Elliot Erwitt, 1963
Casper D. Friedrich [wanderer above the sea of fog] 1818


— A DISTÂNCIA —

esta montanha cria todo o encanto e todo o carácter da região que domina: tendo-nos dito isso pela centésima tornamo-nos bastante loucos e bastante reconhecidos para acreditar que, conferindo este encanto, deve ter em si própria o que há de mais encantador na região; subimos até ao cume e ficamos desiludidos. De repente o encanto desaparece das suas encostas, da paisagem que nos rodeia e daquela que se estende a nossos pés; esquecemos que grande número de grandezas devem, como grande número de bondades, ser vistas a certa distância, e de baixo, pormenor capital, nunca do alto;... é só assim que fazem efeito. Talvez conheças pessoas do teu meio que só podem olhar-se a si próprias a uma certa distância para se julgarem suportáveis, sedutoras e tónicas; o conhecimento de si é uma coisa que se lhes deve desaconcelhar.

F. Nietzsche, in "a gaia ciência" guimarães editores (2000)

Se o movimento de tropas
e o movimento de massas
não deram fruto nem flor,
foi que uns fecharam-se em copas,
outros fizeram negaças,
outros criaram bolor.

Carolina de Oliveira, in "percurso" scarl (1981)

INTEGRAL GUY DEBORD


CULTURGEST : COM E CONTRA O CINEMA


Sexta 13 de Abril

— Guy Debord, son art e son temps [Brigitte Cornand, 1994]

— In girum imus nocte et consumimur igni [Guy Debord, 1978]


Sábado 14 de Abril

— L' Anticoncept [Gil J. Wolman, 1952]

— Hurlements en faveur de Sade [Guy Debord, 1952]

— Sur le passage de quelques personnes à travers une assez courte unité de temps [Guy Debord, 1959]

— Critique de la séparation [Guy Debord, 1961]

— La Société du spectacle [Guy Debord, 1973]

— Réfutation de tous les jugements, tant élogieux qu'hostiles, qui ont été jusqu'ici portés sur le film 'La société du spectacle' [Guy Debord, 1973]


mais informações aqui

Dead Man's Shoes [vingança redentora] de Dean Meadows (2004) é um dos poucos filmes a integrar no catálogo da Warp Films.
Uma vingança crua numa pequena cidade abandonada pelo tempo sempre acompanhada por uma maravilhosa banda sonora onde se podem ouvir temas de Calexico, Aphex Twins, Smog, The Earlies, Bonnie Prince Billy, Cul de Sac, entre outros. Um filme para ver, rever e não esquecer...

semelhanças...

John Lasseter, 2006

John Carpenter, 1983

"Na primeira categoria das sucursais de produtos divinos as igrejas cristãs adoptaram, sob a pressão do processo mercantil, uma exibição contorcionista que só terá fim com o desaparecimento completo da sua etiqueta publicitária, o camaleão Jesus. Filho de deus, filho da puta, filho da virgem, fazedor de milagres e de pãezinhos, pederasta e puritano, militante e membro do serviço de ordem, acusador e acusado, homem para todo o serviço e astronauta, não há papel que não esteja na alçada deste espantoso fantoche, Apareceu como comerciante do sofrimento, como cobrador de graças, como republicano, como socialista, como fascista, como anti-fascista, como stalinista, como barbudo, como partidário do Reich, como anarquista. Esteve em todas as tabuletas, em todas as bandeiras, em todo o desprezo de si próprio, dos dois lados do cacete, na maior parte das execuções capitais, onde empunhou tanto a mão do carrasco como o condenado. O seu lugar é nas esquadras, nas prisões, nas escolas, nos bordéis, nos quartéis, nos grandes estabelecimentos, nas zonas de guerrilha. Serviu de berloque, de sinal rodoviário de espantalho para manter os mortos em paz e os vivos de joelhos, de tortura, e de regime para emagrecer, servirá de excitador quando os comerciantes de prepúcios sagrados tiverem reabilitado comercialmente o pecado.
Pobre Maomé, pobre Buda, pobre Confúcio, tristes representantes de firmas concorrentes e sem imaginação nem dinamismo. Jesus leva vantagem em todas as frentes. Jesus Cristo super-droga, e super-star: todas as imagens do vendido a deus em promoção de venda de deus.
A pele dos colhões de Deus-pai inexistente pregada em triângulo e promovida a amuleto é o símbolo mais bem acabado do homem como mercadoria universal."

Ratgeib (Raoul Vaneigem), in "da greve selvagem à autogestão generalizada" assírio & alvim (1974)

imagem de Bansky

UM TOSTÃO PARA O ENSINO

Num pequeno país atrasado e pobre o Primeiro-Ministro preocupavam-se muito com a ignorância do seu povo.
A percentagem de iletrados era tal que não se descortinava maneira de arrancar do estado de subdesenvolvimento para a fase industrial a que o país necessitava chegar.
O Primeiro-Ministro reuniu os melhores pedagogos do país que elaboraram um pequeno livro de bolso, a que chamaram «Cartilha Paternal», onde se resumia em frases simples toda a Ciência existente.
A «Cartilha Paternal» foi distribuída gratuitamente a todo o Povo, o qual lhe deu a serventia que estava habituado a dar a todo o papel, liso e impresso.

Moral: a instrução não custa um tostão...

Pedro Oom, in "actuação escrita" & etc (1979)


Falo de um homem que possuía livros de poemas. Foi talvez o único real leitor. Ele abria os livros, um livro. Escolhia um poema. Era um ritual misterioso. Porque ele raspava as letras da página, cuidadosamente, como para conservar a integridade do papel. Raspava e reunião os pedaços negros. Aquecia então água com o vagar próprio da vertigem. Uma estranha ciência de vapores.

A infusão sucedia: a escura substância do poema misturava-se mais e mais com o fervor da água, até ao ponto em que tudo aquilo era vivo. O homem bebia então o poema e o poema flutuava no sangue, atingindo todos os lugares do corpo, reclamando todos os lugares do corpo. Não era previsível o efeito do poema. Cada poema dissolvido, sorvido, feito homem, trazia consigo uma possibilidade própria. O homem crescia com o poema, crescia mais para si, mais para o poema.

o homem que possuía livros de poemas, possuía uma biblioteca em branco. Páginas e páginas de poemas arrancados sem vestígios, um crime perfeito. Era uma biblioteca poética. Uma biblioteca que podia arder.


Vasco Gato, in "omertà" quasi (2007)

imagem de Gerard Dubois


SÔBOLOS RIOS

Tanto pode o benefício
da Graça, que dá saúde,
que ordena que a vida mude;
e o que tomei por vício
me faz grau para a virtude;
e faz que este natural
amor, que tanto se preza,
suba da sombra ao Real,
da particular beleza
para a Beleza geral.


Luís Vaz de Camões, in "Redondilhas de Babel e Sião"

Terra, amor e solidão...

António Pedro [ apenas uma narrativa ] estampa, 1978

Editado pela primeira vez em 1942 e mais tarde reeditado pela editorial estampa em 1978, "Apenas uma Narrativa" de António Pedro é agora novamente reeditado pelas edições quasi


"A história que vai ler-se é simples como as plantas e nasceu como elas naturalmente, embora, como elas, tenha por vezes formas inesperadas. Não tem intenção de provar coisa nenhuma mas, se a tivesse, seria a de que há uma lógica do absurdo tão verdadeira, pelo menos, como a lógica racional, embora muito mais espontaneamente aceitável do que ela e, se não fosse perigoso tocar em tais questões, muito mais parecida com aquela que usam os artistas que o povo entende: oleiros de romaria que fazem gatos dourados com manchas vermelhas e cara de gente, contistas de serão provinciano que inventam histórias da carochinha, e aquele poeta extraordinário e desconhecido que inventou o rico pico serenico quem te deu tamanho bico ou de ouro ou de prata mete aqui nesta buraca.
Resumindo, pois, o que vai seguir-se, porque é narrado de forma sem pretensões, é Apenas uma Narrativa e, porque assim me pareceu bem, subintitula-se Romance."

António Pedro

Russ Meyer [ supervixens ] 1975

escutar...


Do It Yourself: The Rise Of The Independent Music Industry After Punk
Soul Jazz Records, 2007

1 de Abril


...de todas as mentiras que me foram sendo contadas ao longo dos anos, creio que esta sempre foi a melhor de todas...
Almada Negreiros [ auto-retrato ] 1924


A MINHA SOMBRA SOU EU

A minha sombra sou eu,
ela não me segue,
eu estou na minha sombra
e não vou em mim.
Sombra de mim que recebo a luz,
sombra atrelada ao que eu nasci,
distância imutável de minha sombra a mim,
toco-me e não me atinjo,
só sei do que seria
se de minha sombra chegasse a mim.
Passa-se tudo em seguir-me
e finjo que sou eu que sigo,
finjo que sou eu que vou
e não que me persigo.
Faço por confundir a minha sombra comigo:
estou sempre às portas da vida,
sempre lá, sempre às portas de mim!

Almada Negreiros, in "poemas" assírio & alvim (2005)

Buck, Flash & Flesh...





Flash Gordon foi o segundo herói espacial das histórias de quadradinhos, criado por Alex Raymond em 1934, figura criada para rivalizar com Buck Rogers de Philip Francis Nowlan e Frank R. Paul (1928). Desde a sua origem teve várias adaptações para cinema, de destacar "Flash Gordon: Space Soldiers" e "Flash Gordon: Rocketship" ambas realizadas por Frederick Stephani em 1936, várias versões de séries televisivas, radiofónicas e uma de animação. De todas as versões de cinema a que talvez tenha ficado mais na memória seja a versão de Mike Hodges (1980) produzida por Dino De Laurentiis com o famoso tema dos Queen "Flash". Aguarda-se para breve uma nova série de televisão e uma nova versão para cinema. No entanto chamo a atenção para uma adaptação que foi feita nos anos 70 para adultos "Flesh Gordon" realizada por Michael Benveniste e Howard Ziehm (1974), a primeira super-produção erótica, que narra a história de Flesh Gordon, um super-héroi que tenta salvar o planeta da maior orgia de todos os tempos... dominando o planeta porno e seduzindo a galáctica impotente...

[ Flesh Gordon ] 1974


O abismo iluminado voltou, era cerca de meio dia.
Ia-me tragando por completo, avançando-me no rosto, nas olheiras, no plano altamente claro da fronte, no tempo.
E então vê-se que somos uma outra parte de nós não revelada.
O que existe ali
não é uma espécie de expressão, é a única expressão. Única
Gelada.

Isabel de Sá, in "esquizo frenia" & etc (1979)

O JOÃO TOLO

Havia uma mãe que tinha um filho, que era muito tolo.
Um dia a mãe mandou o filho lavar umas tripas no mar, as tripas eram muitas, e viu um navio ao longe, que ia fazer uma viagem. Começou a chamar com um pano branco na mão.
O navio aproximou-se, e os homens que vinham dentro perguntaram-lhe para que era que ele tinha chamado. Ele disse-lhes que era para lhe ajudarem a lavar as tripas. Eles deram-lhe uma grande sova e disseram-lhe que ele havia dizer "Boa viagem! Boa viagem!".
Ele foi para casa, disse à mãe o que lhe tinha sucedido. A mãe disse-lhe que ele devia dizer "Haja sangue! Haja sangue!".
O tolo foi uma vez pela estrada adiante, e entrou numa igreja, onde se estava a celebrar um casamento.
Ele pôs-se à porta e disse:
— Haja sangue! Haja sangue!
E o noivo, ouvindo dizer isto, pegou num cacete para lhe dar uma coça, e o tolo fugiu, e o noivo disse-lhe que devia dizer "Sejam felizes! Sejam felizes!".
Ele foi para casa e contou à mãe o que lhe tinha sucedido.
A mãe disse-lhe que dissesse "Sejam felizes! Sejam felizes!".
Foi outra vez por uma estrada adiante e viu um enterro numa igreja. Pôs-se a dançar, a cantar e a dizer:
— Sejam felizes! Sejam felizes!
Um convidado aborreceu-se daquele barulho, veio cá fora com um pau, deu-lhe uma cacetada e disse-lhe que ele devia ajoelhar-se e rezar.
Ele foi para casa e disse à mãe tudo. A mãe disse-lhe que ele devia rezar.
No dia seguinte viu um burro a dormir, ajoelhou-se ao pé dele e rezou por muito tempo.
Veio para casa e disse à mãe o que tinha feito. A mãe disse-lhe que, quando visse algum burro a dormir, que lhe espetasse uma faca.
No dia seguinte viu um homem a dormir e disse:
— Deixa, que vou fazer o que a minha mãe me disse.
Puxou de uma navalha e enterrou-lha no peito. Dizendo à mãe o que tinha feito, a mãe, para não ter mais desgostos, meteu-o num Hospital de doidos, onde morreu.


Tito Cardoso e Cunha, in "fenda da loucura"
[ fenda Da Loucura ] 1982


"escrever a loucura
escrever para não ser louco"

No seu percurso de escrita, e porque se trata de uma revista de e sobre a escrita, teria a Fenda de se defrontar com a loucura na sua relação à escrita.
Este número é dedicado a essa confrontação.
Tema imenso que os textos hoje publicados apenas percorrem, cada um à sua maneira, procurando uma incursão nesse domínio que se o é do indizível nem por isso deixou de fascinar os que, antes mesmo de nela sossobarem, encontram na escrita o modo de ir resistindo à aniquilação.
Não que a loucura seja em si própria produtora de obra, como o demonstra o silêncio final de um Nietzsche ou de um Holderlin. A escrita nasce antes de uma fuga desesperada a esse abismo da razão, como muito bem o exprime a angustiada confissão de Bataille: "Ce qui m'oblige d'écrire, j'imagine, est la crainte de devenir fou".
"Tocando as raias da loucura", na expressão evocada por F. Belo, escreve-se aqui em torno de Artaud, Ângelo de Lima, Isabel de Sá, os contos populares portugueses ou simplesmente o Homem, mesmo quando o alastramento civilizacional do Narcisismo faz emergir o poder incontido da pulsão de morte.

Tito Cardoso e Cunha


AMOUR

Para que os teus dois seios sejam duas pombas brancas
e eu seja para ti o dono do pombal
para que o teu pombal seja nas tuas ancas
e eu o teu senhor matinal

Para que te a manhã te seja nos teus seios
e as tuas pombas brancas fiquem da cor de mulher
para que as tuas ancas já sejam as tuas ancas
e o teu pombal uma metáfora qualquer

Para que te eu o grão de todas as manhãs
de todas as manhãs a te distribuir
para que as tuas pombas voem do pombal
e todas as manhãs assim me distrair

Para que os teus dois seios as tuas pombas brancas
que o teu senhor há-de afagar
por ti e sobre ti e sobre as tuas ancas
o teu senhor te há-de amar.


António Gancho, in "o ar da manhã" assírio & alvim (1995)

imagem de Greg Spalenka

fotograma de [o sétimo selo] Ingmar Bergman, 1957



XADREZ

No seu grave recanto os jogadores
Regem as lentas peças. O tabuleiro
Os demora até à alba em seu severo
Âmbito em que se odeiam duas cores.

Dentro irradiam mágicos rigores
As formas: torre homérica, ligeiro
Cavalo, sagaz dama, rei postreiro,
Oblíquo bispo e peões agressores.

Depois dos jogadores se terem ido.
Depois do tempo os ter consumido,
Decerto não terá cessado o rito.

No oriente incendiou-se esta guerra
Cujo anfiteatro é hoje toda a terra.
Como o outro, este jogo é infinito.


Jorge Luís Borges in "o fazedor" difel (2002)

[ les hommes oubliés de dieu ]



(...)
— A festa não é para nós, meu filho —, disse ele.
— Nós somos pobres.
O garoto chorou, chorou amargamente.
— Não me interessa; quero um carneiro.
— Somos pobres —, repetiu Chaktour.
— Somos pobres porquê? —, perguntou a criança.
O homem reflectiu antes de responder. Depois de tantos anos de indigência tenaz, ele próprio não se lembrava porque eram eram pobres. Era uma coisa que vinha de muito longe, de tão longe que Chaktour já não se lembrava como tinha começado. Dizia para si próprio que a miséria que se prolongava para além dos homens. Apanhara-o desde a nascença e ele logo lhe pertencera, sem a menor resistência, visto que lhe estava destinada muito antes de ter nascido, ainda na barriga da mãe.
A criança estava sempre à espera que lhe explicassem porque eram pobres. Deixara de chorar, mas ainda havia muitas lágrimas dentro de si, todas as lágrimas das crianças miseráveis cujos sonhos são traídos pela vida.
— Escuta, pequeno, vai-te sentar num canto e deixa-me trabalhar. Se somos pobres é porque Deus nos esqueceu, meu filho.
— Deus! —, exclamou a criança. — E quando se lembrará ele de nós, meu pai?
— Quando Deus esquece alguém, é para sempre.
(...)


Albert Cossery, in "os homens esquecidos de deus" antígona (2002)
tradução de Ernesto Sampaio

Albert Cossery


"GOSTARIA QUE DEPOIS DE ME LEREM, AS PESSOAS NÃO FOSSEM TRABALHAR NO DIA SEGUINTE"


ALBERT COSSERY, nasceu no Cairo em 1913, no seio duma familia original, de tradição cristã copta. O pai, proprietário de terras, nunca fez nada para acumular riqueza, promovendo entre filhos a rejeição do trabalho (Mandriões no Vale Fértil é em parte um romance autobiográfico). A mãe, analfabeta, levava-o ao cinema, no tempo dos filmes mudos, para ele lhe ler as legendas. E os irmãos mais velhos, grandes leitores de Nietzsche, Dostoievski ou Baudelaire, transmitiram-lhe a paixão pela literatura universal - decidindo o pequeno Albert, por volta dos dez anos, que seria escritor.
Na infância e na adolescência Cossery frequentou as escolas francesas do Cairo, contribuindo isso, sem dúvida, para ele adoptar o francês quando começa a escrever, por volta dos dezoito anos. As suas primeiras novelas, marcadas pela revolta, saíram em revistas do Cairo. Coligidas em 1940, deram nesse primeiro ano ano o seu primeiro livro (Os Homens Esquecidos por Deus), editado no Cairo em três línguas: árabe, inglês e francês. Foi esta obra que o tornou internacionalmente conhecido; o título foi retomado na Argélia pelo francês Edmond Charlot, em cuja editora Albert Camus era director litérário, e nos Estados Unidos por Henry Miller; este último escreverá um empolgante ensaio sobre Cossery onde expõe (foi ele um dos primeiros) a famosa preguiça cosseriana como uma concepção filosófica.
Mas o nosso autor, que já estabelecera no Egipto uma sólida amizade com Lawrence Durrell, vai trocar as voltas a este auspicioso começo duma carreira literária, decidindo, para viajar, empregar-se como criado de bordo na marinha mercante, na linha Porto Saíd - Nova Iorque (o único emprego que teve). E após algumas estadas em Inglaterra, instala-se em Paris, em 1945, num quarto de hotel que nunca mais deixou.
A ida para Paris destinava-se a prosseguir ali os seus estudos escolares, mas Cossery, esquecendo tais coisas para sempre, dedicou-se logo a actividades muito mais interessantes: as noitadas, as desbundas amorosas, a boémia. O seu principal companheiro nesses vastos empreendimentos foi Albert Camus, mas no mesmo contexto também foi grande amigo de Jean Genet, Roger Nimier, Alberto Giacometti e outros pilares da noite.
Cossery considera-se um escritor egípcio de língua francesa, tal como há, diz ele, muitos escritores indianos de língua inglesa. Em 1990, aos setenta e sete anos, foi-lhe atribuído pela Academia Francesa, pelo conjunto da suas obra, o Grande Prémio da Francofonia - apesar de em quase sessenta anos de «carreira» literária apenas ter escrito oito livros: sete romances e a citada colectânea de novelas. Porque, fiel à sua filosofia da indolência e do desprendimento, a rejeição do trabalho foi sempre para ele a grande luz.

Júlio Henriques
René Magritte [ ceci n'est pas une pipe ] 1928/29


POEMA

Um sábio
não sabia fumar cachimbo

mas a mulher do sábio sabia

quando o sábio chorava
por não saber fumar cachimbo
a mulher do sábio sorria

e assim durante meses e anos

até que
no dia em que o sábio sabia que morria
não disse à mulher que sabia

por isso quando ele chorava
a mulher do sábio sorria


António José Forte,
in "uma faca nos dentes" parceria a. m. pereira (2003)

Fritz Lang [ Der Müde Tod ] 1921



Uma jovem quer salvar o seu amante das garras da Morte. Esta deixa-a assistir à morte de três casais em perigo, em diferentes partes do mundo: um na Arábia, outro em Veneza da época da Renascença, outro na China. Não conseguindo evitar a morte do amado, entrega-se por sua vez à Morte para o poder encontrar no outro lado do muro, na eternidade.
fotograma de [a morte cansada] fritz lang, 1921

NÃO TE MATES QUE É PRECISO MORRER QUANDO A MORTE VIER
Ralph Gibson [ record store ] 1960




A JAULA E AS FERAS

Vivem centos de doidos nesse hospício
(Quem no diria, olhando cá de fora...?!)
E o portão dança já no velho quício,
Dança e faz entrar mais a toda a hora...


Trazem todos um sonho, um crime, um vício,
E foram reis lá muito longe, outrora...
E em seus rostos de espanto ou de flagício
Não sei que ausência atroz se comemora!


Faz medo e angústia olhá-lhos bem nos olhos;
E, lá por trás de grades e ferrolhos,
Estoiram de ansiedade desmedida.


- Meu corpo, ó meu hospício de alienados!
Abre-te aos meus desejos enjaulados,
Deixa-os despedaçar a minha vida!


José Régio, in "poemas de Deus e do Diabo" quasi (2002)

imagem de Pep Montserrat

Krzysztof Kieslowski

1994

1994


1993

As Folhas...


[ Nicholas Ray ] Cinemateca Portuguesa, 2007
António José Forte [uma faca nos dentes] & etc, 1983


RESERVADO AO VENENO

Hoje é um dia reservado ao veneno
e às pequeninas coisas
teias de aranha filigranas de cólera
restos de pulmão onde corre o marfim
é um dia perfeitamente para cães
alguém deu à manivela para nascer o sol
circular o mau hálito esta cinza nos olhos
alguém que não percebia nada de comércio
lançou no mercado esta ferrugem
hoje não é a mesma coisa
que um búzio para ouvir o coração
não é um dia no seu eixo
não é para pessoas
é um dia ao nível do verniz e dos punhais
e esta noite
uma cratera para boémios
não é uma pátria
não é esta noite que é uma pátria
é um dia a mais ou a menos na alma
como chumbo derretido na garganta
um peixe nos ouvidos
uma zona de lava
hoje é um dia de túneis e alçapões de luxo
com sirenes ao crepúsculo
a trezentos anos do amor a trezentos da morte
a outro dia como este do asfalto e do sangue
hoje não é um dia para fazer a barba
não é um dia para homens
não é para palavras

António José Forte

APÓS DIVERSOS MESES DE AUSÊNCIA A EDITORA ASSÍRIO & ALVIM ESTÁ DE VOLTA À INTERNET, COM O SITE COMPLETAMENTE RENOVADO, E TAMBÉM UM NOVO BLOG.
Michael Powell [ the red shoes ] 1948


E por quê, senão por ti, sinto eu amor?
Estreito eu a mim, dias e noite em mim escondido,
O grande livro do mais sábio dos homens?
Na incerta luz da verdade única, certa,
Igual, na sua intensa mutabilidade, à luz
Em que te encontro, em que quietos nos sentamos,
No centro do nosso ser, por um momento,
A intensa transparência que tu trazes é paz.


Wallace Stevens, in "notas para uma ficção suprema" relógio d'água (2007)

imagem de Stefano Ricci
fotograma de Don Quijote de Orson Welles, 1992


OS SEIS MINUTOS MAIS BELOS DA HISTÓRIA DO CINEMA

Sancho Pança entra num cinema de uma cidade de província. Está à procura de D. Quixote e encontra-o sentado a um canto, de olhos postos no écran. A sala está quase cheia, a galeria — que é uma espécie de varanda — está inteiramente ocupada por crianças barulhentas. Depois de algumas tentativas inúteis de ir ter com D. Quixote, Sancho senta-se contrariado na plateia, junto de uma menina (Dulcineia?) que lhe oferece um chupa-chupa. A projecção começou, é um filme de época, no ecrã correm cavaleiros armados, a certa altura aparece uma dama em perigo. De repente, D. Quixote levanta-se, desembainha a espada, precipita-se contra o ecrã e os seus golpes começam a rasgar a tela. No ecrã ainda se vêem os cavaleiros e a dama, mas o rasgão negro, aberto pela espada de D. Quixote, vai-se alargando cada vez mais, devora implacavelmente as imagens. No fim, do ecrã já quase nada resta, vê-se apenas a estrutura de madeira que o sutentava. O público, indignado, abandona a sala mas, na galeria, as crianças não param de encorajar fanaticamente D. Quixote. Só a menina da plateia contempla com ar de censura.
Que devemos fazer com as nossas imaginações? Amá-las, acreditar nelas, a tal ponto que temos de as destruir, falsificar (talvez seja este o sentido do cinema de Orson Welles). Mas quando no fim, elas se revelam ocas, inatingíveis, quando mostram o nada de que são feitas, só então podemos descontar o preço da sua verdade, compreender que Dulcineia — que salvámos — não pode amar-nos.

Giorgio Agamben, in "profanações" cotovia (2006)


AS VIRTUDE DIALOGAIS

Dentro
de mim
há uma planta
que cresce
alegremente
que diz
bom dia
quando nos amamos
ao entardecer
e boa noite
quando florimos
à alvorada
uma árvore
que não está com o tempo
este tempo
a que chamamos
nosso.

Pedro Oom, in "actuação escrita" & etc (1980)
[ GRIFO ] Antologia de inéditos organizada e editada pelos autores (1970)


António Barahona da Fonseca — A saque e a sangue

António José Forte — Um poema

Eduardo Valente da Fonseca — Os manequins inquietantes

Ernesto Sampaio — Surrealismo - uma estrada sem fronteiras

João Rodrigues — Dois desenhos

Manuel de Castro — Hans e a mão direita - Prolegómenos a uma história de animais

Maria Helena Barreiro — Três narrativas

Pedro Oom — Poema - O homem reduzido

Ricarte-Dácio — Equações I e II

Virgílio Martinho — Filopópolus


POEMA

POESIA NÃO É UMA MEDALHA PARA POR NO PEITO DOS TIRANOS MAS UMA IMENSA SOLIDÃO FEITA DE PEDRAS, ONDE O DESPOTISMO PODE ENCOMENDAR O ATAÚDE.CADA UM DE NÓS ODEIA O QUE AMA. POR ISSO O POETA NÃO AMA A POESIA QUE É SÓ DESESPERO E SOLIDÃO MAS ACALENTA AO PEITO AS FORMIGAS DA REVOLTA E DA REBELDIA, QUE TODOS OS DÉSPOTAS QUEREM SUBMISSAS E PROCRIADORAS. SÓ OS VOLUNTÁRIOS DA MISÉRIA E DA SUBMISSÃO PATRIARCAL QUEREM A POESIA NA ARCA DA ALIANÇA COM A TRADIÇÃO PACÓVIA E REGIONALISTA DOS PRETÉRITOS DIAS, GLÓRIAS PATRIOTEIRAS, HEROICIDADES FRUSTRES, PIRATARIA IGNARA. TODO O VERDADEIRO POETA DESPREZA O PEQUENO MONTE DE ESTERCO ONDE O DEJECTARAM NO PLANETA E A QUE OS OUTROS CHAMAM PÁTRIA, E SÓ AMA OS GRANDES CONTINENTES MARES E OCEANOS DA LIBERDADE E DO AMOR. SÓ NOS VASTOS ESPAÇOS INCRIADOS A POESIA SERVE O SEU DESTINO — CATAPULTAR O HOMEM NOS ABISMOS DO DESEJO INCONTROLADO ONDE O PRÓPRIO ASSASSINATO É UM ACTO DE POESIA E DE AMOR. ESTE ASSASSINATO DE QUE FALO É O GRANDE AMPLEXO DE HOMEM PARA HOMEM A SOLIDARIEDADE E A TERNURA, NÃO A CARIDADE HIPÓCRITA OU A CAMA DE FAMÍLIA, COM TODO O SEU PEQUENO CORTEJO DE HORRORES, ONDE A EXPLORAÇÃO DO FILHO PELO PAI DITA A SUA LEI.

Pedro Oom

"É impossível saber que espécie de grito
é o meu: é verdade que é terrível
a ponto de desfigurar-me os traços
tornando-os semelhantes às fauces de uma besta,
mas também é de certa forma alegre,
a ponto de transformar-me numa criança.
(...)
Uma coisa é certa: seja o que for
que o meu grito possa significar,
destina-se a durar para além de qualquer possível tempo."


Pier Paolo Passolini


RUA DE MONTARROIO

Não sei de que fugíamos.
Dizer que era da vida pareceria
demasiado lírico, demasiado verdadeiro
— e a vida raramente aproveita a um poema.

Seja como for, a cidade
predispunha-se, aceitava calmamente
pequenos gestos de ternura,
delírios de morte apenas.
Zé dos ossos, Trianom — nomes
que decorei, enquanto fugíamos
da calúnia dos vinte anos.

As tardes no jardim, um pouco lúgubres,
prenunciavam a costumeira subida:
jantávamos os dois por setecentos escudos,
mesmo ao lado da taberna que não tinha mesas.

Saía barato o amor. Por não sabermos,
ainda, que teríamos de o pagar a vida inteira
com juros aziagos e versos de demora.


Manuel de Freitas, in "juros de demora" assírio & alvim (2007)

LAURIE ANDERSON


William Wyler [ the collector ] 1965

BARBEARIAS

fotografia de Alexandre Delgado O'Neill


Entrei no barbeiro no modo do costume,
com o prazer de me ser fácil entrar
sem constrangimento
nas casas conhecidas.
A minha sensibilidade do novo
é angustiante: tenho calma
só onde já tenho estado.

Quando me sentei na cadeira,
perguntei, por um acaso que lembra,
ao rapaz barbeiro
que me ia colocando no pescoço
um linho frio e limpo, como ia o colega da cadeira da direita,
mais velho e com espírito,
que estava doente.
Perguntei-lhe sem que me pesasse
a necessidade de perguntar:
ocorreu-me a oportunidade pelo local e a lembrança.
"Morreu ontem", respondeu sem tom
a voz que estava por detrás da toalha
e de mim, e cujos dedos se erguiam
da última inserção na nuca,
entre mim e o colarinho.
Toda a minha boa disposição irracional
morreu de repente, como o barbeiro eternamente ausente
da cadeira ao lado.
Fez frio em tudo quanto penso.
Não disse nada.

Saudades!
Tenho-as até do que me não foi nada,
por uma angústia de fuga do tempo
e uma doença do mistério da vida.
Caras que via habitualmente nas minhas ruas habituais
— se deixo de vê-las entristeço;
e não me foram nada,
a não ser o símbolo de toda a vida.

O velho
sem interesse das polainas sujas,
que cruzava frequentemente comigo
às nove e meia da manhã?
O cauteleiro coxo que me maçava inutilmente?
O velhote redondo e corado
do charuto à porta da tabacaria?
O dono pálido da tabacaria?
O que é feito de todos eles, que, porque os vi e os tornei a ver,
foram parte da minha vida?
Amanhã também eu me sumirei
da Rua da Prata,
da Rua dos Douradores,
da Rua dos Fanqueiros.
Amanhã também eu — a alma que sente
e pensa,
o universo que sou para mim —
sim, amanhã eu também serei
o que deixou de passar nestas ruas,
o que outros vagamente evocarão
com um "o que será dele?".
E tudo quanto faço, tudo quanto sinto,
tudo quanto vivo, não será mais que um transeunte
a menos na
quotidianidade de ruas
de uma cidade qualquer.


Fernando Pessoa


in, "barbearias" edições rolim (1986)