz e os dias impotentes
Lancei por terra os propósitos lidos e ouvidos
Ponho-me a gritar
Todos falavam demasiado baixo falavam e escreviam

Demasiado baixo

Fiz retroceder os limites do grito

A acção simplifica-se

Porque eu arrebato à morte essa visão da vida
Que lhes destinava um lugar perante mim

Com um grito

Tantas coisas desapareceram
Que nunca mais voltará a desaparecer
Nada do que merece viver

Estou perfeitamente seguro agora que o Verão
Canta debaixo das portas frias
Sob armaduras opostas
Ardem no meu coração as estações
As estações dos homens os seus astros
Trémulos de tão semelhantes serem

E o meu grito nu sobe um degrau
Da escadaria imensa da alegria

E esse fogo nu que pesa
Torna a minha força suave e dura

Eis aqui a amadurecer um fruto
Ardendo de frio orvalhado de suor
Eis aqui o lugar generoso
Onde só dormem os que sonham
O tempo está bom gritemos com mais força
Para que os sonhadores durmam melhor
Envoltos em palavras
Que põem o bom tempo nos meus olhos

Estou seguro de que a todo o momento
Filha e avó dos meus amores
Da minha esperança
A felicidade jorra do meu grito
Para a mais alta busca
Um grito de que o meu seja o eco.


Paul Éluard, in "Algumas das palavras" dom quixote, 1977
trad. António Ramos Rosa e Luisa Neto Jorge

«Tão pequena e tão grande! Aqui, homem finalmente digno do teu nome, é que estás como eu quero, aqui te encontras à escala dos teus desejos. Este lugar, não receies chegar bem perto o teu rosto e já a tua língua, tagarela, não pode refrear-se, este lugar de delícia e sombra, este pátio ardente nos seus limites de nácar, a bela imagem do pessimismo. Ó greta, húmida e macia greta, vertiginosa.
Nesta humana esteira é que os navios finalmente perdidos, com as máquinas para todo o sempre inúteis, de regresso à infância das viagens sobem num mastro de sorte as velas do desespero. Entre pintelhos frisados como a carne é bela: sob este bordado bem dividido pelo machado do amor surge amorosamente uma pele pura, espumosa e láctea. E as formosas pregas que levam aos grandes lábios entreabrem. Lábios tão belos, a vossa boca parece a do rosto debruçado num adormecido, não direi transversa e paralela a todas as bocas do mundo, mas fina e longa, crucial nos lábios palradores que a conservam em silêncio, prestes a um beijo prolongado pontual, lábios adoráveis que soubestes dar aos beijos um novo e terrível sentido para todo o sempre depravado.
Como eu gosto de uma cona que ressalta.
Como se aproxima dos nossos olhos, ela, como incha atraente e cheia com a sua cabeleira de onde sai, tão parecido com as três deusas nuas sobre as árvores do Monte Ida, o brilho incomparável do ventre e das duas pernas. Toquem só: que melhor emprego para as vossas mãos. Toquem só neste sorriso de volúpia, desenhem com os dedos estes hiatus de encanto. Ali: que as vossas palmas imóveis, as falanges rendidas e esta curva avançada se reunam no ponto mais duro, o melhor, que faz elevar esta ogiva santa até ao cume, ó minha igreja. E não se mexam agora, assim, e com a carícia de dois polegares aproveitem agora a boa-vontade desta criança cansada, entrem um pouco, com a carícia dos vossos dois polegares acariciadores, os dois polegares. E agora, palácio rosado te saúdo, estojo polido, alcova meio desmanchada pela alegria grave do amor, vulva um só instante surgida em toda a sua opulência. Debaixo do cetim repuxado do nascente, a cor do verão quando fechamos os olhos.»

Louis Aragon, in "A cona de Irène" & etc, 1983
trad. Aníbal Fernandes

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Bibio [ Ambivalence Avenue ] warp, 2009

http://www.myspace.com/mrbibio

leitura recomendada...


«Este é um livro de histórias: de uma menina, aluna num convento de freiras, que deu consigo a mudar de sexo na puberdade; de crianças que, trazendo-nos à memória os ciclopes de Homero, nascem com um único olho a meio da testa; de uma aldeia croata de anões de idades invulgarmente avançadas; de uma família hirsuta que foi conservada na corte do reino da Birmânia durante quatro gerações (e inspirou a Darwin uma das suas mais certeiras visões acerca da hereditariedade); e do povo dos pés de avestruz: os Wadoma, do vale do Zambeze.»

Em Mutantes, Armand Marie Leroi brinda-nos com uma brilhante narrativa da nossa gramática genética, falando-nos das pessoas cujos corpos no-la revelaram. Passando aparentemente sem esforço do mito para a biologia molecular, o objecto desta obra elegante e esclarecedora somos todos nós.


Armand Marie Leroi "Mutantes" gradiva, 2009
trad. Jorge Lima


Ken Loach [ poor cow ] 1967

Gosto de andar por aí.
Desço as escadas a correr,
salto os degraus dois a dois
e num instante entro na rua.
Na rua não há tecto. Sopra o vento.
Às vezes chove, às vezes faz sol.
Na rua não há paredes. Há estradas, muros e lugares,
mas o mundo é enorme (acho que não tem fim).


"andar por ai" planeta tangerina, 2009
texto: Isabel Minhós Martins
ilustração: Madalena Matoso

«Não procurei olhar para ela durante a viagem; com os olhos postos na luz que oscilava elástica no caminho de terra, não precisei de a olhar para lhe ver a cara, para em convencer de que a cara ia estar, até à morte, em dias luminosos e povoados, em noites semelhantes à que atravessámos, enfrentando a indubitável, fátua, ilusória aproximação dos homens; com o pequeno nariz que revelava, quase em qualquer posição da cabeça, as suas covas sinuosas, inocentes; sem convexidade, como simples esboços de olhos feitos com um lápis pardo num papel pardo de cor mais suave. Mas não era somente os homens que enfrentava, claro, os que iriam chegar depois deste de quem nos aproximávamos, e que ela faria certamente felizes sem lhes mentir, sem ter que forçar a sua bondade ou compreensão e que se separariam dela já condenados a confundir sempre o amor com a recordação da cara tranquila, das pontas de sorriso que ali estavam sem motivo nascido no pensamento ou no coração, o sorriso que apenas se formava para expressar a placidez orgânica de estar viva, coincidindo com a vida. Não era só os homens que enfrentava essa cara redonda e sem perfumes que não fazia por resistir aos safanões do carro, que se deixava balouçar, assentindo, com um cândido, obsceno costume de assentir; porque os homens apenas lhe podiam servir enquanto símbolos, marcos, pontos de referência para eventualmente pôr na vida uma ordem artificiosa e serviçal. Mas a cara também tinha sido feita para enfrentar o que os homens representavam e diferençavam; interminavelmente ansiosa, incapaz de surpresas verdadeiras, transformando logo tudo em memória, em remota experiência. Imaginei a cara, excitada, alerta, faminta, assimilando, enquanto ela afastava os joelhos para cada amor definitivo e para parir; imaginei a expressão recôndita dos seus olhos planos ante a velhice e agonia.»

Juan Carlos Onetti, in "os adeuses" relógio d'água, 2009
trad. Hélia Correia

hoje é dia de…


“On the Road” é um espectáculo-viagem baseado no livro homónimo de Jack Kerouac, criado em 2007 por Tó Trips e Tiago Gomes aquando do 50º aniversário do seu lançamento.
Este espectáculo foi apresentado na exposição “Remembering Jack Kerouac”, no espaço Av. da Liberdade 211, de onde partiu o convite para esta união em torno da Bíblia da Beat Generation, influência para viajantes de todos os tempos.
É de facto a viagem, uma estrada perdida e infinita para onde os dois performers e o vídeo remetem o espectador para a route 66, América de todos os sonhos que aqui são todas as estradas do mundo: vias rápidas, estradas secundárias, deserto, cidades perdidas na noite e becos sem saída.
Não é bem um concerto, nem tão pouco declamação de um texto, antes uma performance de música e leitura, enquadrada por uma projecção vídeo a cargo de Raquel Castro.

On The Road
Tó Trips e Tiago Gomes
5 de Junho, 22h00
Café-Concerto
Duração: 60m
Entrada Gratuita

TEMPO [Teatro Municipal de Portimão]

«a corrida quieta da leitura» (Maria Filomena Molder)

Cada livro dá uma velocidade de leitura; como um carro; um livro deveria ter na capa ou na contracapa indicações de velocidade máxima e mínima de leitura: não ler a menos do que vinte páginas por hora, não ler a mais do que quarenta páginas por hora. ( ideia a desenvolver)

Claro que a velocidade engana: livros imbecis, mas também livros perfeitos, podem ser lidos à mesma velocidade, suponhamos: cem páginas por hora. Não é tanto a velocidade potencial de leitura de um livro que dá a sua qualidade, é mais o local aonde se chega com essa velocidade.
E que importa estar num carro que vai a um grande velocidade, se ele chega a um sítio que eu não desejo (rapidamente, é certo)?
E que importa estar num carro que vai a uma velocidade para que os seus passageiros possam apreciar a paisagem, se a paisagem não é relevante?
Contemplar quando estamos em viagem se a coisa contemplada for interessante.

Claro, dirão, ler é bom para os sentimentos, para os abanar: por favor, não introduza dados quantitativos no prazer da leitura.
Porém, não esquecer: o que fez cada um com o que leu à velocidade que leu? Paisagens e sítios de chegada. Contabilidade económica da leitura.
(Não podemos ler tudo. Somos mortais, meu caro.)


Gonçalo M. Tavares, in "Breves notas sobre as ligações" relógio d'água, 2009
ilust. Gérard Dubois

DEZ MIL PELES-VERMELHAS

Para eles
o tempo existe
em estado nulo

Felizes de tanta felicidade
Dez mil peles-vermelhas agacham-se
na pradaria
e preludiam à sublime dança

Engolem os dias
despenteiam as noites

Dez mil peles vermelhas e lúcidas
preparam-se para fazer rir a chuva
as terras engelhadas por desejo e sede
fazendo os tambores soarem de som cheio

Som
cheio

Dez mil peles vermelhas apaixonadas
preparam-se para misturar o seu sangue irrequieto 
ao leite sombrio das mulheres tão calmas
ao mel risonho dos seus lindos filhos

Filhos do século
onde estão os vossos tridentes

Dez mil peles vermelhas
pálidas mas sólidas
abandonam a família para morrer à parte

Dez mil peles-vermelhas
de sangue em fogo
a sua vida ainda lá está
a desencantar demónios


Max Ernst, in "identidade instantânea" & etc, 1983
trad. Aníbal Fernandes

in dub…

Bruno Natal [ dub Echoes ] 2007

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Andrew Bird [ Fitz and the Dizzy Spells, ep ] 2009

Nas Livrarias…


«Do alto do muro a vista era ambivalente: de um lado, esperava-o um campo aceso de lajes – Aqui jaz. Ali jaz. – Um campo de ossos, fotografias e epitáfios semeados por mensagens de despedida ou saudade e ardentes chamas trémulas. Enquanto do outro se apresentava a cidade: fantasmagoricamente iluminada pelas luzes indecisas dos candeeiros; guardada pelos cães vadios e as gruas de aço. Onde, dentro das casas e edifícios, supostamente deitados sobre colchões e lençóis pestilentos, os peitos dos homens e das mulheres horizontais, cravados de ódios e maledicências, levantavam-se e baixavam-se ao ritmo de inspirações e expirações mais ou menos inconscientes.
Eles respiram, pensou o amputado.»

Sandro William Junqueira "O caderno do Algoz" caminho, 2009

ARGUMENTO

Como viver sem desconhecido diante de nós?
os homens de hoje em dia querem que o poema seja à imagem das suas vidas, com tão poucas considerações, tão pouco espaço, consumidas de intolerância.
Porque já não lhes é permitido agir supremamente, nessa preocupação fatal com a auto-destruição através dos seus semelhantes, porque a sua riqueza inerte os refreia e os amarra, os homens de hoje em dia, debilitado o instinto, perde, muito embora se conservem vivos, a própria poeira do seu nome nascido do chamamento do porvir e da angústia da retenção, o poema, elevando-se do seu poço de lama e de estrelas, testemunhará, quase silenciosamente, que nada havia nele que não existisse verdadeiramente noutro sítio, neste rebelde e solitário mundo de contradições.

René Char, in "Furor e mistério" relógio d'água, 2000
trad. Margarida Vale de Gato

MEMÓRIA, A INIMIGA

Não voltarei a colar os pedaços da memória.
O céu estalado dos puzzles não ressuscita a magia.
Aquilo de que me lembrei, só atraves de novas e suscitadas saudades me deu alguma vez impressão de vida. E assim, mais tristes e mais infelizes entre todos os homens me pareciam os que nasceram dotados com as melhores memórias. Não triunfam sobre a morte mas, cada transubstanciação que tentam, em vez de de lhes prolongar o passado mata-lhes o presente com a mais inexorável das fatalidades. Vítimas da sua insuficiência, prosseguem condenados a nada ver do novo espectáculo que desprezam, fiados numa dócil esperança de recomeços que ninguém, de resto, saberia conseguir que os satisfizessem.
Quanto a mim, tudo o que aprendi, tudo o que vi só contribuirá para o meu tédio e o meu nojo se um novo estado qualquer me não causar o esquecimento dos pormenores anteriores. Visto isso, como baptizar de inimiga uma memória obstinada a recordar?

René Crevel, in "O meu corpo e eu" hiena, 1995
trad. Luís Matos Costa

LER ROMANCES

Nem todos os livros se lêem do mesmo modo. Os romances por exemplo, existem para serem devorados. Lê-los é uma volúpia da assimilação. Não se trata de empatia. O leitor não se coloca no lugar do herói, mas assimila os que lhe acontece. O relato vivo disso é a forma de apresentação apetitosa que traz à mesa um prato suculento. É certo que também há alimentos crus da experiência — tal como há alimentos crus para o estômago—, concretamente: as experiências que nos passam pela própria pele. Mas a arte do romance, como a arte da cozinha, só começa para lá dos alimentos crus. E quantas substancias suculentas não existem que são intragáveis em estado cru! E quantas experiências que são aconselháveis em estado de leitura, mas não de vivência! Fazem proveito a muito boa gente que morreria se passasse por elas in natura. Em suma: se existe uma musa do romance — a décima —, o seu emblema é o da fada da cozinha. Tira o mundo do seu estado cru, para lhe preparar pratos comestíveis e extrair dele o seu gosto. Se tiver de ser, pode ler-se o jornal à refeição. Mas nunca um romance. São tarefas necessárias, mas que entram em conflito.

Walter Benjamin, in "Imagens de pensamento" assírio & alvim, 2004
trad. João Barrento

NÃO ENTRES DOCILMENTE NESSA NOITE SERENA

Não entreis docilmente nessa noite serena,
porque a velhice deveria arder e delirar no termo do dia;
odeia, odeia a luz que começa a morrer.

No fim, ainda que os sábios aceitem as trevas,
porque se esgotou o raio nas suas palavras, eles
não entram docilmente nessa noite serena.

Homens bons que clamaram, ao passar a última onda, como podia
o brilho das suas frágeis acções ter dançado na baia verde,
odiai, odiai a luz que começa a morrer.

E os loucos que colheram e cantaram o voo do sol
e aprenderam, muito tarde, como o feriram no seu caminho,
não entram docilmente nessa noite serena.

Junto da morte, homens graves que vedes com um olhar que cega
quanto os olhos cegos fulgiriam como meteoros e seriam alegres,
odiai, odiai a luz que começa a morrer.

E de longe, meu pai, peço-te que nessa altura sombria
venhas beijar ou amaldiçoar-me com as tuas cruéis lágrimas.
Não entres docilmente nessa noite serena.
Odeia, odeia luz que começa a morrer.


Dylan Thomas, in "A mão ao assinar este papel" assírio & alvim, 1998
trad. Fernando Guimarães

leitura recomendada...


HISTÓRIA UNIVERSAL DA DESTRUIÇÃO DOS LIVROS é um relato lúcido e devastador do crime perpetuado contra a memória da humanidade que descansa nos livros. Desde a antiguidade grega até ao mundo islâmico, desde os códices pré-hispânicos perdidos no fogo durante a época colonial ou a destruição nazi de milhares de livros judaicos até às situações actuais de censura em países como Cuba e China.

Outro cenário: Bagdad jaz em ruínas, as chamas devoraram as suas antigas bibliotecas, os seus museus foram reduzidos a escombros, os saques sucedem-se dia e noite perante a indiferença dos soldados que foram destacados para guardar essa cidade milenária. Perante esta paisagem desoladora, o autor interroga-se sobre a razão de ser deste empenho em assassinar a memória escrita, justamente no lugar onde surgiu pela primeira vez o livro como objecto e ferramenta. Para encontrar uma resposta, Fernando Báez recorre a diversos momentos da história, cuja desafortunada pedra de toque tem sido a destruição dos livros, sempre em nome de diversas consignas: raciais, sexuais, culturais ou políticas.


Fernando Báez "História universal da destruição dos livros" texto, 2009
trad. Maria da Luz Veloso

Richard Lerner [ What Happened to Kerouac? ] 1986

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Pumajaw [ favourites ] 2009

AH, DIZ-ME A VERDADE ACERCA DO AMOR

Há quem diga que o amor é um rapazinho,
E quem diga que ele é um pássaro;
Há quem diga que faz o mundo girar,
E quem diga que é um absurdo,
E quando perguntei ao meu vizinho,
Que tinha ar de quem sabia,
A sua mulher zangou-se mesmo muito,
E disse que isso não servia para nada.

Será parecido com uns pijamas,
Ou com o presunto num hotel de abstinência?
O seu odor faz lembrar o dos lamas,
Ou tem um cheiro agradável?
É áspero ao tacto como uma sebe espinhosa
Ou é fofo como um edredão de penas?
É cortante ou muito polido nos seus bordos?
Ah, diz-me a verdade acerca do amor.

Os nossos livros de história fazem-lhe referências
Em curtas notas crípticas,
É um assunto de conversa muito vulgar
Nos transatlânticos;
Descobri que o assunto era mencionado
Em relatos de suicidas,
E até o vi escrevinhado
Nas costas dos guias ferroviários.

Uiva como um cão de Alsácia esfomeado,
Ou ribomba como uma banda militar?
Poderá alguém fazer uma imitação perfeita
Com um serrote ou um Steinway de concerto?
O seu canto é estrondoso nas festas?
Ou gosta apenas de música clássica?
Interrompe-se quando queremos estar sossegados?
Ah! diz-me a verdade acerca do amor.

Espreitei a casa de verão,
E não estava lá,
Tentei o Tamisa em Maidenhead
E o ar tonificante de Brighton,
Não sei o que cantava o melro,
Ou o que a tulipa dizia;
Mas não estava na capoeira,
Nem debaixo da cama.

Fará esgares extraordinários?
Enjoa sempre num baloiço?
Passa todo o seu tempo nas corridas?
Ou a tocar violino em pedaços de cordel?
Tem ideias próprias sobre o dinheiro?
Pensa ser o patriotismo suficiente?
As suas histórias são vulgares mas divertidas?
Ah, diz-me a verdade acerca do amor.

Chega sem avisar no instante
Em que meto o dedo no nariz?
Virá bater-me à porta de manhã,
Ou pisar-me os pés no autocarro?
Virá como uma súbita mudança de tempo?
O seu acolhimento será rude ou delicado?
Virá alterar toda a minha vida?
Ah, diz-me a verdade acerca do amor.


W.H. Auden, in "Diz-me a verdade acerca do amor" relógio d'água, 1994
trad. Maria de Lourdes Guimarães
fotografia de Cecil Beaton