ALEXANDER SOKUROV

ALEXANDER SOKUROV é um cineasta russo que diz não gostar de cinema. Afirmação surpreendente para quem define a própria vida em função de uma obra abundante em numero de filmes realizados, mais de trinta, trasbordante em preocupações morais, éticas e estéticas. É um facto que prefere não falar muito de cinema, que vê pouco cinema. Será um dos seus segredos e por definição os segredos não se revelam. Em 1997, MÃE E FILHO, um dos mais secretos filmes contemporâneos, oitava longa metragem de ficção da sua filmografia, consagra-o como os mais importante cineasta russo da actualidade. Se, como ele próprio afirma, as pessoas têm uma ideia extremamente simples e sumária do visível, é a desvendá-lo que dedica os seus filmes.

Maria João Madeira, in "Alexander Sokurov" cinemateca portuguesa (1999)



[ pai e filho ] 2003, atalanta filmes


[ mãe e filho ] 1997, atalanta filmes


CREPUSCULAR

A incerteza cai com a tarde
no limite da praia. Um pássaro
apanhou-a, como se fosse
um peixe, e sobrevoa as dunas
levando-a no bico. O
seu desenho é nítido, sem
as sombras da dúvida ou
as manchas indecisas da
angústia. Termina com a
interrogação, os traços do fim,
o recorte branco de ondas
na maré baixa. Subo a estrofe
até apanhar esse pássaro
com o verso, prendo-o à frase,
para que as suas asas deixem
de bater e o bico se abra. Então,
a incerteza cai-me na página, e
arrasta-se pelo poema, até
me escorrer pelos dedos para
dentro da própria alma.

Nuno Judice

imagem de Greg Spalenka

SAM PECKINPAH

[ straw dogs ] 1971


[ the wild bunch ] 1969

no prelo # 7


Tim Burton [ a morte melancólica do rapaz ostra ] antígona

Trevor Ferguson [ sparrow drinkwater ] cavalo de ferro

Flannery O'Connor [ sangue sábio ] cavalo de ferro

Enrique Vila-Matas [ doutor pasavento ] teorema

Richard Sennett [ a cultura do novo capitalismo ] relógio d'água




Paul Bowles [ memórias de um nómada ]

Paul Bowles [ deixa a chuva cair ]

Cesare Pavese [ diálogos com leucó ]

Sergio Pitol [ a vida conjugal ]

José Rodrigues Minguéis [ a escola do paraíso ]

Georges Bataille [ o ânus solar ]

Walter Benjamim [ a modernidade ]

Raúl Rêgo [ o processo de damião de góis na inquisição ]

Armando Silva Carvalho [ obra poética 1965-2005 ]

Helder Moura Pereira [ segredos do reino animal ]

Manuel de Freitas [ juros de demora ]

Luís Amorim de Sousa [ bellini e pablo também ]

Fernando Pessoa [ a poesia dos outros eus ]

Luís Falcão [ pétalas negras ardem nos teus olhos ]

José Agostinho Baptista [ além-mar (audiolivro) ]

Ana Leonor M. Rodrigues [ queimado por azul ]

Vasco Araújo [ hereditas ]

Valter Vinagre [ para ]

Bíblia, vols 3,4,5 e 6


nota: novo site da assírio & alvim , brevemente disponível


Fui
hóspede nesta mansão
na encruzilhada
dos meus sentidos.

O verso apenas é,
transversal e findo,
o poleiro evocativo
da ave do meu canto.

Essa ave em que o outono
Se perfila
e, cada vez mais exígua
no rumo e nas vigílias
do seu bando,
de súbito, espirala
até sumir-se
num país imaginário.


Sebastião Alba, in "A noite dividida" assírio & alvim

imagem de Esao

Almada Negreiros, 1934


A INVENÇÃO DO PENICO

O penico foi inventado, estava-se ainda na idade das cavernas. Naqueles dias um tipo cagava e mijava onde lhe dava na gana.
Havia, no entanto, numa aldeia à margem do rio que vários milhares de anos mais tarde se haveria de chamar de ouro, um homem com o nome de HUG BRR OÓ (a palavra dava então os seus primeiros passos), sujeito muito asseado.
HUG BRR OÓ tinha adquirido o hábito e ir fazer as suas necessidades à beira rio, de modo a que as águas, subindo com a maré cheia, arrastassem os excrementos transportando-os para longe. Evitava assim dois inconvenientes: o mau cheiro e os pés sujos pelo inadvertido calcar dum cagalhão (lembrem-se que, no tempo, não existiam sapatos).
Este expediente provava-se eficaz no verão, mas no inverno, quando se acordava a meio da noite com uma incrível vontade de fazer chichi, tornava-se extremamente desagradável ter de sair da caverna e do aconchego das peles de urso para ir mijar ao rio. A hipótese de urinar dentro da caverna, HUG BRR OÓ nem a punha, antevendo o insuportável mau cheiro que isso provocaria.
HUG BRR OÓ passou três noites em claro, a pensar como resolver tão angustiante problema.
Na noite seguinte lá conseguiu adormecer. Mas, dentro de poucas horas acordava. Atormentava-o uma enorme vontade de mijar.
Não lhe apetecia mesmo nada sair da caverna. Lá fora caia neve (estava-se em plena época glaciária). Durante uns minutos, HUG BRR OÓ lutou desesperadamente contra a vontade tão inoportuna.
Foi vencido, como era de esperar.
—Que se foda! - pensou ele com o seu umbigo (não havia ainda botões) — Vou mijar mesmo aqui dentro!
Escolheu um canto escuro e aliviou-se.
Pronto! Na manhã seguinte, a mulher de HUG BRR OÓ descobriu que ele lhe tinha mijado dentro de uma malga de barro (artigo que ela acabara de inventar no dia anterior, e de cuja existência ainda não dera parte ao marido).
Foi lavá-la ao rio.
E estava inventado o penico.

Alice Roxo, in [ fenda não ela mesma ] fenda (1980)
[ SIÃO ] frenesi, 1987

organização e notas:
Al Berto, Paulo da Costa Domingos e Rui Baião
prólogo:
Alexandre Melo


TARDE

Os dias passam assim,
como direi?
— delicados.
Não há projectos de viagens,
o tratado das grandes ideologias
abandonado a um canto;
os crimes perfeitos são outonais
e esta tarde é uma estação infinita;
a cama? «oh! a cama é larga».
lá fora a árvore é verde,
o universo expande-se;
do caderno à janela, penso neles,
nos amigos.
tarde duma única visão:
ter um terraço plantado de rosas.

_inédito_


António S. Ribeiro
Roy Lichtenstein [ crying girl ] 1963

LÁGRIMAS

Também as lágrimas são úteis; com lágrimas, comoverás diamantes; faz, se conseguires, que ela veja o teu rosto banhado de pranto; se as lágrimas não aparecerem, pois nem sempre surgem no tempo certo, esfrega os olhos com as mãos molhadas.

Ovídio, in "Arte de amar" livros cotovia

Oriundo na vontade dos homens se livrarem das forças incontrolavéis da natureza, o mito constitui uma política de salvação pública que se manteve muito para além do necessário, e se firmou pela força tirânica reduzindo a vida à exclusiva dimensão da sobrevivência, negando-a como movimento e totalidade.
Contestado, o mito unifica as contestações, cedo ou tarde engloba-as e dirige-as. Nada lhe resiste, imagem ou conceito, de quanto tente destruir as estruturas espirituais dominantes. Ele reina sobre a expressão dos factos e do vivido, à qual impõe a sua estrutura interpretativa (dramatização). A consciência do vivido, que encontra a sua expressão ao nível da aparência organizada, define a consciência individual.
O sacrifício compensado alimenta o mito. Já que toda a vida dos indivíduos implica uma renuncia a si próprio, é preciso que o vivido se defina como sacrifício e recompensa. Como prémio da sua ascece o iniciado (operário promovido, o especialista, o empresário—novos mártires canonizados democraticamente) recebe um abrigo talhado no seio da organização da aparência e instala-se confortavelmente na alienação. Ora nas sociedades unitárias os abrigos colectivos desapareceram, subsistem apenas as sua traduções concretas para uso comum: templo, igrejas, palácios,... lembranças de certa protecção universal. Restam hoje os abrigos individuais, cuja eficácia poderemos contestar mas com certeza não lhe ignoramos o preço.

Raoul Vaneigem, in "Banalidades de Base" frenesi (1998)
Alexandre O'Neill [ feira cabisbaixa ] Sá da Costa editora, 1979


PORTUGAL

Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra, surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!

Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há «papo-de-anjo» que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.

Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...


Alexandre O'Neill
Paul Rachman [ American Hardcore ] 2006

Documentário inspirado no célebre livro de Steven Blush, "American Hardcore: a tribal history" 2001, sobre a história do Punk Hardcore Americano, desde os finais de 70 até ao ano de 1986.


HISTÓRIA EXEMPLAR

Entrei.
— Tire o chapéu — disse o Senhor Director.
Tirei o chapéu.
— Sente-se — determinou o Senhor Director.
Sentei-me.
— O que deseja? — investigou o Senhor Director.
Levantei-me, pus o chapéu e dei duas latadas no Senhor Director.
Saí.


Mário-Henrique Leiria, in "contos do gin-tonic" editorial estampa

FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO 1938/2007



RESPOSTA

«Eu vinha para a vida, e deram-me dias»
vivos com os seus lugares e espaço.

Ontem nasci sem fim, e alimentei-me
nesta mesa que em duas se reparte.
Uma aba no mar, vagante à toa,
trouxe sabores de ondas, de orlas.
Outra aba na terra mostrou-me as pedras
polidas, úberes, gastas. Pedras
densas que me encheram o ventre
e me criaram similar à Terra.
No mar tive cristais quebrados, jóias;
na Terra, tão nítida poeira branca
que fundi as formas das flores visíveis.

E hoje é este olhar profundo,
deriva das imagens pelo mundo.


Fiama Hasse Pais Brandão, in "Cenas vivas" relógio d'água

VIDAS A NÚ...

Jeff Feuerzeig [ the devil and Daniel Johnston ] 2005


Jonathan Caouette [ tarnation ] 2003
Paul Éluard [ Algumas das palavras ] Dom Quixote, 1977
Antologia e prefácio de António Ramos Rosa
Tradução de António Ramos Rosa e Luisa Neto Jorge


A DE SEMPRE, TODA ELA

Se eu vos disser: «tudo abandonei»
é porque ela não é a do meu corpo,
eu nunca me gabei,
não é verdade
e a bruma de fundo em que me movo
não sabe nunca se eu passei.

O leque da sua boca, o reflexo dos seus olhos
sou eu o único a falar deles,
o único a ser cingido
por esse espelho tão nulo em que o ar circula através de mim
e o ar tem um rosto, um rosto amado,
um rosto amante, o teu rosto,
a ti que não tens nome e os outros ignoram,
o mar diz-te: sobre mim, o céu diz-te: sobre mim,
os astros adivinham-te, as nuvens imaginam-te
e o sangue espalhado nos melhores momentos,
o sangue da generosidade
transporta-te com delícias.

Canto a grande alegria de te cantar,
a grande alegria de te ter ou te não ter,
a candura de te esperar, a inocência de te conhecer,
ó tu que suprimes o esquecimento, a esperança e ignorância,
que suprimes a ausência e que me pões no mundo,
eu canto por cantar, amo-te para cantar
o mistério em que o amor me cria e se liberta.

Tu és pura, tu és ainda mais pura do que eu próprio.


Paul Éluard

brevemente...

David Lynch [ inland empire ] 2006
Aldina [ António José Forte ]


UM HOMEM

de repente
como uma flor violenta
um homem com uma bomba à altura do peito
e que chora convulsivamente
um homem belo minúsculo
como uma estrela cadente
e que sangra
como uma estátua jacente
esmagada sob as asas do crepúsculo
um homem com uma bomba
como uma rosa na boca
negra surpreendente
e à espera da festa louca
onde o coração lhe rebente
um homem de face aguda
e uma bomba
cega
surda
muda

António José Forte, in "uma faca nos dentes" & etc (1983)

"A perspectiva da rendibilidade a todo o custo é a cortina de ferro dum mundo vedado pela economia. A perspectiva de vida, por seu turno, abre-se para um mundo onde tudo existe com vista a ser descoberto e criado. Ora acontece que a instituição escolar pertence ao mundo dos negócios, o qual pretende administrá-la cinicamente, deixando até de sentir-se perturbado pelo velho formalismo humanitário. Resta saber se alunos e professores se deixarão reduzir à função de engrenagens lucrativas, pois nada de bom prevendo uns e outros nessa gestão dum universo em ruínas a que são convidados, eles bem podem preferir aprender a viver, em vez de se economizarem."

Raoul Vaneigem, in "Aviso aos alunos do básico e do secundário" antígona

RAUOL VANEIGEM


Para te ler a juventude tem que ler muito antes e ler leva tempo, portanto a juventude só te poderá ler na véspera de festejar cinquenta anos.
A não ser que a juventude saiba distribuir o trabalho estúpido pelos anos bissextos, guardando os dias que sobram para o estudo do mundo, do esqueleto ósseo, das vontades que reinam entre os vários tipos de animais e nas várias profissões, e ainda para o estudo cutâneo do amor.
Se tocares em todos os materiais com luva apenas tocarás nas luvas.

Gonçalo M. Tavares, in "Biblioteca" campo das letras
Já não é a primeira, nem tão pouco a segunda vez que a noticia de uma biografia de Alexandre O’Neill é feita em jornais e revistas do meio literário, e mais tarde adiado o lançamento sem qualquer justificação, mas ao que parece é desta que a coisa vai para a frente, ou pelo menos assim nos é dado a conhecer no muito recente site da editora Dom Quixote, o livro será apresentado por Inês Pedrosa 4ª Feira (7 de Fevereiro) às 21:00, na CERVEJARIA DA TRINDADE em Lisboa.

O



NA ESCOLA

_quando te disserem que a gaita de foles é um instrumento usado pelos pastores, não deves contestar afirmando que todos os homens a usam.

_se o professor te pedir emprestada uma caneta não deves, só por isso, parecer que foste convidada a fazer-lhe um broche.

_se o resultado de uma soma for 69 não deves rir como uma idiota.

EM VISITA

_dizer a uma senhora que são belos os seus cabelos louros, é amável; perguntar-lhe em voz alta se os pintelhos são da mesma cor, é indiscreto.

SUPERSTIÇÕES

_para um homem se apaixonar por ti põe-lhe um grão de sal na ponta da gaita e chupa-a até ele se dissolver.

_depois de perderes a virgindade, não deves dirigir-te a Santo António de Pádua para a recuperares. Lembra-te que o Santo António de Tebaida meditou muito sobre as questões do sexo, mas o de Pádua... nem de longe as cheirou.

_não rias durante o sermão se o pregador parecer acreditar «na pureza das raparigas cristãs».

NA CONFISSÃO

_não te masturbes no confessionário para aproveitar, logo de seguida, a absolvição.

EM PASSEIO

_se já tens marmelos, não os destapes a torto e a direito para dar de mamar às bonecas. É uma atitude consentida às amas, mas nunca às raparigas.

NA RUA

_dar uns tostões a um pobre para ele comprar um pão é uma acção meritória; chupar-lhe a gaita porque não tem amante é um exagero. Nada te obriga a fazê-lo.

NAS LOJAS

_não deves entrar num cabeleireiro e dizer, descaradamente, que desejas os pêlos da rata frisados.

DEVERES PARA COM DEUS

_dá-lhe graças, também, por ele ter feito nascer em ti o desejo do orgasmo e as mil formas de o alcançares.

NÃO DIGAS... DIZ...

_não digas «vou masturbar-me»; diz «vou ali e já volto».

_não digas «quando tiver pintelhos»; diz «quando eu for crescida».

_não digas «tenho vontade de foder»; diz «estou nervosa».

_não digas «ele dá três sem desencavar»; diz «tem um carácter muito firme».

_não digas «tem uma pixota grossa demais para a minha boca»; diz «sinto-me pequena quando falo com ele».


Pierre Louys, in "manual de civilidade para meninas" & etc (1980)
René Magritte [ time transfixed ] 1938


Há sempre um comboio que parte
de algures em qualquer parte do mundo

Há sempre um cais com gente
ansiosa da viagem para a parte incerta

Há sempre um futuro com destino
que a gente do cais não conhece

Dentro deste comboio louco
vou eu em viagem dentro de mim

No cais alguém fica à espera
de um comboio que já partiu


Henrique Risques Pereira, in "transparência do tempo" edições quasi

JEFFREY MICHEAL HARP

a little disconcerting

the cabinet makers

the high priestess


Passei toda a noite, sem dormir, vendo, sem espaço, a figura dela,
E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela.
Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala,
E em cada pensamento ela varia de acôrdo com a sua semelhança.
Amar é pensar.
E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.
Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela.
Tenho uma grande distração animada.
Quando desejo encontrá-la
Quase que prefiro não a encontrar,
Para não ter que a deixar depois.
Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero. Quero só
Pensar nela.
Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar.
 

Alberto Caeiro

imagem de Gérad Dubois
[ Amarcord ] 1973

realizado por: Federico Fellini
escrito por: Tonino Guerra e Federico Fellini
Pieter Bruegel [ seven acts of mercy ] sec. XVI


ENCOMENDA POSTAL

Destino-te a tarefa de me sepultares
no segredo mineral da noite
com um lápis e uma máquina fotográfica

depois
fica atento ao correio
do secular laboratório nocturno enviar-te-ei
devidamente autografado
o retrato da solidão que te pertenceu

e numa encomenda à parte receberás
a revelação desta arte
onde a vida cinzelou precário corpo
na luz afiada de um vestígio de tinta.

Al Berto, in "Vigílias" assírio & alvim
Hans Bellmer, 1960


CÂNTICO

Num impudor de estátua ou de vencida,
Coxas abertas, sem defesa..., nua
Ante a minha vigília, a noite, e a lua,
Ela, agora, descansa, adormecida.

Dos seus mamilos roxos-azuis, em ferida,
Meu olhar desce aonde o sexo estua.
Choro... e porquê? Meu sonho, irreal, flutua
Sobre funduras e confins da vida.

Minhas lágrimas caem-lhe nos peitos...,
Enquanto o luar na nimba, inerte, gasta
Da ternura feroz do meu amplexo.

Cantam-me as veias, poemas nunca feitos...
E eu pouso a boca, religiosa e casta,
Sobre a flor esmagada do seu sexo.


José Régio, in "Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica" antígona/frenesi (1999)

HANS BELLMER [1902/1975]





Hans Bellmer [ autoportrait ] 1971
[ 19 projectos de prémio Aldonso Ortigão seguidos de poemas de Londres, Quadrante, colecção poesia (composto e impresso na tipografia "jornal do fundão") ]


OUTRA COISA

Apresentar-te aos deuses e deixar-te
entre sombra de pedra e golpe de asa
exaltar-te perder-te e desconfiar-te
seguir-te de helicóptero até casa

dizer-te que te amo amo amo
que por ti passo raias e fronteiras
que não me chamo Mário que me chamo
uma coisa que tens nas algibeiras

lançar a bomba onde vens no retrato
de dez anos de anjinho nacional
e nove de colégio terceiro acto

pôr-te na posição sexual
tirar-te todo o bem e todo o mal
esquecer-me de ti como do gato


Mário Cesariny de Vasconcelos, in "Poemas de Londres"


(...) observemos com um pouco mais de atenção a composição desses raviolis tão apreciados ou do hambúrguer congelado que se comprou no supermercado: uma embalagem banal, com a imagem de um bife grelhado repousando de forma atractiva sobre folhas de alface» Uma carne igual às outras? Nem por isso, se se for ler o que está escrito na caixa: 69% (podendo por vezes descer a 65%) de carne de vaca picada, "temperada" com proteínas vegetais. Na verdade, esses 31% de proteínas vegetais são tudo menos temperos, antes constituindo uma espécie de sucedâneo adicional à verdadeira carne.» (Cosmopolitan, Junho de 1985). Mas a lógica que nos vai lembrando tudo o que já temos de engolir nem sequer tem necessidade de ser enunciada de forma tão franca para se impor como coacção: basta fazer-nos esquecer tudo o que já não temos possibilidade de degustar.

Guy Debord, in "Enganar a Fome" frenesi (2000)


VíRGULA

Eu menino às onze horas e trinta minutos
a procurar o dia em que não te fale
feito de resistências e ameaças — Este mundo
compreende tanto no meio em que vive
tanto no que devemos pensar.

A experiência o contrário da raiz originária aliás
demasiado formal para que se possa acreditar
no mais rigoroso sentido da palavra.

Tanta metafísica eu e tu
que já não acreditamos como antes
diferentes daquilo que entendem os filósofos
— constitui uma realidade
que não consegue dominar (nem ele próprio)
as forças primitivas
quando já se tem pretendido ordens à vida humana
em conflito com outras surge agora
a necessidade dos Oásis Perdidos.

E vistas assim as coisas fragmentariamente é certo
e a custo na imensidão da desordem
a que terão de ser constantemente arrancadas
— são da máxima importância as Velhas Concepções
pois
a cada momento corremos grandes riscos
desconcertantes e de sinistra estranheza.

Resulta isto dum olhar rápido sobre a cidade desconhecida. Mais
E abstraindo dos versos que neste poema se referem ao mundo humano
vemos que ninguém até hoje se apossou do homem
como frágil véu que nos separa vedados e proibidos.


António Maria Lisboa, in "poesia" assírio & alvim (1995)

PORNOGRAFIA E OBSCENIDADE

Depende completamente da pessoa, como é hábito. O que é pornografia para esta , faz-se riso do génio para outra.
Ao que se diz, a própria palavra significa «pertencente às prostitutas» — sinal de prostituição. Mas hoje em dia o que é a prostituta? A mulher que pede dinheiro ao homem para ir para a cama com ele, embora muita esposa se tenha vendido, em tempos, que já lá vão, e muita prostituta oferecido grátis se para aí lhe deu. Mulher que não guarde um toque de prostituta, regra geral não passa de vulgaridade insonsa. Porque fazer, então, juízos severos? Coisa enfadonha é a lei, de julgamento alheio à vida.
O mesmo se dá com a palavra «obsceno», que ninguém sabe o que significa. Suponhamos que vem de obscena, o que não pode representar-se em palco. E depois? Tiramos daí alguma coisa? Nada! O que é obsceno para Tom, não é obsceno para Lucy nem para Joe, e o sentido da palavra vai depender daquilo que a seu respeito decidir a maioria. (...).
O homem é um animal variável e as palavras variam de sentido com ele; as coisas não são o que pareciam ser, o que é deixa de sê-lo e, se julgarmos saber onde estamos, é devido à velocidade com que nos levam para outro lado. Somos obrigados a entregar tudo à maioria, entregá-lo às massas, às massas, às massas. Que sabem, estão fartinhas de saber, o que é e não é obsceno. Se um povinho de dez milhões não souber mais do que dez pessoas da alta, qualquer coisa andará mal nas matemáticas. Façamo-las votar! Mão levantadas, e toca a fazer a prova pela contagem! Vox Populi, Vox Dei, Profanum vulgum! Profanum vulgum.
Portanto, a conclusão é esta; se nos dirigirmos às massas, o significado das palavras é o significado-massa decidido pela maioria.

D. H. Lawrence, in " pornografia e obscenidade" & etc (1984)

"A moral dos idiotas e a sua crença nos génios dão-me vontade de cagar."

Hans Arp


Tal como és, assim te quero, e sempre
diverso cada dia do que foste;
cada imperfeito gesto que inventares
me fará desejar-te em outro verso.
Da arte do soneto feito mestre
no concurso sem regra da floresta,
na mais pequena folha te descubro
e no caule do vento é que te perco.
Da turva luz já retirei o emblema
que me sirva de rosto permanente
e venha o cabeçalho do poema;
e pedirei à noite que me empreste
um farrapo do manto incandescente
de que se veste, agora, para ter-te.

António Franco Alexandre
[Pravda 1, direcção e organização de Júlio Henriques & Vasco Santos para Fenda edições, no outono de 1982]


QUERIDA, VAMOS LAMBER FERIDA?
NÃO, AMOR, PREFIRO CHUPAR TUMOR.

MAS TUMOR NÃO ME SEDUZ,
PREFIRO UM COPO DE PUS.

PUS SÓ EM TAÇA DE ESTANHO,
E NESSA TAÇA TEM RANHO.

AH, RANHO É PARA O JANTAR,
ABRA A BOCA QUE VOU VOMITAR.

Jamais je ne t'ai dit que je t'aimerai toujour



A UMA CEREJEIRA EM FLOR

Acordar, ser na manhã de Abril
a brancura desta cerejeira;
arder das folhas à raiz,
dar versos ou florir desta maneira.

Abrir os braços, acolher nos ramos
o vento, a luz, ou o quer que seja;
sentir o tempo, fibra a fibra,
a tecer o coração de uma cereja.


Eugénio de Andrade, in "As mãos e os frutos"

imagem de Yuko Shimizu

o assalto a notre-dame...

[ Michel Mourre ao centro ladeado pelos poetas letristas, Ghislain de Marbain, ao fundo e Serge Berna, sob a alçada da policia após os incidentes de Notre-Dame. ]


Às onze horas e dez minutos do dia 9 de abril de 1950, quatro jovens do sexo masculino — um deles vestido da cabeça aos pés de frade dominicano —, entraram na Notre-Dame de Paris. Estava então a ter lugar a missa pascal; na catedral encontravam-se cerca de dez mil pessoas, vindas de todas as partes do mundo. "O falso dominicano", como lhe chamaram os jornais — Michel Mourre, de vinte e dois anos —, aproveitou-se de uma pausa após o credo e ocupou o altar. Começou então a ler uma homilia escrita por um dos seus co-conspiradores, Serge Berna, de vinte e cinco anos.


Hoje dia de Páscoa deste Sagrado Ano
aqui
na insigne Basílica de Notre-Dame de Paris
Acuso
a Igreja Católica Universal do desvio fatal das nossas forças vivas na direcção do vazio celestial
Acuso
a Igreja Católica de fraude
Acuso
a Igreja Católica de infectar o mundo com a sua moral fúnebre e de ser o cancro da decomposição do Ocidente

Em boa verdade vos digo: Deus está morto
Vomitamos em cima da agonizante insipidez das vossas orações
porque as vossas orações não têm sido senão fumo oleoso pairando sobre os campos de batalha da nossa Europa

Prossegui, pois, o vosso caminho através do trágico e imenso deserto de um mundo em que Deus morreu
e voltai a lavrar esta terra com as vossas próprias mãos
com o ORGULHO das vossas mãos
com as vossas mãos que só têm servido para rezar

Hoje, dia de Páscoa deste Sagrado Ano
Aqui, sob os auspícios da Notre-Dame de França
proclamamos a morte do Cristo-Deus, para que o Homem possa finalmente viver.


O cataclismo que se seguiu foi muito para lá do que Mourre e os seus companheiros pudessem esperar, eles que, a princípio, apenas pretendiam lançar uns quantos impropérios de provocação. O organista, avisado de que podia haver desordem, impediu Mourre de continuar, mal pronunciou as palavras mágicas "Deus está morto". O resto do discurso nunca chegou a ser dito: os guardas suíços da catedral desembainharam as espadas e perseguiram os conspiradores, tentando matá-los. Os companheiros de Mourre, para protegê-lo, ocuparam então o altar — um deles, Jean Rullier, de vinte e cinco anos, foi mesmo ferido no rosto. Os blasfemos conseguiram escapar — Mourre, com o hábito manchado do sangue de Rullier, foi-se escapando para a saída enquanto abençoava jocosamente os crentes — mas foram depois capturados, ou melhor, salvos, pela polícia: tendo perseguido os quatro até às margens do Sena, a multidão estava prestes a linchá-los. Um cúmplice, que os esperava com um carro pronto para a fuga, ao ver aquela turba de gente, desapareceu. Marc, O e Gabriel Pomerand, que também estavam presentes na catedral, esquivaram-se rapidamente e dirigiram-se a Saint-Germain-des-Prés para espalhar a noticia.


Greil Marcus, in "Marcas de Baton", frenesi (1999)
Dante Gabriel Rossetti [ Lady Lilith ] 1872/73



UM OUTRO TANTO

Não sei como consigo
amar-te tanto
se querer-te assim na minha fantasia

é amar-te em mim
e não saber já quando
de querer-te mais eu vou morrer um dia

perseguir a paixão até ao fim é pouco
exijo tudo até perder-me
enquanto, e de um jeito tal que desconhecia

poder amar-te ainda
um outro tanto


Maria Teresa Horta, in "Inquietude" quasi (06)