The "Solaris Poem" by Dylan Thomas

And death shall have no dominion.
Dead men naked they shall be one
With the man in the wind and the west moon;
When their bones are picked clean and the clean bones gone,
They shall have stars at elbow and foot;
Though they go mad they shall be sane,
Though they sink through the sea they shall rise again;
Though lovers be lost love shall not;
And death shall have no dominion.

And death shall have no dominion.
Under the windings of the sea
They lying long shall not die windily;
Twisting on racks when sinews give way,
Strapped to a wheel, yet they shall not break;
Faith in their hands shall snap in two,
And the unicorn evils run them through;
Split all ends up they shan't crack;
And death shall have no dominion.

And death shall have no dominion.
No more may gulls cry at their ears
Or waves break loud on the seashores;
Where blew a flower may a flower no more
Lift its head to the blows of the rain;
Though they be mad and dead as nails,
Heads of the characters hammer through daisies;
Break in the sun till the sun breaks down,
And death shall have no dominion.


in, Andrei Tarkovsky [ solyares ] 1972

«Neste volume, reúnem-se as 52 crónicas que, entre 26 de Janeiro de 1996 e 23 de Maio de 1997, publiquei n’O Independente sob o título «Os Melhores Filmes da Nossa Vida». 50 filmes revisitados, um prefácio («O Mais Belo dos Filmes») e um posfácio («Os Gatos Pardos»). Comecei com cães amarelos, acabei com pardos gatos. Cães e gatos serviram-me para explicar o critério desta selecção. Por isso, não perco o meu tempo, nem vos faço perder o vosso, a explicar o que está explicado nesses textos introdutórios e conclusivos. Limito-me a repetir que o pretexto para a selecção foi o centenário do cinema, que chegou a Portugal em 1896.
Para além de pequenas correcções (gralhas, erros meus, leves variantes) tudo ficou como foi publicado há onze ou dez anos. Só mudou a ordenação.»

João Bénard da Costa, in "os filmes da minha vida, 2º volume" assírio & alvim, 2007

RIR- [SE] NO CINEMA


Buster Keaton, como se sabe, nunca se ri nos seus filmes. No meio das situações mais hilariantes, seja agressor, vítima ou tão-só espectador, não se desfaz do seu rosto imperturbável, atravessando os gangs com uma placidez desarmante. Esta sistemática neutralidade de expressão remete para a mecânica que rege o seu cómico. É uma componente intrínseca e que sem dúvida ganha a melhor a mais que um riso hesitante. Pois, em circunstâncias semelhantes uma tal retenção da mímica é dificilmente aguentável: o espectador, perante ela, vê-se por assim dizer, obrigado a rir-se. É que aqui o riso aparece, entre outras coisas, como meio óptimo de apropriação da monstruosidade mecânica de Keaton (meio tanto mais óptimo quanto essa monstruosidade visa totalmente o efeito cómico), vindo humanizar-lhe a parcimónia (poupança) fisionómica. O riso parece portanto ausente do écran para melhor existir na sala. (No extremo oposto está o riso interminável e sádico do anão com que fecha "les nains aussi ont commencé petist"*, no riso devorador que gela o espectador).

*[ Auch Zwerge haben klein angefangen ] Werner Herzog, 1970

aka "Even dwarfs started small"

Daniel Percheron, in "psicanálise e cinema" relógio d'água, 1984

LIBERTAÇÃO.
O meu destino é partir.
Reunir as partes de todas as partidas e partir inteiramente.
Reunir as audácias sem retorno e fazer pedras de caminho
e das pedras pão e do pão rumos e de tudo forças
sobre a terra sobre o dia.
Tudo no corpo em círculos concêntricos expansivos
como ecos de gritos nocturnos.

Longe é um ponto cardeal qualquer. Vim dessa íntima exactidão.
Vim do Distante em fuga em febre frontalmente
como uma falésia penetrando pelo mar alto
e sou a amazona e a heroína fatal da trama terrível
que vou tecer ao sol com fios de saliva
da boca de monstros nas praias que ainda não há.
É esta emoção o sentido íntimo de principiar.
Um excesso de vibração cordas desfibrando-se.
batem martelos nos meus nervos incandescentes.
os olhos transformam-se em sóis vulcânicos
e a realidade das coisas inflama-se. Metamorfose.

Enamorei-me de uma espada
beijo-a todas as manhãs todas as madrugadas
sempre grata livre Heróica.
Sei que há raras mulheres guerreiras como raros homens oceânicos.
Tudo depende da exactidão férrea da alma.
Tenho loucura bastante para embebedar a infinita humanidade
passada e futura com a substância vital de alucinado Quixotes.
Meus corpo inflamável é um profeta que delira deuses.
Vinho novo em odres novos loucura nova em mulheres novas
para a plena possessão da embriaguez de si próprio.


Paulo Renato Cardoso, in "órbitas primitivas" quasi, 2007

imagem de Lorenzo Mattotti

BOHUMIL HRABAL

Três botões no fato novo tem o homem que serviu o escravo de Inglaterra. Porque tudo é uma questão de quantidades. Se um único pobre existisse no reino, e de reis fosse o reino composto por mais de quinhentos, então o pobre teria os seus escravos, com três botões na camisa, e os quinhentos reis teriam assistência social, sopa de pobres, e uma operação urgente marcada para daqui a trinta anos — a única herança que alguns deixam aos filhos — uma operação marcada num hospital público.
É quase magia, mas um homem que escrevia muito rápido fazia-o sentado numa cadeira, imóvel, dois dedos apenas mexendo.

Gonçalo M. Tavares, in "biblioteca" campo das letras, 2004

Tal como o autor nos anos 50, o herói deste livro, Hanta, trabalha na cave de um depósito de reciclagem. Trabalha com um velha prensa, e os seus dias passam-se a comprimir livros e papéis. Mas, antes de os destruir, Hanta não pode deixar de observar o que lhe passa pelas mãos: folhear esses livros dá um sentido à sua vida. Separa os Göethe, os Schiller, os Hölderlin, extasiando-se perante tanta beleza, e «salva-os» levando-o para a sua casa, onde vão invadindo todos os espaços disponíveis. Ou coloca-os, abertos na página de que mais gosta, bem no centro dos papéis a meter sobre o pilão da prensa, e envolve o pacote prensado com belas reproduções cuidadosamente escolhidas: vai fabricando fardos especiais, as suas «obras de arte».
A instalação de uma cadeia automática capaz de destruir e comprimir livros em enormes quantidades, e a invasão da sua cave por jovens operário-modelo indiferentes — evocação da realidade pós 68 — tornam inútil a função de Hanta. Resta-lhe juntar-se aos seus queridos livros. Um dia, passa por cima do bordo da velha prensa levando numa mão o seu Novalis preferido, e com a outra carrega no botão verde.
Escolheu o seu paraíso.

"Há trinta e cinco anos que trabalho com papel velho e é essa a minha love story. Há trinta e cinco anos que prenso papel velho e livros, há trinta e cinco anos que que me sujo de letras, de tal modo que me pareço com as enciclopédias de que durante esse tempo todo devo ter prensado pelo menos três toneladas: sou um cântaro cheio de água viva e água morta, basta inclinar-me um pouquinho e jorram de mim ideias lindas; sou culto independentemente da minha vontade e, assim, nem sei bem quais as ideias que são minhas, e saídas da minha cabeça, e que ideias li."

BOHUMIL HRABAL nasceu em Brno em 1914. Concluiu o curso de Direito em Praga em 1939, mas tendo os invasores alemães encerrado as universidades checas, só conseguiu o diploma em 1946.
Nunca exercerá a profissão. Em vez disso, será sucessivamente escriturário, fiel de armazém, empregado dos caminhos-de-ferro, operário metaIúrgico, embalador de papel velho e figurante de teatro.

Bohumil Hrabal "uma solidão demasiado ruidosa" afrontamento, 1992

VIDA

Uma pessoa que pese 70 quilos contém entre outras coisa:

— 45 litros de água
— Cálcio suficiente para caiar um galinheiro
— Fósforo para 2200 fósforos
— Gordura para 70 sabonetes
— Ferro para um prego de 2 cm
— Carbono para 9000 lápis
— Uma colher de magnésio

Eu peso mais de 70 quilos.

E lembro-me de uma série de televisão que se chamava Cosmos. O Carl Sagan andava por um cenário que era suposto parecer o espaço e falava de grandes números. Num dos programas estava sentado à frente de uma cisterna que estava cheia daquelas matérias de que são feitas as pessoas. Mexeu na cisterna com um pau perguntando-se se seria capaz de criar vida.
Não conseguiu.


Erlende Loe, in "naïf. super." fenda, 2003

imagem de Koen Hauser

«Je suis beau, jeune et breton, je sens la pluie, l'océan et les crêpes au citron»

Christophe Honoré [ Les Chansons d'amour ] 2007


Paris, Ludivine Sagnier, Chiara Mastroianni, Louis Garrel, um musical, uma história de amor.
Les Chansons d'amour, o novo filme de Christophe Honoré

A TERRA MOSTROU-TE um coração traçado a giz
mais antigo que estes passos num charco de sombra
onde lentamente se agita um corpo definham
as coisas há muito por ti nomeadas

no ébrio rosto da noite perdeste o rosto
num sobressalto de sede ergueu-se a presença
misteriosa de nomes cintilantes sobre o peito

mas não te restou nenhuma aflição nenhuma angústia
da cega e amarga travessia da infância
porque no ermo esquecido dos dias vive ainda
a louca criança de éter incendiado


Al Berto, in "vigílias" assírio & alvim, 2004


Reúnem-se neste volume textos dispersos publicados por Al Berto, sem que tivesse sido nossa intenção proceder a uma recolha exaustiva. Preferimos, na medida do possível, tentar que a selecção de textos obedecesse a um grau de exigência semelhante àquele que o Autor sempre demonstrou nos seus livros, e de que é exemplo o critério por ele adoptado em O Anjo Mudo.

Luís Manuel Gaspar
Manuel de Freitas

in, "dispersos" assírio & alvim, 2007

INCÊNDIO

se conseguires entrar em casa e
alguém estiver em fogo na tua cama
e a sombra duma cidade surgir na cera do soalho
e do tecto cair um chuva brilhante
continua e miudinha — não te assustes

são os teus antepassados que por um momento
se levantaram da inércia dos séculos e vêm
visitar-te

diz-lhes que vives junto ao mar onde
zarpam navios carregados com medos
do fim do mundo — diz-lhes que se consumiu
a morada de uma vida inteira e pede-lhes
para murmurarem uma última canção para os olhos
e adormece sem lágrimas — com eles no chão


Al Berto, in "vigílias" assírio & alvim, 2004

WILLIAM WEGMAN

[ canon aside ] 2000

[ on the set ] 1994

[ miss mit ] 1993

[ patriotic poodle ] 1994

ATRACÇÃO

De dois momentos da distância, dois corpos foram de tal modo um para o outro, que logo duas coluna de pedra, e que eram os braços monstruosos dum gigante, se cruzaram por detrás no espaço, ao dar-se o embate!
Estavam os dois, um em frente do outro, conversando, com vida, desmantelados:
Um sem um olho e com os dentes partidos.
O outro coxo e sem um braço
E ambos escorriam sangue sobre a alvura da neve que existia e cujo frio era musica distante…
Os dois sorrindo olhavam, gelados, a paisagem, seguindo suspensos atrás duma flor do esquecimento que se esfumava fugitiva…
Até que chegou a hora repentina do fogo mais remoto que ao aquecê-los os queimou devorando-os.
Sobre os cadáveres carbonizados a noite veio então abrir um sorriso do tamanho da sua escuridão!

Edmundo de Bettencourt, in "poemas surdos" assírio & alvim, 1981

imagem de Craig LaRotonda

— Sou um intelectual de esquerda.

O MONÓLOGO DO PASTOR

Lavis, Lavis, Lavis sonoro, o ponto é querer-se, acordar antes, menos que à hora, acordar com o som de ao longe elas terem já acordado, como as oiço agitadas no terreno, vão bulir com as outras, vão andar soltas, fugir de mim, partir pernas, cair em baixo, oiço os guizos, refrão pesado, a cabeça pesa-me no estômago vazio, tudo vazio, a casa fria, a luz pouca, outro dia sem sol, mundo mundo solidão vazia, tudo vazio, o ar frio, a luz vazia ou a janela sem trapo, o meu sono estragado, acabou-se antes, que força no mijo, que vontade, que luz fraca, afinal, que consolo, ah, aí andam elas, que consolo, ah, que bom quando se tem vontade, aí estão elas, anda para lá, rebolona, restolhona, fora daqui, ah sim está melhor, o leite da cabra, ah uma copada, ali a jeito, um copanzil, ah assim está melhor, um bocado de pão, ah, assim está melhor, e que dia frio, outra vez frio, e o Araújo ainda está a dormir, e que dia frio e fode de manhã se calhar fode de manhã, à noite é os copos, de noite aquece, e de manhã dá-lhe o jeito, boa vida a delas, se calhar não é, mas murcho ando eu, com o cuidado, e as voltas, e esta vida à bruta, sem cómodo nem mulher nem carne nem peixe nem nada só bichos e mata, só mata, e cabeços, e mais cabeços, e se calhar sou de pau, sou algum bicho se calhar, chega para lá, puta da bicha, oh para lá, oh para lá, toca a mexer-me, estão todas vivas, deu-lhes o azougue, toca a andar, estramada da vida, oh toca a andar para a vida, puta de vida, oh toca a ir.

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Este monólogo de um pastor, de ovelhas por exemplo, reproduz, tácito, uma comum sensação de acordar. Acordar sem nada além do hábito, despertar «por fora», por assim dizer, e não vislumbrar mais que a imediata recolha das motivações consabidas, o dever, a comida, o ente hostil, distante e alheio, o real em fuga histérica, e no interior a mancha ensombrecida da entidade miseranda, o homem-sem-saliva.


Álvaro Lapa, in "raso como o chão" estampa, 1977

[ Exploradores do Abismo ]


«"Baralhou tanto os personagens de um longo romance que andava a escrever que até se esqueceu de quem eram e o que faziam esses personagens. Uma mulher morta, por exemplo, reapareceu à hora de jantar. E no dia em que era suposto o assassino ser electrocutado, mandou-o comprar flores para uma criança…"
Leio isto na plataforma iluminada de um eléctrico que, ao entardecer, me devolve, como todos os dias, a casa. Levanto os olhos por um instante, e depois continuo a ler: "E, no entanto, nunca fiz nada por mim. Fui-me tornando mais velho e resmungão, como era de esperar, numa pequena aldeia abandonada que ele descrevia sempre como morta e irrelevante."
Na plataforma do eléctrico crepuscular sinto-me raptado pelo começo deste conto. E fico com a impressão de me estar a dirigir para o hotel de uma pequena localidade, morta ou irrelevante. Começa a chover…»

Enrique Vila-Matas, in "Exploradores do Abismo" (tradução de Jorge Fallorca para a Teorema, encontrado aqui)
Paul Klee [ golden fish ] 1925


NATUREZA MORTA

Tinha uma carne de malmequeres, fina e translúcida,
com ténues veios de ametista, como o desenho sutil dos rios.
E ainda ficava mais branco, naquela varanda cheia de luar.

Os outros peixes nadavam gloriosos por dentro das ondas,
subiam, baixavam, corriam, brilhavam trêmulos de lua,
sem saberem daquele que não pertencia mais ao mar.

Deitado de perfil, em crespos verdes sossegados,
ia sendo servido, entre vinhos claros de altos copos,
envoltos numa gelada penugem de ar.

Seu olho de pérola baça, olho de gesso, consentia
que lhe fossem levando, pouco a pouco, todo o corpo...
E à luz do céu findava, e ao murmúrio do mar.


Cecília Meireles, in "poesia à mesa" quasi, 2004
Hal Ashby [ Harold and Maude ] 1971


GOTTFRIED HELNWEIN

[ untitled ] 1997

[ leda and the swan ] 2003

[ in the heart of the night ] 2000

[ dark hour ] 2003

[ L. A. confidential ] 2000

[ american prayer ] 2000

ILUSTRAÇÃO [ CONCERTOS ]











e porque é o dia da criança...


[ O Último Hotel ] ambar, 2002

Numa tarde pachorrenta, estando eu entregue ao tédio, a minha imaginação, aparentemente aborrecida por ser ignorada, tirou férias - e nunca mais voltou. Tinha perdido aquilo a que o poeta Wordsworth chamava o "olho interior". Ou o perdi, ou ficou esquecido algures no mundo natural.
Que havia eu, um artista, de fazer? Como havia eu de trabalhar, de pintar, de viver?
Tentei agarrar-me a uns fiapos de memória, mas não eram suficientes. A memória é um chapéu velho; a imaginação é um par de sapatos novos.
Tendo perdido os sapatos novos, que resta fazer senão partir à sua procura?
Escrito por J. Patrick Lewis e ilustrado por Roberto Innocenti, O Último Hotel é ao mesmo tempo uma celebração da literatura e uma homenagem ao poder da imaginação, e é também uma boa sugestão para o dia que nunca deixei de celebrar, o dia da criança.

És como a flor dos agonizantes

que é invisível mas seu aroma entra

na sombra nasal e é a delícia,

tudo na vida, durante algum tempo.


Antonio Gamoneda, in "livro do frio" assírio & alvim, 1999

imagem de Greg Spalenka

— És a minha irmã, a minha filha, a minha mãe.

— Também gostava de ter sido a tua mulher.

escutar...


kalabrese [ rumpelzirkus ] muve, 2007

NOTAS PARA O DIÁRIO

deus tem que ser substituído rapidamente por poemas, sílabas sibilantes, lâmpadas acesas, corpos palpáveis, vivos e limpos.

a dor de todas as ruas vazias.

sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste silêncio. e na sua simplicidade, na sua clareza, no seu abismo.
sinto-me capaz de acabar com esse vácuo, e de acabar comigo mesmo.

a dor de todas as ruas vazias.

mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e dos encontros inesperados.
pernoito quase sempre no lado sagrado do meu coração, ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo.

a dor de todas as ruas vazias.

pois bem, mário — o paraíso sabe-se que chega a lisboa na fragata do alfeite. basta pôr uma lua nervosa no cimo do mastro, e mandar arrear o velame.
é isto que é preciso dizer: daqui ninguém sai sem cadastro.

a dor de todas as ruas vazias.

sujo os olhos com sangue. chove torrencialmente. o filme acabou. não nos conheceremos nunca.

a dor de todas as ruas vazias.

os poemas adormeceram no desassossego da idade. fulguram na perturbação de um tempo cada dia mais curto. e, por vezes, ouço-os no transe da noite. assolam-me as imagens, rasgam-me as metáforas insidiosas, porcas... e nada escrevo.
o regresso à escrita terminou. a vida toda fodida — e a alma esburacada por uma agonia tamanho deste mar.

a dor de todas as ruas vazias.


Al Berto, in "horto de incêndio" assírio & alvim, 2000
foto. Luísa Ferreira

MULHERES

Aqui estão espraiadas, as mulheres. Viram-se e reviram-se sobre as toalhas para bem se tisnarem por todos os lados. Trazem sacos e maridos para a areia. E filhos. De repente, sentam-se. Gritam: Ó Luís, ó Bruno Manuel, ó Fernando Jorge, ó Mafalda Sofia, ó Joana Filipa! Maternais e enfastiadas, vigiam os pequenoa. Ralham com os maridos como se estivessem a cantar uma canção de trabalho. Querem-nos à Mão.
Entram no mar pé ante pé. Quando a primeira onda lhes dá uma umbigada, soltam um bando de gritinhos. Afoitam-se, cabeça muito levantada para que a cabeleira não se molhe. E, então, começam a sorrir. Não há, nesse momento, quem as arranque do mar. Mas, com a muita, muita água, um pensamento indesejável assalta-lhes as imaginativas cabecinhas: o peixe que, do largo, pode vir, ligeiro, engolfar-se-lhes entre coxas.
Regressam às toalhas, aos guarda-sóis. Chamam, pelos seus nomes aos pares, os pares de crianças. Esbofeteiam-nas, beijam-nas, prodigalizam-lhes sanduíches de areia. Entretanto, os maridos foram dar uma volta.
Mulheres! Afinal sempre sozinhas sob a rosa do sol...

Alexandre O'Neill, in "uma coisa em forma de assim" edic,1980

imagem de Billy de Vorss

"Nada me comove mais do que a imagem ou o cheiro do que é bom e recto. O que é mesquinho e mau depressa se esgota, mas compreender o que é bom e nobre é a um tempo tão difícil e ainda assim tão cheio de encanto"

Robert Walser, in "Jakob Von Guten" relógio d'água, 2005

SOBRE UMA MANHÃ QUALQUER

Manhã de ouro lhe poderíamos chamar se de ouro fora a primeira manhã
Adão inconfessado, e nada saberemos da primeira manhã
se afinal de ouro se afinal de prata.
Ainda possível ter sido de estanho?
A primeira manhã assim imaginada estanho e a cena desenrolar-se-á
com maçãs de estanho, aves de estanho, rios de estanho...
Adão não seria de estanho?
Adão inconfessado, e nada se saberá da manhã original.
A primeira manhã, a primeira luz, a primeira vida, a primeira lua
Tu, querida, o desejarias saber, o sei,
era teu desejo saber de que material fora a primeira manhã!
Evidentemente que (e aqui já cansaço a obcecar a caneta)
evidentemente que dizia
etc., etc.
e a respeito da primeira manhã afinal
que não interessa sabê-lo.
Olha, morre como o cigano, o pior é ires à escola.
Ah, os poetas são decididamente afectados.
Que raio de ideia esta de saber da primeira manhã?
Londrina a de hoje, e basta para tomar um excelente duche quente
com a água a pôr fervura na pele
e mais nada.
Da primeira manhã, Adão que se faça poeta e no-lo diga que metal.

António Gancho, in "o ar da manhã" assírio & alvim, 1995

[ Estéticas do Cinema ] dom quixote, 1985


O cinema inaugura uma poética da modernidade, ao constituir-se não apenas como um novo processo técnico de produção artística, mas como uma nova era na contemplação e na compreensão do fenómeno estético.
Podemos acreditar que o filme, mais ainda do que a fotografia, se constitua nessa fabulosa memória involuntária do presente, a ponto de tornar eterno tudo o que é transitório e que alguma vez foi registado pela objectiva de uma câmara.
As primeiras vistas cinematográficas assemelham-se bastante às deambulações do olhar do passeante ocioso e curioso, sempre disponível, pelas ruas da cidade. E Walter Benjamim nota a condição paradoxal do espectador das salas escuras, que é, fundamentalmente, a do examinador que se distrai. É que o filme não é só a travessia dos desertos povoados que nos deslumbram no continente do visível, mas também o enigma que interroga a descoberta do inconsciente visual que seria, a bem dizer, literalmente invisível sem a existência do cinema.
A presente antologia de textos sobre as diversas estéticas, que marcam com a sua influência aquela que pode, provavelmente, considerar-se a arte decisiva do nosso tempo, inclui trabalhos de Walter Benjamim, Bela Balazs, Sergei Eisenstein, Pier Paolo Pasolini, Brian Handerson, Daniel Dayan, Christian Metz e Jaques Aumont.

Eduardo Geada

«O real chegado ao espírito já não é o real. O nosso olhar é demasiado pensativo, demasiado inteligente.
Duas espécies de real:

1.º) O real bruto registado tal qual pela câmara.
2.º) O que nós chamamos real e que vemos deformado pela nossa memória e os falsos cálculos.

Problema. Fazer ver o que tu vês por intermédio de uma máquina que não vê como tu vês. E fazer ouvir o que tu ouves por intermédio de outra máquina que não ouve como tu ouves.
O real não é dramático. O drama nascerá de uma certa conjugação de elementos não dramáticos.»

Robert Bresson

in, "estéticas do cinema"