A GAVETA APRESENTA :


Dias 16, 17, 18 e 19 de Maio – Teatro da Trindade (Sala principal)

Dramaturgia e Encenação:
Sandro William Junqueira

Interpretação:
António Rodrigues, Luís Manhita, Miguel Cordeiro, Pedro Martinho e Rui Cabrita.

Eles são dois senhores que habitam o mesmo “Bairro”.
Simples, lógicos, lúdicos, lúcidos e divertidos.
Dois senhores muito particulares e distintos. Tanto no pensar como na acção.
Serão, sem mais: “ a inteligência filosófica feita quotidiano”.
A partir desta premissa, o desafio, é criar um espectáculo único que se divide em dois dias: que permite a cada espectador, em cada dia, uma nova experiência e leitura do espaço teatral, um renovado e mais amplo campo de reflexão, a liberdade de operar intelectualmente e de responder aos diferentes estímulos que lhe chegam de cena, e a oportunidade de estabelecer uma nova dinâmica entre público-espectáculo, público-teatro, teatro-teatro e público-público.
Assim teremos: dois senhores, uma peça, dois dias - dois tons distintos. Uma ideia inédita.

Sandro William Junqueira



para mais informações visite o blog dos nossos senhores aqui

“Dois Senhores – uma peça em dois dias – “






Bilhetes: Fnac, Ticket line e Teatro da Trindade.

Blow-up, 1966


realização: Michelangelo Antonioni
argumento: Julio Cortázar
adaptação: Tonino Guerra
banda sonora: Herbie Hancock


Uma bala de mel que penetrou o peito da estátua. Que furou pelo pescoço e inundou o crânio. Que adoçou os lábios. Que contaminou os olhos.

A loucura é a máxima pretensão cardíaca. Induzi-la por letras é um artefacto muito raro. Requer mãos que sejam simultaneamente patas, barbatanas, periscópios em crateras de vulcão, aquários intactos nos escombros de um terramoto.

A loucura não é uma conclusão de sofá, um apontamento da inteligência.

Todos os equívocos nascem da distinção entre poema e poeta. Como entre poema e leitor. Como entre poeta e leitor. Acordar é abrir um livro de poemas. Adormecer é abrir um outro livro de poemas.

Ervas que se queimam por contacto com o corpo, vapor de suor num cachimbo. A poesia é o único tóxico que negoceia vida.

Tudo o que pode ser visto, escutado, inspirado, provado, tocado, forma placenta cinco vezes real que treme. Só há, portanto, um alimento: a imanência. O acto sexual é a abertura de um poço de líquido amniótico.

Creio que o amor está sujeito ao Princípio da Incerteza de Heisenberg: quanto mais sabemos da sua velocidade, menos sabemos da sua posição, e vice-versa. O amor é, por isso, todas as graduações de velocidade e posição.

Reforço o que disse anteriormente: se um poema não tomou de assalto um homem, das duas uma: ou não era um poema, ou não era um homem. Resolver em sede de tribunal. Ou na rua.

O único veneno é uma saúde de ferro, sem uma febrezinha sequer para compor o coração.


Vasco Gato, in "omertà" quasi (2007)

imagem de István Orosz

ISTVÁN OROSZ



DANIEL BLAUFUKS



Tendo crescido em Lisboa, no quinto andar do mesmo prédio onde moravam os seus avós, Daniel Blaufuks viveu a infância imerso num universo de vestigios dessa experiência dos refugiados. Um mundo de alusões, fotografias, alguns objectos, comidas, costumes e memórias que não eram as suas, mas que acabariam por o atrair de e marcar de forma indelével. Utilizando algumas dessas reminiscências, bem como filmes da época e de família, excertos de memórias e textos de refugiados, relatos de família e materiais de arquivos europeus e americanos, Blaufuks oferece-nos um vívido documento com uma bela imagem sobre um momento significativo da história do século XX.
Na realidade trata-se de um fabuloso documento numa edição limitada e acompanhada por um DVD com um filme de 57 min.

«Quando passeio entre as campas do cemitério judaico em Lisboa, reconheço os nomes gravados na pedra, como se estivesse num cemitério de aldeia.
Uns pertenciam ao círculo mais próximo dos meus avós, ao grupo da canasta, outros iam, como nós, à sinagoga em dias de festa ou ao centro israelita aos sábados à tarde. Alguns nomes são anteriores a estes, avós, tios ou pais, que conseguiram também escapar. Das 50 mil a duzentas mil pessoas que passaram por Lisboa, apenas cinquenta aqui ficaram.»


Daniel Blaufuks [ sob céus estranhos, uma história de exílio ] tinta da china, 2007


ANTES A VIDA

Antes a vida que estes prismas sem espessura mesmo se as cores são mais puras
Antes ela que esta hora sempre enevoada estas terríveis carruagens de labaredas frias
Estas pedras sorvadas
Antes este coração engatilhado
Que este charco de murmúrios
Este pano branco a cantar ao mesmo tempo na terra e no ar
E esta bênção nupcial que une o meu rosto ao da total fatuidade
Antes a vida
Antes a vida com os seus lençóis de esconjuro
As suas cicatrizes de fugas
Antes a vida antes esta rosácea no meu túmulo
A vida da presença só da presença
Onde uma voz diz Estás aí e a outra responde Estás aí
Eu pobre de mim não estou
E mesmo quando jogarmos ao que fazemos morrer
Antes a vida
Antes a vida antes a vida Infância venerável
A faixa que parte dum faquir
Parece o escorregadouro do mundo
Não importa que o sol não passe de um destroço
Por pouco que o corpo da mulher se lhe compare
Pensas tu ao contemplar a extensão da trajectória
Ou tão-só ao fechar os olhos sobre a tormenta adorável que se chama a tua mão
Antes a vida

Antes a vida com as suas salas de espera
Mesmo sabendo não ir entrar nunca
Antes a vida que estas estâncias termais
Onde o serviço é feito por coleiras
Antes a vida adversa e longa
Quando aqui os livros se fecharem sobre estantes menos suaves
E lá longe fizer mais que melhor fizer livre sim
Antes a vida

Antes a vida como fundo de desdém
A esta cabeça já de si tão bela
Como antídoto da perfeição aspirada e temida
A vida a maquilhagem de Deus
A vida como um passaporte virgem
Ou uma vilória como Port-à-Mousson
E como tudo foi dito já
Antes a vida


André Breton, in "poemas" assírio & alvim (1994)

30 + 2 = a trinta e tal


[ Paris, je t'aime ] 2006

...acordo para a trémula água das palavras
canto outro corpo...
serei aquilo que for possível ser na solidão da casa
onde as aranhas interromperam o trabalho das teias
e nunca mais voltaram...

...cada gesto agora petrificado
frente ao espelho descubro que sou o único a saber
quem és... lume e pó de cidade
tatuados no reflexo aquático do luminoso corpo...

...a sombra transparente dum veleiro fende a memória
tateio-me para corrigir a realidade... entro no espelho
líquido a líquido procuro as mãos e o nome
sabendo como é sempre extreminadora a madrugada...

...sou um feixe de poeira... perdi a consistência
reclino o corpo de tinta inacessível à dor
sorrio enfim ao desejo de querer morrer...


Al Berto, in "correspondência literária" contexto editora (1984)

imagem de Gèrard Dubois

ALICES...




Creio que os presentes títulos não necessitam de apresentações, como tal fica apenas a sugestão desta maravilhosa edição recentemente editada pela relógio d'água.

«as duas Alices não são livros para crianças; são os únicos livros onde nos tornamos crianças».

Virginia Woolf



SOME LITTLE BOYS DONT

Some little boys like it
Some little boys dont
Some little girls swipe it
Some little girls won't

Some nephews suck it
Some lollypops grunt
Some nieces truck it
If grandpa's a runt

Some puberties request it
Four times a month
Some girls teens breast it
Some eat it for brunch

Some little people gargle
Some adolescents warble
Some teenyboppers babble
Some kiddies play Scrabble


Allen Ginsberg, in "death & fame : last poems 1993-1997" Harper Perennial (2000)

JÁ ALGUMA VEZ EXPERIMENTOU O DESEJO DE NÃO MAIS LER JORNAIS E DE PARTIR O SEU TELEVISOR ?

Nesse caso compreendeu que :

a) Os jornais, a rádio, a televisão são os veículos mais grosseiros da mentira. Não só nos afastam a todos os verdadeiros problemas — do «como viver melhor» que se pôe concretamente todos os dias — como também levam cada indivíduo, em particular, a identificar-se com as imagens já feitas, a colocar-se abstractamente no lugar dum Chefe de Estado, de uma vedeta, de um assassino de uma vítima, em suma, a reagir como se fosse um outro. As imagens que nos dominam são o triunfo daquilo que nós não somos e do que nos afasta do nós próprios; do que nos transforma em objectos a classificar, etiquetar, hierarquizar, segundo o sistema da mercadoria universalizada.

b) Existe uma linguagem ao serviço do poder hierarquizado. Não se encontra apenas na informação, na publicidade, nas ideias feitas, nos hábitos, nos gestos condicionados, mas também em toda a linguagem que não prepara a revolução da vida quotidiana, em toda a linguagem que não está ao serviço dos nossos prazeres.

c) O sistema mercantil impõe as suas representações, as suas imagens, o seu sentido, a sua linguagem, de cada vez que se trabalha para ele, ou seja, a maioria do tempo. Este conjunto de ideias, de imagens, de identificações, de comportamentos condicionados pela necessidade de acumulação e renovação de mercadorias, formam o ESPECTÁCULO onde cada um representa falsamente aquilo que não é. Daí que o papel seja uma mentira viva e a sobrevivência um mal-estar permanente.

d) O espectáculo (ideologias, cultura, arte, papéis, imagens, representações, palavras-mercadorias) é o conjunto de comportamentos sociais, através dos quais, os homens entram no sistema mercantil, nele participam contra si próprios, tornando-se objectos de sobrevivência — mercadorias — renunciando ao prazer de viverem realmente para si e de construírem livremente a sua vida quotidiana.

e) Sobrevivemos num conjunto de imagens às quais somos levados a identificar-nos. Agimos cada vez menos por nós próprios e cada vez mais em função de abstracções que nos dirigem, segundo as leis do sistema mercantil (lucro e poder).

f) Os papéis ou as ideologias podem ser favoráveis ou hostis ao sistema dominante, o que é pouco importante, uma vez que continuam no espectáculo, no sistema dominante. Só o que destrói a mercadoria e o seu espectáculo é revolucionário.

De facto, você já está saturado da mentira organizada, da realidade invertida, dos fingimentos que macaqueiam a vida verdadeira e acabem por empobrecê-la. Você luta já, conscientemente ou não, por uma sociedade em que o direito de comunicação real, pertença a todos, onde cada um possa dar a conhecer o que lhe diz respeito, graças à livre disposição das técnicas (tipografias, telecomunicações) onde a construção de uma vida apaixonante, liquida a necessidade de ter um papel e de dar mais valor à aparência que ao vivido autentico.


Ratgeb (Raoul Vaneigem), in "da greve selvagem à autogestão generalizada" assírio & alvim (1974)


A CABEÇA DO PATRÃO

Sobre atravessa decorada
Com rodelas de limão
A fumegar, bem escaldada
Eis a cabeça do patrão.

Jaz de pálpebras cerradas
Branco em fundo colorido
E pequenas fumaradas
Saem do crânio fendido.

Cruzam-se-lhe na testa alvar
Veiazinhas às dezenas
Que a luz parece tomar
Tal qual pálidas verbenas.

A língua aos poucos inchada
No seu banho de vapor
Parece, azul, granulada
O queixo de um velho actor.

A queixada ainda inteira
Envolta em fumaças finas
Mostra o arroz da mioleira
E as cavidades intestinos.

Duas rosas em poupa
Sobre a âncora do focinho
Parecem a crista ou a roupa
De um fabuloso estorninho.

Sobre a travessa decorada
Com rodelas de limão
A fumegar, bem escaldada
Eis a cabeça do patrão.

Gabriel Párvulo, in "a cozinha canibal"

imagem de Roland Topor

Roland Topor [ literatura ]


CABEÇA DE PATRÃO EM PURÉ

Pelo fim do ano, antes do Natal, faz-se uma visitinha ao patrão e aproveita-se para matá-lo como a um porco, quer dizer, tendo o cuidado de sangrá-lo demoradamente até a carne dele ficar bem branca. Uma vez a cabeça cortada a preceito, raspa-se e limpa-se. Em seguida, mete-se em água a ferver durante cerca de meia hora, e depois tira-se e arrefece-se em água fria. É espantoso como nessa altura a cabeça do patrão nessa altura já está mudada. Os cabelos esbranquiçaram e o olhar, embora sempre malicioso, tornou-se ligeiramente sonhador. Estamos apenas no começo, prossigamos. Extrai-se o maxilar superior até aos olhos, desossa-se o alto da cabeça, procurando aproximar as carnes para que a cabeça conserve a sua forma. Terminada esta operação, esfrega-se a cabeça com champô e envolve-se num pano amarrado com uma guita.
Para a cozedura, largam-se três colheradas de farinha na água e acrescenta-se um ramo de flores, manteiga, sal e pimenta. Mete-se a cabeça nesta preparação e deixa-se coser, tendo o cuidado de raspá-la de vez em quando; em seguida, retira-se a cabeça e deixa-se cair numa selha cheia de puré, com cerca de metro e meio de altura, a fim de não apanhar frio nas orelhas. Trata-se de um prato monumental que deve ser reservado para os grandes repastos familiares.

Roland Topor, in "a cozinha canibal" fenda (2000)

Roland Topor [ ilustração ]





Roland Topor [ cinema ]





René Laloux [ La Planète sauvage ] 1973


ALQUIMIA DO VERBO

agora fiquei triste, realmente,
emudeci

o que esta boca sente
quando sorri!

o jardim está sem gente
e anda um vago sonho por aí

quando voltar a minha força ausente
hei-de pensar neste alibi


Mário Cesariny, in "manual de prestidigitação" assírio & alvim (1981)

imagem de Gérard Dubois

coisas do milénio passado...

Magnetic Fields [ 69 love songs ] 1999

DAN MC CARTHY



Imogen Cunningham [ the unmade bed ]1957


UMA ESPÉCIE DE PERDA

Usámos a dois: estações do ano, livros e uma música.
As chaves, as taças de chá, o cesto do pão, lençóis de linho e uma cama.
Um enxoval de palavras, de gestos, trazidos, utilizados, gastos.
Cumprimos o regulamento de um prédio. Dissémos. Fizémos. E estendemos sempre a mão.

Apaixonei-me por Invernos, por um septeto vienense e por Verões.
Por mapas, por um ninho de montanha, uma praia e uma cama.
Ritualizei datas, declarei promessas irrevogáveis, idolatrei o indefinido e senti devoção perante um nada,

(— o jornal dobrado, a cinza fria, o papel com um apontamento)sem temores religiosos, pois a igreja era esta cama.

De olhar o mar nasceu a minha pintura inesgotável.
Da varanda podia saudar os povos, meus vizinhos.
Ao fogo da lareira, em segurança, o meu cabelo tinha a sua cor mais intensa.
A campainha da porta era o alarme da minha alegria.

Não te perdi a ti,
perdi o mundo.


Ingeborg Bachmann, in "o tempo aprazado" assírio & alvim (1992)




LITTLE DROP OF POISON

I like my town with a little drop of poison
Nobody knows they're lining up to go insane
I'm all alone, I smoke my friends down to the filter
But I feel much cleaner after it rains

She left in the fall, that's her picture on the wall
She always had that little drop of poison
She left in the fall, that's her picture on the wall
She always had that little drop of poison

Did the devil make the world while god was sleeping
Someone said you'll never get a wish from a bone
Another wrong good-bye and a hundred sailors
That deep blue sky is my home

She left in the fall, that's her picture on the wall
She always had that little drop of poison
She left in the fall, that's her picture on the wall
She always had that little drop of poison

A rat always knows when he's in with weasels
Here you lose a little every day
I remember when a million was a million
They all have ways to make you pay
They all have ways to make you pay


Fotografia de Mark Selinger
Francesco de Zurbarán [ natureza morta ] 1640


FUMO AO ENTARDECER

Depois de ter cheirado o perfume agridoce da morte,
depois de tantos corpos e paixões e sonhos,
olho agora, sobre a mesa, um copo vazio,
uns livros, papéis em desordem, velhas fotografias,
a luz ao entardecer, apagando-se na janela.
Como uma natureza morta de Zurbarán
— a natureza morta, a natureza eterna —,
deixo-me viver já sem perguntas,
enquanto o fumo do cigarro desenha
todos os meus rostos: o que fui, o que sou,
o que serei, no frágil e caprichoso tempo.

Juan Luís Panero, in "poemas" relógio d'água (2003)
Irving Penn [ Jean Cocteau ] 1950


"Naturalmente o ópio continua a ser único e a sua euforia superior à da saúde. Devo-lhe as horas perfeitas. É pena que em vez de aperfeiçoar a desintoxicação a medicina não tente tornar o ópio inofensivo.
Mas aqui voltamos a encontrar o problema do progresso. O sofrimento será uma regra ou um lirismo?"

Jean Cocteau, in "ópio" difel (1984)
Emma Santos [ a malcastrada ] edições afrodite, 1975


A escrita dos loucos.
A loucura da escrita.
Como Nerval, como Artaud, como Jarry.
A escrita dos doentes contra os médicos.
Contra a repressão.
A escrita anti-normal. EMMA SANTOS.

Apesar do ensurdecedor falatório dos psiquiatras
a loucura continuou felizmente a falar em voz cada
vez mais alta na produção literária, poética e
romanesca destes dois séculos.
O movimento de Libertação dos loucos.
A luta da loucura contra a normalidade.
O desmascarar da Psiquiatria e instituições opressivas.
A condenação dos psiquiatras e quejandos.
A escrita anormal, da sub-humanidade.
A palavra nova anti-linguagem.

Como Holderlin, Nerval, Nietzsche, Jarry,
Strindberg, Poe, Roussel, Faulkner, Artaud, Lowry,
Emma Santos e tantos outros, todos chanfrados,
esquizofrénicos, paranóicos, neuróticos até à medula,
cozidos e recozidos pelo álcool, bela amostra
dessa sub-humanidade que de ordinário
é desejado nos asilos.

Contra a sexualidade normal,
contra a instituição familiar.

A escrita da mulher louca.
O Movimento da Libertação das Loucas.
O movimento anti-patriarcal.
A anti-psiquiatria, a contra-sexualidade.
Uma palavra nova.


mais informações sobre as edições Afrodite aqui

Eu sou o anjo do desespero. Com as minhas mãos distribuo o êxtase, o adormecimento, o esquecimento, o gozo e dor dos corpos. A minha fala é o silêncio, o meu canto o grito. Na sombra das minhas asas mora o terror. A minha esperança é o último sopro. A minha esperança é a primeira batalha. Eu sou a faca com que o morto abre o caixão. Eu sou aquele que há-de ser. O meu voo é a revolta, o meu céu o abismo de amanhã.

Heiner Müller, in "o anjo mudo" relógio d'água (1997)

coisas para ir lendo...

Jorge Silva Melo [ século passado ] cotovia, 2007

Não se trata, apenas, de uma inabalável convicção de editores atentos. Experimente-se isto: rasure-se do nosso espírito a hierarquia dos géneros (orgulhar-se-ia alguém de viver num «país de dramaturgos» tanto como se orgulha do seu «país de poetas»?), pérfida invenção corporativa – e Jorge Silva Melo não é poeta nem romancista –, pegue-se neste monumental Século Passado e leia-se. Não é preciso mais. E, pela leitura, atravesse-se o país desde os anos 50, o Portugal apertadinho, em que as revistas de cinema, com fotografias e resumos, eram o seu telescópio de menino para o mundo, enquanto comia uma bola-de-berlim da leitaria do Senhor Aires.
Sob a epígrafe de serem ficção três quartos da nossa vida, Jorge Silva Melo reúne, nestas quase 600 páginas, boa parte dos escritos dos seus quase 60 anos de vida, não cronologicamente mas pelo significado que cada assunto tratado, ou pessoa, teve em cada década. Formidável ideia essa, a de escrever as Memórias não agora, fechados os 50, mas desde sempre, de as ir escrevendo com os dias, para depois as arrebanhar e nos oferecer.
É da homenagem a muitos seus contemporâneos que Jorge Silva Melo quer que as Memórias se façam; e nessa humildade de se encarar como mero figurante, o rapaz que assiste à vida lá do 2º balcão («nunca nos libertamos da adolescência, não é?»), esta é uma das lições deste livro a todos os títulos comovente: a consciência de que há gestos inaugurais que são absorvidos pela época que os suscitou, e que essa injustiça do presente nos pode calhar a nós. Mesmo assim, mesmo sabendo que ninguém conhece aquilo que o futuro dele irá reter, Jorge Silva Melo entrega este livro, trabalho de toda uma vida e oportunidade de exposição e auto-valorização, aos que vieram antes. As memórias dele são essencialmente as memórias que ele guarda dos outros. E isso, neste país ingrato, trapaceiro e grandiloquente, é coisa de nos apertar o coração:« Não andei, livre, a vagabundear, nem livre divago, nem foi, afinal, sozinho comigo e as bolhas nos pés que calcorreei Tates e Louvres, cinematecas e escadas para o galinheiro das óperas. Prolongo, filho eterno e demorado aluno, genes e lições (…) nada inventei, tudo me foi em segredo ditado (…) Vil tristeza, esta pobre identidade, nem o nariz é meu, nem aquilo que vejo fui eu a ver.»

JORGE SILVA MELO


Jorge Silva Melo nasceu em Lisboa em 1948. Estudou na Faculdade de Letras de Lisboa e depois na London Film School. Crítico de cinema e teatro, assistente de realização, encenador e actor teatral (com Luis Miguel Cintra e Jean Jourdheuil), fundador do Teatro da Cornucópia (1973-79), estagiário na Schaubühne - com Peter Stein - e no Piccolo Teatro/ Scala de Milão - com Giorgio Strehler -, argumentista, professor, tradutor, ensaísta, autor de vários textos teatrais, realizador de cinema. Dirige, desde 1996, os ARTISTAS UNIDOS. Traduziu obras de Carlo Goldoni, Pirandello, Oscar Wilde, Bertolt Brecht, Georg Büchner, Lovecraft, Michelangelo Antonioni, Pier Paolo Pasolini, Heiner Müller e Harold Pinter.


não tenho estado nada bem, um retrocesso,
uma maneira de vencer, de ter as mãos sem penas,
nenhuma imagem invulgar, apenas o bater
das pálpebras, elas agarram-se
viscosas ao sentido,
e nenhum ar oscila, outras vezes

é o silêncio das ruas, a água
sobre os seios, líquida,
o silêncio entre as bocas
e as roucas paredes; receio,
sem pavor, o simples
sofrimento.

tenho errado o que faço, a garatuja, os passos;
lembrando certas horas, uns lugares
depois outros,
o sopro de algumas casas, mas também
os poços de lepra,
as estradas costadas, as naus
inexistentes.


António Franco Alexandre, in "as moradas 1&2" assírio & alvim (1987)

imagem de Gérad Dubois
Roberto Rossellini [ Stromboli ] 1950

Elliot Erwitt, 1963
Casper D. Friedrich [wanderer above the sea of fog] 1818


— A DISTÂNCIA —

esta montanha cria todo o encanto e todo o carácter da região que domina: tendo-nos dito isso pela centésima tornamo-nos bastante loucos e bastante reconhecidos para acreditar que, conferindo este encanto, deve ter em si própria o que há de mais encantador na região; subimos até ao cume e ficamos desiludidos. De repente o encanto desaparece das suas encostas, da paisagem que nos rodeia e daquela que se estende a nossos pés; esquecemos que grande número de grandezas devem, como grande número de bondades, ser vistas a certa distância, e de baixo, pormenor capital, nunca do alto;... é só assim que fazem efeito. Talvez conheças pessoas do teu meio que só podem olhar-se a si próprias a uma certa distância para se julgarem suportáveis, sedutoras e tónicas; o conhecimento de si é uma coisa que se lhes deve desaconcelhar.

F. Nietzsche, in "a gaia ciência" guimarães editores (2000)

Se o movimento de tropas
e o movimento de massas
não deram fruto nem flor,
foi que uns fecharam-se em copas,
outros fizeram negaças,
outros criaram bolor.

Carolina de Oliveira, in "percurso" scarl (1981)

INTEGRAL GUY DEBORD


CULTURGEST : COM E CONTRA O CINEMA


Sexta 13 de Abril

— Guy Debord, son art e son temps [Brigitte Cornand, 1994]

— In girum imus nocte et consumimur igni [Guy Debord, 1978]


Sábado 14 de Abril

— L' Anticoncept [Gil J. Wolman, 1952]

— Hurlements en faveur de Sade [Guy Debord, 1952]

— Sur le passage de quelques personnes à travers une assez courte unité de temps [Guy Debord, 1959]

— Critique de la séparation [Guy Debord, 1961]

— La Société du spectacle [Guy Debord, 1973]

— Réfutation de tous les jugements, tant élogieux qu'hostiles, qui ont été jusqu'ici portés sur le film 'La société du spectacle' [Guy Debord, 1973]


mais informações aqui

Dead Man's Shoes [vingança redentora] de Dean Meadows (2004) é um dos poucos filmes a integrar no catálogo da Warp Films.
Uma vingança crua numa pequena cidade abandonada pelo tempo sempre acompanhada por uma maravilhosa banda sonora onde se podem ouvir temas de Calexico, Aphex Twins, Smog, The Earlies, Bonnie Prince Billy, Cul de Sac, entre outros. Um filme para ver, rever e não esquecer...

semelhanças...

John Lasseter, 2006

John Carpenter, 1983