Roger Corman [ The Wasp Woman ] 1959


Roger Corman [ Pit and the Pendulum ] 1961

«Un poeta lo puede soportar todo. Lo que equivale a decir que un hombre lo puede soportar todo. Pero no es verdade: son pocas las cosas que un hombre puede soportar. Soportar de verdad. Un poeta, en cambio, lo puede soportar todo. Com esta covicción crecimos. El primer enunciado es cierto, pero conduce a la ruina, a la locura, a la muerte.»

Roberto Bolaño, in "Llamadas telefónicas" anagrama, 1997



quando, daqui a umas horas a manhã vier, branca e fina, saberei eu andar?
conseguirei eu, lembrar-me, de como se põe um pé à frente do outro? sem cair…


Al Berto, in "À procura do vento num jardim d'agosto" ed. autor, 1977


UM DISCURSO TRANSPARENTE

Avanço através de um caos silencioso.
Nem um som nem uma sombra. É uma lenta descida.
É vazio o princípio do princípio. Solipsismo.
A possibilidade de nascer é o desejo que nasce.
Esquecer, viver. Tudo dizer em evidências brancas.

Com as armas mais puras, com a luz das minhas ervas
enuncio a fragrância de uma lâmpada. Comovo-me
com a água do poema. Crianças de cor solar
acenam em campos silenciosos. É suficiente estar aqui
mais além de todo o lugar, na superfície nua.

Habito agora o movimento do meio-dia.
Inesgotável um campo tão contínuo.
O sol fixou-se na corola do tempo, o espaço é puro.
O mar levanta-se do fundo até aos seus limites.
Um discurso flui completo e transparente.


António Ramos Rosa, in "Volante verde" moraes editores, 1986


SUICIDE—HOUSE

(...)
— Este corredor aonde leva?
— Ah, é a secção de asfixia. Queira entrar. A asfixia é ainda hoje um dos suicídios de maior actualidade. Temo-las para todos os gostos: fogareiro, gás de iluminação, vapores clorídricos, iodo… A menos que, sendo V. Ex.ª de seu natural artista, e um pouco poeta, não prefira envenenar-se com o aroma de flores desconhecidas. Há agora uma combinação de nenúfares de Java com flores de de Takeoka, que extingue, evocando rondas de deidades, todas nuas, maravilhosas de lascívia, as quais beijam na boca o — porque assim o chamemos — padecente. É imprevisto, hem? Ora sente-se o Snr. Duque neste fauteuil: vou-lhe fazer um principiozinho de experiência… Há-de gostar! Nada receie: a porta assim calafetada — como vê, todo o recinto tem uma couraça impermeável ao ar exterior — agora abre-se aqui esta torneira. Atenção! Desejava V. Ex.ª fazer, antes de partir, disposições testamentárias? Quer confiar ao fonógrafo a sua frase célebre? Se não trouxe frase, a casa fornece. Há em mimoso, em desesperado, em filosófico…
— Decididamente a asfixia maça-me. Que mais tem?
(…)

Fialho D'Almeida, in "Fialho Negro" & etc, 1981

em Novembro nas Livrarias…

Julio Cortázar [ A volta ao dia em 80 mundos ]
trad. Alberto Simões


Lars Saabye Christensen [ O modelo ]
trad. Mário Semião


Carmen Laforet [ A ilha e os demónios ]
trad. Sofia Castro Rodrigues e Virgílio Tenreiro Viseu


www.cavalodeferro.com



"procurei em todo o universo o repouso e não o encontrei em mais parte nenhuma senão num canto com um livro."

Pascal Quignard, in "As sombras errantes" gótica, 2003
trad. Maria da Piedade Ferreira


hoje acordei assim…


«Os seios descaem-lhe um pouco e tem covas nos ombros. Tanto me faz, porque nunca me sirvo deles. O ombro da mulher é para os dançarinos e os seios são para os filhos.»

Jules Renard, in "O pendura" assírio & alvim, 2009
trad. Aníbal Fernandes
pint. Félix Vallotton [ the lie ] 1898

leitura recomendada...


Em meados dos anos cinquenta, um grupo de jovens intelectuais americanos criou uma revista chamada The paris Review. Os seus autores dificilmente terão tido a percepção de que estavam a fazer nascer uma abordagem nova à literatura e à arte da escrita e de que, por outro lado, se constituiria a partir dali o mais extraordinário arquivo do fascínio que uma entrevista literária pode alcançar.
Entre a entrevista a E.M. Foster, a primeira deste volume, e a entrevista a Jack Kerouac, a última, decorrem quinze anos. O tempo que corresponde a uma mudança social drástica que a literatura soube espelhar. E que estas peças também revelam por inteiro: do aprumo formal de Foster à conversa com anfetaminas em casa de Kerouac.
Sem a Paris Review, teríamos as mesmas obras de Faulkner, Hemingway ou Borges – para citar apenas três dos dez autores que estão neste livro – mas não teríamos a mesma imagem que temos hoje de alguns dos escritores decisivos para a arte literária no século xx.

E.M. Foster, Graham Greene, William Faulkner, Trumam Capote, Ernest Hemingway, Lawrence Durrell, Boris Pasternak, Saul Bellow, Jorge Luis Borges, Jack Kerouac.

«Se eu não tivesse existido, alguém me teria escrito, a mim, a Hemingway, a Dostoiévski, a todos nós.»
William Faulkner

[ Entrevistas da Paris Review ] tinta da china, 2009
selecção e tradução de Carlos Vaz Marques

LOUVORES A DEUS

É louco o homem que neste mundo
Se cansa e cessa de louvar a Deus.
As aves o não fazem e alma não têm.
Só as anima o sopro do vento.


Anónimo (séc XI), in "Rosa do Mundo" assírio & alvim, 2001
trad. José Domingos Morais
ilust. Christian Northeast

brevemente...



«Quando olhou para o espelho, os olhos, do outro lado, disseram-lhe coisas estranhas. Por exemplo: pode-se vomitar tudo menos o medo e a solidão.»

Dennis McShade [ Blackpot ] assírio & alvim, 2009


«As epidemias só desaparecem quando os micróbios se enjoam das suas toxinas.»

Louis-Ferdinand Céline

nova edição...


«No segundo decénio do nosso século, Franz Kafka criou uma forma notável do género fantástico em cujas páginas inesquecíveis o inacreditável assenta mais no comportamento das personagens do que nos factos. Assim, em O Processo (Der Prozess) o protagonista vê-se julgado e executado por um tribunal destituído de qualquer autoridade, cujo rigor aceita sem o mínimo protesto. Melville, mais de meio século antes, cria o estranho caso de O Escrivão Bartleby, que não só age de forma contrária a toda a lógica, como constrange os outros a tornarem-se seus desalentados cúmplices.»

Jorge Luis Borges

Herman Melville "Bartleby, o Escrivão" presença, 2009
trad. Maria João da Rocha Afonso

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Broadcast [ Mother is the Milky Way ] warp, 2009

O teu nome é um vocábulo
de amor, uma carícia
que a língua desenvolve.
Não o posso pronunciar
em voz alta
quando não estou só. As
respirações alheias
corrompem: poderia
dissolver-se no vento,
fragmentar-se
perder
o seu mistério indecifrável,
desviar
a flecha do seu alvo.
Pronuncio-o eliminando
o som, das duas sílabas
que rolam no meu corpo,
abrem os poros e,
pelos olhos,
enviam a mensagem necessária
ao suporte de Outubro.
Tudo canta, rodeando o silêncio,
a ligeira brisa que perfuma
as letras
quando passas a porta
e o teu sorriso doce
avança para mim
A garganta abre-se,
as sílabas esvoaçam, transformam
o espaço em música,
os acordes da água:
o meu corpo é agora um piano
onde a alegria abre
a felicidade, as suas asas.


Egito Gonçalves, in "A ferida amável" campo das letras, 2000
ilust. Alberto Vargas

uma boa notícia...

Eudora Welty "Os melhores contos" relógio d'água, 2009
trad. Miguel Serras Pereira

leitura recomendada...


De um encontro em Paris de Umberto Eco, um dos mais respeitados pensadores e romancistas da actualidade, com o cineasta e ensaísta Jean-Claude Carriére, nasce um extraordinário e contemporâneo diálogo em torno do papel dos livros no decurso da História.
Em «A Obsessão do Fogo», somos levados a percorrer mais de dois mil anos de histórias sobre livros, seguindo uma discussão erudita e divertida, culta e pessoal, filosófica e anedótica, curiosa e apetecível, plena de ironia, astúcia e referências culturais. Atravessamos tempos e lugares diversos; encontramos personalidades reais e personagens fictícias; deparamo-nos com elogio à estupidez, bem como com a análise da paixão pelo coleccionismo; e compreendemos a razão pela qual cada época gera as suas obras-primas. Para além disso, ficamos ainda a saber por que motivo “as galinhas levaram mais de um século para aprender a não atravessar a estrada” e porque é que “o nosso conhecimento do passado deve-se a cretinos, imbecis ou contraditores”.
Com a inteligência e o humor que lhes são reconhecidos, Eco e Carriere encetam uma viagem pela história dos livros e da literatura no geral, desde os papiros até à era digital da Internet e dos e-books. Um notável exercício de erudição de dois leitores apaixonados e coleccionadores de livros, uma espécie cada vez mais escassa numa era de obstinação pelo progresso tecnológico.

Umberto Eco e Jean-Claude Carrière "A Obsessão pelo Fogo" difel, 2009
trad. Joana Chaves

FLAUBERT

Excelentíssima madame, eis que primeiro vou descrever o seu esplendoroso vestido e logo a seguir, sim, a despirei com toda a ansiedade possível.
Belo programa, meu bom senhor. Mas essa primeira parte, não poderá saltar-se?
Excelentíssima madame, eu sou um escritor, não sou um fornicador.
Oh, meu bom senhor, que pena.

Gonçalo M. Tavares, in "Biblioteca" campo das letras, 2004

«EHEU!»

Aqui, junto ao mar latino,
digo a verdade:
Sinto em rocha, azeite e vinho,
a minha antiguidade.

Oh, que velho sou, Deus meu;
oh, que velho sou!…
Donde vem o meu canto?
E eu, para onde vou?

Conhecer-me a mim próprio
já me vai custando
muitos momentos de abismo
e o como e o quando…

E esta claridade latina,
de que me serviu
à entrada da mina
do eu e do não eu?…

Nefelibata contente,
julgo interpretar
as confidências do vento,
da terra e do mar

Umas vagas confidências
do ser e do não ser,
e fragmentos de consciências
de agora e de ontem.

Como no meio de um deserto
pus-me a clamar;
e vi o sol morto
e pus-me a chorar.


Rubén Darío, in "O mar na poesia da América Latina" assírio & alvim 1999
trad. José Agostinho Baptista

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jj [ n° 2 ] Sincerely Yours, 2009

William Faulkner/Raymond Chandler

Howard Hawks [ The big sleep ] 1946

AS PESSOAS SENSÍVEIS

As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas

O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
Porque cheira a pobre cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra

«Ganharás o pão com o suor do teu rosto»
Assim nos foi imposto
E não:
«Com o suor dos outros ganharás o pão»

Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheiros de devoção e de proveito

Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem


Sophia de Mello Breyner Andresen, in "A perspectiva da morte: 20 (-2) Poetas portugueses do séc XX ] assírio & alvim, 2009
org. Manuel de Freitas
foto. Fernando Lemos





Stanley Donen [ Two for the road ] 1967

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Noah And The Whale [ The First Days Of Spring ] Mercury, 2009

ENTRE TU E EU SEMPRE SE OPÕE

Entre tu e eu sempre se opõe,
por muito que tentemos ignorá-lo,
o antigo costume que dispõe:
«todo o estranho ardor há que acalmá-lo».

Entre tu e eu senpre se impõe
a ordem: «Aquele, aniquilá-lo!»
Assim o nosso amor já pressupõe
a fogueira que virá para apagá-lo.

As inomináveis escalas da injúria,
acosso sem fim, morte e olvido,
prisões, fogueiras, isso é amar-te.

Mas o terrível não é a tediosa fúria
que em cinzas nos tem convertido,
o terrível é saber se poderei achar-te.


Reinaldo Arenas, in "Poesia cubana contemporânea" antígona, 2009
trad. Jorge Melícias

nova edição...


Thomas Pynchon [ O Leilão do Lote 49 ] relógio d'água, 2009
trad. Manuela Garcia Marques

brevemente...


Eudora Welty [ O Coração dos Ponders ] relógio d'água, 2009
trad. José Miguel Silva