DEZ MIL PELES-VERMELHAS

Para eles
o tempo existe
em estado nulo

Felizes de tanta felicidade
Dez mil peles-vermelhas agacham-se
na pradaria
e preludiam à sublime dança

Engolem os dias
despenteiam as noites

Dez mil peles vermelhas e lúcidas
preparam-se para fazer rir a chuva
as terras engelhadas por desejo e sede
fazendo os tambores soarem de som cheio

Som
cheio

Dez mil peles vermelhas apaixonadas
preparam-se para misturar o seu sangue irrequieto 
ao leite sombrio das mulheres tão calmas
ao mel risonho dos seus lindos filhos

Filhos do século
onde estão os vossos tridentes

Dez mil peles vermelhas
pálidas mas sólidas
abandonam a família para morrer à parte

Dez mil peles-vermelhas
de sangue em fogo
a sua vida ainda lá está
a desencantar demónios


Max Ernst, in "identidade instantânea" & etc, 1983
trad. Aníbal Fernandes

in dub…

Bruno Natal [ dub Echoes ] 2007

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Andrew Bird [ Fitz and the Dizzy Spells, ep ] 2009

Nas Livrarias…


«Do alto do muro a vista era ambivalente: de um lado, esperava-o um campo aceso de lajes – Aqui jaz. Ali jaz. – Um campo de ossos, fotografias e epitáfios semeados por mensagens de despedida ou saudade e ardentes chamas trémulas. Enquanto do outro se apresentava a cidade: fantasmagoricamente iluminada pelas luzes indecisas dos candeeiros; guardada pelos cães vadios e as gruas de aço. Onde, dentro das casas e edifícios, supostamente deitados sobre colchões e lençóis pestilentos, os peitos dos homens e das mulheres horizontais, cravados de ódios e maledicências, levantavam-se e baixavam-se ao ritmo de inspirações e expirações mais ou menos inconscientes.
Eles respiram, pensou o amputado.»

Sandro William Junqueira "O caderno do Algoz" caminho, 2009

ARGUMENTO

Como viver sem desconhecido diante de nós?
os homens de hoje em dia querem que o poema seja à imagem das suas vidas, com tão poucas considerações, tão pouco espaço, consumidas de intolerância.
Porque já não lhes é permitido agir supremamente, nessa preocupação fatal com a auto-destruição através dos seus semelhantes, porque a sua riqueza inerte os refreia e os amarra, os homens de hoje em dia, debilitado o instinto, perde, muito embora se conservem vivos, a própria poeira do seu nome nascido do chamamento do porvir e da angústia da retenção, o poema, elevando-se do seu poço de lama e de estrelas, testemunhará, quase silenciosamente, que nada havia nele que não existisse verdadeiramente noutro sítio, neste rebelde e solitário mundo de contradições.

René Char, in "Furor e mistério" relógio d'água, 2000
trad. Margarida Vale de Gato

MEMÓRIA, A INIMIGA

Não voltarei a colar os pedaços da memória.
O céu estalado dos puzzles não ressuscita a magia.
Aquilo de que me lembrei, só atraves de novas e suscitadas saudades me deu alguma vez impressão de vida. E assim, mais tristes e mais infelizes entre todos os homens me pareciam os que nasceram dotados com as melhores memórias. Não triunfam sobre a morte mas, cada transubstanciação que tentam, em vez de de lhes prolongar o passado mata-lhes o presente com a mais inexorável das fatalidades. Vítimas da sua insuficiência, prosseguem condenados a nada ver do novo espectáculo que desprezam, fiados numa dócil esperança de recomeços que ninguém, de resto, saberia conseguir que os satisfizessem.
Quanto a mim, tudo o que aprendi, tudo o que vi só contribuirá para o meu tédio e o meu nojo se um novo estado qualquer me não causar o esquecimento dos pormenores anteriores. Visto isso, como baptizar de inimiga uma memória obstinada a recordar?

René Crevel, in "O meu corpo e eu" hiena, 1995
trad. Luís Matos Costa

LER ROMANCES

Nem todos os livros se lêem do mesmo modo. Os romances por exemplo, existem para serem devorados. Lê-los é uma volúpia da assimilação. Não se trata de empatia. O leitor não se coloca no lugar do herói, mas assimila os que lhe acontece. O relato vivo disso é a forma de apresentação apetitosa que traz à mesa um prato suculento. É certo que também há alimentos crus da experiência — tal como há alimentos crus para o estômago—, concretamente: as experiências que nos passam pela própria pele. Mas a arte do romance, como a arte da cozinha, só começa para lá dos alimentos crus. E quantas substancias suculentas não existem que são intragáveis em estado cru! E quantas experiências que são aconselháveis em estado de leitura, mas não de vivência! Fazem proveito a muito boa gente que morreria se passasse por elas in natura. Em suma: se existe uma musa do romance — a décima —, o seu emblema é o da fada da cozinha. Tira o mundo do seu estado cru, para lhe preparar pratos comestíveis e extrair dele o seu gosto. Se tiver de ser, pode ler-se o jornal à refeição. Mas nunca um romance. São tarefas necessárias, mas que entram em conflito.

Walter Benjamin, in "Imagens de pensamento" assírio & alvim, 2004
trad. João Barrento

NÃO ENTRES DOCILMENTE NESSA NOITE SERENA

Não entreis docilmente nessa noite serena,
porque a velhice deveria arder e delirar no termo do dia;
odeia, odeia a luz que começa a morrer.

No fim, ainda que os sábios aceitem as trevas,
porque se esgotou o raio nas suas palavras, eles
não entram docilmente nessa noite serena.

Homens bons que clamaram, ao passar a última onda, como podia
o brilho das suas frágeis acções ter dançado na baia verde,
odiai, odiai a luz que começa a morrer.

E os loucos que colheram e cantaram o voo do sol
e aprenderam, muito tarde, como o feriram no seu caminho,
não entram docilmente nessa noite serena.

Junto da morte, homens graves que vedes com um olhar que cega
quanto os olhos cegos fulgiriam como meteoros e seriam alegres,
odiai, odiai a luz que começa a morrer.

E de longe, meu pai, peço-te que nessa altura sombria
venhas beijar ou amaldiçoar-me com as tuas cruéis lágrimas.
Não entres docilmente nessa noite serena.
Odeia, odeia luz que começa a morrer.


Dylan Thomas, in "A mão ao assinar este papel" assírio & alvim, 1998
trad. Fernando Guimarães

leitura recomendada...


HISTÓRIA UNIVERSAL DA DESTRUIÇÃO DOS LIVROS é um relato lúcido e devastador do crime perpetuado contra a memória da humanidade que descansa nos livros. Desde a antiguidade grega até ao mundo islâmico, desde os códices pré-hispânicos perdidos no fogo durante a época colonial ou a destruição nazi de milhares de livros judaicos até às situações actuais de censura em países como Cuba e China.

Outro cenário: Bagdad jaz em ruínas, as chamas devoraram as suas antigas bibliotecas, os seus museus foram reduzidos a escombros, os saques sucedem-se dia e noite perante a indiferença dos soldados que foram destacados para guardar essa cidade milenária. Perante esta paisagem desoladora, o autor interroga-se sobre a razão de ser deste empenho em assassinar a memória escrita, justamente no lugar onde surgiu pela primeira vez o livro como objecto e ferramenta. Para encontrar uma resposta, Fernando Báez recorre a diversos momentos da história, cuja desafortunada pedra de toque tem sido a destruição dos livros, sempre em nome de diversas consignas: raciais, sexuais, culturais ou políticas.


Fernando Báez "História universal da destruição dos livros" texto, 2009
trad. Maria da Luz Veloso

Richard Lerner [ What Happened to Kerouac? ] 1986

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Pumajaw [ favourites ] 2009

AH, DIZ-ME A VERDADE ACERCA DO AMOR

Há quem diga que o amor é um rapazinho,
E quem diga que ele é um pássaro;
Há quem diga que faz o mundo girar,
E quem diga que é um absurdo,
E quando perguntei ao meu vizinho,
Que tinha ar de quem sabia,
A sua mulher zangou-se mesmo muito,
E disse que isso não servia para nada.

Será parecido com uns pijamas,
Ou com o presunto num hotel de abstinência?
O seu odor faz lembrar o dos lamas,
Ou tem um cheiro agradável?
É áspero ao tacto como uma sebe espinhosa
Ou é fofo como um edredão de penas?
É cortante ou muito polido nos seus bordos?
Ah, diz-me a verdade acerca do amor.

Os nossos livros de história fazem-lhe referências
Em curtas notas crípticas,
É um assunto de conversa muito vulgar
Nos transatlânticos;
Descobri que o assunto era mencionado
Em relatos de suicidas,
E até o vi escrevinhado
Nas costas dos guias ferroviários.

Uiva como um cão de Alsácia esfomeado,
Ou ribomba como uma banda militar?
Poderá alguém fazer uma imitação perfeita
Com um serrote ou um Steinway de concerto?
O seu canto é estrondoso nas festas?
Ou gosta apenas de música clássica?
Interrompe-se quando queremos estar sossegados?
Ah! diz-me a verdade acerca do amor.

Espreitei a casa de verão,
E não estava lá,
Tentei o Tamisa em Maidenhead
E o ar tonificante de Brighton,
Não sei o que cantava o melro,
Ou o que a tulipa dizia;
Mas não estava na capoeira,
Nem debaixo da cama.

Fará esgares extraordinários?
Enjoa sempre num baloiço?
Passa todo o seu tempo nas corridas?
Ou a tocar violino em pedaços de cordel?
Tem ideias próprias sobre o dinheiro?
Pensa ser o patriotismo suficiente?
As suas histórias são vulgares mas divertidas?
Ah, diz-me a verdade acerca do amor.

Chega sem avisar no instante
Em que meto o dedo no nariz?
Virá bater-me à porta de manhã,
Ou pisar-me os pés no autocarro?
Virá como uma súbita mudança de tempo?
O seu acolhimento será rude ou delicado?
Virá alterar toda a minha vida?
Ah, diz-me a verdade acerca do amor.


W.H. Auden, in "Diz-me a verdade acerca do amor" relógio d'água, 1994
trad. Maria de Lourdes Guimarães
fotografia de Cecil Beaton

De noite, já tarde, fui procurar Nick Cave na cidade, mas o que me veio parar às mãos foi qualquer coisa diferente: um pescador da costa oriental, vermelhusco e brilhante de gordura. Despi-lhe as roupas, falei-lhe longamente do amor, das estrelas e da lei da gravidade da Terra. Ele ouviu, aguçando as grandes orelhas e sorrindo ingenuamente, com um ar idiota. Quis muito e bem depressa, e eu pus na mesa o melhor que tinha para oferecer. De manhã balbuciava como um bebé acabado de mamar e queria mais. Fiz como ele quis. Sorri e sussurrei-lhe ao ouvido, ofereci-lhe tudo numa bandeja de ouro. Deixei-o penetrar-me, ao mesmo tempo que que lhe apertava o pescoço com toda a minha força. Um gargarejo, e o seu espírito deslizou-lhe para fora do corpo balofo. Levantei-me, vesti-me, encomendei o pequeno-almoço e saí.

Rosa Liksom, in "Os paraísos do caminho vazio e outros contos" relógio d'água, 1994
trad. Merja Sinikka Nousia e Marta Duarte Daniel Dias

brevemente...


«Escrito na Cidade do México em 1955 (a primeira parte) e em 1956 (a segunda), contando a história da sua paixão por uma toxicodependente (de seu verdadeiro nome Esperanza Villanueva), Tristessa era (na palavras do próprio) a obra preferida de Kerouac, ainda que ele estivesse bem ciente da predilecção dos seus fãs por Pela Estrada Fora. O texto foi manuscrito (e não escrito directamente à máquina, como Kerouac habitualmente fazia) em caderninhos de bolso que ele trazia sempre consigo, entremeado de desenhos e esboços, composto de jactos nas ruas e praças, nos bares e tabernas de má nota, mas, ainda assim, «imaculado, sem emendas», orgulhava-se ele de afirmar.»

Jack Kerouac [ Tristessa ] relógio d'água, 2009

DE UM ANÓNIMO, PESCADOR À LINHA

Quando olho Lisboa, da Trafaria,
Ao entardecer com os navios parados,
Dá-me um fanico na fotografia
Que dela tenho sob as sardinheiras
Da minha infância na Graça.

Fico assim parado, no rodapé da alma,
Como se lesse, ao mesmo tempo dois poetas,
E fico na dúvida se estou a olhar Lisboa
ou se ela, como eu, lê selectas.

(É o vinho que faz ver dois, é certo,
mais o bagaço na taberna da Maluca.
Vai pelo mundo um desconcerto
Que co a lírica debaixo do braço
Vou a correr para a baiuca).


Nunes da Rocha, in "Cancioneiro da Trafaria" & etc, 2009

JACQUES PRÉVERT

A mulher pode seduzir de duas formas: ou olhando os olhos do outro, ou olhando os lábios do outro. Se olhar os olhos a sedução é lenta, se olhar os lábios a sedução é rápida. Entre o olhar nos olhos, e a nudez, a distância temporal é maior.
Entre a nudez mútua e a fornicação (também mútua) pode ocorrer um intervalo de seis dias, se as duas pessoas em questão forem envergonhadas e hesitantes. Seis dias são suficientes para dar doze voltas ao mundo, porém, por vezes, um órgão demora esse tempo a chegar ao destino amoroso.
O mundo só não é desequilibrado e surpreendente nos gráficos da administração central.

Gonçalo M. Tavares, n "Biblioteca" campo das letras, 2004

II. COISAS RARAS

Entre as coisas que são raras, acrescentaria um livro bem corrigido.
Um Homem que esquece o olhar dos outros homens.
Uma pinça de depilar que depila.
Persianas nas janelas que não deixem passa a luz do dia.

VII. DIFERENTES ESPÉCIES DE MULHERES

As mulheres que acham tudo admirável, fabuloso, fantástico são detestáveis.
As mulheres que acham tudo mesquinho, medíocre, estúpido, nulo, sem gosto são detestáveis.

XIV. COISAS QUE ENVERGONHAM

Entrar no quarto do marido, na ala ocidental do palácio, e vê-lo nu a quatro patas, na cama, rodeado dos seus pequenos lacaios, todos numa azáfama a aplicar-lhe pomadas, água fria, panos, unguentos — com o braseiro aceso em pleno verão — e o pequeno massagista a depilar-lhe o cu e o púbis à excepção do escroto.

XX. NOITES DE FOME

Então as noites sem pelo menos três orgasmos parecia-nos noites de fome.

XXXII. DESCOBERTA

Não gosto de fazer amor durante a primeira sesta.

CLVI. OS ORIFÍCIOS DO CORPO

Parece-me que os nove orifícios do meu corpo se abrem inutilmente. Devem sem dúvida ter começado a tomar consciência de que estão abertos para o vazio. Os meus nove orifícios começaram a dialogar com o silêncio da morte.


Pascal Quignard, in "As tábuas de buxo de Apronenia Avitia" cotovia, 1999
trad. Ernesto Sampaio

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Bonnie Prince Billy [ Beware! ] 2009




Joseph Green [ The Brain That Wouldn't Die ] 1962

CHEIRO DE LARANJEIRAS

Será alguém um dia
levado a pensar em mim
pelo cheiro de laranjeiras
quando eu também já for
«alguém há muito tempo»?


Shunzei, in "Rosa do mundo" assírio & alvim, 2001
trad. Stephen Reckert

«O final dos finais, meus senhores: o melhor é não fazer nada! O melhor é uma inércia consciente! Por isso, viva o subterrâneo! Embora eu tenha dito que sofro de uma inveja biliosa pelo homem normal, não gostaria de ser ele nas condições em que o vejo (embora não deixe de o invejar. Não e não, aconteça o que acontecer, o subterrâneo é mais vantajoso!). Lá, pelo menos, pode-se… Eh, lá estou eu outra vez a mentir! Minto porque sei, como dois mais dois serem quatro, que não é o subterrâneo que é melhor, mas qualquer outra coisa, completamente outra, a que eu aspiro mas nunca mais encontro! O subterrâneo para o raio que o parta!»

Fiódor Dostoiévski, in "Cadernos do subterrâneo" assírio & alvim, 2000
trad. Nina Guerra e Filipe Guerra

pintura de Wassilij Grigorjewitsch Perow, 1872

CAFÉ

Era um espaço construído de olhares e de ruídos.
Antigo.
Delimitado pelo casulo da menina da tabacaria, com postigo para a rua, e o guarda-vento que lhe defendia a privacidade de gueto masculino.
As mesas dispunha-se ao longo das paredes.
Sublinhadas por fotografias desactualizadas, em conflito com a modernidade dos autocolantes.
Mesas privadas, e de vítima.
Infinitamente repetidas nos espelhos, que as devolviam aos interessados.
Tinha residentes:
o cauteleiro, que apregoava a felicidade avulsa, e um engraxador, de fato-macaco e sapatos cansados de mostrarem o brilho disponível dos seus gestos.
Sempre que podia, fazia-se ouvir com uma tira de pano de bilhar.
Afirmava-se, interrompendo as conversas dos senhores:
o médico, o advogado, o gerente do banco, o rico e o informador.
Também havia um artista.
Cafés sombrios e delatores, da Beira.
Ou catedrais de lavradores, como os de Évora, em dia de são porco.
Cresci neles, com uma onça de tabaco e um caderno, autorizado por um café de saco.
Nem todos foram pervertidos em bancos, ou travestidos em lugares de culto.
Mas entre as saudades do cheiro e do espaço, pondero a maldade e a arrogância da frequência.

Jorge Fallorca, in "Longe do Mundo" frenesi, 2004
ilust. João Rodrigues

E perguntei-te se também morrias.
E tu disseste: «Sim».
E eu disse-te: «Que vai ser de mim?»
E tu disseste que nesse momento já seria crescido.
E eu disse-te: «Não vejo a relação».
E tu disseste que sim, que havia uma relação.
E eu disse: «Bom».
E tu disseste que todos nós tínhamos de morrer.
E eu perguntei-te se para sempre.
E tu respondeste : «Sim».
E eu disse-te: «Então, e o céu como é?»
E tu disseste que isso era depois.

Sim.

E eu disse que havia de levar-te flores.
E tu perguntaste-me: «Quando?»
E eu respondi: «Quando morreres».
E tu fizeste: «Ah!»
E eu disse que havia de levar-te flores, e disse também: «Papoilas».
E tu disseste-me que era melhor não pensar nisso.
E eu disse-te: «Porquê?»
E tu disseste-me: «Porque sim».
E eu disse: «Bom». E depois perguntei-te se nos íamos encontrar no céu mais tarde.
E tu respondeste-me: «Sim».
E eu disse: «Ainda bem».

Sim.

E depois perguntei-te quem a tinha inventado.
E tu disseste: «Inventado o quê?»
E eu disse: «Essa história da morte».
E tu disseste: «Ninguém».
E eu disse: «E o resto?»
E tu disseste: «Qual resto?»
E eu disse: «Essa história do céu».
E tu disseste: «Ninguém».
E eu disse-te: «É boa». E disse-te ainda: «Pois». E depois disse-te: «Quando morreres, faço da tua barriga um tambor».
E tu disseste-me: «Isso não se diz».
E eu disse-te: «É pecado?»
E tu disseste: «Não».


Arrabal, in "Baal Babilónia" estampa, 1977
trad. Ernesto Sampaio

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The Whitest Boy Alive [ Rules ] Bubbles Records, 2009

viagens…


Inspirado pela paixão do seu filho pela banda desenhada e pelos filmes de animação japoneses, Peter Carey decide organizar uma viagem ao Japão com Charley, de 12 anos.
Os dois peregrinos vão explorar personagens, num roteiro difícil de adivinhar. Procurando entender os significados mais profundos da manga e do anime, irão também tentar desvendar, muitas vezes com efeitos caricatos, o sentido do "verdadeiro Japão".
De Manhattan até Tóquio, do Comodoro Perry até Godzilla, do teatro Kabuki até à obsessão pelos robôs, O Japão é Um Lugar Estranho eterniza as memórias de uma viagem pessoal, rica e divertida, onde se explora o contraste entre duas culturas radicalmente diferentes, mas também uma relação comovente entre pai e filho.

«Estava com o meu filho de doze anos no clube de vídeo, quando ele alugou O Verão do Kikujiro, um filme japonês com um tipo muito duro e um miúdo, onde a encantadora personagem do rufia cheio de tiques é representada pelo actor Beat Takeshi. Como poderia eu saber naquela altura aonde aquilo nos iria levar?
Nas semanas seguintes, Charley alugou O Verão do Kikujiro várias vezes e, embora estivesse com ele quando isso aconteceu, eu não fazia a mais pequena ideia do modo como ele viria a ser profundamente afectado pelo filme até ao dia em que ele me disse, calmamente, en passant: «Quando for grande vou viver para Tóquio».»


Peter Carey "O Japão é um lugar estranho" tinta da china, 2009
trad. Carlos Vaz Marques

FAZ FALTA SER CEGO

Faz falta ser cego,
ter como metidas nos olhos raspaduras de vidros,
cal viva,
areia a ferver,
para não ver a luz que salta em nossos actos,
que ilumina por dentro a nossa língua,
a nossa palavra quotidiana.

Faz falta querer morrer sem lápide de glória e alegria,
sem participação nos hinos futuros,
sem lembrança nos homens que julguem o passado sombrio da Terra.

Faz falta querer já na vida ser passado,
obstáculo sangrento,
coisa morta, esquecimento seco.


Rafael Alberti, in " Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea" assírio & alvim, 1985
trad. José Bento

«(...) — Verifica-se que a reflexão, no seio do mundo orgânico, é inversamente proporcional à graça: quanto mais fraca aquela é, mais esta irradia e domina. O mesmo se dá com duas curvas que, passando de ambos os lados de um ponto, se cortam no infinito; ou com a imagem de um espelho côncavo que repentinamente se faz real depois de ter atingido o infinito; também assim a graça ressurge depois do conhecimento atravessar, digamos, um infinito; e da mais pura forma ela se mostra, quer no corpo humano desprovido de consciência, quer no corpo que tenha uma, infinita, querendo eu dizer no fantoche articulado ou em Deus.
— Dessa forma — respondi um tanto perplexo — seria necessário voltarmos a provar o fruto do conhecimento para recuperarmos o estado de inocência.
— Com certeza absoluta — respondeu — E será esse o derradeiro capítulo da história do mundo.»

Heinrich Von Kleist, in "As Marionetas" hiena, 1988
trad. Luís Bruhein e Aníbal Fernandes

HEINRICH VON KLEIST

Desceu do cavalo apressado com mais pressa do que o cavalo e antes d o seu pé tocar no chão já as suas mãos tocavam no chão, rebolou, pois, como fazem os ginastas, e quando tinha a cabeça virada para a terra arrancou uma flor que no momento em que a sua cabeça estava já virada para o céu foi oferecida a uma mulher que o esperava há três horas. Para um homem tão rápido a agir, só uma mulher muito paciente.
Entenderam-se. Foram felizes para sempre. Mas o para sempre do cavalheiro Kleist era rapidíssimo. Quase nada. Muito.

Gonçalo M. Tavares, in "Biblioteca" campo das letras, 2004

Iluminações descontínuas
Surrealismo actual


A Exposição que se apresenta – Exposição de Surrealismo actual “Iluminações Descontinuas – pretende ser a expressão múltipla da continuidade do Movimento Histórico criado por Breton e constituído em torno da sua pessoa, e em relação com ele a partir de diversos pontos do planeta até à sua morte em 1966. Ela tem em linha de conta a dissolução do Grupo de Paris em Outubro de 1969 por alguns dos seus membros constituintes, sem desprezar as contribuições internacionais historicamente convergentes com o Movimento Phases de Edouard Jaguer (1924-2006), cobra ou os Automatistas canadianos. Trata-se antes de uma expressão múltipla, incessante, dinâmica e continuadora do Movimento Histórico criado por Breton, com contribuições a uma realidade possível (à margem do historicismo), conservando as linhas de força essenciais da poesia, do amor e da liberdade nas suas diversas formas de expressão ainda que tendem nas múltiplas praticas do acaso objectivo e do automatismo, da revolta e da busca do maravilhoso.

Patente na Sala de Exposições Temporárias Manuel Gambôa, no Convento de S. José, em Lagoa, de 17 de Janeiro a 28 de Fevereiro de 2009.


Realização: Cristina Sampaio
Argumento: João Paulo Cotrim
Animação: Ana Nunes
Som: José Condeixa

BATATAS. PESCOÇO. SALSA. ETC.

à mesa do restaurante a facilidade da revolução com granadas nos pratos. o Fagundes exaltou-se e empurrou a roupa: todo sujo de nomes decorado de sustos. alguém gritou: a sopa está acesa e o estilo do universo não presta. o povo que diga. o povo que meta. entretanto
o Juca empernava com a Micas por baixo da mesa e bebia mais nuvens com cornos no copo. talvez mais manteiga. talvez mais pimenta. a Micas que diga. a Micas que meta. talvez mais salada. talvez mais armas. depois ela ardia uma sacana na testa.
a fome era muita. a revolução incerta. e repetimos as batatas e a maldade da metralhadora muito quente na travessa. e a gente insistia. o povo que diga. o povo que meta. então
pedimos uma guerrilha com azeitonas e cegas luas em lata. acerta altura
comi um país na ponta do garfo. porra era fácil e havia o direito! mas não quis mais santos decapitados nem assombros de vacas. em seguida
contei o meu tempero da revolução à malta. e pus o paraíso no pescoço cortado para não me sujar no retrato.
o povo que diga. o povo que meta.

E HAVIA OS BOIS DA BATALHA DE ALJUBEARROTA COM A MÃE SATISFACTA À JANELA MORTA E O GAJO PATRIÓTICU SEMPRE A DESPIR A NOIVA SANTA. CLARO QUE TAMBÉM A MALTA COM OUTRA BANDEIRA DA PÁ!TRIA E O GRI GRI DO ASPIRADOR A CATAGRUAR A GRETA.

pronto: fiquei eterno de camisa e suspeito de salsa.


António Aragão, in "PÁTRIA. COUVES. DEUS. ETC." & etc, 1982

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Andrew Bird [ Noble Beast ] fat possum, 2009

SE O HOMEM PUDESSE DIZER

Se o homem pudesse dizer o que ama,
se o homem pudesse levantar ao seu o seu amor
Como nuvem na luz;
Se, quais muros que se derrubam,
Para saudar a verdade erguida entre eles,
Pudesse derrubar o seu corpo, deixando só a verdade do seu amor,
A verdade de si mesmo.
Que não se chama glória, fortuna ou ambição,
Mas amor ou desejo,
Eu seria o que imaginava;
O que com sua língua, seus olhos, suas mãos
Proclama ante os homens a verdade ignorada,
A verdade do seu amor verdadeiro.

Liberdade não conheço senão a liberdade de estar preso a alguém
Cujo nome não posso ouvir sem calafrios;
Alguém por quem me esqueço desta existência mesquinha,
Por quem o dia e a noite são para mim o que ele queira,
E meu corpo e espirito flutuam em seu corpo e espirito
Como troncos perdidos que o mar afoga ou ergue
Livremente, com a liberdade do amor,
A única liberdade que me exalta,
A única liberdade por que morro.

Tu justificas minha existência:
Se não te conheço, não vivi jamais;
Se morro sem conhecer-te, não morro, porque não vivi nunca.


Luis Cernuda, in "Antologia da Poesia espanhola contemporanea" assírio & alvim, 1985
trad. José Bento

Entre as pessoas que exercem profissões humildes, entre o instalador de tochas, o encantador de bócios, o apagador de ruídos, por encanto pessoal e da sua ocupação sobressai o Pastor de Água.
O Pastor de Água assobia a uma fonte, e lá sai ela do leito para ir atrás dele. Vai atrás dele e engrossa com a passagem de outras águas.
Às vezes o pastor prefere manter o riacho tal qual é, de pequenas dimensões, só colectando aqui e além o necessário para não se extinguir, tendo cuidado, sobretudo, quando passa por terrenos arenosos.
Vi um destes pastores — eu não o largava, fascinado — que a si próprio e só com um ribeiro de nada, com um fio de água tão largo como uma meda de palha, deu o prazer de atravessar um grande e taciturno rio. Como as águas se não misturavam, apanhou na outra margem o seu ribeiro intacto.
Proeza que não é para o primeiro ribeirador que apareça. As águas iriam num instante misturar-se e ele teria de procurar noutro lado uma nova fonte.
De qualquer modo, uma corrente de rio necessariamente terá de sumir-se mas sobrará quanto baste para dar banho a um pastor ou encher um fosso vazio.
Mas que ele não demore pois, muito enfraquecida, ela está prestes a morrer. É uma água «passada».


Não é assim tão raro encontrar-se um velho de há seiscentos anos, o que aliás causa uma impressão bastante desfavorável.
Se por má sorte ou maldade lhe dermos um encontrão, é de mais para as suas forças de reacção e cai desfeito em pó, pó fino e de muito leve mau cheiro; só continuava vivo por uma derradeira brasa de vontade. É grande espanto encontra-se alguém acabado de morrer.
Para falar a verdade só vi um, a quem se davam quatrocentos anos bem contados, e apenas lá cheguei duas horas depois do acidente, quando já estava tão confuso e a pouco reduzido o que apanharam dele , que mal chegava para encher um alforge, pondo de parte os ossos do tórax. Só os pulmões e o coração se mantinham moles. Aliás, um supervelho que respirava onde mais ninguém encontraria ar. Mas desde há muito renunciara à digestão, contentando-se com banhos leves exteriores, alimentares.


O Estômago (a provincia-estômago) foi usada contra inimigos chegados do oeste. Mais do que invasores propriamente ditos, parece que eram indígenas das montanhas hoje desaparecidos.
Ao descerem à planície, estes homens das montanhas tiveram que atravessar um ribeiro. Ficaram com os pés digeridos. Mais adiante aguentaram uma chuvada muito forte que logo se atirou a eles e roeu as carnes e roupas.
Toda a região à sua frente se transformou em estômago: é esta a verdade.
O ar húmido devorava-os. A pele ia-se em grandes bocados e a carne, por baixo, depressa desaparecia. Até o pó que levantavam estava contra eles. Misturado com o suor, atacava-os. Comidos, não por uma lepra mas cruéis sucos de Estômago, quase todos pereceram.


Henri Michaux, in "No País da Magia" hiena, 1987
trad. Aníbal Fernandes


não chamem logo as funerárias,
cortem-me as veias dos pulsos pra que me saibam bem morto,
medo? só que o sangue vibre ainda na garganta
e qualquer mão e meia me encha de terra a boca,
sei de quem se tenha erguido, de pura respiração, do fundo da madeira,
saibro, roupa, gôtas de orvalho ou cêra,
ornatos, espadanas, lágrimas,
últimas musicas,
não é como no escuro o trigo que ressuscita,
sei sim de quem despedaçou as tábuas e ficou entre caos e nada com o sangue alvoraçado nos braços e nas têmporas,
que se não pare nunca entre as matérias intransponíveis,
cortem-me cerce o sangue fresco,
que a terra me não côma vivo,

[excerto]

Herberto Helder, in “Ofício cantante – poesia completa” assírio & alvim, 2009

escutar...



Betty Page — danger girl