NÃO TE MATES QUE É PRECISO MORRER QUANDO A MORTE VIER

A JAULA E AS FERAS
Vivem centos de doidos nesse hospício
(Quem no diria, olhando cá de fora...?!)
E o portão dança já no velho quício,
Dança e faz entrar mais a toda a hora...
Trazem todos um sonho, um crime, um vício,
E foram reis lá muito longe, outrora...
E em seus rostos de espanto ou de flagício
Não sei que ausência atroz se comemora!
Faz medo e angústia olhá-lhos bem nos olhos;
E, lá por trás de grades e ferrolhos,
Estoiram de ansiedade desmedida.
- Meu corpo, ó meu hospício de alienados!
Abre-te aos meus desejos enjaulados,
Deixa-os despedaçar a minha vida!
José Régio, in "poemas de Deus e do Diabo" quasi (2002)
imagem de Pep Montserrat
António José Forte [uma faca nos dentes] & etc, 1983RESERVADO AO VENENO
Hoje é um dia reservado ao veneno
e às pequeninas coisas
teias de aranha filigranas de cólera
restos de pulmão onde corre o marfim
é um dia perfeitamente para cães
alguém deu à manivela para nascer o sol
circular o mau hálito esta cinza nos olhos
alguém que não percebia nada de comércio
lançou no mercado esta ferrugem
hoje não é a mesma coisa
que um búzio para ouvir o coração
não é um dia no seu eixo
não é para pessoas
é um dia ao nível do verniz e dos punhais
e esta noite
uma cratera para boémios
não é uma pátria
não é esta noite que é uma pátria
é um dia a mais ou a menos na alma
como chumbo derretido na garganta
um peixe nos ouvidos
uma zona de lava
hoje é um dia de túneis e alçapões de luxo
com sirenes ao crepúsculo
a trezentos anos do amor a trezentos da morte
a outro dia como este do asfalto e do sangue
hoje não é um dia para fazer a barba
não é um dia para homens
não é para palavras
António José Forte

E por quê, senão por ti, sinto eu amor?
Estreito eu a mim, dias e noite em mim escondido,
O grande livro do mais sábio dos homens?
Na incerta luz da verdade única, certa,
Igual, na sua intensa mutabilidade, à luz
Em que te encontro, em que quietos nos sentamos,
No centro do nosso ser, por um momento,
A intensa transparência que tu trazes é paz.
Wallace Stevens, in "notas para uma ficção suprema" relógio d'água (2007)
imagem de Stefano Ricci
fotograma de Don Quijote de Orson Welles, 1992OS SEIS MINUTOS MAIS BELOS DA HISTÓRIA DO CINEMA
Sancho Pança entra num cinema de uma cidade de província. Está à procura de D. Quixote e encontra-o sentado a um canto, de olhos postos no écran. A sala está quase cheia, a galeria — que é uma espécie de varanda — está inteiramente ocupada por crianças barulhentas. Depois de algumas tentativas inúteis de ir ter com D. Quixote, Sancho senta-se contrariado na plateia, junto de uma menina (Dulcineia?) que lhe oferece um chupa-chupa. A projecção começou, é um filme de época, no ecrã correm cavaleiros armados, a certa altura aparece uma dama em perigo. De repente, D. Quixote levanta-se, desembainha a espada, precipita-se contra o ecrã e os seus golpes começam a rasgar a tela. No ecrã ainda se vêem os cavaleiros e a dama, mas o rasgão negro, aberto pela espada de D. Quixote, vai-se alargando cada vez mais, devora implacavelmente as imagens. No fim, do ecrã já quase nada resta, vê-se apenas a estrutura de madeira que o sutentava. O público, indignado, abandona a sala mas, na galeria, as crianças não param de encorajar fanaticamente D. Quixote. Só a menina da plateia contempla com ar de censura.
Que devemos fazer com as nossas imaginações? Amá-las, acreditar nelas, a tal ponto que temos de as destruir, falsificar (talvez seja este o sentido do cinema de Orson Welles). Mas quando no fim, elas se revelam ocas, inatingíveis, quando mostram o nada de que são feitas, só então podemos descontar o preço da sua verdade, compreender que Dulcineia — que salvámos — não pode amar-nos.
Giorgio Agamben, in "profanações" cotovia (2006)
[ GRIFO ] Antologia de inéditos organizada e editada pelos autores (1970)António Barahona da Fonseca — A saque e a sangue
António José Forte — Um poema
Eduardo Valente da Fonseca — Os manequins inquietantes
Ernesto Sampaio — Surrealismo - uma estrada sem fronteiras
João Rodrigues — Dois desenhos
Manuel de Castro — Hans e a mão direita - Prolegómenos a uma história de animais
Maria Helena Barreiro — Três narrativas
Pedro Oom — Poema - O homem reduzido
Ricarte-Dácio — Equações I e II
Virgílio Martinho — Filopópolus
POEMA
POESIA NÃO É UMA MEDALHA PARA POR NO PEITO DOS TIRANOS MAS UMA IMENSA SOLIDÃO FEITA DE PEDRAS, ONDE O DESPOTISMO PODE ENCOMENDAR O ATAÚDE.CADA UM DE NÓS ODEIA O QUE AMA. POR ISSO O POETA NÃO AMA A POESIA QUE É SÓ DESESPERO E SOLIDÃO MAS ACALENTA AO PEITO AS FORMIGAS DA REVOLTA E DA REBELDIA, QUE TODOS OS DÉSPOTAS QUEREM SUBMISSAS E PROCRIADORAS. SÓ OS VOLUNTÁRIOS DA MISÉRIA E DA SUBMISSÃO PATRIARCAL QUEREM A POESIA NA ARCA DA ALIANÇA COM A TRADIÇÃO PACÓVIA E REGIONALISTA DOS PRETÉRITOS DIAS, GLÓRIAS PATRIOTEIRAS, HEROICIDADES FRUSTRES, PIRATARIA IGNARA. TODO O VERDADEIRO POETA DESPREZA O PEQUENO MONTE DE ESTERCO ONDE O DEJECTARAM NO PLANETA E A QUE OS OUTROS CHAMAM PÁTRIA, E SÓ AMA OS GRANDES CONTINENTES MARES E OCEANOS DA LIBERDADE E DO AMOR. SÓ NOS VASTOS ESPAÇOS INCRIADOS A POESIA SERVE O SEU DESTINO — CATAPULTAR O HOMEM NOS ABISMOS DO DESEJO INCONTROLADO ONDE O PRÓPRIO ASSASSINATO É UM ACTO DE POESIA E DE AMOR. ESTE ASSASSINATO DE QUE FALO É O GRANDE AMPLEXO DE HOMEM PARA HOMEM A SOLIDARIEDADE E A TERNURA, NÃO A CARIDADE HIPÓCRITA OU A CAMA DE FAMÍLIA, COM TODO O SEU PEQUENO CORTEJO DE HORRORES, ONDE A EXPLORAÇÃO DO FILHO PELO PAI DITA A SUA LEI.
Pedro Oom

"É impossível saber que espécie de grito
é o meu: é verdade que é terrível
a ponto de desfigurar-me os traços
tornando-os semelhantes às fauces de uma besta,
mas também é de certa forma alegre,
a ponto de transformar-me numa criança.
(...)
Uma coisa é certa: seja o que for
que o meu grito possa significar,
destina-se a durar para além de qualquer possível tempo."
Pier Paolo Passolini

RUA DE MONTARROIO
Não sei de que fugíamos.
Dizer que era da vida pareceria
demasiado lírico, demasiado verdadeiro
— e a vida raramente aproveita a um poema.
Seja como for, a cidade
predispunha-se, aceitava calmamente
pequenos gestos de ternura,
delírios de morte apenas.
Zé dos ossos, Trianom — nomes
que decorei, enquanto fugíamos
da calúnia dos vinte anos.
As tardes no jardim, um pouco lúgubres,
prenunciavam a costumeira subida:
jantávamos os dois por setecentos escudos,
mesmo ao lado da taberna que não tinha mesas.
Saía barato o amor. Por não sabermos,
ainda, que teríamos de o pagar a vida inteira
com juros aziagos e versos de demora.
Manuel de Freitas, in "juros de demora" assírio & alvim (2007)
BARBEARIAS
fotografia de Alexandre Delgado O'NeillEntrei no barbeiro no modo do costume,
com o prazer de me ser fácil entrar
sem constrangimento
nas casas conhecidas.
A minha sensibilidade do novo
é angustiante: tenho calma
só onde já tenho estado.
Quando me sentei na cadeira,
perguntei, por um acaso que lembra,
ao rapaz barbeiro
que me ia colocando no pescoço
um linho frio e limpo, como ia o colega da cadeira da direita,
mais velho e com espírito,
que estava doente.
Perguntei-lhe sem que me pesasse
a necessidade de perguntar:
ocorreu-me a oportunidade pelo local e a lembrança.
"Morreu ontem", respondeu sem tom
a voz que estava por detrás da toalha
e de mim, e cujos dedos se erguiam
da última inserção na nuca,
entre mim e o colarinho.
Toda a minha boa disposição irracional
morreu de repente, como o barbeiro eternamente ausente
da cadeira ao lado.
Fez frio em tudo quanto penso.
Não disse nada.
Saudades!
Tenho-as até do que me não foi nada,
por uma angústia de fuga do tempo
e uma doença do mistério da vida.
Caras que via habitualmente nas minhas ruas habituais
— se deixo de vê-las entristeço;
e não me foram nada,
a não ser o símbolo de toda a vida.
O velho
sem interesse das polainas sujas,
que cruzava frequentemente comigo
às nove e meia da manhã?
O cauteleiro coxo que me maçava inutilmente?
O velhote redondo e corado
do charuto à porta da tabacaria?
O dono pálido da tabacaria?
O que é feito de todos eles, que, porque os vi e os tornei a ver,
foram parte da minha vida?
Amanhã também eu me sumirei
da Rua da Prata,
da Rua dos Douradores,
da Rua dos Fanqueiros.
Amanhã também eu — a alma que sente
e pensa,
o universo que sou para mim —
sim, amanhã eu também serei
o que deixou de passar nestas ruas,
o que outros vagamente evocarão
com um "o que será dele?".
E tudo quanto faço, tudo quanto sinto,
tudo quanto vivo, não será mais que um transeunte
a menos na
quotidianidade de ruas
de uma cidade qualquer.
Fernando Pessoa
in, "barbearias" edições rolim (1986)

ESTIMADOS COMPATRIOTAS :
ACERCA do filho-da-puta, como acerca de muitas outras coisas, correm neste país as mais desvairadas lendas. Há até quem pretenda que o filho-da-puta a bem dizer nunca existiu, dado que ele é apenas um modo de dizer. Nada, porém, mais falso. É certo que o filho-da-puta às vezes não passa de um modo de dizer, mas não bastará a simples existência, particular e pública, de tão variados retratos seus e de tantas estátuas suas, bem como de tantos nomes seus dados a ruas, praças e escolas, para dissipar de vez as dúvidas acerca da sua existência real? E se isso não bastasse, não chegariam para acreditar nele os seus cartões de visa, que são os seus cartões de visita, e a suas inumeráveis credenciais, honras, bolsas de estudo e estudos de bolsa? Pois quem teria imaginação suficiente para inventar tantas e tais variedades de filho-da-puta caso ele não existisse? Não! O filho-da-puta existe. Em todos os lugares, excepto no dicionário. No dicionário existem variados filhos, entre eles o filho-família. o filhastro e o filhote, mas não existe o filho-da-puta. Em compensação, ele, o filho-da-puta, existe em todos os outros lugares. Claro que há lugares que ele de preferência ocupa e onde por conseguinte é mais frequente encontrá-lo; no entanto, exceptuando, como ficou dito, o dicionário, não há lugar onde, procurando bem, não se encontre pelo menos um filho-da-puta.
Alberto Pimenta, in "discurso sobre o filho-da-puta" teorema (2000)

AUTO-RETRATO
Espáduas brancas palpitantes:
asas no exílio dum corpo.
Os braços calhas cintilantes
para o comboio da alma.
E os olhos emigrantes
no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vezes fêmea. Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco. Esponja
embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro
presa na teia dos seus ardis.
E aos pés um coração de louça
quebrado em jogos infantis.
Natália Correia
imagem de Colette Calascione
REEDIÇÃO
Pedro Almodóvar [ Patty Diphusa e outros textos ] quasi (2007)Para quem não teve a oportunidade de adquirir a já extinta 1º edição de Patty Diphusa e outros textos editada em 1992 por uma já extinta editora (difusão cultural), aqui fica a recomendação para a nova edição reeditada muito recentemente pelas edições quasi.
Esta nova edição contem alguns textos escritos no inicio dos anos 90 que não faziam parte da edição anterior.
É IMPORTANTE FODER
É importante foder (ou não foder)?
É evidente que não, não é importante.
Fode quem fode e não fode quem não quer.
Com isso ninguém tem nada
Mas mesmo nada
A ver.
O que um tanto me tolhe é não poder confiar
Numa coisa que estica e depois encolhe,
Uma coisa que é mole e se põe a endurar e
A dilatar a dilatar
Até não se poder nem deixar andar
Para depois se sumir
E dar vontade de rir e d'ir urinar.
Isso eu o quis dizer naquele verso louco que tenho ao pé:
"O amor é um sono que chega para o pouco ser que se é"
Verso que, como sempre, terá ficado por perceber (por mim até).
Também aquela do "outrora-agora" e do "ah poder ser tu sendo eu" foi um bom trabalho
Para continuar tudo co'a cara de caralho
Que todos já tinham e vão continuar a ter
Antes durante e depois de morrer.
Mário Cesariny, in "o virgem negra" assírio & alvim (1996)

EXPLICAÇÃO PSICANALÍTICA DE «JESUS (FAMÍLIA E COMPLEXOS, FAMÍLIA DE COMPLEXOS. COMPLEXO DE FAMÍLIA)» :
«Jesus, o femeozito masoquista, que depois de se ter deixado esbofetear numa face estende a outra, não era desses a quem satisfaz um simples retornozinho ao seio materno.
Era-lhe necessário subir ao mais íntimo do aparelho genital do genitor, dele se tornar uma parte, digamos o testículo direito, visto que a trindade pode, deve interpretar-se como o conjunto tripartido, quanto à aparência, de um sexo macho, uma banana e duas tangerinas, diremos nós, o estilo oriental só permitindo comparações fruteiras. [...]
Antes da apoteose masoquista, houve, evidentemente, alguns divertimentos, o que os franceses chamam ninharias de ao pé da porta: namoro baptismal com São João Baptista, loçõezinhas íntimas e perfurmadas pelas mãos das Santas mulheres e, sobretudo, a Ceia com o pão (e pão comprido, sabe-se o que ele pode representar e sabe-se também que nunca os pintores deste repasto — que de quadros célebres! — pousaram na mesa pequenos pães rachados, simbólicos, esses sim, do sexo femenino). [...]
Centuriões, belíssimos rapazinhos, com as barrigas das pernas cingidas por grevas de ouro, pareciam mais superiormente nus logo que o joelho sobressaía. [...]
Com uma elegantíssima túnica branca, curvado sobre a cruz, Jesus expunha o dorso. No momento em que Pôncio Pilatos lavara as mãos, o simbolismo sexual tornara-se evidente. Jesus caía, levantava-se, quer dizer, tinha gozado, reencontrava-se pronto a gozar, voltara a gozar sob o chicote dos atletas sugestivamente vestidos.
Ora, da mesma forma que a jovem esposa grita "mamã" no pavor da volúpia, ele não parava de chamar pelo pai. [...] Mas então veio a esponja de vinagre, isto é, o desprezo do mais belo dos soldados por este farrapo que queria ser a sua rameira. Este legionário que, no meio das putas amontoadas ao pé da cruz, não podia deixar de reconhecer o traseiro experiente de Maria Madalena, não dará a Jesus a honra da mínima secreção prostática. Contenta-se em mijar-lhe na boca.
Então, completa-se o trio. Entre os dois ladrões, as duas castanhas (as suculentas laranjas divinas encarquilharam, secaram até não passarem de pobres castanhas), o Cristo não é mais do que a sombra de um miserável rolo de cabelo.»
René Crevel
in, Jules-François Dupuis [aka Raoul Vaneigem] "história desenvolta do surrealismo" antígona (1979)
CADAVRE EXQUIS I [33]

Faz-se, na esteira do República, do Diário de Lisboa, do Jornal do Fundão, do Notícias da Amadora, cor de vitalidades.
Ri-se às escancaras ao ver os filhos apanhar tanta nota do chão.
Tudo se move, tudo dança; tudo é rapidez e triunfo.
É triste, mas comigo os barcos não sofrem quando vão para o desmantelamento, porque enquanto espero pela maré cheia, falo com eles, falo-lhes de todos os portos que tocaram, de todas as línguas que ouviram, de todos os marinheiros, de todas as bandeiras. Os barcos são animais nobres e chegam conformados ao paraíso do trabalho.
Entretanto, continuava ali de pé, de sentinela, encostada à porta, surpreendendo-se a si própria por se encontrar naquele estranho lugar, enquanto Miss Green, lá atrás, de óculos pousados ao seu lado no banco, pressionava os olhos com as pontas dos dedos.
Contra aquela ilha sem relevo e aquelas praias sem fim, sobressaía um casal que entrava na água e que se esforçava por avançar em silêncio.
À direita e por detrás de WINNIE, deitado no chão e escondido pela elevação do terreno, WILLIE, também a dormir.
So in a certain sense disintegration may have its advantages.
Houve, porém, um resultado: de quando em quando, o véu parecia desaparecer num rápido vislumbre; mas, antes de poder visualizar o rosto, ficava tudo, outra vez, oculto.
Olho os cabelos, reconheço o movimento do pulso que lhe ajusta as ondas, penso que a madeira da tua escova é como o vento do Atlântico que cava ondas compridas.
Tinham-se conhecido trinta e quatro anos antes num baile de natal, num dos mais chiques hotéis da capital, quando o primeiro-tenente nestor lhe tinha pisado a cauda de renda do vestido.
Já sabia que, mais tarde ou mais cedo, isso iria acontecer.
Groupés autour d´un macrophage avec un citoplasme large et rempli de vacuoles, des macroblastes, des normoblastes et un lynphocyte.
No seu rosto eu vejo a sua alma bela, e é a sua alma que é digna da nossa afeição.
Devia ter-me seguido de perto na descida, pois a distância a que se encontrava de mim era suficiente para nos ouvirmos um ao outro.
As freiras eram o pior de tudo, sempre a pressionarem; as freiras que eram enfermeiras.
Resultado do primeiro cadavre exquis, obrigado a todos os que aqui participaram...

À PORTA DA INSÓNIA
Já o real absorve a irrealidade,
porém que realidade é a da noite
só vivida em palavras? Em vão tento
criar uma sequência de momentos, de
tudo esvaziados, se falho não sei
se é por obras palavras ou imagens
Paro à porta da insónia, e no magro intervalo,
que se alarga depois, reaparece a casa: dentro
dela estou afinal, o estrago que me envolve
é igual ao que também não sei que mal
mortal fez no tecto do sono,
por onde agora entra a realidade
Gastão Cruz, in "a moeda do tempo" assírio & alvim (2006)
fotografia de Ralph Gibson
LIVRO OBRIGATÓRIO ...
[ Roberto Rossellini e o Cinema Revelador ] cinemateca portuguesa, 2007
«AS COISAS ESTÃO LÁ, PARA QUÊ MANIPULA-LAS?»
Roberto Rossellini
— Relembro que o ciclo de cinema, Roberto Rossellini e o Cinema Revelador, teve inicio na Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema a 30 de Janeiro de 2007 e termina a 30 de Março de 2007.
Martin Scorcese [ Boxcar Bertha ] 1972CURIOSIDADES
o filme é baseado em personagens retirados do livro "Sister of the road", a autobiografia de Bertha Thompson, que relatou as suas experiências ao Drº Ben L. Reitman, alegadamente o médico de Al Capone!
embora esta fosse a primeira longa-metragem de Martin Scorcese, o realizador teve ampla margem de manobra, desde que permanecesse dentro do mesmo registo cinematográfico e não ultrapassa-se os 600 dólares do orçamento!
a verdadeira Boxcar Bertha era descendente de uma linhagem de radicais. O seu avô, Moses Thompson, publicava em 1800 uma revista intitulada The Female Emancipator, percursora do direito das mulheres ao voto!


ADEUS PORTUGUÊS
Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz dos ombros pura e a sombra
duma angústia já purificada
Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor
Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver
Não podias ficar nesta casa comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual
Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal
Mas tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser
Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal
Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti
Alexandre O'Neill
fotografias de Helena Gonçalves
Manuel Fernando Gonçalves ["fechamos a alma, ao fim da tarde, com estrondo e animação"] & etc, 2007BETABLOQUEANTE
O rapaz tem vergonha de falar
das coisas que o inquietam, não
gosta de ouvir a sua voz azul
calar as outras coisas que sente.
O rapaz é bonito, é demente,
é ansioso e muito cool —
parece ter um lapso no coração
quando está onde não devia estar.
O rapaz nem parece português
moderno: é moreno e alto, robusto,
simula a mesma pele do retrato
que usa por dentro de quem gosta
de o sentir distante e perto.
Não anda de avião, decerto,
prefere voar rente à costa,
elegante e de muito bom trato
mesmo quando sobe, a custo,
para mostrar tudo o que não vês.
O lindo rapaz é tenso como uma corda,
anda descalço quando quer e pode —
que bem que cheira o perfeito dorso!
Não o chamem, não façam esforço,
não será assim que o sangue explode
e ele fica nú, fica triste, ele acorda...
Manuel Fernando Gonçalves

CONCEITO DE PESSOA
O meu conceito de pessoa é, digamos, tão interior e tão não comprometido seja com o que for, que não teria nome nenhum e não poderia designar-se por coisa nenhuma. O meu conceito interno de pessoa é um conceito a que nem se poderia aplicar o nome de pessoa porque esta vem da palavra latina persona que significa máscara. Então quando digo «está aqui uma pessoa», é a mesma coisa que dizer: está aqui um homem mascarado ou uma máscara de homem, que me pode aparecer com muitos aspectos. A pessoa pode ter várias personae, várias máscaras com que aparece. Então podemos supor que às várias máscaras que aparecem ou que sem aparecer existem, a pessoa pode dar nomes diferentes, escondendo, deixando no silêncio, na obscuridade, na indefinição, aquilo que a pessoa acha fundamental.
Agostinho da Silva, in "vida conversável" assírio & alvim (1994)
imagem de Greg Spalenka
Antonin Artaud [ auto-retrato ] 1947DESCRIÇÃO DE UM ESTADO FÍSICO
uma sensação de queimadura ácida nos membros, músculos retorcidos e em carne viva, o sentimento de ser de vidro e quebrável, um medo, uma retracção perante o movimento e o barulho. Uma desordem inconsciente do andar, dos gestos, dos movimentos. Uma vontade perpetuamente tensa para os gestos mais simples,
a renuncia ao gesto simples,
uma fadiga arrasante e central, uma espécie de fadiga absorvente. Os movimentos por refazer, uma espécie de fadiga de morte, a fadiga do espírito pela aplicação da mais simples tensão muscular, o gesto de pegar, de se agarrar inconscientemente a qualquer coisa,
a sustentar por uma vontade aplicada.
Uma fadiga do princípio do mundo, a sensação do seu corpo como um fardo, um sentimento de fragilidade incrível, que se torna numa dor despedaçante,
um estado de entorpecimento doloroso, uma espécie de entorpecimento localizado na pele, que não impede nenhum movimento mas altera a sensação interna de um membro, e confere à simples posição vertical o valor de prémio de um esforço vitorioso.
Localizado provavelmente na pele, mas sentido como supressão radical de um membro, e não apresentado já ao cérebro senão imagens de membros filiformes e algodoados, imagens de membros longínquos e fora do seu lugar. Uma espécie de ruptura interna da correspondência de todos os nervos.
Uma vertigem em movimento, uma espécie assombro oblíquo que acompanha todo o esforço, uma coagulação de calor que condensa toda a extensão do crânio, ou se desfaz em pedaços, placas de calor que se deslocam.
Uma exacerbação dolorosa do crânio, uma cortante pressão dos nervos, a nuca obstinada em sofrer, as têmporas que se cristalizam ou se petrificam, uma cabeça espezinhada por cavalos.
(...).
Antonin Artaud, in "o pesa-nervos" hiena (1991)

REQUIEM PARA UMA JUKEBOX
Pensavas tu, errando título.
O Manel do Estádio informa-te
de que a máquina foi só a arranjar
e vem depois da Páscoa,
para semear de tristeza ou escárnio
os mesmos fados. Ainda bem.
Na mesa em frente, duas putas
antigas têm a razão suprema
de confundir Fernando Pessoa
com Fernando Pessa — o que
morreu cedo, aqui perto, e é agora
"grande" nas bocas que não o
leram nem amaram. Ao outro,
pelo contrário, parece faltar
qualquer vocação para a morte.
Mas eis que entra o Rui de Castro,
com o seu inescapável bagaço
e a consequente voz acanalhada.
Vai mudar a hora, é sexta-feira
de Paixão. E se estamos aqui
sentados é apenas para que o tempo
passe, não doam tanto as certezas
— que é como quem diz a morte.
Da televisão, espreita-nos a vida
em technicolor do crucificado.
Eu sou o pão que escurece,
o cordeiro do infortúnio — diria
um qualquer desses émulos de Celan
que só chegam ao cair da noite
e não gostam de Cesário.
Mas a melhor poesia portuguesa
está agora sentada neste café
e não se chama Manuel de Freitas
nem deixará como ela inúteis vestígios
de paixão, pedacinhos de ócio,
o milagre incerto da multiplicação da morte.
Manuel de freitas, in "blues for Mary Jane" & etc (2004)
ilustração de Pedro Carvalheiro [Lisboa noites de vidro], 1991
Jean Cocteau [ ópio ] difel, 1984«O ÓPIO é uma decisão a tomar. O nosso único erro é querermos fumar e compartilhar os privilégios dos que não fumam. É raro um fumador deixar o ÓPIO. O ÓPIO é que o deixa arruinando tudo. É uma substância que escapa à análise, viva, caprichosa, capaz de se voltar bruscamente contra o fumador. É um barómetro de sensibilidade doentia. Em certas alturas húmidas os cachimbos escorrem. O fumador chega à beira-mar e a droga incha, recusa-se a cozer. A aproximação da neve, de uma trovoada, do mistral, tornam-na ineficaz. Certas presenças faladoras retiram-lhe toda a virtude.
Em suma, não existe amante mais exigente que a droga que leva o ciúme ao ponto de castrar o fumador.»
«O tédio mortal do fumador curado. Tudo o que fazemos na vida, mesmo o amor, fazemo-lo no comboio expresso que corre em direcção à morte. Fumar ÓPIO é deixar este comboio em andamento; é ocuparmo-nos de outra coisa em vez da vida e da morte.»
Jean Cocteau
Em 1928, Jean Cocteau entra numa clínica para uma cura de desintoxicação do ÓPIO. Aí, escreve e desenha. O presente livro reúne alguns desenhos e um conjunto de textos escritos pelo autor; observações sobre cinema, anotações, jogos de palavras, comentários sobre literatura e escritores, opiniões sobre a poesia, a arte, a criação, mas tendo sempre presente o tema fulcral, o ÓPIO.

ÓDIO ?
Ódio por ele? Não... Se o amei tanto,
Se tanto bem lhe quis no meu passado,
Se o encontrei depois de o ter sonhado,
Se à vida assim roubei todo o encanto...
Que importa se mentiu? E se hoje o pranto
Turva o meu triste olhar, marmorizado,
Olhar de monja, trágico, gelado
Como um soturno e enorme Campo Santo!
Ah! nunca mais amá-lo é já bastante!
Quero senti-lo d’outra, bem distante,
Como se fora meu, calma e serena!
Ódio seria em mim saudade infinda,
Mágoa de o ter perdido, amor ainda.
Ódio por ele? Não... não vale a pena...
Florbela Espanca
imagem de Jean-François Martin
coisas para ver antes de morrer...

Sem fé, ouso pensar a vida como uma errância absurda a caminho da morte, certa. Não me coube em herança qualquer deus, nem ponto fixo sobre a terra de onde algum pudesse ver-me. Tão pouco me legaram o disfarçado furor do céptico, a astúcia do racionalista ou a ardente candura do ateu. Não ouso por isso acusar os que só acreditam naquilo que duvido, nem os que fazem o culto da própria dúvida, como se não estivesse, também esta, rodeada de trevas. Seria eu, também, o acusado, pois de uma coisa estou certo: o ser humano tem uma necessidade de consolo impossível de satisfazer.
Como posso, assim, viver a felicidade?
Stig Dagerman, in "a nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer" fenda (1995)

Neste espaço a si próprio condenado
Dum movimento para o outro pode entrar
Um pássaro que levante o céu
E sustente o olhar
…………………………………………
Com a tristeza acender a alegria
Com a miséria atear a felicidade
E no céu inocente da visão
Fazer pulsar um pássaro por vir
Fazer voar um novo coração
Alexandre O'Neill, epígrafe ao livro "No Reino da Dinamarca", 1958
imagem de Tomasz Walenta
fotograma do filme [metropolis] Fritz Lang, 1927Os porta-vozes do campo de trabalho social, desde a senhora neoliberal que come caviar e é maníaca pela eficiência, até ao sindicalista tipo barriga-de-cerveja, quando invocam o carácter pseudo-natural do trabalho, entram em crise de carência argumentativa. Ou, como quererão eles explicar-nos que hoje em dia três quartos da humanidade se estejam a afundar na necessidade e na miséria, só porque o sistema da sociedade do trabalho já não pode utilizar os seus préstimos?
Já não é a maldição do Antigo Testamento — «comerás o teu pão com o suor do teu rosto» — que pesa sobre os excluídos, mas uma nova e implacável condenação: «tu não comerás, porque o teu suor é supérfluo e invendável». E será isto uma lei natural? Não é senão um principio social irracional, que surge como coerção natural apenas porque, ao longo dos séculos, destruiu ou submeteu a si todas as outras formas de relação social, impondo-se de modo absoluto. É a «lei natural» de uma sociedade que se considera profundamente «racional», mas que, na verdade apenas segue a racionalidade finalista do seu ídolo, o trabalho, dispondo-se mesmo a sacrificar-lhe, a ele e à respectiva «objectividade coerciva», os últimos resquícios da sua humanidade.
Grupo Krisis, in "manifesto contra o trabalho" antígona (2003)
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