«O sujeito não pertence ao mundo,
mas é um limite do mundo.
Tu dizes que aqui é mesmo assim como
com o olho e o campo de visão.
Mas o olho na realidade não o vês.
E nada no campo de visão faz pensar
que ele seja visto por um olho.»

Ludwig Wittgenstein

FIDELIDADE

Porquê não se sabe ainda
mas ainda aos que amam o poeta porque ele lhes dá o livro do não trabalho
e diz cor-de-rosa diante de toda a gente
mas lhe lêem o livro só nas férias
(entre trabalho e trabalho)
e à noite vão a casas dizer cor-de-rosa em segredo a esses e ainda
aos que estudaram o problema tão a fundo
que saíram pelo outro lado
e armaram um quintal novo para as galinhas do poeta porem ovos
e disseram ao poeta estas são as nossas galinhas que tu nos deste
se elas não põem os ovos que amamos
matamos-te
e então o poeta vai e mata ele as galinhas
as suas belas galinhas de ovos de oiro
porque se transformaram em malinhas torpes
em tristes bichas operárias que cheiram a coelho

a esses e ainda
aos realmente explorados
aos realmente montes de trabalho
ou nem isso só rios
só folhas na árvore cheia do método árvore


Mário Cesariny, in “Pena Capital” assírio & alvim, 2004


LUKAS KANDL

L' ecrin pour la Femme

Extase

Rencontre avec l' animal chimérique

Agneau Mystique


SERVIÇO DE ABASTECIMENTO DA PALAVRA AO PAÍS

Vieram ter comigo dos lados do mar. Eram três, eram três mil. Vi que era pão que procuravam ou que não era pão que procuravam. Pus-me a distribuir por eles as minhas palavras: árvore, pássaro, mar, criança, rapariga, mulher. A cada palavra minha eu ia-me esvaziando. Era a vida, a minha vida que se me ia. Eles ficavam incendiados. Nunca tinham pensado que se pudesse comunicar assim coisas próprias. Vieram mais, muitos mais dos lados do mar. Disse-lhes: morte, Deus. E caí redondo no chão. Naquele dia ficou instituído o Serviço de abastecimento da palavra ao país. Ainda vieram ter comigo, dizendo para eu arranjar outra designação, que aquelas iniciais não podiam ser. Mas eu já habitava plenamente a minha morte, meu planeta desde tenra idade.

Ruy Belo, in "Sião" frenesi, 1987

imagem de Selçuk Demirel
Hundertwasser [ lágrimas para Egon Schiele ] 1965

1 de Maio de 1912

Sonhei com Trieste, com o mar, com os grandes espaços abertos. Desejo, sinto um desejo torturante. Para me consular, pintei um barco de cores vivas, bojudo como os que balançam no Adriático. Com ele, no meu desejo e no meu sonho, pude fazer-me ao mar e ir à vela até às ilhas longínquas onde pássaros semelhantes a jóias esvoaçam livremente e cantam por entre árvores fabulolas. Oh! Mar!

Egon Schiele, in "diário da prisão" litoral edições, 1987
Jean Vigo [ Zéro de conduite ] 1933



Em «zero de conduite» existem dois mundos, caracterizados de forma distinta, representados por seres e atitudes típicas, que se regem por regras próprias e que se opõem e combatem. Há, pois, uma clara intenção de apresentar no microcosmos de um internato a divisão que, no macrocosmos da sociedade, opõe social, política e ideologicamente as classes. De um lado encontramos as crianças, a cozinheira, o empregado do café Huguet, que é o único adulto que se integra perfeita e activamente no mundo das crianças, relação que é sublinhada pela citação expressa, por imitação do próprio Huguet, da figura de Chaplin e, por consequência, do seu cinema. Todos os personagens que constituem esta «classe» são apresentados num estilo realista que realça as sua características «populares» e os identifica imediatamente com os seres que tipificam: nem bonitos nem feios, nem bons nem maus, nem heróis nem miseráveis, mas um pouco disso tudo; seres «normais», idênticos aos que se podem encontrar em todos os colégios ou vilas de província ou, se quisermos ir mais longe, em todo o vasto campo social dos oprimidos. Nas crianças, aliás, é essa caracterização realista que contribui decisivamente para a autenticidade que elas transportam ao longo e todo o filme e que impede e afasta de modo inequívoco qualquer idílica ilusão acerca de um mundo infantil pretensamente «cor-de-rosa», puro, bom, inocente e cândido. Do outro lado, os adultos, os professores, os vigilantes e outras entidades (padre, bombeiros, prefeito, etc), que representam o poder, a autoridade e a ideologia da classe dominante, são apresentados e caracterizados de uma forma acentuadamente estelizada em que desde as figuras físicas, a sua forma de andar e de falar, os seus tiques e gestos, até ao comportamento e às próprias roupas e palavras, todo o tratamento é intencionalmente não realista. Ao ponto de, na festa do colégio, VIGO misturar com os adultos simples bonecos vestidos a rigor. Essa forma estilisticamente diferente tratar os dois mundos não faz mais do que destacar com admirável ironia e aguda lucidez, na própria imagem, as características de cada um deles: a naturalidade, a frescura, a simplicidade, a alegria, a humanidade e os sentimentos profundos de liberdade e revolta, da amizade e solidariedade no «mundo popular»; a hipocrisia, a sordidez, a mesquinhez, a desumanidade, a injustiça autoritária e a autoridade injusta, a deformação mental e física, o ridículo do «mundo burguês».

Luís Filipe Rocha, in "Jean Vigo" afrontamento, 1981

«Enquanto me for possível empurrar as palavras contra a força do mundo, esse poder será tremendo, pois quem constrói prisões expressa-se sempre pior do que quem se bate pela liberdade.»

Stig Dagerman

imagem de Gustave Doré

TU E EU

Tu enches os meus pensamentos
Dia após dia;
Saúdo-te na solidão
Fora do mundo;
Tu tomaste posse
Da minha vida e da minha morte.

Como o sol ao nascer
A minha alma contempla-te
Com um único olhar.
És como o alto céu,
Eu sou como o mar infinito
Com a lua cheia no meio;
Estás sempre em paz,
Eu estou sempre inquieto,
Embora no horizonte distante
Nos encontremos sempre.


Rabindranath Tagore, in “poesia” assírio & alvim, 2004

imagem de Greg Spalenka

Giorgio de Chirico [ Guillaume Apollinaire ] 1914

[ Mastermind ] GONZALES



Crente é pouco sê-te DEUS
e para o nada que é tudo
inventa caminhos teus.

Agostinho da Silva, in "poemas de agostinho" ulmeiro, 1990

«Quem escorrega também cai»




ilustração de Miguel Rocha, in ""salazar, agora na hora da sua morte" parceria a. m. pereira, 2006

O meu coração desce,
Um balão apagado…
- melhor fora que ardesse,
Nas trevas, incendiado.

Na bruma fastidienta,
Como um caixão à cova
- porque antes não rebenta
De dor violenta e nova?!

Que apego ainda sustém?
Átomo miserando…
- se o esmagasse o trem
Dum comboio arquejando!...

O inane, vil despojo
Da alma egoísta e fraca!
Trouxesse-o o mar de rojo,
Levasse-o na ressaca.


Camilo Pessanha, in “clepsydra” assírio & alvim, 2003
imagem de João Abel Manta

coisas... que ficam no ouvido



peter bjorn and john

Pierre et Gilles



SINES 28/07/07



NEM SEMPRE

Nem sempre amamos
com palavras vorazes.

Beijei-te uma vez no mar
porque precisava de silêncio
e tu julgaste em outros beijos
de emudecer o mesmo gosto.

E quando na boca o tempo
murchou as flores,
morremos sem mostrar
contentamento.


Paulo Jorge Fidalgo, in "síntese poética da conjuntura" hiena, 1993

imagem de Lorenzo Mattotti

coisas...

[ algures em moscovo ] 1915

[ marcel duchamp ] 1917
Salvador Dali, 1983


«E enquanto o velho artista, em cima de um escadote, lutava pela expressão justa da cara à luz da lua que tinha nascido e guiava o seu escopro, a Mariazinha mostrava-me a sua vivenda, desde a cave até ao sótão, e contava-me, com voz baixa, como lhe tinha aparecido um anjo, como escutou o seu conselho e ficou amante de um escavador; com o último dinheiro que tinha comprou uma parcela na floresta, o escavador escavou as bases e dormia com ela numa tenda, depois trocou-o por um pedreiro que dormia com ela e a amava na tenda e construiu todas as paredes, depois Mariazinha arranjou um carpinteiro que lhe fez toda a obra de carpintaria, dormindo com ela já num quarto numa cama, depois também o deixou e arranjou canalizador que dormia com ela na mesma cama como o carpinteiro e lhe fez todas as canalizações, e que, uma vez a obra pronta, foi trocado por um operário que, amando-a sempre na mesma cama, cobriu a casa com telhas de fibrocimento . Esse foi trocado por um estucador que lhe arranjou todas as paredes e todos os tectos, podendo, em recompensa, dormir de noite na sua cama, sendo depois trocado por um marceneiro que lhe fez os móveis, e assim, ajudada pelo amor e uma vontade firme, a Mariazinha construiu esta vivenda e ainda por cima arranjou um artista que a ama com uma amor platónico e, continuado a obra de Deus, a esculpe sob a aparência de um anjo.»

Bohumil Hrabal, in "uma solidão demasiado ruidosa" afrontamento, 1992

Ó vós, sábios. Cuja ciência é elevada e profunda
Vós, que meditastes e que sabeis
onde, quando e como tudo se une?
Para que são todos esses amores, esses beijos?
Vós, sublimes sábios, dizei-mo!
Dizei-me o que me sucedeu.
Dizei-me onde, quando e como
me sucedeu semelhante coisa?

Gottfried Bürger

imagem de Selçuk Demirel

CADAVRE EXQUIS II [53]


Era um livro de brincar no sempre máximo que faria com que a mulher nunca se sonhasse como coisa concreta a ser sonhada.
É casado ou solteiro?" - perguntou a velha. E encostada a um canto, a caixa preta do violino. está multiplicada
Quando porém a linha entortava, quebrando-se em segmentos moles e irregulares, eu era presa de um sofrimento atroz, que só posso fazer equivaler a algo como o peso total da Terra em cima de mim.
E quando forem linhas, ainda que em nós persista a vontade de perceber,
alguém tem de estar lá.
Caramba, só vou bicar à volta da casa; há uma data de minhocas saborosas debaixo do alpendre, disse o filho Jim... E precipitámo-nos na noite.
Aquilo que estava dentro da caixa era a grande ideia de Imaduddin sobre o destino dos muçulmanos de língua malaia, o seu desejo de completar o processo de conversão que a Europa travara durante séculos e, por último, de hastear a bandeira do islão nesta fronteira do Extremo Oriente da fé. Numa ocasião, um desses clientes enganou-se na morada e chegou ao sexto andar ofegante, a transpirar, mas ainda conseguiu sorrir quando a catalã lhe abriu a porta. Fica situada numa depressão entre duas colinas, próxima de um brejo terreno, misturado de turfa, possui (segundo diz) todas as qualidades necessárias para embalsamar os cadáveres aí sepultados.
We continue our discussion with the 3x3 submatrix of the Clebsch-Gordon matrix (Table 2.1). Não há máculas na minha vida. In the room, nothing else moves.
É desses que eu gosto. Como ele contava, não tinha nenhuma ligação especial com a comunidade dos seus compatriotas de lá, mas também quase nenhum contacto social com as famílias locais, e preparava-se para levar definitivamente uma vida de solteiro. O próprio Hitler era a favor de um edificio monumental de grande volume projectado por Heinrich Wolff, director do departamento de construção do Reichsbank.
La terra lagrimosa diede vento, che balenò una luce vermiglia la qual mi vinse ciascun sentimento; e caddi come l'uom cui sonno piglia. A mulher estava com vontade de falar. Under the Taliban, widows cautiously negotiate the streets of Kabul, shrouded in the anonymity of the all-encompassing burqa; many beg, relying on the kindness of strangers to feed their children.
Achei-o muito simpático comigo e pensei que era um momento bem agradável. I wrapped up the old phone in the scarf that Grandma was never able to finish because of my privacy, and i put that in a grocery bag, and i put that in a box, and i put that in another box, and i put that under a bunch of stuff in my closet, like my jewelry workbench and albums of foreign currencies.
Rui, não hás-de compreender, por dúzias de anos que dures, que o fecho do soutien é para o outro lado que abre.
Um tão maciço desencanto em relação à estrutura de crenças subjacente à união soviética não podia ter ocorrido do dia para a noite, sugerindo que, como sistema, o totalitarismo fracassara bem antes dos anos 80. De facto, o princípio do fim do totalitarismo data já, do período que se seguiu à morte de Estaline, em 1953, quando o regime pôs termo ao uso indiscriminado do terror. Removing all cues, from the outside, the voices of the inner state become louder, clearer.
Os deuses não dançam (os mortais sabem-no bem), mas podemos falar uns com os outros. Mas em que língua? Quando compra uma tenda «três estações» mal se apercebe de que as estações referidas são apenas o princípio do Verão, o meio do Verão e o fim do Verão.
chaque jour elle nourrissait des envies de vengeance, écrasait des colonnes de fourmis, arrachait les ailes de mouches,assouvissait sa rage sur tout ce qui était aussi vulnérable, aussi méprisé qu'elle. Por isso, segundo a minha definição, é uma teoria morta porque só mantém monólogos consigo mesma. E, a seguir, identifica a origem (que lhe parece, aliás, pouco recomendável) destas considerações contra a razão técnica: Heidegger, sobre quem Poggeler, de resto, muito escreveu.
Bob, s. pêndulo, flutuador de linha de pesca; aceno, cortesia; corte curto de cabelo para criança ou mulher. (coloq. ingl.) xelim. v.t. e v.i bater de leve; balançar-se; cortar o cabelo curto; To bob up and down, saltar. É um bonito homem, nutrido, com um longo bigode macio, e vestido com esmero: os sapatos sempre engraxados, os colarinhos engomados pela mão da mulher, um espelho. E faz a barba dia sim ,dia não, vai ao barbeiro. Em primeiro lugar, a lagarta alimenta-se de solanina e daturina, dois alcalóides vegetais aparentados com a morfina mas de igual modo muito próximos dos venenos cadavéricos, como as ptomaínas e as leucomaínas. Entre outros aromas, estes venenos exalam o do jasmim, da rosa e do almíscar. Stillman especulava que ele pudesse ter viajado para o Oeste, vagueando por territorio selvagem, mas não foi encontrada nenhuma prova que apoiasse esta teoria.
This was also the case in medieval Western culture, and the church-modes used in Gregorian chant all have this same relationship to the tonic.


Resultado do segundo cadavre exquis no qual participaram 37 pessoas, lembro que no primeiro tinham participado 16. obrigado a todos os que participaram...

imagem encontrada aqui

BILHETE DE COMBOIO

De cartão duro, com o destino
e a hora de chegada bem vincados.
Imune aos enganos do computador,
às dedadas vigilantes do revisor,
meu destino será permanecer,
e um dia despertar, no meio de um livro.

Célere, percorremos a plataforma,
a rapidez do lince, o amor
a salvo da armadilha.

Vamos regressar aos campanários,
à eira, às descidas semanais
ao café para comprar o jornal.

Sei que nos primeiros meses
nada vai existir a não ser
o corpo dela
rodado, projectado
no écran da memória;

mas também sei que a vida
quase sempre se esconde
daqueles que a amam
com talento dissipador.


Jorge Gomes Miranda, in "o acidente" assírio & alvim, 2007

Para alguns talvez faça pouco sentido constituir uma colecção da «poesia alentejana» de Al Berto. Trata-se, na aparência, de uma tarefa redundante e desnecessária, uma vez que a quase totalidade dos textos literários do autor de "O Medo" se situam no Alentejo — Sines, Vila Nova de Milfontes, São Torpes. Para outros talvez faça ainda menos sentido regionalizar a obra do «aprendiz de viajante», retalhando, pelo despotismo da geografia, um corpo poético eminentemente universal. Talvez. Ou talvez não. A Associação dos Municípios do Baixo Alentejo e do Alentejo Litoral, através do jornal Diário do Alentejo, a Assírio & Alvim, a Longitude Zero Associação e o Centro Cultural Emmerico Nunes sentiram necessidade de homenagear Al Berto, por ocasião dos dez anos da sua morte. Sentiram urgência em celebrar o poeta refixando as suas próprias palavras. Sentiram, afinal, precisão de regressar. De regressar ao mar, tornando ao sudoeste, ao mar de leva, seguindo os desertos e as cidades e anotando no jornal desta breve viagem algumas geografias assumidas por Al Berto. Ao Sul. No Alentejo.

in "degredo no sul" assírio & alvim, 2007

Luis Buñuel [ Un chien andalou ] 1929

CADAVRE EXQUIS II


de novo o desafio ...

— abrir o último livro que leu, ou que está a ler na página 53

— copiar a última frase completa

— "postar" aqui

... depois é só esperar o resultado

NO SILÊNCIO DOS JARDINS

Se um dia regressares, a terra estremecerá na memória de tua ausência. E a água formará um vasto oceano no outro lado do teu olhar.
Regressarás, talvez, quando o ar se tornar rubro em redor do meu sono — e o lume das horas, a pouco e pouco, saciar a boca que clama pelo teu nome.
Encontrar-nos-emos nas imagens deste jardim de afectos e ódios. Porque os jardins são labirínticas arquitecturas mentais, onde podemos resguardar os corpos de qualquer voragem do tempo.
Por isso, enquanto não regressas, construo jardins de areia e cinza, jardins de água e fogo, jardins de minerais e de cassiopeias — mas todos abandono à invasão do tempo e da melancolia.
Mas se um dia regressares, passeia-te por dentro do meu corpo. Descobrirás o segredo deste jardim interior — cuja obscuridade e penumbras guardaram intacto o nocturno coração.


Al Berto, in "dispersos" assírio & alvim, 2007

fotografia de Nuno Cera

ION BIRCH

[ young love ] 2006

[ everybody wants to be my baby ] 2006

[ mirage ] 2006

«Em todo o lado me perguntam se eu acho que as universidades sufocam potenciais escritores. A minha opinião é que elas não sufocam o número suficiente. Há por aí muitos best-sellers que poderiam ter sido evitados por um bom professor.»

Flannery O' Connor



Oh why was I born with a different face
Why was I not born like the rest of my race
When I look each one starts
When I speak, I offend
Then I'm silent and passive and lose every friend
Improvement makes straight roads
But the crooked roads without improvement
Are roads of genius
I went to the Garden of Love
And saw what I had never seen
A chapel was built in the midst
Where I used to play on the green
And the gates of this chapel were shut
And "Thou Shalt Not" writ over the door
So I turned to the Garden Of Love
That so many sweet flowers bore
And I saw it was filled with graves
And thombstones where flowers should be
And priests in black gowns were walking their rounds
And binding with briars, my joys and desires
(...)

William Blake

COPO

Não gosto de mesas de vozes em série,
nem de brindar à saúde de quem não conheço.
À semelhança deste homem que circunspecto
assiste, prefiro o silêncio das salas vazias.

Depois de o prato, a faca, a colher
e o garfo terem sido removidos da mesa,
ficamos sós com as nossas memórias,
trespassados pela luz
de uma lâmpada de sessenta watts
que de súbito emudece.

Na margem de um estremecimento
acende outro cigarro.
Nos vidros a chuva vigia.


Jorge Gomes Miranda, in "o acidente" assírio & alvim, 2007

DAVID FOLDVARI






www.davidfoldvari.co.uk

IRMÃOS DOGMA


Dear Wendy foi escrito por Lars Von Trier e realizado por Thomas Vinterberg em 2005 e chega esta semana às nossas salas, é o regresso de Vinterberg ao grande ecrã e é também a sua segunda longa metragem em língua inglesa depois de "O amor é tudo" 2003.
Lembro que Thomas Vinterberg e Lars Von Trier foram fundadores do movimento DOGMA'95 em 1995, o seu filme de maior sucesso foi "A festa" 1998, galardoado com o prémio especial do Júri de Cannes (1998), o prémio Fassbinder no European Film Awards (1998), sete Robert Awards (1998) e três Bodil Awards.


A MORAL CERTA

Esperas pela moral certa como na estação de comboios o amante pela amada. Mas o comboio atrasa-se e começas a ficar nervoso. Olhas para o relógio uma e outra vez e depois para a linha vazia, e se fores de tal forma impaciente, em pouco tempo desistirás, não do amor, mas daquela mulher. E tentarás, então, se possível, logo nos minutos seguintes, encontrar uma outra companheira — quem sabe —, uma das que, estando no cais, também não tolere, nem mais um minuto, a espera.
Encontrarás, então, certamente uma mulher pior, que te deixará a vida mais desfeita e irreversível, mas tal é compensado longamente — pensas tu — pela rapidez com que deixaste de estar só.

PARA LER, REPETINDO OS MOVIMENTOS

Da mão direita à outra do mesmo homem vai por vezes uma distância obscura. Não se trata de uma parte esconder intenções ou até acções. É outra coisa.
Quando, para receberes alguém, abres os braços, a referida distância aumenta e a mão, em cada ponta, assinala um certo modo com que o teu corpo se dispersa. Quando o abraço se concretiza e nas costas do outro as mãos finalmente se reencontram, formalizam um símbolo ao mesmo desolador e esperançoso: é que só nas costas do outro as tuas duas partes se unem com uma energia digna de admiração. Experimenta, sem outro corpo no meio, unir com força, com violência até, as tuas mãos, e verás o ridículo, perceberás a diferença de intensidade.
Mas por vezes — como bem o sabes — não há outro corpo.

ACASOS

Como se da boca de um louco, há muitos anos desprovido de razão, saísse de súbito uma fórmula verbal capaz de explicar finalmente ao mundo, certos encontros do acaso juntam, definitivamente, e depois de muitos anos de desespero e desencontros, um homem e uma mulher.


Gonçalo M. Tavares, in "breves notas sobre o medo" relógio d'água, 2007