escutar...


Do It Yourself: The Rise Of The Independent Music Industry After Punk
Soul Jazz Records, 2007

1 de Abril


...de todas as mentiras que me foram sendo contadas ao longo dos anos, creio que esta sempre foi a melhor de todas...
Almada Negreiros [ auto-retrato ] 1924


A MINHA SOMBRA SOU EU

A minha sombra sou eu,
ela não me segue,
eu estou na minha sombra
e não vou em mim.
Sombra de mim que recebo a luz,
sombra atrelada ao que eu nasci,
distância imutável de minha sombra a mim,
toco-me e não me atinjo,
só sei do que seria
se de minha sombra chegasse a mim.
Passa-se tudo em seguir-me
e finjo que sou eu que sigo,
finjo que sou eu que vou
e não que me persigo.
Faço por confundir a minha sombra comigo:
estou sempre às portas da vida,
sempre lá, sempre às portas de mim!

Almada Negreiros, in "poemas" assírio & alvim (2005)

Buck, Flash & Flesh...





Flash Gordon foi o segundo herói espacial das histórias de quadradinhos, criado por Alex Raymond em 1934, figura criada para rivalizar com Buck Rogers de Philip Francis Nowlan e Frank R. Paul (1928). Desde a sua origem teve várias adaptações para cinema, de destacar "Flash Gordon: Space Soldiers" e "Flash Gordon: Rocketship" ambas realizadas por Frederick Stephani em 1936, várias versões de séries televisivas, radiofónicas e uma de animação. De todas as versões de cinema a que talvez tenha ficado mais na memória seja a versão de Mike Hodges (1980) produzida por Dino De Laurentiis com o famoso tema dos Queen "Flash". Aguarda-se para breve uma nova série de televisão e uma nova versão para cinema. No entanto chamo a atenção para uma adaptação que foi feita nos anos 70 para adultos "Flesh Gordon" realizada por Michael Benveniste e Howard Ziehm (1974), a primeira super-produção erótica, que narra a história de Flesh Gordon, um super-héroi que tenta salvar o planeta da maior orgia de todos os tempos... dominando o planeta porno e seduzindo a galáctica impotente...

[ Flesh Gordon ] 1974


O abismo iluminado voltou, era cerca de meio dia.
Ia-me tragando por completo, avançando-me no rosto, nas olheiras, no plano altamente claro da fronte, no tempo.
E então vê-se que somos uma outra parte de nós não revelada.
O que existe ali
não é uma espécie de expressão, é a única expressão. Única
Gelada.

Isabel de Sá, in "esquizo frenia" & etc (1979)

O JOÃO TOLO

Havia uma mãe que tinha um filho, que era muito tolo.
Um dia a mãe mandou o filho lavar umas tripas no mar, as tripas eram muitas, e viu um navio ao longe, que ia fazer uma viagem. Começou a chamar com um pano branco na mão.
O navio aproximou-se, e os homens que vinham dentro perguntaram-lhe para que era que ele tinha chamado. Ele disse-lhes que era para lhe ajudarem a lavar as tripas. Eles deram-lhe uma grande sova e disseram-lhe que ele havia dizer "Boa viagem! Boa viagem!".
Ele foi para casa, disse à mãe o que lhe tinha sucedido. A mãe disse-lhe que ele devia dizer "Haja sangue! Haja sangue!".
O tolo foi uma vez pela estrada adiante, e entrou numa igreja, onde se estava a celebrar um casamento.
Ele pôs-se à porta e disse:
— Haja sangue! Haja sangue!
E o noivo, ouvindo dizer isto, pegou num cacete para lhe dar uma coça, e o tolo fugiu, e o noivo disse-lhe que devia dizer "Sejam felizes! Sejam felizes!".
Ele foi para casa e contou à mãe o que lhe tinha sucedido.
A mãe disse-lhe que dissesse "Sejam felizes! Sejam felizes!".
Foi outra vez por uma estrada adiante e viu um enterro numa igreja. Pôs-se a dançar, a cantar e a dizer:
— Sejam felizes! Sejam felizes!
Um convidado aborreceu-se daquele barulho, veio cá fora com um pau, deu-lhe uma cacetada e disse-lhe que ele devia ajoelhar-se e rezar.
Ele foi para casa e disse à mãe tudo. A mãe disse-lhe que ele devia rezar.
No dia seguinte viu um burro a dormir, ajoelhou-se ao pé dele e rezou por muito tempo.
Veio para casa e disse à mãe o que tinha feito. A mãe disse-lhe que, quando visse algum burro a dormir, que lhe espetasse uma faca.
No dia seguinte viu um homem a dormir e disse:
— Deixa, que vou fazer o que a minha mãe me disse.
Puxou de uma navalha e enterrou-lha no peito. Dizendo à mãe o que tinha feito, a mãe, para não ter mais desgostos, meteu-o num Hospital de doidos, onde morreu.


Tito Cardoso e Cunha, in "fenda da loucura"
[ fenda Da Loucura ] 1982


"escrever a loucura
escrever para não ser louco"

No seu percurso de escrita, e porque se trata de uma revista de e sobre a escrita, teria a Fenda de se defrontar com a loucura na sua relação à escrita.
Este número é dedicado a essa confrontação.
Tema imenso que os textos hoje publicados apenas percorrem, cada um à sua maneira, procurando uma incursão nesse domínio que se o é do indizível nem por isso deixou de fascinar os que, antes mesmo de nela sossobarem, encontram na escrita o modo de ir resistindo à aniquilação.
Não que a loucura seja em si própria produtora de obra, como o demonstra o silêncio final de um Nietzsche ou de um Holderlin. A escrita nasce antes de uma fuga desesperada a esse abismo da razão, como muito bem o exprime a angustiada confissão de Bataille: "Ce qui m'oblige d'écrire, j'imagine, est la crainte de devenir fou".
"Tocando as raias da loucura", na expressão evocada por F. Belo, escreve-se aqui em torno de Artaud, Ângelo de Lima, Isabel de Sá, os contos populares portugueses ou simplesmente o Homem, mesmo quando o alastramento civilizacional do Narcisismo faz emergir o poder incontido da pulsão de morte.

Tito Cardoso e Cunha


AMOUR

Para que os teus dois seios sejam duas pombas brancas
e eu seja para ti o dono do pombal
para que o teu pombal seja nas tuas ancas
e eu o teu senhor matinal

Para que te a manhã te seja nos teus seios
e as tuas pombas brancas fiquem da cor de mulher
para que as tuas ancas já sejam as tuas ancas
e o teu pombal uma metáfora qualquer

Para que te eu o grão de todas as manhãs
de todas as manhãs a te distribuir
para que as tuas pombas voem do pombal
e todas as manhãs assim me distrair

Para que os teus dois seios as tuas pombas brancas
que o teu senhor há-de afagar
por ti e sobre ti e sobre as tuas ancas
o teu senhor te há-de amar.


António Gancho, in "o ar da manhã" assírio & alvim (1995)

imagem de Greg Spalenka

fotograma de [o sétimo selo] Ingmar Bergman, 1957



XADREZ

No seu grave recanto os jogadores
Regem as lentas peças. O tabuleiro
Os demora até à alba em seu severo
Âmbito em que se odeiam duas cores.

Dentro irradiam mágicos rigores
As formas: torre homérica, ligeiro
Cavalo, sagaz dama, rei postreiro,
Oblíquo bispo e peões agressores.

Depois dos jogadores se terem ido.
Depois do tempo os ter consumido,
Decerto não terá cessado o rito.

No oriente incendiou-se esta guerra
Cujo anfiteatro é hoje toda a terra.
Como o outro, este jogo é infinito.


Jorge Luís Borges in "o fazedor" difel (2002)

[ les hommes oubliés de dieu ]



(...)
— A festa não é para nós, meu filho —, disse ele.
— Nós somos pobres.
O garoto chorou, chorou amargamente.
— Não me interessa; quero um carneiro.
— Somos pobres —, repetiu Chaktour.
— Somos pobres porquê? —, perguntou a criança.
O homem reflectiu antes de responder. Depois de tantos anos de indigência tenaz, ele próprio não se lembrava porque eram eram pobres. Era uma coisa que vinha de muito longe, de tão longe que Chaktour já não se lembrava como tinha começado. Dizia para si próprio que a miséria que se prolongava para além dos homens. Apanhara-o desde a nascença e ele logo lhe pertencera, sem a menor resistência, visto que lhe estava destinada muito antes de ter nascido, ainda na barriga da mãe.
A criança estava sempre à espera que lhe explicassem porque eram pobres. Deixara de chorar, mas ainda havia muitas lágrimas dentro de si, todas as lágrimas das crianças miseráveis cujos sonhos são traídos pela vida.
— Escuta, pequeno, vai-te sentar num canto e deixa-me trabalhar. Se somos pobres é porque Deus nos esqueceu, meu filho.
— Deus! —, exclamou a criança. — E quando se lembrará ele de nós, meu pai?
— Quando Deus esquece alguém, é para sempre.
(...)


Albert Cossery, in "os homens esquecidos de deus" antígona (2002)
tradução de Ernesto Sampaio

Albert Cossery


"GOSTARIA QUE DEPOIS DE ME LEREM, AS PESSOAS NÃO FOSSEM TRABALHAR NO DIA SEGUINTE"


ALBERT COSSERY, nasceu no Cairo em 1913, no seio duma familia original, de tradição cristã copta. O pai, proprietário de terras, nunca fez nada para acumular riqueza, promovendo entre filhos a rejeição do trabalho (Mandriões no Vale Fértil é em parte um romance autobiográfico). A mãe, analfabeta, levava-o ao cinema, no tempo dos filmes mudos, para ele lhe ler as legendas. E os irmãos mais velhos, grandes leitores de Nietzsche, Dostoievski ou Baudelaire, transmitiram-lhe a paixão pela literatura universal - decidindo o pequeno Albert, por volta dos dez anos, que seria escritor.
Na infância e na adolescência Cossery frequentou as escolas francesas do Cairo, contribuindo isso, sem dúvida, para ele adoptar o francês quando começa a escrever, por volta dos dezoito anos. As suas primeiras novelas, marcadas pela revolta, saíram em revistas do Cairo. Coligidas em 1940, deram nesse primeiro ano ano o seu primeiro livro (Os Homens Esquecidos por Deus), editado no Cairo em três línguas: árabe, inglês e francês. Foi esta obra que o tornou internacionalmente conhecido; o título foi retomado na Argélia pelo francês Edmond Charlot, em cuja editora Albert Camus era director litérário, e nos Estados Unidos por Henry Miller; este último escreverá um empolgante ensaio sobre Cossery onde expõe (foi ele um dos primeiros) a famosa preguiça cosseriana como uma concepção filosófica.
Mas o nosso autor, que já estabelecera no Egipto uma sólida amizade com Lawrence Durrell, vai trocar as voltas a este auspicioso começo duma carreira literária, decidindo, para viajar, empregar-se como criado de bordo na marinha mercante, na linha Porto Saíd - Nova Iorque (o único emprego que teve). E após algumas estadas em Inglaterra, instala-se em Paris, em 1945, num quarto de hotel que nunca mais deixou.
A ida para Paris destinava-se a prosseguir ali os seus estudos escolares, mas Cossery, esquecendo tais coisas para sempre, dedicou-se logo a actividades muito mais interessantes: as noitadas, as desbundas amorosas, a boémia. O seu principal companheiro nesses vastos empreendimentos foi Albert Camus, mas no mesmo contexto também foi grande amigo de Jean Genet, Roger Nimier, Alberto Giacometti e outros pilares da noite.
Cossery considera-se um escritor egípcio de língua francesa, tal como há, diz ele, muitos escritores indianos de língua inglesa. Em 1990, aos setenta e sete anos, foi-lhe atribuído pela Academia Francesa, pelo conjunto da suas obra, o Grande Prémio da Francofonia - apesar de em quase sessenta anos de «carreira» literária apenas ter escrito oito livros: sete romances e a citada colectânea de novelas. Porque, fiel à sua filosofia da indolência e do desprendimento, a rejeição do trabalho foi sempre para ele a grande luz.

Júlio Henriques
René Magritte [ ceci n'est pas une pipe ] 1928/29


POEMA

Um sábio
não sabia fumar cachimbo

mas a mulher do sábio sabia

quando o sábio chorava
por não saber fumar cachimbo
a mulher do sábio sorria

e assim durante meses e anos

até que
no dia em que o sábio sabia que morria
não disse à mulher que sabia

por isso quando ele chorava
a mulher do sábio sorria


António José Forte,
in "uma faca nos dentes" parceria a. m. pereira (2003)

Fritz Lang [ Der Müde Tod ] 1921



Uma jovem quer salvar o seu amante das garras da Morte. Esta deixa-a assistir à morte de três casais em perigo, em diferentes partes do mundo: um na Arábia, outro em Veneza da época da Renascença, outro na China. Não conseguindo evitar a morte do amado, entrega-se por sua vez à Morte para o poder encontrar no outro lado do muro, na eternidade.
fotograma de [a morte cansada] fritz lang, 1921

NÃO TE MATES QUE É PRECISO MORRER QUANDO A MORTE VIER
Ralph Gibson [ record store ] 1960




A JAULA E AS FERAS

Vivem centos de doidos nesse hospício
(Quem no diria, olhando cá de fora...?!)
E o portão dança já no velho quício,
Dança e faz entrar mais a toda a hora...


Trazem todos um sonho, um crime, um vício,
E foram reis lá muito longe, outrora...
E em seus rostos de espanto ou de flagício
Não sei que ausência atroz se comemora!


Faz medo e angústia olhá-lhos bem nos olhos;
E, lá por trás de grades e ferrolhos,
Estoiram de ansiedade desmedida.


- Meu corpo, ó meu hospício de alienados!
Abre-te aos meus desejos enjaulados,
Deixa-os despedaçar a minha vida!


José Régio, in "poemas de Deus e do Diabo" quasi (2002)

imagem de Pep Montserrat

Krzysztof Kieslowski

1994

1994


1993

As Folhas...


[ Nicholas Ray ] Cinemateca Portuguesa, 2007
António José Forte [uma faca nos dentes] & etc, 1983


RESERVADO AO VENENO

Hoje é um dia reservado ao veneno
e às pequeninas coisas
teias de aranha filigranas de cólera
restos de pulmão onde corre o marfim
é um dia perfeitamente para cães
alguém deu à manivela para nascer o sol
circular o mau hálito esta cinza nos olhos
alguém que não percebia nada de comércio
lançou no mercado esta ferrugem
hoje não é a mesma coisa
que um búzio para ouvir o coração
não é um dia no seu eixo
não é para pessoas
é um dia ao nível do verniz e dos punhais
e esta noite
uma cratera para boémios
não é uma pátria
não é esta noite que é uma pátria
é um dia a mais ou a menos na alma
como chumbo derretido na garganta
um peixe nos ouvidos
uma zona de lava
hoje é um dia de túneis e alçapões de luxo
com sirenes ao crepúsculo
a trezentos anos do amor a trezentos da morte
a outro dia como este do asfalto e do sangue
hoje não é um dia para fazer a barba
não é um dia para homens
não é para palavras

António José Forte

APÓS DIVERSOS MESES DE AUSÊNCIA A EDITORA ASSÍRIO & ALVIM ESTÁ DE VOLTA À INTERNET, COM O SITE COMPLETAMENTE RENOVADO, E TAMBÉM UM NOVO BLOG.
Michael Powell [ the red shoes ] 1948


E por quê, senão por ti, sinto eu amor?
Estreito eu a mim, dias e noite em mim escondido,
O grande livro do mais sábio dos homens?
Na incerta luz da verdade única, certa,
Igual, na sua intensa mutabilidade, à luz
Em que te encontro, em que quietos nos sentamos,
No centro do nosso ser, por um momento,
A intensa transparência que tu trazes é paz.


Wallace Stevens, in "notas para uma ficção suprema" relógio d'água (2007)

imagem de Stefano Ricci
fotograma de Don Quijote de Orson Welles, 1992


OS SEIS MINUTOS MAIS BELOS DA HISTÓRIA DO CINEMA

Sancho Pança entra num cinema de uma cidade de província. Está à procura de D. Quixote e encontra-o sentado a um canto, de olhos postos no écran. A sala está quase cheia, a galeria — que é uma espécie de varanda — está inteiramente ocupada por crianças barulhentas. Depois de algumas tentativas inúteis de ir ter com D. Quixote, Sancho senta-se contrariado na plateia, junto de uma menina (Dulcineia?) que lhe oferece um chupa-chupa. A projecção começou, é um filme de época, no ecrã correm cavaleiros armados, a certa altura aparece uma dama em perigo. De repente, D. Quixote levanta-se, desembainha a espada, precipita-se contra o ecrã e os seus golpes começam a rasgar a tela. No ecrã ainda se vêem os cavaleiros e a dama, mas o rasgão negro, aberto pela espada de D. Quixote, vai-se alargando cada vez mais, devora implacavelmente as imagens. No fim, do ecrã já quase nada resta, vê-se apenas a estrutura de madeira que o sutentava. O público, indignado, abandona a sala mas, na galeria, as crianças não param de encorajar fanaticamente D. Quixote. Só a menina da plateia contempla com ar de censura.
Que devemos fazer com as nossas imaginações? Amá-las, acreditar nelas, a tal ponto que temos de as destruir, falsificar (talvez seja este o sentido do cinema de Orson Welles). Mas quando no fim, elas se revelam ocas, inatingíveis, quando mostram o nada de que são feitas, só então podemos descontar o preço da sua verdade, compreender que Dulcineia — que salvámos — não pode amar-nos.

Giorgio Agamben, in "profanações" cotovia (2006)


AS VIRTUDE DIALOGAIS

Dentro
de mim
há uma planta
que cresce
alegremente
que diz
bom dia
quando nos amamos
ao entardecer
e boa noite
quando florimos
à alvorada
uma árvore
que não está com o tempo
este tempo
a que chamamos
nosso.

Pedro Oom, in "actuação escrita" & etc (1980)
[ GRIFO ] Antologia de inéditos organizada e editada pelos autores (1970)


António Barahona da Fonseca — A saque e a sangue

António José Forte — Um poema

Eduardo Valente da Fonseca — Os manequins inquietantes

Ernesto Sampaio — Surrealismo - uma estrada sem fronteiras

João Rodrigues — Dois desenhos

Manuel de Castro — Hans e a mão direita - Prolegómenos a uma história de animais

Maria Helena Barreiro — Três narrativas

Pedro Oom — Poema - O homem reduzido

Ricarte-Dácio — Equações I e II

Virgílio Martinho — Filopópolus


POEMA

POESIA NÃO É UMA MEDALHA PARA POR NO PEITO DOS TIRANOS MAS UMA IMENSA SOLIDÃO FEITA DE PEDRAS, ONDE O DESPOTISMO PODE ENCOMENDAR O ATAÚDE.CADA UM DE NÓS ODEIA O QUE AMA. POR ISSO O POETA NÃO AMA A POESIA QUE É SÓ DESESPERO E SOLIDÃO MAS ACALENTA AO PEITO AS FORMIGAS DA REVOLTA E DA REBELDIA, QUE TODOS OS DÉSPOTAS QUEREM SUBMISSAS E PROCRIADORAS. SÓ OS VOLUNTÁRIOS DA MISÉRIA E DA SUBMISSÃO PATRIARCAL QUEREM A POESIA NA ARCA DA ALIANÇA COM A TRADIÇÃO PACÓVIA E REGIONALISTA DOS PRETÉRITOS DIAS, GLÓRIAS PATRIOTEIRAS, HEROICIDADES FRUSTRES, PIRATARIA IGNARA. TODO O VERDADEIRO POETA DESPREZA O PEQUENO MONTE DE ESTERCO ONDE O DEJECTARAM NO PLANETA E A QUE OS OUTROS CHAMAM PÁTRIA, E SÓ AMA OS GRANDES CONTINENTES MARES E OCEANOS DA LIBERDADE E DO AMOR. SÓ NOS VASTOS ESPAÇOS INCRIADOS A POESIA SERVE O SEU DESTINO — CATAPULTAR O HOMEM NOS ABISMOS DO DESEJO INCONTROLADO ONDE O PRÓPRIO ASSASSINATO É UM ACTO DE POESIA E DE AMOR. ESTE ASSASSINATO DE QUE FALO É O GRANDE AMPLEXO DE HOMEM PARA HOMEM A SOLIDARIEDADE E A TERNURA, NÃO A CARIDADE HIPÓCRITA OU A CAMA DE FAMÍLIA, COM TODO O SEU PEQUENO CORTEJO DE HORRORES, ONDE A EXPLORAÇÃO DO FILHO PELO PAI DITA A SUA LEI.

Pedro Oom

"É impossível saber que espécie de grito
é o meu: é verdade que é terrível
a ponto de desfigurar-me os traços
tornando-os semelhantes às fauces de uma besta,
mas também é de certa forma alegre,
a ponto de transformar-me numa criança.
(...)
Uma coisa é certa: seja o que for
que o meu grito possa significar,
destina-se a durar para além de qualquer possível tempo."


Pier Paolo Passolini


RUA DE MONTARROIO

Não sei de que fugíamos.
Dizer que era da vida pareceria
demasiado lírico, demasiado verdadeiro
— e a vida raramente aproveita a um poema.

Seja como for, a cidade
predispunha-se, aceitava calmamente
pequenos gestos de ternura,
delírios de morte apenas.
Zé dos ossos, Trianom — nomes
que decorei, enquanto fugíamos
da calúnia dos vinte anos.

As tardes no jardim, um pouco lúgubres,
prenunciavam a costumeira subida:
jantávamos os dois por setecentos escudos,
mesmo ao lado da taberna que não tinha mesas.

Saía barato o amor. Por não sabermos,
ainda, que teríamos de o pagar a vida inteira
com juros aziagos e versos de demora.


Manuel de Freitas, in "juros de demora" assírio & alvim (2007)

LAURIE ANDERSON


William Wyler [ the collector ] 1965

BARBEARIAS

fotografia de Alexandre Delgado O'Neill


Entrei no barbeiro no modo do costume,
com o prazer de me ser fácil entrar
sem constrangimento
nas casas conhecidas.
A minha sensibilidade do novo
é angustiante: tenho calma
só onde já tenho estado.

Quando me sentei na cadeira,
perguntei, por um acaso que lembra,
ao rapaz barbeiro
que me ia colocando no pescoço
um linho frio e limpo, como ia o colega da cadeira da direita,
mais velho e com espírito,
que estava doente.
Perguntei-lhe sem que me pesasse
a necessidade de perguntar:
ocorreu-me a oportunidade pelo local e a lembrança.
"Morreu ontem", respondeu sem tom
a voz que estava por detrás da toalha
e de mim, e cujos dedos se erguiam
da última inserção na nuca,
entre mim e o colarinho.
Toda a minha boa disposição irracional
morreu de repente, como o barbeiro eternamente ausente
da cadeira ao lado.
Fez frio em tudo quanto penso.
Não disse nada.

Saudades!
Tenho-as até do que me não foi nada,
por uma angústia de fuga do tempo
e uma doença do mistério da vida.
Caras que via habitualmente nas minhas ruas habituais
— se deixo de vê-las entristeço;
e não me foram nada,
a não ser o símbolo de toda a vida.

O velho
sem interesse das polainas sujas,
que cruzava frequentemente comigo
às nove e meia da manhã?
O cauteleiro coxo que me maçava inutilmente?
O velhote redondo e corado
do charuto à porta da tabacaria?
O dono pálido da tabacaria?
O que é feito de todos eles, que, porque os vi e os tornei a ver,
foram parte da minha vida?
Amanhã também eu me sumirei
da Rua da Prata,
da Rua dos Douradores,
da Rua dos Fanqueiros.
Amanhã também eu — a alma que sente
e pensa,
o universo que sou para mim —
sim, amanhã eu também serei
o que deixou de passar nestas ruas,
o que outros vagamente evocarão
com um "o que será dele?".
E tudo quanto faço, tudo quanto sinto,
tudo quanto vivo, não será mais que um transeunte
a menos na
quotidianidade de ruas
de uma cidade qualquer.


Fernando Pessoa


in, "barbearias" edições rolim (1986)

A CERTAIN RATIO...




ESTIMADOS COMPATRIOTAS :

ACERCA do filho-da-puta, como acerca de muitas outras coisas, correm neste país as mais desvairadas lendas. Há até quem pretenda que o filho-da-puta a bem dizer nunca existiu, dado que ele é apenas um modo de dizer. Nada, porém, mais falso. É certo que o filho-da-puta às vezes não passa de um modo de dizer, mas não bastará a simples existência, particular e pública, de tão variados retratos seus e de tantas estátuas suas, bem como de tantos nomes seus dados a ruas, praças e escolas, para dissipar de vez as dúvidas acerca da sua existência real? E se isso não bastasse, não chegariam para acreditar nele os seus cartões de visa, que são os seus cartões de visita, e a suas inumeráveis credenciais, honras, bolsas de estudo e estudos de bolsa? Pois quem teria imaginação suficiente para inventar tantas e tais variedades de filho-da-puta caso ele não existisse? Não! O filho-da-puta existe. Em todos os lugares, excepto no dicionário. No dicionário existem variados filhos, entre eles o filho-família. o filhastro e o filhote, mas não existe o filho-da-puta. Em compensação, ele, o filho-da-puta, existe em todos os outros lugares. Claro que há lugares que ele de preferência ocupa e onde por conseguinte é mais frequente encontrá-lo; no entanto, exceptuando, como ficou dito, o dicionário, não há lugar onde, procurando bem, não se encontre pelo menos um filho-da-puta.

Alberto Pimenta, in "discurso sobre o filho-da-puta" teorema (2000)

AUTO-RETRATO

Espáduas brancas palpitantes:
asas no exílio dum corpo.
Os braços calhas cintilantes
para o comboio da alma.
E os olhos emigrantes
no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vezes fêmea. Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco. Esponja
embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro
presa na teia dos seus ardis.
E aos pés um coração de louça
quebrado em jogos infantis.


Natália Correia

imagem de Colette Calascione
Virginie Despentes [ baise-moi ] 2000

... e se Mickey e Mallory Knox fossem duas mulheres à beira de um ataque de nervos ?

... e se Thelma & Louise fossem duas actrizes porno ?

isso seria ??

REEDIÇÃO

Pedro Almodóvar [ Patty Diphusa e outros textos ] quasi (2007)

Para quem não teve a oportunidade de adquirir a já extinta 1º edição de Patty Diphusa e outros textos editada em 1992 por uma já extinta editora (difusão cultural), aqui fica a recomendação para a nova edição reeditada muito recentemente pelas edições quasi.
Esta nova edição contem alguns textos escritos no inicio dos anos 90 que não faziam parte da edição anterior.
Mário Cesariny [frontispício de "o virgem negra"] 1989


É IMPORTANTE FODER

É importante foder (ou não foder)?
É evidente que não, não é importante.
Fode quem fode e não fode quem não quer.
Com isso ninguém tem nada
Mas mesmo nada
A ver.

O que um tanto me tolhe é não poder confiar
Numa coisa que estica e depois encolhe,
Uma coisa que é mole e se põe a endurar e
A dilatar a dilatar
Até não se poder nem deixar andar
Para depois se sumir
E dar vontade de rir e d'ir urinar.

Isso eu o quis dizer naquele verso louco que tenho ao pé:
"O amor é um sono que chega para o pouco ser que se é"
Verso que, como sempre, terá ficado por perceber (por mim até).

Também aquela do "outrora-agora" e do "ah poder ser tu sendo eu" foi um bom trabalho
Para continuar tudo co'a cara de caralho
Que todos já tinham e vão continuar a ter
Antes durante e depois de morrer.


Mário Cesariny, in "o virgem negra" assírio & alvim (1996)

EXPLICAÇÃO PSICANALÍTICA DE «JESUS (FAMÍLIA E COMPLEXOS, FAMÍLIA DE COMPLEXOS. COMPLEXO DE FAMÍLIA)» :

«Jesus, o femeozito masoquista, que depois de se ter deixado esbofetear numa face estende a outra, não era desses a quem satisfaz um simples retornozinho ao seio materno.
Era-lhe necessário subir ao mais íntimo do aparelho genital do genitor, dele se tornar uma parte, digamos o testículo direito, visto que a trindade pode, deve interpretar-se como o conjunto tripartido, quanto à aparência, de um sexo macho, uma banana e duas tangerinas, diremos nós, o estilo oriental só permitindo comparações fruteiras. [...]
Antes da apoteose masoquista, houve, evidentemente, alguns divertimentos, o que os franceses chamam ninharias de ao pé da porta: namoro baptismal com São João Baptista, loçõezinhas íntimas e perfurmadas pelas mãos das Santas mulheres e, sobretudo, a Ceia com o pão (e pão comprido, sabe-se o que ele pode representar e sabe-se também que nunca os pintores deste repasto — que de quadros célebres! — pousaram na mesa pequenos pães rachados, simbólicos, esses sim, do sexo femenino). [...]
Centuriões, belíssimos rapazinhos, com as barrigas das pernas cingidas por grevas de ouro, pareciam mais superiormente nus logo que o joelho sobressaía. [...]
Com uma elegantíssima túnica branca, curvado sobre a cruz, Jesus expunha o dorso. No momento em que Pôncio Pilatos lavara as mãos, o simbolismo sexual tornara-se evidente. Jesus caía, levantava-se, quer dizer, tinha gozado, reencontrava-se pronto a gozar, voltara a gozar sob o chicote dos atletas sugestivamente vestidos.
Ora, da mesma forma que a jovem esposa grita "mamã" no pavor da volúpia, ele não parava de chamar pelo pai. [...] Mas então veio a esponja de vinagre, isto é, o desprezo do mais belo dos soldados por este farrapo que queria ser a sua rameira. Este legionário que, no meio das putas amontoadas ao pé da cruz, não podia deixar de reconhecer o traseiro experiente de Maria Madalena, não dará a Jesus a honra da mínima secreção prostática. Contenta-se em mijar-lhe na boca.
Então, completa-se o trio. Entre os dois ladrões, as duas castanhas (as suculentas laranjas divinas encarquilharam, secaram até não passarem de pobres castanhas), o Cristo não é mais do que a sombra de um miserável rolo de cabelo.»

René Crevel


in, Jules-François Dupuis [aka Raoul Vaneigem] "história desenvolta do surrealismo" antígona (1979)

CADAVRE EXQUIS I [33]


Faz-se, na esteira do República, do Diário de Lisboa, do Jornal do Fundão, do Notícias da Amadora, cor de vitalidades.
Ri-se às escancaras ao ver os filhos apanhar tanta nota do chão.
Tudo se move, tudo dança; tudo é rapidez e triunfo.
É triste, mas comigo os barcos não sofrem quando vão para o desmantelamento, porque enquanto espero pela maré cheia, falo com eles, falo-lhes de todos os portos que tocaram, de todas as línguas que ouviram, de todos os marinheiros, de todas as bandeiras. Os barcos são animais nobres e chegam conformados ao paraíso do trabalho.
Entretanto, continuava ali de pé, de sentinela, encostada à porta, surpreendendo-se a si própria por se encontrar naquele estranho lugar, enquanto Miss Green, lá atrás, de óculos pousados ao seu lado no banco, pressionava os olhos com as pontas dos dedos.
Contra aquela ilha sem relevo e aquelas praias sem fim, sobressaía um casal que entrava na água e que se esforçava por avançar em silêncio.
À direita e por detrás de WINNIE, deitado no chão e escondido pela elevação do terreno, WILLIE, também a dormir.
So in a certain sense disintegration may have its advantages.
Houve, porém, um resultado: de quando em quando, o véu parecia desaparecer num rápido vislumbre; mas, antes de poder visualizar o rosto, ficava tudo, outra vez, oculto.
Olho os cabelos, reconheço o movimento do pulso que lhe ajusta as ondas, penso que a madeira da tua escova é como o vento do Atlântico que cava ondas compridas.
Tinham-se conhecido trinta e quatro anos antes num baile de natal, num dos mais chiques hotéis da capital, quando o primeiro-tenente nestor lhe tinha pisado a cauda de renda do vestido.
Já sabia que, mais tarde ou mais cedo, isso iria acontecer.
Groupés autour d´un macrophage avec un citoplasme large et rempli de vacuoles, des macroblastes, des normoblastes et un lynphocyte.
No seu rosto eu vejo a sua alma bela, e é a sua alma que é digna da nossa afeição.
Devia ter-me seguido de perto na descida, pois a distância a que se encontrava de mim era suficiente para nos ouvirmos um ao outro.
As freiras eram o pior de tudo, sempre a pressionarem; as freiras que eram enfermeiras.


Resultado do primeiro cadavre exquis, obrigado a todos os que aqui participaram...


À PORTA DA INSÓNIA

Já o real absorve a irrealidade,
porém que realidade é a da noite
só vivida em palavras? Em vão tento
criar uma sequência de momentos, de
tudo esvaziados, se falho não sei
se é por obras palavras ou imagens

Paro à porta da insónia, e no magro intervalo,
que se alarga depois, reaparece a casa: dentro
dela estou afinal, o estrago que me envolve
é igual ao que também não sei que mal
mortal fez no tecto do sono,
por onde agora entra a realidade


Gastão Cruz, in "a moeda do tempo" assírio & alvim (2006)

fotografia de Ralph Gibson

LIVRO OBRIGATÓRIO ...

[ Roberto Rossellini e o Cinema Revelador ]
cinemateca portuguesa, 2007


«AS COISAS ESTÃO LÁ, PARA QUÊ MANIPULA-LAS?»

Roberto Rossellini


— Relembro que o ciclo de cinema, Roberto Rossellini e o Cinema Revelador, teve inicio na Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema a 30 de Janeiro de 2007 e termina a 30 de Março de 2007.
Martin Scorcese [ Boxcar Bertha ] 1972


CURIOSIDADES

 o filme é baseado em personagens retirados do livro "Sister of the road", a autobiografia de Bertha Thompson, que relatou as suas experiências ao Drº Ben L. Reitman, alegadamente o médico de Al Capone!

 embora esta fosse a primeira longa-metragem de Martin Scorcese, o realizador teve ampla margem de manobra, desde que permanecesse dentro do mesmo registo cinematográfico e não ultrapassa-se os 600 dólares do orçamento!

 a verdadeira Boxcar Bertha era descendente de uma linhagem de radicais. O seu avô, Moses Thompson, publicava em 1800 uma revista intitulada The Female Emancipator, percursora do direito das mulheres ao voto!



ADEUS PORTUGUÊS

Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz dos ombros pura e a sombra
duma angústia já purificada

Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver

Não podias ficar nesta casa comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual

Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal

Mas tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser

Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti


Alexandre O'Neill

fotografias de Helena Gonçalves
Manuel Fernando Gonçalves ["fechamos a alma, ao fim da tarde, com estrondo e animação"] & etc, 2007


BETABLOQUEANTE

O rapaz tem vergonha de falar
das coisas que o inquietam, não
gosta de ouvir a sua voz azul
calar as outras coisas que sente.
O rapaz é bonito, é demente,
é ansioso e muito cool —
parece ter um lapso no coração
quando está onde não devia estar.

O rapaz nem parece português
moderno: é moreno e alto, robusto,
simula a mesma pele do retrato
que usa por dentro de quem gosta
de o sentir distante e perto.
Não anda de avião, decerto,
prefere voar rente à costa,
elegante e de muito bom trato
mesmo quando sobe, a custo,
para mostrar tudo o que não vês.

O lindo rapaz é tenso como uma corda,
anda descalço quando quer e pode —
que bem que cheira o perfeito dorso!
Não o chamem, não façam esforço,
não será assim que o sangue explode
e ele fica nú, fica triste, ele acorda...


Manuel Fernando Gonçalves


CONCEITO DE PESSOA

O meu conceito de pessoa é, digamos, tão interior e tão não comprometido seja com o que for, que não teria nome nenhum e não poderia designar-se por coisa nenhuma. O meu conceito interno de pessoa é um conceito a que nem se poderia aplicar o nome de pessoa porque esta vem da palavra latina persona que significa máscara. Então quando digo «está aqui uma pessoa», é a mesma coisa que dizer: está aqui um homem mascarado ou uma máscara de homem, que me pode aparecer com muitos aspectos. A pessoa pode ter várias personae, várias máscaras com que aparece. Então podemos supor que às várias máscaras que aparecem ou que sem aparecer existem, a pessoa pode dar nomes diferentes, escondendo, deixando no silêncio, na obscuridade, na indefinição, aquilo que a pessoa acha fundamental.


Agostinho da Silva, in "vida conversável" assírio & alvim (1994)

imagem de Greg Spalenka