NOTA.
Para que não seja acusado de ser um copista, uma vez que a mesma escolha foi feita num blog que respeito e considero um dos espaços mais agradáveis da blogoesfera, passo a mencionar quais os motivos que me levaram a fazer esta escolha:
motivo 1, este livrito foi impresso no mesmo ano que nasci, 1975, e 31 anos depois foi-me oferecido pelo portador do meu gene.
motivo 2, ter orgulho em ser portador de um exemplar autografado pelo próprio autor.
motivo 3, não conseguir passar um Natal sem pensar naquilo que nos rodeia...
contudo,
Feliz Natal !!
Para que não seja acusado de ser um copista, uma vez que a mesma escolha foi feita num blog que respeito e considero um dos espaços mais agradáveis da blogoesfera, passo a mencionar quais os motivos que me levaram a fazer esta escolha:
motivo 1, este livrito foi impresso no mesmo ano que nasci, 1975, e 31 anos depois foi-me oferecido pelo portador do meu gene.
motivo 2, ter orgulho em ser portador de um exemplar autografado pelo próprio autor.
motivo 3, não conseguir passar um Natal sem pensar naquilo que nos rodeia...
contudo,
Feliz Natal !!
esgar acelerado [ fire, walk with me ] 2006saberemos nós como esconder
o fogo no esguio trajecto das
árvores, trazer de cada gesto uma
timidez lúcida que se quer superar
em vantagem do amor mais louco,
mais violento, pudesse eu ser
violento contigo agora, esquecer
o coração avistado a partir do
peito tão óbvio e amar-te só pelo
lado mais prático, o corpo ao
pé do meu corpo e o sexo sem
outro feito, sem outro fim
valter hugo mãe
[ Exercício do Bom Amor ] traficantes ilimitados, Dezembro 20069 poemas sem título de valter hugo mãe para outras tantas ilustrações de esgar acelerado
—tiragem de 100 exemplares, numerados e assinados pelos autores—

A beleza está nos olhos do espectador. Se o espectador tiver falta de vista, pode perguntar à pessoa que estiver mais perto quais as raparigas mais giras. (Na verdade, as mais giras são na maior parte das vezes as mais chatas, e é por isso que algumas pessoas acham que Deus não existe.)
Woody Allen, in "sem penas" bertrand (1981)

A INVISIBILIDADE DE DEUS
dizem que em sua boca se realiza a flor
outros afirmam:
a sua invisilidade é aparente
mas nunca toquei deus nesta escama de peixe
onde podemos compreender todos os oceanos
nunca tive a visão da sua bondosa mão
o certo
é que por vezes morremos magros até ao osso
sem amparo e sem deus
apenas um rosto muito belo surge estéreo
na vasta insónia que nos isolou do mundo
e sorri
dizendo que nos amou alguma vezes
mas não é o rosto de deus
nem o teu nem aquele outro
que durante anos permaneceu ausente
e o tempo revelou não ser meu.
Al Berto, in "o medo"
imagem de Greg Spalenka
POTLATCH [ o boletim da Internacional Letrista ] fendaPara quem se interessa pelos pequenos gestos brilhantes e ainda mais por aqueles que deliberadamente ignorados pela historiografia oficial, mas que mudaram o curso dos acontecimentos culturais e políticos do século XX, aqui fica uma breve sequência de eventos que estão na génese da publicação de POTLACH:
—Em 1946, Isidore Isou cria o movimento Letrista, em ruptura, bastante pacífica diga-se de passagem, com André Breton e o surrealismo. A poesia onomatopaica baseada na letra como unidade lexical mínima é o estandarte do movimento.
—Em 1950, como crime fundador do letrismo, quatro jovens interrompem a missa pascal de Notre-Dame de Paris, e um deles, disfarçado de frade dominicano, salta para o altar e lê uma homilia em que proclama aos fiéis a morte de deus, escapando (por milagre?) à subsequente perseguição da policia convocada pelos verdadeiros padres logo que se aperceberam do embuste.
—Em 1951, Guy Debord entra em contacto com os letristas em Cannes, vindos expressamente de Paris para contestar o conhecido Festival e exigir a projecção do filme de Isou "Traité de bave et d'eternité" feito de quatro horas de cinema discrepante.
—Em 1952, um pequeno grupo de jovens radicais, entre os quais Debord, constitui a Internacional Letrista (I.L.) uma tendência clandestina à margem do movimento.
—No mesmo ano, consuma-se a cisão da I.L. com Isou após este se ter demarcado de uma acção pública de sabotagem a uma cerimónia de entronização de Charles Chaplin por parte de establishment cultural da época.
—Em 1954, inicia-se a publicação do boletim POTLATCH.
—Por fim, em 1957, a I.L. desaparece para dar lugar a uma outra Internacional mais consistente, a Situacionista.
Em concreto, POTLATCH consiste numa série de pequenos opúsculos, na verdade simples textos policopiados publicados entre 1954 e 1957, enviados gratuitamente (em coerência com a designação) para algumas pessoas escolhidas de forma a produzir maior efeito. Isto é, tanto como informação como provocação. Teve vários responsáveis, várias designações editoriais, várias periodicidades, mas ao certo nunca ocupou mais do que uma duzia de pessoas (e na sua redacção de forma consistente ainda menos do que isso).
Apesar desta aparente precariedade orgânica, a influencia foi e continua a ser enorme. Nunca é preciso muita gente para perturbar as sociedades. As boa ideias chegam. E elas abundam nas folhas que se seguem.
do prefácio
COISAS PARA VER ANTES DE MORRER...
A mercadoria como espectáculo O espectáculo é a outra face do dinheiro: o equivalente geral abstracto de todas as mercadorias. Mas se o dinheiro dominou a sociedade enquanto representação da equivalência central, isto é, do carácter permutável dos bens múltiplos cujo uso permanecia incomparável, o espectáculo é o seu complemento moderno desenvolvido, onde a totalidade do mundo mercantil aparece em bloco como uma equivalência geral ao que o conjunto da sociedade pode ser e fazer. O espectáculo é o dinheiro que se olha somente, pois nele é já a totalidade do uso que se trocou com a totalidade da representação abstracta. O espectáculo não é somente o servidor do pseudo-uso, é já em si próprio, o pseudo-uso da vida.
Guy Debord, in "A sociedade do espectáculo" edições antipáticas

PODE-SE ESCREVER
Pode-se escrever sem ortografia
Pode-se escrever sem sintaxe
Pode-se escrever sem português
Pode-se escrever numa língua sem saber essa língua
Pode-se escrever sem saber escrever
Pode-se pegar numa caneta sem haver escrita
Pode-se pegar na escrita sem haver caneta
Pode-se pegar na caneta sem haver caneta
Pode-se escrever sem caneta
Pode-se sem caneta escrever caneta
Pode-se sem escrever escrever plume
Pode-se escrever sem escrever
Pode-se escrever sem sabermos nada
Pode-se escrever nada sem sabermos
Pode-se escrever sabermos sem nada
Pode-se escrever nada
Pode-se escrever com nada
Pode-se escrever sem nada
Pode-se não escrever
Pedro Oom, in "actuação escrita" &etc (1980)
...panfleto escrito por membros da Internacional Situacionista e estudantes da Universidade de Estrasburgo em 1966"Vasto rebanho julgando nunca o ser, a estudantaria que aposta, positiva, na carreira, acoita-se nesse seu redil que a protege: o duma mediocridade superior, ou doutoral.
Tudo se desfaz, na decadência e no nojo de um «modo de vida» que tem a patologia, e o desastre, no seu âmago, e o estudante julga poder continuar a sê-lo, pacifico, nesta paz onde tudo apodrece.
Supondo-se manhosamente escol, ou parte obrigatória dele, o estudante, porém, apenas se revela, dest'arte, como vanguarda — patética — da patetice social qu o produz assim."
Alice Corinde, in "Da Miséria do Meio Estudantil, Considerada Nos Seus Aspectos Económico, Político, Sexual & Especialmente Intelectual & de alguns meios para a prevenir" fenda (1983)
a montanha mágica

NUVEM DE PÓ
No vale das crateras, uma ou duas vezes em cada cem anos, um vento, uma espécie de nuvem de pó, sopra do fundo da terra, e pelos funis enxutos das crateras sobe, lambendo como a língua dos gatos, por três dias, as casas e as faces dos habitantes daquele lugar. Então, todos perdem a memória: os filhos deixam de reconhecer os pais,as mulheres os maridos, as raparigas os namorados, as crianças os pais e tudo se torna um caos de sentimentos novos.
Depois cessa o redemoinho dentro das crateras e, lentamente cada coisa volta ao seu lugar, não recordando ninguém o que, dentro da nuvem de pó, aconteceu nesses três dias.
Tonino Guerra, in "Histórias para uma noite de calmaria"
À MINHA MUSASenhora da manhã vitoriosa
E também do crepúsculo vencido.
Ó senhora da noite misteriosa,
Por quem ando, nas trevas, confundido.
Perfil de luz! Imagem religiosa!
Ó dor e amor! Ó sol e luar dorido!
Corpo, que é alma escrava e dolorosa,
Alma, que é corpo livre redimido.
Mulher perfeita em sonho e realidade.
Aparição Divina da Saudade...
Ó Eva, toda em flor deslumbrada!
Casamento da lágrima e do riso;
O céu e a terra, o inferno e o paraíso,
Beijo rezado e oração beijada.
Teixeira de Pascoais
imagem de Greg Spalenka

Nunca desde os tempos bíblicos tinha caído sobre nós flagelo mais hipócrita, mais obsceno, mais degradante afinal do que a viscosa garra burguesa! Classe mais hipocritamente tirânica, cobiçosa, voraz, tartufa em bloco! Moralizante e aldrabona! Impassível e chorona! Fria diante da desgraça! Mais insaciável? Mais gulosa de privilégios? Mais anemificante? Mais faminta das riquezas mais vazias? Enfim podridão perfeita!
Louis-Ferdinand Céline in "Mea Culpa" antígona (1989)

UM GATO PARTIU À AVENTURA
As palavras de vidro que tu depões em teus seios, para me ofereceres, raspam estridentes na camada inacessível dos meus olhos;
Caem e eu sonho para espalhar plumas nos espaços;
Trago na mão esquerda, hermética, fechada duramente, as delicadas linhas epidérmicas,
Leio nesse rendilhado de sensações o roteiro da minha viagem livre, o meu voo solitário, que eu inicio saltando dos telhados para as janelas;
É na abstracção hipnótica do rosa íris que eu te vejo acompanhar a estranha aventura dum albatroz,
E é ao cair da noite que eu aceno longamente os meus braços;
É na harmoniosa vibração azul que eu transmito o Sol vermelho do poente e da tristeza,
e , quando as minhas mãos se transformam em pérolas puras, os
teus olhos gelam para serem os gigantes da noite;
Livre um gato desliza pela goteira escura da cidade,
livre uma pequena ilha nasce no ponto ignorado do Oceano,
livres as ondas escorregam na superfície marinha,
livres os pássaros e os cavalos na noite da lua encarnada,
livre eu chamo-te dos cumes das serras,
livres as ondas os cavalos e os pássaros;
Abandono a terra da ilha para viver nos abismos, nas cidades que crescem, nos beijos que enchem o vento,
E oiço a imensa máquina que esmaga o ferro da estrada construída, a cortina sedosa dos teus cabelos, eu e tu,
e vejo o cego que avança com os braços levantados para o mundo incompreensível,
e liberta os corpos visíveis: os teus lábios, os teus seios, o teu sexo; e mães batem às janelas e imploram: LAMA!,
A um canto morre em agonia o primeiro grito;
O gato parte à aventura pelos telhados, pelos vales e pelos sonhos.
Henrique Risques Pereira
imagem de Jay Ferranti

A DEFESA DO POETA
Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto
Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim
Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes
Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei
Senhores professores que puseste
a prémio minha rara edição
de raptar-me em crianças que salvo
do incêndio da vossa lição
Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis
Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além
Senhores três quatro cinco e sete
que medo vos pôs na ordem ?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem ?
Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa
Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever
ó subalimentados do sonho !
a poesia é para comer.
Natália Correia
imagem de Gérard Dubois
Emma Santos "O Teatro" assírio & alvim (1981)Emma Santos escreve e interpreta a doença, a dor física e o sofrimento mental, denunciando as semelhanças entre a loucura dos métodos usados para a tratar e a própria loucura. Emma Santos defronta-se com a loucura das instituições psiquiátricas onde foi internada e onde lutou para recuperar a sua voz. Segundo a sua mãe, a loucura é o teatro pessoal de Emma e a sua comédia traduz-se numa enorme solidão, vivida entre electrochoques e as outras doentes.
"A Loucura, imagino-a mulher, alta, inchada pelos medicamentos, semi-nua, só com um roupão de nylon acolchoado às flores roxas ou cor de rosa. Vi-a lá no hospital, todas as doentes eram uma e a mesma, devorando bolos e guloseimas ou de cigarro nos beiços.
O homem louco é mais discreto, fuma sentado na poltrona, lê o jornal, joga às cartas e não conta o sofrimento aos uivos como a mulherzinha loucura. Enforca-se e deixa como recordação um sexo enorme e erecto.
A Loucura-Mulher pois há muito que foi castrada, privada da linguagem, sem poder limpar pigarro, ar idiota, malcastrada."
Emma Santos in "O Teatro"
(a presente edição de “O Teatro” reproduz o texto por si representado cenicamente, entre Dezembro de 1976 e Janeiro de 1977)
a imortalidade da alma...

PLENO DE VIDA AGORA
Pleno de vida agora, concreto, visível,
Eu, aos quarenta anos de idade e aos oitenta e três dos Estados Unidos,
A ti que viverás dentro de um século ou vários séculos mais,
A ti, que ainda não nasceste, me dirijo, procurando-te.
Quando leres isto, eu que era visível, serei invisível,
Agora és tu, concreto, visível, aquele que me lê, aquele que me procura,
Imagino como serias feliz se eu estivesse a teu lado e fosse teu companheiro,
Sê tão feliz como se eu estivesse contigo. (Não penses que não estou agora junto a ti).
Walt Whitman in "cálamo"

UNICAMENTE, ÚNICA
Mente
Os adolescentes dissimulam o estupor com os seu modos
ariscos.
Os adolescentes procuram escudar-se de sinais
libidinosos.
Seguíamos amontoados no camião, à saída da cidade, e alguém olhou para a Lua.
Ao menos ela, ao menos ela existe,
ao menos ela ainda é a mesma.
Afinal, o que podemos nós esperar desta juventude
que a perseguição amestrou,
habituada a ordens inexoráveis,
à lentidão de discursos altissonantes,
ao trabalho obrigatório e inútil,
à insegurança permanente ?
Nada, na verdade, não podemos esperar nada desta juventude.
Os adolescentes arranjam a suas roupas coçadas,
atiram-se freneticamente ao mar.
Formidáveis e violentos, dispersam-se pelas
antigas avenidas principais.
E por fim, dissolvem-se na luz tropical.
Na imunda gaiola onde os aguarda
novo interrogatório há uma janela alta de vidro polido, e
ao longe, mais além — o que existirá na distância ?
O que podemos nós esperar desta juventude
que frequenta uma universidade onde não se ensinam línguas,
apenas textos que instilam o medo,
que vive num sítio onde lhe explicam permanentemente
porque é tão necessário dar a vida pelo país,
porque é necessário renunciar a tudo
— mesmo à fugaz felicidade de uma renúncia voluntária ?
O que podemos nós esperar desta juventude a quem
dizem: o teu destino é seres trabalhador agrícola;
a quem se ordena: torna-te militar;
que condenam a viver na escravidão e
na miséria,
sem sequer lhe ser permitido o consolo de expressar
tão flagrante desespero.
Tudo, na verdade, podemos esperar tudo desta juventude.
Atravessaremos a cidade devastada.
Atravessaremos a cidade em ruínas.
Atravessaremos a cidade em perpétua erosão,
sem reparar nas montras vazias e
sem perder tempo em filas intermináveis
e sem dar atenção aos insultos que devoram de alto a baixo as
grandes e empoeiradas janelas;
não faremos caso do homem que, humilhado e
faminto,
percorre a rua numa fúria silenciosa;
não nos despertarão curiosidade as pessoas que se amontoam à frente de um
estabelecimento
onde talvez ponham à venda refrescos de alperce daqui a
sete horas.
Sem nada enxergar, atravessaremos a cidade,
que lentamente se desmorona, para nos determos
diante do mar.
Unicamente diante do mar, abriremos os olhos.
Unicamente diante do mar, respiraremos um instante
(nem se avista a benção de uma
colérica esperança).
Unicamente.
Única
mente.
Reinaldo Arenas in "O Engenho" antígona

SOBRE O LADO ESQUERDO
De vez em quando a insónia vibra com a nitidez dos sinos, dos cristais. E então, das duas uma: partem-se ou não se partem as cordas tensas da sua harpa insuportável. No segundo caso, o homem que não dorme pensa: "o melhor é voltar-me para o lado esquerdo e assim, deslocando todo o peso do sangue sobre a metade mais gasta do meu corpo, esmagar o coração".
Carlos de Oliveira

O que impressiona no livro de Luis Buñuel é a riqueza e a diversidade desta longa vida que atravessa vários países e culturas. Vai da Idade Média aos Tempos Modernos. Passa pelo surrealismo, a guerra de Espanha, Hollywood e o México. É feita de humor, solidão, amizade e imaginação. É vista por um dos olhares mais finos e mais profundos do nosso tempo, de um eremita espirituoso que tem os seus momentos de melancolia.
(...)
Retrato de um indivíduo excepcional, passeio surpreendente e por vezes perverso através de um século agitado, este livro é também uma afirmação constante: uma moral pessoal rigorosa é a única exigência que possa governar uma vida.
Jean-Claude Carrière
Luis Buñuel "O meu último suspiro" fenda

NO SORRISO LOUCO DAS MÃES
No sorriso louco das mães batem as leves
gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batem
os dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as mães
aproximam-se soprando os dedos frios.
Seu corpo move-se
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões
e orgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado,
vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens,
enquanto o amor é cada vez mais forte.
E bate-lhes nas caras, o amor leve.
O amor feroz.
E as mães são cada vez mais belas.
Pensam os filhos que elas levitam.
Flores violentas batem nas suas pálpebras.
Elas respiram ao alto e em baixo.
São silenciosas.
E a sua cara está no meio das gotas particulares
da chuva,
em volta das candeias. No contínuo
escorrer dos filhos.
As mães são as mais altas coisas
que os filhos criam, porque se colocam
na combustão dos filhos. Porque
os filhos são como invasores dentes-de-leão
no terreno das mães.
E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos,
e atiram-se, através deles, como jactos
para fora da terra.
E os filhos mergulham em escafandros no interior
de muitas águas,
e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos
e na agudez de toda a sua vida.
E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa,
e através dele a mãe mexe aqui e ali,
nas chávenas e nos garfos.
E através da mãe o filho pensa
que nenhuma morte é possível e as águas
estão ligadas entre si
por meio da mão dele que toca a cara louca
da mãe que toca a mão pressentida do filho.
E por dentro do amor, até somente ser possível amar tudo,
e ser possível tudo ser reencontrado
por dentro do amor.
Herberto Helder
imagem de Ray Caesar

AGÊNCIA GERAL DO SUICÍDIO
Sociedade reconhecida de utilidade pública
Capital: 5.000.000 de francos
Sede social: Bulevar Montparnasse, Paris
Sucursais em Lião, Marselha, Dublin,
Monte-Carlo e São Francisco
Graças a dispositivos modernos, a A.G.S. tem o prazer de anunciar aos seus clientes que se encontra habilitada a garantir-lhes uma MORTE CERTA e IMEDIATA, o que não deixará de seduzir quem se afastou do suicídio com medo de "falhar". Foi pensando na eliminação dos desesperados, elemento de contaminação temível numa sociedade, que o Sr. Ministro do Interior se dignou honrar o nosso Estabelecimento com a sua presidência honorífica.
Por outro lado, a A.G.S. proporciona, finalmente, um modo minimamente correcto de abandonar a vida, pois a morte é a única fraqueza que não permite desculpas.Foram por isso organizados os enterros-expresso: banquete, desfile de amigos e conhecidos, fotografia (ou moldagem da máscara mortuária, à escolha), entrega das recordações, suicídio, colocação no esquife, cerimónia religiosa (facultativa), transporte do cadáver para o cemitério. A A.G.S. encarrega-se de executar as últimas vontades dos estimados clientes.
Nota : — Não tendo o nosso estabelecimento porta aberta para a rua, os cadáveres não serão, em caso algum, transportados para a morgue — isto para tranquilizar algumas famílias.
TARIFA
Electrocussão ................................. 200 F
Revólver ...................................... 100 F
Veneno ........................................ 100 F
Afogamento ..................................... 50 F
Morte perfumada - (taxa de luxo incluída) ..... 500 F
Enforcamento - (Suicídio para pobres) ........... 5 F
(A corda é vendida ao preço de 20 F o metro e 5 F para cada 10 centímetros suplementares)
Pedir catálogo especial aos Enterros-Expresso.
Para todas as informações dirigir-se ao Sr. J. Rigaut, Admnistrador-Principal, Bulevard Montparnasse, nº 73, Paris-6. Não será dada qualquer resposta a pessoas exprimindo o desejo de assistirem a um suicídio.
Jacques Rigaut in "3_histórias_3"
imagem de Christian Northeast

ARTHUR CRAVAN, nascido em 1887, era poeta, pugilista, ídolo do movimento Dadaista e Surrealista e era também sobrinho de Oscar Wilde, desapareceu no Golfo do México em 1918.
JACQUES RIGAUT, nascido em 1898, era poeta surrealista, fez parte do movimento Dadaista, os seus trabalhos baseavam-se essencialmente no tema do suicídio. Em 1929 suicidou-se com uma bala no coração, tal como já havia anunciado.
JACQUES VACHÉ, nascido em 1896, foi grande amigo de André Breton e uma grande influencia para este, que viria mais tarde a fundar o movimento surrealista. Trocaram cartas de conteúdo surrealista durante algum tempo, suicidou-se com uma overdose de ópio em 1919.
O presente livro reúne tudo o que foi escrito por estas três figuras destes dois grandes movimentos literários e artísticos, Dadaismo e Surrealismo.
Cravan/Rigaut/Vaché "3_histórias_3" antigona (1980)
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